quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

NOTA ACADÊMICA - Palácio da Luz Reinaugurado


PALÁCIO DA LUZ
REINAUGURADO

Aconteceu na noite de ontem, dia 06 de fevereiro, a solenidade de reinauguração do Palácio da Luz, na Praça dos Leões, sede da Academia Cearense de Letras (ACL), edificação histórica recentemente restaurada.



Compuseram a mesa, da E para a D, o Presidente do BNB, Marcos Holanda, o Presidente do Tribunal de Justiça, Gladyson Pontes, o Governador Camilo Santana, o Presidente da ACL Augusto Bezerra, o Presidente da Assembleia Legislativa José Albuquerque, o Prefeito Roberto Cláudio e o Comandante da 10ª Região Militar, General Estevam Cals Theophilo Gaspar. A foto é de Kleber Gonçalves, do DN.

Os auditórios foram ampliados e dotados de recursos modernos, foi inaugurada a biblioteca da entidade e  também foi reabilitada a entrada no prédio pela Rua Sena Madureira, que havia muito tempo não se usava.



Durante a solenidade, personalidades e instituições apoiadoras da ACL foram agraciados com a Medalha 120 Anos – Benemérito, e a Comenda Uma Lenda do Ceará.

O evento encerra com chave de ouro a revolucionária administração trienal do bibliófilo José Augusto Bezerra, que no próximo dia 16 passará a Presidência ao Ministro Emérito do TCU, o poeta Ubiratan Aguiar.








Foram condecorados o Governador Camilo Santana, o Senador Tasso Jereissati, o Prefeito Roberto Cláudio, o Chanceler Airton Queiroz (representado por seu filho Edson Queiroz Neto) e os empresários Beto Studart e Ivens Dias Branco (in memoriam), representado pela sua esposa Consuelo – e o Banco do Nordeste do Brasil, na pessoa de seu Presidente, Marcos Holanda. O governador Camilo Santana agradeceu em nome dos homenageados.






































Foram também outorgadas comendas aos jornalistas Lúcio Brasileiro, que também é comendatário da ACLJ, e Pádua Lopes, Superintendente do jornal Diário do Nordeste.



































A solenidade, presidida pelo bibliófilo José Augusto Bezerra, teve como Mestra de Cerimônia a escritora Regina Cláudia Fiúza, Diretora Administrativa da ACL. Foi aberta pelo toque de clarins, com a execução de dois trompetes triunfais.



Em seguida, a Camerata de Cordas da Unifor executou uma bela performance, e na sequencia houve uma rápida apresentação teatral relativa à poesia cearense, escrita pelo acadêmico Carlos Augusto Viana. 

A ACLJ estava representada no evento pelo seu Presidente Reginaldo Vasconcelos, e pelo seu Secretário-Geral Vicente Alencar. Estavam presentes ainda vários "acadêmicos ambidestros", que pertencem à ACL e à ACLJ.

São eles os nossos Membros Titulares Luciano Maia e Ednilo Soares, os Membros Honorários Fátima Veras e Durval Aires de Menezes Filho e os Membros Beneméritos Augusto Bezerra, Lúcio Alcântara e Beto Studart.


COMENTÁRIO:

Prezado Presidente Reginaldo:

Permita-me reiterar os meus cumprimentos pelo trabalho dinâmico e sensível da ACLJ, em todos os campos que lhe são inerentes. Lemos, regularmente, com muito prazer, os momentosas, consistentes e belos artigos publicados no blog oficial da entidade, o qual tornou-se uma referência para as outras Academias.

Desejamos-lhe boa sorte na apresentação, embora temporária, do programa Dimensão Total, o qual está ornado por uma sábia equipe de participantes e convidados.

Particularmente queremos agradecer o apoio da ACLJ, especialmente nas figuras do Presidente Reginaldo Vasconcelos, do Secretário-Geral Vicente Alencar, e de ilustres membros titulares, honorários e beneméritos que estiveram na Sessão Magna de Reinauguração do Palácio da Luz, icônico monumento histórico da nossa terra.

A matéria, apresentada e ilustrada de forma nobre e objetiva no seu blog de 11/02/2017, ficará como registro daquela noite memorável, que reuniu as mais altas autoridades do nosso Estado e contou com a participação entusiástica da nossa Sociedade.

