terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

ARTIGO

 A CULPA NÃO É DO MORDOMO
Por Reginaldo Vasconcelos*


Triste, lastimável, revoltante, o acidente fatal com o jovem cinegrafista de TV atingido por um petardo pirotécnico, durante uma manifestação de rua no Rio de Janeiro, na semana passada.


  
Muito justas as homenagens que lhe fizeram os colegas de diversos veículos de imprensa. Não há negar. E a nossa ACLJ se associa a todas as instituições jornalísticas do País que se solidarizaram à empresa e à família do rapaz.

Mas esse episódio infeliz detonou uma série de disparates na mídia brasileira, que a seguir comentarei. O primeiro absurdo foi erigir a priori a hipótese de que o dispositivo explosivo pudesse ter sido deflagrado pela Policia Militar.

Ora, qualquer idiota é capaz de reconhecer um rojão, conforme demonstrado em fotos e vídeos, e qualquer imbecil um pouco mais qualificado sabe que a polícia não usa fogos de artifício.

Um vezo terrível da imprensa brasileira, esse de tentar imputar à polícia tudo que de mau acontece durante confrontos das forças públicas com delinquentes em geral.

Quando o queijo aparece ruído, a minha primeira suspeita é para o rato. E mesmo que o meu gato cometa um deslize, eu ainda vou preferir a ele, que eu conheço e que é um defensor da minha casa.

A propósito, louvável, por todos os títulos, o show de eficiência da Polícia Civil carioca, que imediatamente prendeu um dos jovens que participaram do atentado, e logo depois o fez denunciar o seu comparsa.

Cabe ao Ministério Público e ao Poder Judiciário denunciar, julgar, condenar, prender e supliciar, nos limites da lei penal e das nossas cafuas medievais, essa dupla de bandidos.

Contudo, é preciso ter presente que, dentre toda uma malta de cretinos, esses são apenas dois azarados cujo ato criminoso atingiu um alvo humano, cidadão de primeira classe, com o resultado morte.

Mas a gravidade da sua conduta seria a mesma, a meu sentir, caso a vítima fosse um mendigo, caso este não tivesse morrido, e mesmo se o seu rojão não tivesse atingido uma pessoa.

Para mim, deveriam ser presos todos os outros que atiraram pedras, incendiaram coisas, soltaram outros fogos durante o mesmo tumulto, pois eles todos assumiram o risco de ferir ou de matar algum inocente.

Mas não houve nesse episódio ameaça à liberdade de imprensa, ao contrário do que têm dito entidades de classe, pois essa somente se verifica quando acontecem atos de censura. O repórter sofreu um acidente de trabalho, atuando no meio a uma refrega, como acontece aos correspondentes de guerra em geral. Ossos do ofício.

Outra incongruência moderna é a concepção equívoca de que manifestações de protesto sejam eventos emblemáticos da normalidade democrática. Não são. Ao contrário, eles apenas indicam que a democracia está doente.

Marchas, passeatas, quebra-quebras, piquetes, “rolezinhos”, protestos públicos em geral, nada disso é proibido na democracia – nem por isso essas manifestações podem ser consideradas como  saudáveis e normais.

Também não há proibição legal no País de que a pessoa coma barro, de modo que todo cidadão é livre para fazê-lo – e nem por isso a eventual ingestão de argila será tida como um ato normal do ser humano.

Mais anormal ainda são invasões de prédios públicos e ocupação de propriedades privadas, atos efetivamente proibidos pelo ordenamento jurídico, mas que são perpetrados impunemente por grupos de agitadores, tidos e respeitados como justiceiros sociais.

A democracia se caracteriza pelo pleno direito de votar e ser votado, em eleições livres para mandatos limitados no tempo, para que se obtenha alternância de poder e a legítima representatividade popular. A verdadeira prática democrática não se compadece da barbárie e nem se confunde com anarquia.

Admite-se ainda nas democracias que a sociedade civil tenha uma imprensa livre e se manifeste por meio de entidades regulares, com estatutos registrados em cartório, com responsabilidades definidas e responsáveis identificados, inclusive cadastros no CNPJ da Receita Federal.

Não tem cabimento que entes destituídos de personalidade jurídica sejam tolerados, e em alguns casos até patrocinados pelo Poder Público brasileiro, por razões ideológicas e eleitoreiras, e que desrespeitem as leis e as decisões judiciais sob o título apócrifo de “movimentos sociais”.

