quarta-feira, 14 de julho de 2021

ARTIGO - Os Demiurgos (RMR)

 OS DEMIURGOS
Rui Martinho Rodrigues* 


A sociedade é complexa demais para ser integralmente dirigida. Inúmeros fatores, entre eles a ação voluntária e incontrolável dos sujeitos da ação social, inviabilizam a engenharia da sociedade. 

O conhecimento dos fenômenos sociais não tem a precisão, a previsibilidade e o rigor das ciências da natureza requeridos dos engenheiros. Manuais de Biologia dizem que os seres vivos não se adaptam para sobreviver, mas sobrevivem porque se adaptam. Isto é: efeitos não planejados predominam. 

A engenharia social tem fracassado. O planejamento é um importante fator de sucesso, mas no âmbito restrito de atividades específicas, porque quanto menor a abrangência do objeto mais profundo e seguro é o conhecimento. A complexidade do conjunto da ordem social impede o sucesso no planejamento geral da sociedade. 

Friedrich A. von Hayek (1899 – 1992) explicou a ordem espontânea. O fracasso da engenharia social se repete desde a tentativa malsucedida de Platão (348 a.C. – 328 a.C.) em Siracusa. A perseverança dos candidatos a demiurgos da nova sociedade e de um novo homem, pelo planejamento, é notória. Há sempre uma desculpa para o insucesso. 

A confiança nas próprias conjecturas, que Friedrich W. Nietzsche (1844 – 1900) disse ser vontade de potência, explica a perseverança no erro. A vaidade estimula a autoimagem de sábio, capaz de resolver de uma vez os problemas da humanidade. Também é reconfortante sentir-se exonerado dos próprios fracassos, culpar o sistema, os opressores.

Tais coisas existem e são prejudiciais. Mas as fórmulas alternativas fracassam. É reconfortante sentir-se e projetar a imagem de sábio e virtuoso, propondo um mundo melhor. A reivindicação de poder, para salvar o mundo, vem junto com o desfrute das delicias da nomenklatura (Milovan Djlas, 1911 – 1995, na obra “A Nova Classe”), no mundo dos “mais iguais” de George Orwell (Eric A. Blair, 1903 – 1950, na fábula “A Revolução dos Bichos”) 

Junte-se a isso o aspecto psicológico. Culpar opressores oferece a oportunidade de odiar, que a muitos agrada. Camuflar a inveja sob o manto da proposta de igualdade e justiça social afaga o ego. Projeta imagem favorável. É eleitoralmente útil. Desejar o poder para fazer o bem e impor sacrifícios e renúncias a terceiros é uma fórmula atraente. 

A sabotagem dos adversários, a hora e o lugar impróprios e a traição ou desvios dos executores “salvam” a validade do projeto. A implantação de uma ordem social diversa da realidade histórica precisa ser compatível com a condição humana. Surge então a pergunta: o homem tem uma natureza ou é totalmente moldado socialmente? Textos milenares da mitologia grega apresentam o mesmo perfil humano atual, passando por cima dos vários modos de produção, sugerem a existência da natureza aludida. 

Invocar a democracia querendo o papel de guia de cego, próprio dos reis filósofos da “República” de Platão; prometer muito e sempre pedir mais tempo e poder para realizar grandes coisas; dogmatizar valores sem deixar de negá-los ou relativiza-los quando conveniente obtém sucesso eleitoral, consagra autores de livros, faz prosélitos. 

Não consegue, porém, realizar o que promete. Liberdade, não de agir, mas de ser, é um dos objetivos nunca alcançados. Igualdade de resultados também é uma promessa típica da “terra sem males” (Eduardo Neuman, em obra publicada pela Méritos Editora) do imaginário tupi-guarani. Raoul Girardet (1917 – 2013), na obra “Mitos e Mitologias Políticas”, demonstra a influência atávica do pensamento mágico nas doutrinas políticas.


sábado, 10 de julho de 2021

RESENHA - Reunião Virtual da ACLJ (08.07.2021)

 REUNIÃO VIRTUAL DA ACLJ
(08.07.2021)

   


PARTICIPANTES

Estiveram reunidos na conferência virtual desta quinta-feira, que teve duração de uma hora e meia, dez acadêmicos e um convidado especial. Compareceram ao grupo o Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, o Bacharel em Direito e  Especialista em Comércio Exterior Stênio Pimentel, o Procurador Federal Edmar Ribeiro – e como convidado especial o Advogado Betoven Rodrigues de Oliveira.

