segunda-feira, 25 de maio de 2026

POEMA - Morri Algumas Vezes (SQC)

 Morri
algumas vezes
Savio Queiroz Costa*

 


Já morri algumas vezes.
Nunca houve velas,
nem cortejo,
nem mãos fechando meus olhos.
 
Sempre morria um pouco
daquilo que, em mim, ainda acreditava
na eternidade das coisas.



Fiquei de pé,
como ficam as árvores
depois da tempestade:
silenciosas, partidas, vivas.
 
A vida seguiu —
impiedosa e bela —
mesmo enquanto meus escombros
aprendiam a respirar outra vez.
 
Com o tempo, compreendi:
 
há mortes que não levam o corpo. 
Levam apenas o que já não cabia na alma.
 
Desde então,
renasço devagar,
sem anúncio,
sem testemunhas.
 
Como quem floresce
no escuro.
 
Como quem aprende
que sobreviver
também é uma forma de poesia.



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