Cordialmente,

José Augusto Bezerra
  Presidente da ACL

   

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CRÔNICA - Jáder de Carvalho (MC)


JÁDER DE CARVALHO,
POETA, JORNALISTA E INTELECTUAL REVOLUCIONÁRIO
Márcio Catunda*


Criança ainda, Jáder habituou-se a dividir o pão com os necessitados, a roupa com os maltrapilhos, e o seu pouco dinheiro com os enfermos indigentes. Sofria na própria carne a dor dos outros.

Pescador de tarrafa, tirador de leite e aprendiz de tipógrafo, aos 14 anos trocou a sombra dos verdes juazeiros pelas salas de aula Liceu do Ceará. Escreveu os primeiros versos, diante das jangadas e do Farol do Mucuripe. Nas vozes de ferro da cidade, escutava o aboio dos tangerinos e o chocalho das reses distantes.


Não cabia na caserna de Realengo o humanista revolucionário, leitor de Máximo Gorki e Dostoievski. A vida difícil o fez desafiar ditadores e arriscar-se a terríveis perigos. Tinha nervos para enfrentar, impávido, ameaças de pistoleiros e lutas corpo-a-corpo. 

Fazia palestra na Liga Operária, quando duzentos soldados integralistas entraram no recinto, disparando tiros, um dos quais atingiu-lhe, de raspão, a cabeça. O Cabo Frota disparou oito vezes sobre sua testa e os tiros falharam. Ao vê-lo ensanguentado, o capitão Carvalhedo perguntou-lhe o que havia. Jáder desmascarou o algoz:

– Seu cachorro, você manda me matar e pergunta o que há? Você não é homem para vestir a farda que Caxias vestiu!

Os esbirros da ditadura de Getúlio Vargas o submeteram à tortura, com lâmpada de 500 velas sobre a cabeça, e o condenaram a 25 anos de reclusão, dos quais cumpriu mais de dois, no quartel do Copo de Bombeiros, vizinho ao Liceu do Ceará, onde lecionou e com seus alunos de Sociologia, fundou o Diário do Povo.

Criticou, com destemor, o governador Faustino de Albuquerque, que só deixava a cadeira giratória para afundar no assento de um carro oficial. Denunciou os contrabandistas investidos em cargos públicos e o pérfido delegado que recolhia os objetos do roubo e enforcava os presos na calada da noite. Deplorava a miséria, provocada pelo êxodo rural, e as agruras do trabalho insalubre e mal remunerado.

Diluía, em humanismo generoso, o estilo crítico e irônico, numa afetividade que preza os amigos e elogia os bons, em nome da fraternidade. Voltou ao sertão e percorreu os cafezais da Serra de Baturité, os canaviais do Cariri, e os desertos de mandacaru dos Inhamuns.

Era o menino dos tabuleiros de Quixadá que contemplava a estrada branca dos rios ao clarão da lua. Era o cantor da saudade dos riachos mansos, do tropel dos cavalos dos corajosos sertanejos e da mulher, que o fazia trocar a clava do bárbaro, pela lira do menestrel.

Escreveu Delírios da Solidão, quando perdeu sua valorosa companheira, dona Margarida Saboia de Carvalho, de ânimo imbatível, que enfrentou, corajosamente, os tempos em que ele era preso e torturado e os terríveis momentos das mortes prematuras dos filhos Adolfo, Rita, e Jáder Filho, este aos vinte anos de idade, perda que o levou ao mais profundo desespero.

Recebia-me, na casa da Rua Agapito dos Santos, de pijama e sem camisa, os pés sobre a mesa e me contava bravuras. Com 80 anos de vigor, subia, num átimo, a escada em caracol para buscar algum livro na biblioteca. Absolutamente otimista, irradiava esperança na força dos seus sonhos. Era uma árvore de sombra alegre e cheia de pássaros. Catedrático em qualquer assunto, expressava-se com sentido de humor:

– Os homens dessa rua não gostam de mim.   Por quê? Perguntei.

– Não sei, eu nem olho pras mulheres deles...

Dotado de vidência, definiu o fenômeno do espiritismo como “radiunidade”. Nas tardes imemoriais viajava, sem jamais emigrar daquela paisagem de céu espelhado nas lagoas da alma. Sonhava com um país longínquo, de angras azuis e dias nublados como os olhos da Amada. 