Estiveram presentes também  o Advogado e Sionista Adriano Vasconcelos, o Juiz de Direito Aluísio Gurgel do Amaral Júnior,  o Médico, Professor, Filósofo, Teólogo e Latinista Pedro Araújo, o Marchand Sávio Queiroz Costa, o Poeta Paulo Ximenes, o Bibliófilo José Augusto Bezerra, o Físico e Professor Wagner Coelho e o Jornalista Wilson Ibiapina.

ANTES DE WILSON IBIAPINA
ENTRAR NA REUNIÃO




COM WILSON IBIAPINA



 TEMA DE ABERTURA

Stênio Pimentel, que foi da área de Comércio Exterior de várias empresas bancárias, inclusive ocupando longamente a Gerência de Câmbio do Banco do Estado do Ceará na Agência do Rio de Janeiro, abriu os trabalhos comentando a crise pela qual as instituições financeiras brasileiras passaram no início da década de 70, e defendeu a tese de que cada Estado da Federação deveria ter o seu próprio Banco, tendo em vista as dimensões territoriais do Brasil, cada região com cenário socioeconômico diverso. Stênio prometeu produzir um artigo a esse respeito para o Blog da ACLJ.  

Logo em seguida, após vencer algumas dificuldades técnicas para fazer a conexão cibernética, estreou na nossa agenda de reuniões virtuais o confrade Wilson Ibiapina, Membro Titular fundador da ACLJ, ocupante da Cadeira de nº 39, fundada pelo saudoso Professor José Alves Fernandes, cujo patrono é o Publicitário e Radialista Tarcísio Tavares. Ibiapina, jornalista veterano, está radicado em Brasília há muitos anos, onde casou com a também jornalista e escritora Edilma Neiva e com ela construiu uma bela família.

Depois de diversas tentativas de ingresso na reunião virtual  a princípio só o nome, em seguida somente a voz, depois, com a ajuda remota dos confrades, que procuravam orientar as manobras, e com o apoio técnico da filha, Ibiapina finalmente surgiu na tela entre aplausos dos convivas, para alegrar a reunião com o seu papo sempre muito interessante e inteligente.

PERFORMANCES LITERÁRIAS

Na sequência, Wilson Ibiapina comunicou sua intenção de preparar um coletânea de "últimas palavras"  aquelas proferidas por celebridades logo antes da morte, geralmente representativas de sua obra ao longo da vida, expressão sintética dos ideais que o animaram enquanto vivos.

Ele pediu que consultássemos a família do escritor cearense Juvenal Galeno da Costa e Silva (Fortaleza, 27 de setembro de 1838 — 7 de março de 1931) sobre quais teriam sido de fatos suas últimas palavras, já que a característica molecagem cearense lhe atribui frase comezinha, que certamente não corresponde à tirada de espírito de um intelectual.

Reginaldo pontuou que dentre as "últimas palavras" mais célebres estão as do polímata alemão Johann Wolfgang von Goethe (Frankfurt, 28 de agosto de 1749 — Weimar, 22 de março de 1832), que, em 1810, publicou o livro "Teoria das Cores", obra que serviu de orientação a grandes pintores de seu tempo. Suas últimas palavras teriam sido "mais luz! mais luz!" — um apelo de quem se dedicou à estética cromática. Cores são componentes do espectro luminoso. 

O convidado especial Betoven Oliveira prometeu trazer versos do pai poeta, o Seu Berto, em outro dos nossos encontros, pois ele encomendou à sua mãe procurar essa produção poética nos alfarrábios do seu genitor. 

José Augusto, que comumente apresenta peças de sua vasta biblioteca e de sua coleção de raridades, desta vez evitou fazê-lo, pois ainda se recuperando da Covid  está  evitando contato com as suas preciosas antiguidades, na grande maioria peças  valiosas e delicadas que não podem ser plenamente sanitizadas.

