PARAPEITO
DE
CAMARIM
Aluísio
Gurgel*
Alguns podem até não acreditar, mas houve um fim de tarde em
que dei por mim sentada no parapeito do camarim no Teatro José de Alencar,
enquanto dois grandes violonistas dialogavam e transferiam de um para o outro o
único violão de que dispunham na ocasião. Um já havia ganhado idade, era Sebastião
Tapajós, o dono do violão.
O
outro era um jovem advogado que não conseguia abandonar o sonho de ser artista.
Por coincidência, era também o homem com quem aceitei me casar havia três anos,
quando engravidamos no mês de fevereiro de mil, novecentos e oitenta e quatro.
Meu
marido elogiava a adaptação que Tapajós havia feito para “Adiós Nonino”,
de Astor Piazzola e, em contrapartida, Tapajós elogiava o
baião que meu marido compôs. Cada qual deve ter apresentado umas cinco peças,
alternadamente, com o violão lá e cá. Algo que na prática dava um pocket
concert.
Foi
quando a sineta tocou, anunciando que o Projeto Pixinguinha iria começar
naquela boquinha de noite e meu marido era o arranjador e percussionista do
pessoal local que faria a abertura para o Sebastião Tapajós. Entre admirar e
aprender com a humildade do artista mais experiente que recebeu o discípulo com
toda simplicidade em seu camarim; e “tietar” o homem com quem me casei, preferi
ficar com seus lindos olhos azuis e sua magia interior. É feitiço do qual não
tenho como me livrar.

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