Jamais frequentou igreja, mas tinha ouvidos para a música religiosa e se deleitava com as sonatas de Schubert, O Sol do verão simboliza a sua vida. O Aracati, qual litania nas casuarinas, é a ressonância do seu estro telúrico. Sincero, leal e valente, deixou seus passos nas estradas de outras vidas.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

ARTIGO - A Fragilidade das Instituições II


A FRAGILIDADE
DAS INSTITUIÇÕES II
Rui Martinho Rodrigues*


As instituições, aparentemente, estão preservadas. Quando, porém, surge um problema, deixamos de olhar para o ordenamento jurídico, e para o Legislativo ou o Judiciário como instituições. Passamos a pensar nas pessoas. Quem é o relator da Lava Jato? Não vivemos o governo das leis, mas dos homens, contrariando a velha e boa compreensão de democracia.

Transformações históricas profundas enfatizaram o aspecto evolutivo do Direito. Interpretação evolutiva, interpretação conforme, nova hermenêutica constitucional, foram amparadas por uma Constituição analítica, dirigente, programática, que positivou princípios de contornos indeterminados, alargando o discricionarismo – e, ipso facto – o subjetivismo da autoridade.

A evolução do Direito é necessária, mas é tarefa do Legislativo.

Os princípios gerais do Direito foram positivados na CR/88. Isso os deslocou da integração do Direito, reservada à função supletiva das lacunas da lei, para a primeira linha do processo decisório. Passamos a depender do entendimento pessoal da autoridade relativamente ao justo, razoável, proporcional ou à dignidade humana, desde que fundamente a decisão. Lembremo-nos de que os aludidos conceitos indeterminados já são a “fundamentação”, que, sem muito pudor, pode “fundamentar” tudo.

O Macunaíma esqueceu que existem leis escritas; limite para a duração dos mandatos políticos e para a reeleição; reserva legal nos campos tributário e penal; exigência de publicidade dos atos administrativos e processuais; órgãos de controle como o TCU, tudo isso porque a democracia é o regime da desconfiança relativamente às autoridades.

Desconfiamos do Legislativo. Mas confiamos no Judiciário? Não podemos dividir a sociedade em agrupamentos corporativos diferenciados pela suposta virtude de uns e demérito de outros. Todas as nossas corporações recrutam os seus membros na mesma sociedade macunaímica. Todas elas abrigam em seus quadros pessoas com os mais diferentes caracteres.

As transformações culturais, ensejando o fortalecimento do argumento da necessidade da transformação do Direito, levaram ao entendimento de que se o Congresso não inova a legislação, então o STF deve atuar supletivamente como órgão legislativo, para suprir as omissões do Parlamento. 

Ledo Engano. Quando os representantes do povo e dos estados, na Câmara e no Senado respectivamente, se negam a introduzir uma inovação, eles estão vetando tacitamente a proposta, porque sabem que os eleitores não querem a inovação. É assim que deve ser.

Os aspirantes ao posto de reis filósofos, como na República de Platão, desprezam o povo, que julgam alienado, ignorante e preconceituoso, por isso querem substituir o Parlamento, arvorando-se em legisladores sem voto.

Não esqueçamos, porém, que no campo dos juízos de valor a condição de letrado ou iletrado não faz diferença. Esquecem-se, ainda, que Platão arrependeu-se da República, cujos erros procurou corrigir na obra da maturidade chamada “As leis”.



COMENTÁRIO:

Artigos do Prof. Rui Martinho Rodrigues são muito bem fundamentados, tendo em vista que, profundamente conhecedor da História Universal, para formular as suas análises ele invoca a sabedoria acumulada pela sociedade humana ao longo do tempo, coligida da obra teórica dos grandes pensadores, bem como do exemplo prático dos maiores eventos que a humanidade atravessou.

Mas o historicismo tem lá suas armadilhas, como no exemplo do pensamento de Platão, que a princípio defendeu que a república deveria ser liderada por uma casta de notáveis, que ele chama de “reis filósofos”, mas depois apostatou dessa doutrina para passar a defender o império absoluto das leis – dura lex sed lex.  

Rui acredita que dessa forma o sábio grego evoluiu em seu pensamento. Acha que “no campo dos juízos de valor a condição de letrado ou iletrado não faz a mínima diferença”. Então, por esse entendimento, quaisquer boçais estariam aptos a fazer leis, que os broncos e os esclarecidos teriam que seguir de maneira cega.  