Entretanto ele trouxe à baila suas mais recentes aquisições em leilão de raridades, dentre elas daguerreótipos da Marquesa de Santos, aos 40 anos de idade, e de Ana Jacinta de São José, a Dona Beja — figuras femininas influentes na Monarquia Brasileira. Além dessas imagens fotográficas, adquiriu relíquia da batina de Padre Anchieta, o fundador da Cidade de São Paulo, e cartas manuscritas do tempo do Império.

A propósito disso, Sávio revelou que tem um daguerreótipo de sua própria família, feito em Lisboa, Portugal. Reginaldo discorreu sobre esse tipo de imagem, que lembra no nome um dos inventores da fotografia, o pintor francês Louis Jacques Mandé Daguerre – (Paris, 18 de novembro de 1787 — Bry-sur-Marne, 10 de julho de 1851), que sensibilizava placas de vidro com sais de prata e obtinha os negativos, revertidos sobre suportes metálicos.

Por fim, evocou-se a figura do grande intelectual cearense Nertan Macedo, irmão do político e escritor Denizard Macedo.  Nertan Macedo de Alcântara nasceu na cidade do Crato, Ceará, no dia 20 de maio de 1929, e faleceu no Rio de Janeiro em 30 de agosto de 1989, aos 60 anos. Ibiapina o conheceu pessoalmente e contou sobre a última vez em que esteve com ele.



    DEDICATÓRIA

A sessão virtual da ACLJ realizada nesta quinta-feira, dia 08 de julho, foi dedicada ao Presidente da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, democraticamente eleito, em eleições regulares, por maioria de votos, em 01 de janeiro de 2019. Ele se negou a prestar esclarecimentos à CPI da Covid, que, segundo ele, não procura a verdade dos fatos, como deveria, mas pretende apenas fazer palanque político, perseguir e derrubar o seu governo. 

Seu governo segue sem sinal de corrupção e sem notícia de arbitrariedades, inaugurando obras importantes paralisadas havia anos, universalizando a campanha vacinal em todo o território brasileiro, e apresentando ótimos resultados econômicos e sociais, apesar da pandemia e da resistência da oposição e da grande mídia.    

Em sua live desta quinta-feira, o Presidente Bolsonaro declarou que não se dignaria a atender ao pedido de esclarecimentos dos Senadores, lançando mão de uma forte expressão popular correspondente a "estou me lixando para essa CPI!". Desmentido as pesquisas contratadas por partidos e órgãos de imprensa adversários, Bolsonaro continua demonstrando grande apoio popular, enchendo as ruas do País de simpatizantes, em suas passeatas motociclísticas quilométricas. 


   

ARTIGO - Revolução e Origem Social (RMR)

 REVOLUÇÃO E ORIGEM SOCIAL
Rui Martinho Rodrigues*
 


Revolução é entendida como um amplo conjunto de mudanças significativas, em curto lapso temporal, na política, estrutura e organização social. Exige longa permanência no poder que deve ser excepcionalmente forte, para consolida-las; além de grandes sacrifícios em nome de objetivos excelsos. 

A Revolução Francesa é exemplo paradigmático. Em nome de elevados valores trouxe a “fraternidade” da guilhotina. Introduziu rápidas mudanças e prolongou-se no tempo. Exigiu poderes. Trouxe o reinado do terror dos jacobinos e a volta da monarquia e da liderança personalista de um chefe, com o bonapartismo. Passou para a História como “burguesa”. 

Mas a queda da Bastilha resultou do ataque de populares entre os quais a burguesia dificilmente seria maioria. A revolução assim iniciada ateou fogo ao meio rural, protagonizada por camponeses, não por burgueses. 

O determinismo sociológico centralizou atenção na origem social dos revolucionários? Revolução burguesa e proletária são expressões consagradas. O papel das lideranças intelectuais, políticas e clericais assim é negligenciado. Grupos identitários, sem relação com a origem ou a quantidade da renda, só recentemente foram invocados pelos intérpretes da política. 

Sendo os acontecimentos históricos dirigidos por minorias, conforme as teorias das elites, as classes, por sua amplitude, não são o melhor instrumento para analisa-los. Gaetano Mosca (1858 – 1941); C. Wright Mills (1916 – 1962); ou a “lei de ferro da oligarquia”, de Robert Michaels (1876 – 1936), ou ainda a “lei 20/80”, de Vilfredo Pareto (1848 – 1923) não deixam muito espaço para as classes sociais como categoria de análise com poder determinante. Dentro das classes existem diferenças e elites. A Antropologia Filosófica de Nicolau Maquiavel (1469 – 1527) considera que a maioria dos homens é destituída de “virtú”, sem aptidão para influenciar decisivamente a política. 