Nas grandes democracias do mundo ameaças à paz social são reprimidas por suas polícias, com vigor e rigor, as injustiças são eficientemente corrigidas pelo poder judiciário, e as insatisfações do povo são manifestadas por meio do voto, no próximo pleito eleitoral.

*Reginaldo Vasconcelos
Jornalista e Advogado
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ  

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

POEMA


AREIA E ÁGUA
Por Fernando Dantas*

A letra da música Primeiros Erros, da banda Capital Inicial, define quem eu sou. Sou Areia. Sou Água. “Meu caminho é cada manhã. Não procure saber onde estou. Meu destino não é de ninguém. E eu não deixo os meus passos no chão. Se você não entende não vê. Se não me vê, não entende.” Sou Areia. Sou Água. Não adianta tentar prender-me em suas mãos. Sou Areia. Sou Água. Sou Areia. Sou Água. Não procure saber meus caminhos. Sou Areia. Sou Água. Sou Areia. Sou Água. A cada manhã tenho um caminho a ser traçado. Sou Areia. Sou Água. Sou Areia. Sou Água. Não queiras saber onde estou, pois Sou Areia. Sou Água. Sou Areia. Sou Água. Meu destino não é de ninguém. Nem meu. Sou Areia. Sou Água. Sou Areia. Sou Água. Se não entende isto, não me verá, pois Sou Areia. Sou Água. Sou Areia. Sou Água. Se não vê isto, não me entenderá em essência. Sou Areia. Sou Água. Sou Areia. Sou Água. Não adianta prender-me em suas mãos, em seus sonhos, ou desejos. Sou Areia. Sou Água. Água e Areia escapam das mãos. Mas Areia com Água e cimento certo edificam castelos indestrutíveis. E Água na Areia faz brotar as mais belas flores. Sou Areia. Sou Água.
*Fernando Dantas
Jornalista e Advogado
Titular da Cadeira de nº 19 da ACLJ

NOTA ACADÊMICA

ENTÃO EU CONTO

O jornalista veterano Augusto Borges, que é Membro Emérito Fundador da ACLJ, Titular de sua Cadeira de nº 5, com 64 anos de carreira, lançou seu livro de memórias “Então Eu Conto”, com o apoio cultural da empresa M. Dias Branco.


O autor com o empresário Ivens e sua mulher 
Consuelo Dias Branco, Beneméritos  da  ACLJ 
A noite de autógrafos foi no Iate Clube, no último dia 30, quinta-feira. A festa foi bastante concorrida, com a presença da família do autor, além de muitos amigos e colegas. A ACLJ se fez representar no evento pelo acadêmico Dorian Sampaio Filho.

REPORTAGEM

ROLEZINHO
Por Reginaldo Vasconcelos* 

Os bares estão cheios de homens vazios, porque hoje é sábado” – disse Vinícius de Morais. Altino Farias discorda da assertiva do Poetinha, e prova que os homens vazios vão pelo mundo todos os dias da semana, cheios de esperanças vãs e de desejos fugazes. É nos bares e aos sábados que eles se enchem de alegria para festejar a vida. Ali filosofam, cultuam as amizades, preenchem a alma com felicidade genuína.

Neste último sábado, o jornal virtual Pelos Bares da Vida, que Altino edita, promoveu um “rolezinho” por 27 bares da cidade, em ritmo de pré-carnaval, levando 50 homens e mulheres que estão sempre vazios nos demais dias da semana, entregues à mais rigorosa rotina familiar e profissional, e que embarcaram em vagões jardineiras para fazer esse périplo da alegria, repletos de cidadania e de cultura. Essa é a segunda edição anual da iniciativa, que já inicia uma tradição.



O passeio teve início na Aldeota, foi à Gentilândia e ao Centro, bordejou o Jacarecanga, voltando pela Praia de Iracema e indo até a Cidade 2000. 

Duas reações distintas se observaram nos moradores da cidade, os que estavam pelas calçadas, nas lojas, nos ônibus, os que passavam em outros veículos. Uma parte do público quedava pasmado com a visão das fantasias e com som das marchinhas, como quem não fosse brasileiro e não conhecesse carnaval.