Porém, essa assertiva transporta uma contradição descomunal. Acaso o filósofo Platão era um “iletrado”?; acaso o sábio Rui Martinho Rodrigues seria ele mesmo um “iletrado”?. Não. Poderiam fazer os juízos que fazem se fossem incultos e primários? Não. Então se pergunta: Não estariam as nobres garças do lago reclamando de discriminação injusta contra os reles sapos do banhado?

Pessoalmente, acho que a erudição, por si só, não credencia ninguém, mas que deveria ser pré-requisito para se atuar nas funções públicas, examinadas pelo povo outras características de caráter – e mesmo os sapos sabem reconhecer as garças. Sem noção das ciências e sem conhecimento da história o indivíduo tende a repetir os velhos erros. 

Então, produzidas as leis, elas fossem entendidas como um fanal a seguir, a serem cumpridas com rigor... e razoabilidade. As leis cristalizam a intenção do legislador, mas não podem prever todas as situações concretas que terão que regular, sob pena de pontualmente se tornarem injustas. Não fosse assim, os computadores substituiriam os magistrados.

Aliás, penso que o grande problema brasileiro de hoje é este exatamente: muitos dos nossos homens públicos atuais são apedeutas, brucutus, analfabetos funcionais. Diversos deles mal formados por uma rede de ensino e um currículo fraquíssimos, outros nem isso. 

Dos vinte por cento sobrantes, a metade está no Judiciário e no Ministério Público, em que se ingressa por concursos severíssimos. Mas não necessariamente nos tribunais, que são formados por critérios políticos de apadrinhamento e compadrio.   

Reginaldo Vasconcelos

domingo, 5 de fevereiro de 2017

TROVAS - UBT (VA)


UNIÃO BRASILEIRA DE TROVADORES
UBT
Secção de Fortaleza

Fundada em 11 de novembro de 1979
Presidente de Honra: Gutemberg Andrade
Presidente: Vicente Alencar*


Leia a Trova,
divulgue a Trova,
alegre a Vida!


Nesta vida malsinada
inda nos pesa a ironia
de ser hoje desprezada
por quem ontem nos queria.
NEIDE FREIRE

O meu coração foi feito
tão somente para amar
e estranhamente em meu peito
ameaça me matar.
HEITOR LAVOR

Olhei, em vão, te buscando,
e tu fugias... enfim,
acho que te procurando,
foi que me perdi de mim...
NEIDE AZEVEDO

Que sou eu na terra, ó céus?
eu mesmo não sei dizer:
viúva de homens, vou ser
pretensa noiva de Deus.
DOLORES FURTADO.

O Trovador que se preza
só faz a Trova contrito,
na postura de quem reza
de olhos postos no infinito.
BATISTA SOARES.

Como harmonista conheço
as regras da Sinfonia:
cantando nunca padeço,
canto  a noite e canto o dia.
VITAL ARRUDA.

Na vidraça do passado
onde revivo os meus sonhos,
sinto a saudade ao meu lado
nos longos dias tristonhos.
GUTEMBERG ANDRADE.

Só tenho felicidade
neste mundo de meu Deus
se tanjo toda a saudade
e caio nos braços teus.
ZENAIDE MARÇAL
  
Percebi, em teu sorriso,
todo o esplendor de uma aurora
e senti um paraíso
em teus olhos, ó Senhora!
VICENTE ALENCAR
  
Há tanta gente na vida
que a própria dor amordaça,
qual palhaço em sua lida,
rindo da própria desgraça.
GISELDA MEDEIROS.

Ah, se soubesse quão triste
me é lembrar que, ressentida,
nem sequer te despediste
no momento da partida!
PEREIRA DE ALBUQUERQUE



MOÇÃO DE AGRADECIMENTO

À
Academia Cearense de Literatura e Jornalismo
ATT Reginaldo Vasconcelos
MD Presidente da entidade


Agradeço penhorado, em meu nome e em nome de toda a Diretoria da UBT Fortaleza, o tratamento dado no Blog dessa ACLJ à sequência de trovas que enviamos.

Estamos reiniciando a Divulgação da trova, pois a renovação de valores é lenta, e esperamos contar principalmente com o talento de jovens trovadores que se somem ao nosso elenco veterano.

É de grande valor a publicação de nossas trovas no Blog de tão valorizada entidade de nossos meios literários. Somente com a amostragem dos trabalhos de todos eles, novos nomes poderão juntar-se aos nossos.