Plebeus versus patrícios na revolta do Monte Aventino ou Monte Sagrado, em 495 a. C., início do período republicano; a Revolução Francesa, “burguesa”; e a Bolchevique, “proletária” e “camponesa” (ou de soldados e marinheiros?) são exemplos do uso da categoria classe como unidade fundamental de análise. 

As reivindicações dos plebeus do Monte Aventino; dos barões que arrancaram do rei a Carta Magna de 1215; e as declarações de direitos da Revolução Gloriosa de 1688, na Inglaterra e a dos “burgueses” da Revolução Francesa, têm muitos pontos em comuns. A segurança jurídica das leis escritas era a grande reivindicação dos plebeus romanos. 

Os barões ingleses exigiram o devido processo legal, juiz natural, anterioridade da lei tributária que representam segurança jurídica. A declaração da Revolução Francesa enfatizava aspectos semelhantes ao da Magna Carta inglesa de 1215. Plebeus romanos, barões ingleses e burgueses franceses, separados por séculos, queriam, sob certo aspecto, a mesma coisa. 

A Revolução Francesa foi fortemente influenciada pelos iluministas privilegiados. Líderes como Vladimir I. Ulianov (Lênin, 1870 – 1924) e Leon Trotisky (1879 – 1940); Mao Tse-Tung (1893 – 1976) ou Fidel A. Castro Ruz (1926 – 2016) não eram proletários. Os intelectuais que inspiraram os líderes e seguidores também não eram proletários, como Karl H. Marx (1818 – 1883). 

Mais recentemente, os frankfurtianos também não eram proletários. O “centralismo democrático” negou protagonismo às massas. A filiação no partido, sindicato ou movimento social é subordinação ao comando da elite política dirigente. O “pensamento crítico” é crítico?


segunda-feira, 5 de julho de 2021

CRÔNICA - Augusto Borges (EC)

 AUGUSTO BORGES:
MICROFONE, CÂMERA, PAIXÃO!
Edmílson Caminha*

 

A infância da minha geração foi profundamente marcada, em Fortaleza, pela TV Ceará canal 2, a primeira emissora da cidade. Uma cartela fixa, cheia de linhas e números, permanecia no ar até que se fizessem os ajustes de imagem, quando a programação começava com o indiozinhomascote, rechonchudo e simpático. 

Assistíamos a todos os seriados: “O Rebelde”, “A marca do Zorro”, “Bonanza”, “Lassie”, “Bat Masterson”, “Rin-tin-tin”, “Os Irmãos Maverick”... Por último ao “Vídeo Alegre”, produção local com um jovem humorista cujo nome só os conterrâneos sabiam: Renato Aragão. Exatamente às 8 horas, o indiozinho voltava para dizer “Boa noite, garotada!”, e todos nos recolhíamos à cama, reconheço que forçados, proibidos de ver os programas de adulto. Hoje, são as crianças que põem para correr os pais... 

Adolescentes, não perdíamos “Além da Imaginação”, “Peter Gunn”, “Caravana”, “Rota 66”, “O Agente da Uncle”, “Mister Lucky”, “Hong Kong”, “O Homem do Rifle”, “Na Corda Bamba”, “Cidade Nua”, “Quinta Dimensão” e, o melhor de todos, “Os Intocáveis”, que ainda surpreende pela verossimilhança dos efeitos especiais. Já revi não sei quantas vezes Robert Stack como Eliot Ness, na coleção completa em DVD.

A esse passado me leva de volta o livro Então eu conto (Fortaleza, 2013), com que Augusto Borges lembra essa época para evitar que se perca a memória do rádio e da televisão cearenses. Ninguém melhor para fazê-lo do que o autor, testemunha e protagonista dos acontecimentos narrados: locutor, produtor, ator, publicitário e escritor, Augusto é parte da história da imprensa no Ceará, decano do nosso rádio, que em 2019 chegará aos 70 anos de atividade contínua frente às câmeras e microfones, na plenitude da lucidez, do dinamismo e da criação profissional. Com uma particularidade talvez única, entre todos os colegas brasileiros: tem, na carteira de trabalho, apenas uma assinatura de Eduardo Campos, superintendente dos Diários e Emissoras Associados no Ceará, o primeiro e último patrão de quem foi empregado na vida. 

