ESPIRITEIRA
O FOGÃO À MÃO DAS MÃES PUÉRPERAS
George Tabatinga*
Desde
que o mundo é mundo, as mães desempenham um papel fundamental na continuidade
da espécie, seja ela humana ou animal, tanto na gestação quanto na criação. A
fase inicial da vida do bebê é a mais sensível e exige atenção especial. Todo
cuidado é pouco com o recém-nascido indefeso.
Não
faz muito tempo, minha família, que havia acabado de chegar do Piauí, morava em
uma casa entre as ruas Monsenhor Bruno e Rui Barbosa, na esquina da Travessa
Jaguaruana, ao lado do majestoso Castelo do Plácido — derrubado em 1992 para a
construção da Central de Artesanato do Ceará.
Era o ano de 1969. Dias antes do lançamento do foguete Apollo 11 e dos primeiros passos do homem na Lua, nascia minha terceira irmã, o sexto filho do casal. Foi um parto difícil, com sequelas da temida anestesia “raqui”, que inibe a dor da cintura para baixo e é muito utilizada em cesarianas e outras cirurgias.
Como eu era o filho mais velho e nosso pai estava no Rio de Janeiro fazendo um curso na Fundação Getúlio Vargas, coube a mim diversas tarefas caseiras – até porque não tínhamos uma empregada.
Começaram as férias escolares do meio do ano e eu, com 14 anos, estava cuidando da casa, de minha mãe, que estava prostrada na cama, e de meus irmãos e, é claro, da minha irmãzinha recém-nascida. Foram dias difíceis e inesquecíveis.
Felizmente, minha querida prima Rita de Cássia, que estudava em Fortaleza na época, mas morava com nossa prima Elizabete, ajudava durante o dia. À noite, eu me virava para cuidar de minha mãe e de sua caçula.
Eu cochilava ao lado da minha mãe, mas levantava o tempo todo para trocar a fralda e balançar a bebê no colo até ela parar de chorar. Minha mãe estava sempre atenta, principalmente na hora de trocar a fralda por causa daquele broche grande espetado no tecido de algodão grosso. Ela exigia que eu colocasse minha irmãzinha ao seu lado na cama, para prestar atenção enquanto eu furava a fralda com todo cuidado, para não espetar sua barriguinha.
Na
hora do leite, eu acendia o fogo na espiriteira de álcool na cozinha e voltava
várias vezes ao quarto para checar se estava tudo bem. A água era filtrada, mas
precisava ser fervida antes de colocar o leite em pó naquele papeiro de ágata.
Para deixar o alimento morno, eu alçava colheradas de leite quente ao ar
repetidamente. De vez em quando, eu verificava a temperatura com a dobra do
dedo mindinho, pois não podia tocar o leite com a ponta dos dedos. Tudo isso
porque nossa mãe ainda não tinha condições de amamentar.
Não há mais espiriteira nem fraldas de algodão, e acho que nem a malvada anestesia. Mas nada dói mais do que a falta da nossa querida mãe!

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