Apenas uma pequena parcela do povo reagia com alegria à passagem dos vagões sonoros, interagindo com seus ocupantes, e isso evidencia que Fortaleza perdeu quase totalmente o espírito momino – essa  cidade que já teve tantos blocos de sujos e um imenso corso de veículos, que subia da Praínha até a Duque de Caxias pela Rua Dom Manuel, durante os três dias de folia, além das grandes bailes carnavalescos nos clubes da cidade. 

*Reginaldo Vasconcelos
Jornalista e Advogado
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

LÍNGUA DE CAMÕES




SÉRIE
DESLIZES DA ESCRITA
Impropriedades do Discurso
(4 de 4)
Por Vianney Mesquita*


"Os escritores superficiais, como as toupeiras, julgam frequentemente ser profundos, quando estão, no entanto, demasiadamente perto da superfície". (SHENSTONE, William – West Midlands – UK - 18.02.1714; 11.02.1763)


Os exemplos deste módulo da série de artigos são anteriores à edição da obra A Escrita Acadêmica – acertos e desacertos. O texto foi preparado para servir de base a uma palestra por mim proferida na Academia Cearense da Língua Portuguesa, porém faz parte da mencionada edição, com modificações.

Eis que o escrito é reeditado, para rematar esta série de textos, ora publicado pelo blog da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, como demonstrativo dos dislates, muita vez, até hilariantes, da colheita dos meus consultantes na seara universitária.

Cuidei, entretanto, de desdobrar, sem prejuízo do móvel da série - transposição dos escorregos de toda ordem em trabalhos universitários as passagens histórico-culturais, aduzindo informações relevantes, talvez não consabidas pelos leitores.

“Casamento” da Santa Casa

Aforismo popular ensina: A bodas e a batizado não vá sem ser convidado.

Este substantivo feminino, aplicado quase sempre no plural (como, por exemplo, calças, bermudas, óculos, cuecas e muitos outros), procede do latim vota, votum e significa EXCLUSIVAMENTE, com pronúncia fechada (ô), celebração de casamento, festa, geralmente com banquete, para solenizar matrimônio.

As bodas de que mais se tem notícia são as de Caná, referidas na Escritura Sagrada. Outras, menos célebres – registradas nos compêndios de História e Arte – inspiraram pintores como Rafael Sânzio (As Bodas de Psique, do Palácio Farnésio – Roma), 


Eugéne Delacroix (Boda Judaica em Marrocos – Louvre) e David Teniers (Boda Campestre, dois quadros – Munique e Dresden), entre outros artistas.

Em um casamento na cidade galileia de Caná, consoante refere o Novo Testamento, Jesus Cristo operou o primeiro milagre, ao transformar água em vinho. Este prodígio sensibilizou, por exemplo, o talento inventivo de Paolo Caliari (Veronese) a pintar o notável Bodas
de Caná, no qual inclui personagens de nomeada, como o Marquês de Pescara (Fernando Francisco de Ávalos Aquino y Cardona), Leonor de Áustria (rainha de França) Tintoreto (Jacopo Robusti) e Ticiano (Veccelio).

[SANZIO, Rafael. *Urbino, 06.04.1483; + Roma, 06.04.1520; DELACROIX, Eugène. *Saint-Maurice, 26.04.1798; +Paris, 13.08.1863; TENIERS, David. *Antuérpia, 15.12.1610; +Bruxelas, 25.04.1690; VERONESE – Paolo Caliari. *Verona, 02.02.1528; +Veneza, 19.04.1588; LEONOR DE ÁUSTRIA. *Bruxelas, 15.11.1498; +Talavera, 25.02.1558; TINTORETTO – Jacob Robusti. *Veneza, 29.09.1518; +Veneza, 31.05.1594; TICIANO Vecelio. *Pieve di Cadore, ? - ?; +  1485; +Veneza, 27.08.1576; Marquês de Pescara.*Nápoles, ? - ? – 1489; + Milão, 04.11.1525].

Resulta impróprio, por conseguinte, proceder como um docente-livre de Fortaleza – universidade grande – campus de Porangabuçu – em livro de crônicas e artigos, ao parabenizar a Santa Casa de Misericórdia da Capital do Ceará pela passagem das bodas de ouro desse hospital; ou como um colunista diário, que se referiu, em 2008, às bodas de esmeralda (40 anos) da conquista, pela Seleção Brasileira, do título de tricampeão mundial de futebol, em 1970.