Por coincidência, Augusto e eu tivemos quatro irmãos homens, somos ex-alunos do Ginásio 7 de Setembro... e andávamos de Prefect, o dele provavelmente tão antigo quanto o do meu pai, modelo Ford que, 50 anos depois, vi rodar pelas ruas de Montevidéu. Nele, o jovem apresentador de programas da Ceará Rádio Clube ia à noite para os cabarés do centro de Fortaleza, onde, na chamada “hora do pobre”, as profissionais faziam tudo “por amor”, já se sentiam pagas pela preferência do artista... 

Aos 18 anos, Augusto Borges falava como se fosse velho, ao interpretar o alemão Hermann na radionovela “O homem da Casa Vermelha”. Dois ouvintes o convenceram a ir à casa de uma fã ardente, a avó que comemorava 85 anos: 

― Vovó, nós temos um presente de aniversário pra lhe dar... Veja só quem está aqui: Augusto Borges! 

A velha olhou e não se deu por enganada:

― Vocês querem me dizer que esse menino é o Augusto Borges?! Nunca! Ele é velho, conheço a voz dele, eu escuto a novela todo dia! 

― Mas Vovó... é ele mesmo, o Augusto Borges, nós o trouxemos pra lhe fazer uma surpresa! 

― Vocês pensam que eu sou besta? Só acredito se ele vier aqui e falar no meu ouvido, como o alemão... 

Foi o jeito. O ator, muito sem graça, começou a lhe dizer uma fala de Hermann. 

― Pois não é que é o Augusto mesmo?! Nunca pensei que fosse tão novo, com aquela voz de velho... Venha de lá um abraço! 

Em 1960, Assis Chateaubriand inaugura a TV Ceará canal 2, e qual a primeira imagem que se vê...? A do mestre de cerimônias, Augusto Borges. 

Época de ouro da televisão cearense, com autores, produtores, diretores, apresentadores, artistas e técnicos que se igualavam aos melhores do Brasil: 

Eduardo Campos, Guilherme Neto, João Ramos, Hiramisa e Haroldo Serra, B. de Paiva, Aderson Braz, Narcélio Limaverde, Wilson Machado, Maria Luíza e Rinauro Moreira, Emiliano Queiroz, Marcus Miranda, Gonzaga Vasconcelos, Ary Sherlock, Irapuan Lima, Antônio Mendes, Neide Maia... e Augusto Borges, que fala bem de todos, elogia-os, reconhece-lhes o talento, prova da grandeza humana, do bom caráter e da generosidade que o enobrecem como pessoa e o distinguem como profissional. 

Diferentemente de tantos, Augusto não se compraz em maldizer, mas em louvar os colegas, como Antônio Normando, pai do meu amigo Célio, responsável pela engenharia, e William Ferreira Dantas, o Irmão, operador de uma das duas câmeras da emissora. Na transmissão de um jogo, ao vê-la despencar do piso superior do estádio Presidente Vargas, abraçou-a e caiu junto, com o que evitou que se destruísse metade do equipamento da empresa... 

Com tão pouco, impressionam os clássicos da literatura exibidos pela TV Ceará: “Carmen”, de Prosper Mérimée; “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen; “O Fantasma de Canterville”, de Oscar Wilde; “A Tempestade”, de William Shakespeare e até, de Herman Melville, “Moby Dick”! Em 1967, a adaptação da peça “Os Deserdados”, de Eduardo Campos, conquista o terceiro lugar no Festival Internacional de TV de Barcelona, em disputa com representantes de vários países. 

Nos Estados Unidos, para conhecer emissoras de televisão educativa, Augusto Borges não se conteve quando o reitor de uma Universidade quis saber, do grupo de cearenses, o que eles faziam ali: 

― Nós viemos aprender o que os senhores fazem com 20, 30, 40 câmeras, e ensinar o que fazemos com duas...