Penhoradamente,

VICENTE ALENCAR
Presidente da UBT Fortaleza

sábado, 4 de fevereiro de 2017

CRÔNICA - O Palhaço (RV)


O PALHAÇO
Reginaldo Vasconcelos*

Estava de passagem na cidade sertaneja em que a família tem origem, sentado à mesa de uma sorveteria na esquina da rua principal, tomando um refrigério contra a canícula da tarde que findara, quando passou pelo outro lado da calçada, descendo placidamente a rua na hora angelus, um homem usando calças frouxas até o meio das canelas, de cetim quadriculado como um tabuleiro de xadrez, vermelho e amarelo, suspensórios cruzados nas costas sobre a camiseta, sapatos longos e meiões verdes.

Aquele ponto da rua não é bem iluminado, por conta das lâmpadas amarelas, da cordilheira de sobrados que produzem sombras e da arborização frondosa. Então, como quem quer decifrar a inusitada figura que divisa, apurei a vista na direção daquele transeunte bizarro que flanava mansamente, sem chamar atenção de ninguém, e sem parecer querer fazê-lo.

Ele, que marchava de cabeça baixa, notou a minha mirada, então me olhou com simpatia, mas com seriedade, quando então percebi o nariz vermelho e a pintura característica no seu rosto. “É o palhaço...”, ele disse docemente, como a me tranquilizar, fazendo, com o polegar, sinal de positivo. Ainda meio impactado, assenti levemente com a cabeça, sem lhe responder o gesto amável.

O rapaz baixou a cabeça e continuou o seu caminho, contrastando a alegria circense da sua indumentária com a tristeza do seu passo, enquanto enternecido eu o fitava pelas costas, a diminuir paulatinamente na perspectiva daquela rua antiga, exatamente onde eu mesmo aprendi a andar, há mais de meio século.

Eu sei que as cidades pequenas têm lá suas figuras emblemáticas – o prefeito, o juiz, o padre, o delegado, a prostituta rainha, o doido de rua – mas o palhaço municipal era novidade absoluta para mim.

Primeiro senti um imenso arrependimento de não ter correspondido efusivamente ao seu gesto amistoso – o homem grave, grisalhaz e barbicundo, que ele percebeu ser forasteiro, e certamente imaginou miudamente fosse a encarnação ou o fantasma de um dos muitos velhos do passado da cidade – e então apresentou as suas credenciais de ninguendade.

Depois fiquei filosofando sobre a imunidade absoluta a que os palhaços têm jus, em qualquer lugar do mundo, enchendo a vida de ledice e de brandura, somente superados pelo prestígio dos bombeiros sapadores, a categoria que mais se aproxima da classe sublime dos anjos, a salvar os inditosos e a resgatar os nossos cadáveres nos infaustos do destino. Refleti que se todas as cidades têm seus corpos de bombeiros deveria cada uma ter o seu palhaço oficial, que andasse pelas ruas proclamando aos visitantes que o município é feliz e o povo de muito boa paz.


NOTA ACADÊMICA - Reinauguração do Palácio da Luz


REINAUGURAÇÃO
DO PALÁCIO DA LUZ


O Palácio da Luz, na Praça dos Leões, edificação histórica da Cidade de Fortaleza, primeira sede de governo do Estado do Ceará, abriga hoje a Academia Cearense de Letras (ACL), a mais antiga do Brasil, que, por seu turno, no mesmo endereço, sedia e alberga cerca de 15 instituições literárias mais recentes – dentre elas a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo.

Tombado por decreto estadual, o prédio histórico vem sendo manutenido pela ACL, que sob a presidência do bibliófilo José Augusto Bezerra o dotou de auditórios belos e confortáveis, equipados com os mais modernos recursos de ambientação, logicamente preservando a sua peculiaridade arquitetônica. A plena restauração do Palácio da Luz foi realizada com recursos captados através da Lei Jereissati, que garante incentivos fiscais a empresas cearenses que investirem em projetos culturais.






Concluídas as obras, nesta segunda-feira, a partir das 19:00h,  a ACL promoverá a solenidade de sua reinauguração, idealizada e organizada pelo Presidente Augusto Bezerra, oportunidade em que entregará esse patrimônio histórico redivivo à coletividade, e outorgará comendas a autoridades e empresários que colaboraram com o projeto.  