No primeiro caso, a inconveniência foi sanada. No outro, advertido, o jornalista registrou, agradeceu e não mais incorreu no erro.

Não será de todo inócuo, decerto, dissolver certa confusão que alguém faz, também, relativamente a bodas e jubileu.

Jubileu procede do hebraico jobel, por meio do grego iobelaios  e do latim jubilaeu. Consoante as práticas mosaicas – nesta parte inseridas no livro do Levítico – “Declarareis santo o quinquagésimo ano e proclamareis o perdão das dívidas no país para todos os habitantes. Será para vós um jubileu”. (Lev.25.10).

Com efeito, em 50 anos, havia grande e pública solenidade na qual cada um tomava posse das heranças, as dívidas eram perdoadas e os escravos alforriados, sendo aquele ano consagrado ao Senhor. (LELLO, J. LELLO, E., 1983).

Obedecendo a essa configuração histórica, jubileu passou a ser, também, a indulgência plenária e geral (em desuso) concedida pelo Papa e em circunstâncias especiais, seguidas de grandes festas. Por extensão, jubileu significa, ainda, o conjunto de merecimentos para que se obtenha este favor.

Mais extensiva se foi tornando a adoção desse nome como designativo ao quinquagésimo ano de casamento, do exercício de uma função, do tempo durante o qual uma pessoa reside em determinado local etc., tendo, atualmente, descaracterizado sua procedência bíblica, ao ponto de ser admissível, pela aplicação consagrada, tê-lo como indicativo de qualquer aniversário solene.

É fácil, pois, notar ser bem mais permissível de se empregar do que o substantivo boda.

De tal sorte, teria sido válido se houvesse o dito professor  grafado Jubileu da Santa Casa de Misericórdia, aqui na sua conotação hebraica (50 anos). Também lícito, caso o colunista de O Povo (Fortaleza) tivesse escrito “Jubileu de 40 anos da conquista, pelo Brasil, do título de tricampeão mundial de futebol”.

Por fim, é bom também se dizer, não tem abono a relação jubileu-matéria física (metal ou não), como Jubileu de cristal, ou Jubileu de ouro (conforme está em placa comemorativa dos 50 anos da Faculdade de Educação da U.F.C.) como aniversário de qualquer pessoa, evento ou coisa, ficando tal associação apenas para boda/casamento.

Faixa etária

Por inacreditável como parece, alguém utiliza, ab hoc et ab hac, a expressão faixa etária sem atentar para o seu significado preciso, isto é, intervalo de idade empregado para a categorização dos sujeitos de uma pesquisa com relação à variável  tempo de vida.

Desta forma, o pesquisador pode, em lugar de declarar a idade de cada um dos sujeitos, agrupá-los em classes, como, por exemplo, de zero a cinco anos, de seis a dez anos e por diante.

Diz-se, então, que alguém está situado na faixa etária de zero a cinco anos. É impróprio, evidentemente, assinalar, como é corrente acontecer, que uma pessoa está na faixa etária dos vinte anos.

A esse respeito, em artigo para submeter ao Conselho Editorial de uma revista, estava o seguinte: A amostra constou de homens e mulheres saudáveis, com idade entre 20 e 60 anos. O maior percentual de mulheres registrou-se na faixa etária de 30 a 45 anos (aplicação certa) enquanto a percentagem maior de homens situou-se na DÉCADA de 50 a 60 anos (expressão realçada).

Somente o descuido pode imprimir tal impropriedade.

Um pouco de atenção de quem escreve é o suficiente para que tais deslizes sejam evitados. Apenas esta desatenção explica o ocorrido com o escritor e historiógrafo lusitano Antônio José Saraiva (*Leiria, 31.12.1917; Lisboa, l7.03.1993). 

O autor de Gil Vicente e o Fim do Teatro Medieval, História da Literatura Portuguesa, entre outras obras, fez referência a [...] um mundo duvidoso, meio decadente, meio elegante, meio vicioso, que frequenta determinados salões.

Esse visibilíssimo engano conduziu Agripino Grieco (Op.Cit., 23) a comentar com sarcasmo: “[...] vê-se que tal mundo dispõe de três metades, é um mundo e meio[...].