Em 1980, o governo militar lacrou os transmissores da TV Ceará, que em 20 anos escrevera algumas das mais belas páginas da televisão brasileira. A imagem com que deixou de existir foi, muito significativamente, a do homem que a pusera no ar em 1960, agora à frente dos companheiros em várias horas de transmissão ininterrupta, para honrar o que dissera o fundador Chateaubriand: “Aqui tudo é bem feito, e feito com amor”. 

Augusto Borges não se dá a importância que tem como um dos protagonistas da história do rádio e da televisão no Brasil, e encerra o seu Então eu conto com a singeleza e a humildade que só vemos nos espíritos verdadeiramente grandes:


“Não passei em branco pela vida. Deixo para meus filhos e netos a certeza de que tenho sido um profissional responsável, que nunca usou de seus instrumentos de trabalho para ofender a quem quer que seja. Faço comunicação pela comunicação. Nunca forjei uma notícia, mas nunca escondi uma informação. Outros interesses não me moveram e, ainda, não me movem, a não ser aqueles que são éticos, e absolutamente profissionais. O microfone e as câmeras não me enriqueceram, mas me deram oportunidades e me abriram as portas para conhecer pessoas, empresários, e torná-los grandes amigos”.



By Edmilson Caminha - in O Professor, Beethoven e o Ladrão
Brasília - Thesaurus 2016




ARTIGO - Dirigismo e Crise (RMR)

 DIRIGISMO E CRISE
Rui Martinho Rodrigues*

  

As crises estão se tornando mais profundas e frequentes. Fala-se em crise financeira, moral e ecológica. A coletânea “O mundo não tem mais tempo a perder”, de intelectuais e líderes do Collegium Internacional, organizada por Sacha Goldman (?-viva), descreve tudo isso como “policrise”, catástrofe iminente.

Aponta como solução o controle supranacional de capitais, políticas ambientais, de tudo. Dizem: a interdependência do mundo globalizado exige limitação da soberania dos estados nacionais, com o controle efetivo dos fatores que propiciam as crises. Pedem mais controle. Negam que queiram planejamento central diretivo, cujo fracasso das experiências históricas é constrangedor. Mas não é outra coisa. É proposta de controle global para evitar crises. O controle central nos estados nacionais gerou desastres. O controle global, na visão dos proponentes de mais governança mundial, seria bem-sucedido, contrariando a parêmia segundo a qual repetir uma conduta esperando resultado diferente é insensatez. 

As crises estão se tornando mais graves, mais frequentes, envolvem mais fortemente o mundo todo em razão da maior integração das economias e têm múltiplos aspectos. É verdade. 

O problema, porém, é que a solução apresentada considera que as crises se devem a falta de controle por alguma autoridade nos estados e em escala global. A “anarquia de mercado”, protagonizada pelos especuladores, “é a causa”. Especuladores atuam fortemente, mas a anarquia é do dirigismo estatal? 

Analistas financeiros culpam o Banco Central Americano (FED) pela crise de 2008. A economia japonesa permanece estagnada, nos últimos trinta anos, sob constante intervenção estatal, com juros baixos e injeção de dinheiro na economia. Lawrence W. Reed (1953 – vivo) culpa a intervenção estatal pela desordem nos mercados. 

A regulação e as medidas “salvadoras”, protecionistas ou estimuladoras são as culpadas. Criam bolhas. Em 2008 ajudaram a superar a bolha da crise dos subprime, mas criaram uma bolha de tudo. A expansão monetária e a bolha de tudo são comparáveis, de certo modo, ao encilhamento dos primeiros anos da República Brasileira, em escala muito maior. Os críticos do planejamento central diretivo (disfarçado de planejamento indicativo) alegam, que a emissão de moeda (m1, m2, m3, m3 e m4) é controlada direta ou indiretamente, de modo total ou parcial pelos bancos centrais. 

A “anarquia de mercado” é falta de autocorreção pelas crises em razão das medidas protetivas de iniciativa governamental. É o sonho de uma sociedade sem dor. Médicos, porém, sabem: paciente que não sente dor sofre graves consequências. O excesso de alavancagem dos bancos centrais e da economia em geral reflete a busca de um mundo indolor. A criatividade dos tecnocratas contraria o equilíbrio da ordem espontânea de Friedrich A. Hayek (1899 – 1992). 