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

ARTIGO - A Fragilidade das Instituições (RMR)


A FRAGILIDADE DAS INSTITUIÇÕES
Rui Martinho Rodrigues*


O desaparecimento de Teori Zavascki ressaltou a fragilidade das nossas instituições. Na ausência do ilustre ministro a Nação se sente perdida. Não basta que os processos tramitem no Pretório Excelso; que a Constituição, os códigos, as leis e Regulamento do STF definam os passos do rito processual e a escolha de sucessor do relator. É preciso improvisarmos uma solução. Não basta que o trabalho do relator passe pelo crivo do revisor e a decisão caiba ao colegiado.

Vozes prestigiosas pedem que a presidente do STF assuma, ao arrepio do ordenamento jurídico, a relatoria dos processos da Lava Jato; que ela indique monocraticamente o sucessor do relator desaparecido; que o pleno redistribua os processos; que a segunda turma o faça; ou que a redistribuição se faça por sorteio.

Ninguém, inclusive os ministros do STF, aceita que o sucessor seja o novo ministro a ser indicado pelo presidente da República e ratificado pelo Senado Federal.

Proliferam soluções. Só não se aceita o rito institucional. Os motivos são óbvios: o Presidente da República e o Senado inteiro estão sob fundada suspeita. Os ministros da Suprema Corte, que foram indicados segundo o rito institucional, confessam que quem chega ao STF por este caminho fica comprometido. O próximo ministro a ser nomeado, logicamente, não seria o primeiro a sofrer tal influência, ou perigo não existiria.


O jogo institucional está desacreditado. O que estamos fazendo, diante do problema? Voltamo-nos para salvadores individuais. Será Carmen Lúcia ou Celso de Mello? Gilmar Mendes, Lewandowski, Toffoli, Barroso, Fachin e Marco Aurélio Mello são havidos como militantes de movimentos ideológicos e, portanto, assumidamente parciais. Rosa Weber seria fraca. O próximo a ser nomeado chegaria irremediavelmente comprometido.


O quadro é muito grave. Quando as instituições falecem não há salvação, pois se não podemos confiar na formalidade das leis, menos ainda poderemos depositar nossas esperanças na falibilidade dos homens.


NOTA JORNALÍSTICA - Cine São Luiz


A MEMÓRIA DA CIDADE
E DE UMA GERAÇÃO
DE CEARENSES

Interessante assistir na íntegra a essa matéria jornalística cinegráfica realizada em 26 de março de 1958, na voz do célebre locutor gaúcho Heron Domigues, produzida pelo saudoso jornalista e literato cearense Hermenegildo de Sá Cavalcante, tio do Prof. Oto, fundador do Colégio Ari de Sá, e do seu irmão, o Prof. Tales, por seu turno herdeiro do Colégio Farias Brito, ambas hoje complexas instituições educacionais, incluindo faculdades, com cursos de grau superior.

O filme, que nos foi enviado pelo engenheiro ex-educador Maurílio Vasconcelos, fundador do Curso Cipan e do Colégio Integral, hoje empresário da construção civil, exibe a cobertura jornalística da inauguração do Cine São Luiz, em Fortaleza, com a presença da família do também cearense Luiz Severiano Ribeiro, na época magnata da cinematografia no Brasil, dono das principais salas de projeção das capitais brasileira.

A geração dos jovens cearenses do fim dos anos 50, até os 80, que frequentaram o Cine São Luiz de Fortaleza com as famílias, ou em duplas de namorados, chupando drops e tantas vezes interagido entre si e reagindo às cenas cine-dramatúrgicas, chorando ou emitindo sonoros gritos e risadas, certamente se deliciarão com essa bela peça da memória da Cidade.

Era o grande programa das tardes de domingo ir ao São Luiz assistir aos clássicos da cinematografia da época, experiência que marcava a meninada, a qual ingressava no cinema quando a Praça do Ferreira estava em plena  luz do sol, e saía já nos frescores da noite, às vezes encontrando molhada de chuva a cidade que horas antes estiava.

O São Luiz, que sucedeu ao Cine Diogo em importância,  era então o suprassumo da tecnologia imagética, e o ponto alto do entretenimento na Cidade, com suas sancas realizadas por artistas portugueses e italianos, seus mármores de Carrara, seus lustres de cristais da Checoslováquia, seu jogo de luzes, seu ar refrigerado, seu som estereofônico e sua tela de “cinemascope”. Hoje, a grande sala de exibição de cinema foi adquirida pelo Governo do Estado e convertida em auditório cultural e cine-teatro, arquitetonicamente preservada.


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