REFERÊNCIAS

BARRETO, J.A. Esmeraldo; MESQUITA, Vianney. A Escrita Acadêmica - acertos e desacertos. Fortaleza: Prog. Edit. Casa de José de Alencar da U.F.C., 1997.

BÍBLIA SAGRADA. Jo. 2, 1-11 (Bodas de Caná). Trad. João Ferreira de Almeida. LCC Publ. Eletrônicas – http//www.culturabrasil.pro-ler.
COSTELLA, Antônio Fernando. Comunicação – do grito ao satélite. São Paulo: Mantiqueira, 1978.

DELLA NINA, A. Dicionário da sabedoria.  São Paulo: Fittipaldi, 1985.

GRIECO, Agripino. Disparates de todos nós. Rio de Janeiro: Conquista, 1968.

LELLO José; LELLO Edgard. Lello Universal. Porto: Lello & Irmão, 1983.



*Vianney Mesquita
Professor da UFC
Escritor e Jornalista
Membro da Academia Cearense 
da Língua Portuguesa
Titular da Cadeira de nº 22 da ACLJ


CRÔNICA

LIÇÃO DIVINA
Por Reginaldo Vasconcelos*


O jesuítico Papa Francisco, com franciscanas intenções, no último dia 26 de janeiro, da sacada do Vaticano, pediu orações pela paz à multidão da Praça de São Pedro, a propósito de recente chacina perpetrada pela Máfia contra uma família siciliana.

Ato contínuo, Sua Santidade recorreu ao simbolismo curial de fazer duas crianças que o ladeavam na janela vaticana libertarem pombas brancas, as quais deveriam iniciar um voo olímpico sobre o público, devoto e enlevado.  

Aguda ironia do destino, os dois pássaros foram imediatamente atacados por vorazes predadores que surgiram do nada, uma gaivota e um corvo, o que, dramaticamente, deu sequência e aprofundou a semiótica papal, por um viés inusitado.  
O quadro descrito sugere que o sucessor de Pedro fez um caridoso apelo humano, que Deus quis responder de público com sapientíssimo realismo divino.

A primeira ilação que se pode fazer sobre o episódio é que apelos de paz são inócuos no conflito de interesses, fazendo esplender o brocardo latino si vis pacem, para bellum.

De fato, infelizmente, boas intenções e gestos pios, porquanto evidenciem a existência de uma porção divina no espírito dos homens, não podem elidir o seu lado bruto, realidade que se reflete, também assim, na Natureza.

Os bichos competem entre iguais, e devoram os desiguais,  e é dessa maneira que funciona a biosfera. O homem, que em última análise é o lobo do homem, procura conter a fera íntima por meio das leis e dos preceitos místicos, mas enquanto alguns cultivam flores muitos porfiam por poder.

A segunda lição que o episódio transporta trata dos riscos a que a liberdade expõe a todos. Soltos na natureza os animais precisam lutar para obter alimento para si, e para não se transformar em alimento alheio, enquanto sob a proteção humana têm casa e comida garantidas, proteção, carinho, remédios...

Equinos, caninos e felinos domésticos, e mesmo as espécies que nos servem de alimento, provavelmente estariam extintos hoje sem a proteção do ser humano. Sim, a vida selvagem é dura e cruel – e o homem precisa de limites civilizatórios para conter o seu lado beluíno.

A moral dessa história é a seguinte:

O Papa está no seu papel sacerdotal de orar e pedir orações, mas no mundo dos homens somente a autoridade rigorosa e a disciplina rígida podem coibir as injustiças. 
liberdade plena não é benéfica quando expõe os mais fracos e os solitários aos mais fortes ou mais numerosos – sejam pombos na Natureza, sejam pessoas na sociedade.


*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

ARTIGO

EXEMPLO DE ESTADISTA
Por Paulo Maria de Aragão*


Juscelino Kubitschek, quando presidente da República, não esqueceu o radioamadorismo. Com a singeleza que lhe era peculiar, falava com todos na sua faixa, PY-2 JKO.