Os governos tendem a adiar problemas, que assim se os agravam. Exemplo deste espírito aparece na frase de John M. Keynes (1883 – 1946), que declarou, sobre a cumulatividade do endividamento: a longo prazo todos estaremos mortos. A democracia degenera em demagogia (Aristóteles, 384 a. C. – 322 a. C.). 

A governança mundial proposta institui poderes científico, dos reis filósofos; políticos; morais ou controle de consciências; e religioso (religião oficial) com poder global, “antes que seja tarde”. Catastrofismo, cientificismo, controle de consciência e da economia. É a velha tese da sociedade justa, igualitária e fraterna que só é possível se implantada em todo o mundo (para evitar comparações desfavoráveis).


ARTIGO - Água Para Irrigação (Cássio Borges)

 ÁGUA PARA IRRIGAÇÃO:
DE ONDE VEM?
Cássio Borges*

 

Foi decidido pelo Comitê de Bacias que o açude Castanhão passará a liberar 500 litros de água por segundo, dos quais 300 litros se destinarão ao Distrito Industrial Jaguaribe-Apodi (Dija) e 200 litros para o Perímetro de Irrigação Tabuleiros de Russas.

O jornalista Egídio Serpa, em artigo publicado na edição do último domingo (dia 2 de julho) no Diário do Nordeste, fala em 0,5 m³/s com a mesma entonação de voz de quando ele se referia aos enganosos 30 m³/s da vazão regularizada do Açude Castanhão, que diziam ser “a salvação do Ceará e do Nordeste”.

Refiro-me à matéria publicada, na Coluna desse conceituado Jornalista, intitulada “Comitê de Bacias Decidem Liberar Água Para Irrigação no Jaguaribe”.

Para um membro do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Coema) mais entusiasmado, numa reunião daquele Colegiado, em 27 de julho de 1992, ironizando seu colega que havia feito aquela afirmação, “o Açude Castanhão não só iria beneficiar o Ceará e o Nordeste, como o Brasil e o Mundo”.

Segundo a referida matéria de jornal, participaram daquele seminário 200 pessoas, para decidir o que deveria ser feito com estes 0,5 m³/s, dos quais 300 litros/s se destinarão ao Distrito Industrial do Jaguaribe (Dirja), onde um figurão deste esquema de gestão de recursos hídricos no Ceará tem uma gleba irrigada.  

Ainda bem que a Companhia de Gestão de Recurso Hídricos (Cogerh) tem dinheiro disponível para patrocinar as diárias (transporte e almoço) dessas 200 pessoas... Quanto custa mesmo aos cofres da Cogerh a realização de um seminário como este?


sexta-feira, 2 de julho de 2021

RESENHA - Reunião Virtual da ACLJ (01.07.2021)

 REUNIÃO VIRTUAL DA ACLJ
(01.07.2021)

   


PARTICIPANTES

Estiveram reunidos na conferência virtual desta quinta-feira, que teve duração de uma hora e meia, dez acadêmicos. Compareceram ao grupo o Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, o Bacharel em Direito e  Especialista em Comércio Exterior Stênio Pimentel, o Procurador Federal Edmar Ribeiro – e como convidado especial o Advogado Betoven Rodrigues de Oliveira.

Estiveram presentes também o  o Advogado e Sionista Adriano Vasconcelos, o Juiz de Direito Aluísio Gurgel do Amaral Júnior,  o Professor, Filósofo, Teólogo e Latinista Pedro Araújo, o Marchand Sávio Queiroz Costa, o Agente Comercial Internacional Dennis Vasconcelos e o Especialista em Segurança Pública e em Direito Penal Edmar Santos. 



 TEMA DE ABERTURA

O Presidente Reginaldo Vasconcelos abriu os trabalhos comentando a polarização político-ideológica que vive a Nação Brasileira atualmente, dividindo amigos, colegas, parentes – e confrades, no caso da nossa Academia – quase todos imbuídos no melhor espírito público, querendo defender a melhor solução para os destinos do País  parte deles absolutamente equivocada, a outra parte lucidamente consciente de que detém o melhor desiderato para o futuro do Brasil.

Evocaram-se então os dias em que estivemos ideologicamente divididos no passado, na década de 60 do Século XX, em que grandes patriotas lutaram por implantar no País o regime comunista, que se afigurava mundo afora como a forma mais justa de organização da sociedade. Muitos desses sofreram com a repressão violenta que sobreveio durante o regime militar, sem lograrem sucesso na realização do seu ideal. 

Aluísio Gurgel lembrou que, pelo falecimento, os mais antigos deles não chegaram a assistir ao malogro da experiência soviética, à queda do Muro de Berlim, à debacle econômica da Ilha de Cuba, cenários do "socialismo real" que sustentavam o seu grande paradigma. 

Para aqueles idealistas mais antigos, presenciar tudo isso teria sido a morte em vida. Nomes como Carlos Prestes, Jorge Amado, Ferreira Gullar, Graciliano Ramos, Oscar Niemayer, Florestan Fernandes.

Entre nós os cearenses Pontes Neto, Blanchard Girão, Olavo Oliveira,  Aymoré de Paula e Souza, Tarcísio Leitão, Alcides Sales, Aluísio Gurgel do Amaral – pai e homônimo do nosso  confrade, o qual lembrou de ter assistindo a afetuosos encontros casuais de seu genitor com o Professor Filgueira Sampaio e com o poeta Patativa do Assaré  dentre outros paredros do socialismo do seu tempo. 

PERFORMANCES LITERÁRIAS

Na sequência ao tema de abertura, Edmar Ribeiro leu um texto do livro "Antologia Ilustrada dos Cantadores", de autoria de Francisco Linhares Otacílio, e em seguida uma bela poesia de João Cabral de Melo Neto.

O convidado especial Betoven Oliveira, rememorando o pai poeta, Seu Berto,  recitou trecho da letra de uma música jocosa que este compôs – e prometeu trazer dele outros bons versos, no próximo encontro.

Por seu turno, Pedro Araújo fez a leitura de uma crônica de sua autoria, "O Amor", do seu livro "Traços Flutuantes", lançado em 1986. Também leu texto poético de sua lavra Dennis Vasconcelos, sob o título "Eu, a Noite e Vinho". Reginaldo trouxe duas pequenas crônica de seu livro "O Passado Não Passa", intituladas, "Luz do Dia" e "Noite Negra".

Como este último texto faz uma ode à "lamparina", Sávio, mestre da cenografia digital, que até então se apresentava no vídeo com uma biblioteca de fundo, apareceu com a imagem de um velho candeeiro, para ilustrar o tema em liça. 

Finalmente, Aluísio Gurgel surpreendeu Reginaldo com a leitura de uma de suas prosas poéticas – "Ágape" – em que este faz uma analogia sensual entre uma ceia erótica e um banquete gastronômico – texto que se reproduz abaixo.

 

   


Depois disso, inspirado pela lúbrica leitura, na magnífica califasia teatral do Aluísio, o sempre gozador e galhofeiro Sávio Queiroz mudou o cenário atrás de si, apresentando no fundo a imagem de uma sílfide moderna, de modo a aquecer, embelezar e melhor adequar a decoração do ambiente digital. 



    DEDICATÓRIA

A sessão virtual da ACLJ realizada nesta quinta-feira, dia 01 de julho, foi dedicada a duas categorias profissionais que, embora socialmente modestas, têm grande importância na logística da economia brasileira, que agora volta a  crescer de forma exponencial, a partir do avanço da 
imunização do povo, ao longo da  campanha vacinal contra a Covid-19.

  
 
Os homenageados da vez são os motociclistas e os caminhoneiros do Brasil, aqueles, ditos hoje "motoqueiros", "motobois", "mototáxis", fazendo o trânsito de mercadorias do comércio virtual no meio urbano, e de pessoas que precisam se locomover de um ponto a outro das cidades com rapidez e a baixo custo – estes últimos, os caminhoneiros, transportando cargas pelas estradas do País, que há décadas optou por priorizar o modal rodoviário.


Durante esta pandemia, os caminhoneiros e os motociclistas não pararam um só dia, estes últimos se expondo ao intemperismo e ao trânsito perigoso das cidades, fazendo "delivery" de alimentos e medicamentos aos que se mantiveram em casa, aqueles outros enfrentando estradas nem sempre bem pavimentadas, infestadas de assaltantes, longe de suas famílias, para que não houvesse desabastecimento de produtos essenciais, notadamente de combustíveis, víveres e remédios.