Numa dessas comunicações, um indivíduo fez-se de importante, identificando-se pela patente. Juscelino simplesmente replicou: 
“Companheiro, você aqui não é coronel, porém o cidadão radioamador”. O fato ganhou corpo. Noutra oportunidade, surgiu um graduado que, na tentativa de intimidade com JK, extrapolava ao anunciar-se: “Alô, Juça! Aqui, Botina Preta; somos da irmandade”. Ao que se sabe, Juscelino sorriu e manteve a fleuma.

A cortesia e o sorriso no trato com o povo sempre foi componente de sua personalidade. Na campanha presidencial, tinha a consciência de que ricos e pobres merecem tratamento igual. Em Fortaleza, hospedado na luxuosa suíte do Edifício Jangada, ao entrar no elevador, pisou no pé de um contínuo. Num gesto de simplicidade, pediu-lhe desculpas, indagando o seu nome. De partida para Minas, no dia seguinte, no mesmo elevador, deparou-se com o jovem e, já o chamando pelo nome, acenou-lhe um singular cumprimento.

O exemplo de JK merece ser lembrado nos tempos atuais, em razão inversa ao comportamento prepotente de muitos políticos. O mineiro boêmio e seresteiro ascendeu ao poder sem sede, sem perseguir nem desprezar os menos favorecidos, notabilizando-se nas fases ascendente e descendente da vida pública. Não perseguiu adversários, a exemplo dos militares revoltosos de Aragarças; ao contrário, desarmou-os, concedendo-lhes anistia.

Pela República passaram vários presidentes civis e militares, mas nenhum teve o carisma para seguir as pegadas sensatas e modestas do ilustre brasileiro. Collor, nos palanques, ousou, numa vã tentativa, imitar Kubitschek, com o apoio da própria Dona Sara. Felizmente a máscara caiu e, com ela, a arrogância do “caçador de marajás”.

*Paulo Maria de Aragão
Advogado e professor
Membro do Conselho Estadual da OAB-CE
Titular da Cadeira de Nº 37 da ACLJ


domingo, 2 de fevereiro de 2014

LÍNGUA DE CAMÕES


SÉRIE
DESLIZES DA ESCRITA
Impropriedades do Discurso
(3 de 4)
Por Vianney Mesquita*


A Ciência é o cemitério das ideias mortas. (UNAMUNO, Miguel – Bilbao, 20.09.1864; Salamanca, 31.12.1936).


Panaceia não é Deusa

Mestrando, achando pouco o número de habitantes do Olimpo, resolveu criar outro. Depois de muito pesquisar em noites insones, teve seu Eureka!
Inventou, então, a “divindade” Panaceia, definindo-a como protetora dos doentes, responsável pela cura de todos os males dos seus cultores.

A nova “deidade”, entretanto, não possui registro em nenhuma mitologia.

Panaceia, conforme qualquer obra de referência ou sítio da rede mundial de computadores, é remédio para todos os males, preparado farmacêutico com propriedades gerais, e não uma diva mitológica.

Incrível, contudo, é o fato de que, conquanto alertado a respeito desta inexatidão, o autor insistiu na defesa de sua criação. Os membros da Banca não perceberam o equívoco. O escritor pretende, no momento, publicar o ensaio sob a forma de livro, esperando-se que à correção seja, então, procedida.


Lobo do Homem

Hobbes
É muito comum o fato de atribuir-se a Thomas Hobbes e menos a Francis Bacon (Visconde Auban; *Strand, 22.01.1561;+ Highgate – UK, 09.04.1626) a caracterização do homem como lobo dele próprio (Homo homini lupus).

Hobbes, filósofo, matemático e teórico político inglês (*Malmesbury, 05.04.1588; +Derbyshire, - UK, 04.12.1679), desenvolveu, com detalhes, esta ideia no O Leviatã (1651).

A sentença, entretanto, não é sua, pois já registrada no Asinaria II, de Tito Maccio Plauto (254 – 184. a. C). Os antigos já sabiam, pois, que o homem é destruidor do próprio homem.

Enganos como esse são corriqueiros. Em livro recentemente publicado, o escritor atribui a autoria da dicção romana homo faber à filósofa tedesca Hannah Arendt (*Hanover, 14.10.1906; +Nova Iorque, 04.12.1975).

A expressão Homo faber procede de Henri Bergson, para designar o homem primitivo posto na Natureza, mostrando ser preciso que ele próprio trabalhe seus grosseiros utensílios, indispensáveis a sua manutenção (BERGSON, Henri – *Paris, 18.10.1859; + 04.01.1941).

Camilo Castello Branco
Até os clássicos se enganam, consoante sucedeu com Camilo Castello Branco (*Encarnação-Lisboa, 16.03.1825; + São Miguel de Seide – Famalicão, 01.06.1890) – referido por Agripino Grieco, em Disparates de todos nós, Rio de Janeiro: Conquista, 1968 – que creditou a Quinto Horácio Flaco o dito de Apeles, em Caio Plínio Segundo (História natural) – “Sapateiro, não vá além das sandálias” -  Ne, sutor, ultra crepidam! (GRIECO. Paraíba do Sul, 13.10.1889; Rio de Janeiro, 25.08.1973).

Graciliano Ramos
Em compensação, Apeles (Plínio, o Antigo) vingou-se de Camilo por intermédio dos editores de Graciliano Ramos (* Quebrângulo-AL, 27.10.1892; + Rio de Janeiro, 20.03.1953), que aproveitaram do autor de Amor de Perdição o título da obra  Memórias do Cárcere. O livro de Camilo Castello Branco foi publicado em 1862, ao passo que o do Escritor alagoano veio a lume no ano seguinte ao da sua morte – 1954. (ID.IB.).


Rádio e Radioatividade

Mestrando atribuiu, na versão inicial de seu ensaio para defesa, a descoberta do rádio – meio de comunicação – ao casal Pierre e Marie Currie. Ganhadores do Prêmio Nobel de Física em 1903 (com Antoine Henri Becquerel) e de Química (ela) em 1911, eles descobriram os elementos químicos radioativos denominados rádio e polônio (CURRIE, Pierre - *Paris, 15.09.1859;+ 19.04.1906; CURRIE, Marie - * Varsóvia, 07.11.1867; + Passy – França, 04.07.1934; BECQUEREL, A. H. *Paris, 13.12.1852; + Le Croisic – França, 25.08.1908).

A descoberta do rádio – meio de comunicação – diversamente do que informa o ensaísta, decorreu da conjunção dos esforços teóricos de Henrich Rudolph Hertz, James Clerk Maxwell, Michael Faraday e Benjamim Franklin. Foi, porém, Guglielmo Marconi (Prêmio Nobel de Física de 1909) quem realizou a primeira comunicação por telégrafo sem fio – diz a História - entre França e Inglaterra, em 1899 (MARCONI, Guglielmo. * Bolonha, 25.04.1874; +Roma, 20.07.1937).

Roberto Landell de Moura
Seis anos antes, entretanto, o sacerdote católico brasileiro e cientista da Física e da Química, Padre Roberto Landell de Moura (*Porto Alegre, 21.01.1861; +30.06.1928), fez demonstração do telégrafo sem fio em São Paulo, numa distância de cerca de oito quilômetros, quando, diz Antônio Costella (Comunicação – do grito ao satélite. São Paulo: Mantiqueira, 1978), as investigações de Marconi ainda engatinhavam [HERTZ, Heinrich Rudolph. * Hamburgo, 22.02.1857; + Bonn, 01.01.1894; MAXWELL, James Clerk. *Edimburgo, 13.06.1831; Cambridge, 05.11.1879; FARADAY. Michael. *Newington, 22.09.1791; + Hampton Court, 25.08.1867;FRANKLIN, Benjamin. *Boston, 17.01.1706; +Filadelfia, 17.04.1790].

Santos Dumont
Não demora lembrar, por oportuno, o fato de que, em iguais circunstâncias, ocorreu com Santos Dumont (DUMONT, Alberto Santos. (*Santos Dumont-MG, 20.07.1873; +Guarujá-SP, 23.07.1932) em relação aos Irmãos Wright, no concernente ao enredo da aviação, e que o telégrafo sem fio foi o precursor do rádio. (WRIGTH, Orvile - *Dayton-Ohio, 19.08.1871; +30.01.1946; -WRIGTH, Wilbur - *Millville – Indiana, 16.04.1867; Dayton, 30.05.1912).


*Vianney Mesquita
Professor da UFC
Escritor e Jornalista
Membro da Academia Cearense 
da Língua Portuguesa

Titular da Cadeira de nº 22 da ACLJ