quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

DOIS POEMAS - Teu Olhar - Manhosamente (VA)


TEU OLHAR
Vicente Alencar*

Teu olhar
é uma janela aberta
de beleza.

Vejo pelos teus olhos
o mundo que nos
mostra a vida.

Encontro-me feliz
quando fitas os meus olhos,
com tua mensagem de amor.

Destacar o amor no olhar,
é sentir o caminho
que emana do coração.
  

MANHOSAMENTE
Vicente Alencar*

Desfilas manhosamente,
em noite de Lua Cheia
onde meus olhos não se contém.

A cada noite,
a cada dia,
uma renovação.

A cada sorriso meu amor aumenta,
a cada palavra ficou mais perto de ti,
a cada gesto te admiro mais.

Desfilas manhosamente,
de maneira tão pessoal,
tão simples,
que não dás conta
dos meus olhares intensos
e absolutamente apaixonados.
Não canso de acompanhar teu porte.

Desfilas manhosamente,
aumentando a cada minuto
o maravilhoso amor que te devoto,
bem sabes,
do imenso e desmedido carinho

que tenho por ti, minha bela musa.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

CRÔNICA - O Cone Rex (AM)


O CINE REX
Assis Martins*


Lembro-me até do que não quero, e não me posso esquecer do que quero. (MARCO TÚLIO CICERO).

Os comentários sobre costumes e acontecidos causam em muita gente verdadeira ojeriza, na maioria, gente que tem medo de envelhecer e continua na falaz ilusão de uma permanente juventude. Para esses, um saco essas relembranças, enquanto, para mim, o ato de relembrar e escrever sobre isso age catalisadoramente: as reminiscências me revigoram, pois, como ensina Platão, [ ] a recordação, quando retomada pela consciência, pode ser a eminência da base de toda sabedoria ou do conhecimento.

Para os pósteros, os modos & modas de hoje serão comentados como “saudosismo”. Assim, será comum alguém comentar: - Puxa vida, que tempo bom aquele das selfies (ou dos selfies), dos e-mails, do Facebook e do WhatsApp. Que saudade! Outro retruca: - Que nada, melhor é hoje que já temos o..., o... , o... E enumera as novas “invençanças” em uso. Nessa época, talvez não se distinga mais o que é real ou virtual, de tal modo tênue está ficando a zona limítrofe das duas realidades.

A verdade é que, mesmo transitando com facilidade no universo desses modernos expedientes de comunicação, ainda me amarro em muitas recordações da minha infância. Uma delas é o Cine Rex, em Fortaleza – Ceará.

Pertencente à Empresa Cinematográfica Luiz Severiano Ribeiro, funcionava na rua General Sampaio nº 1263 (do lado do sol) entre as ruas Pedro Pereira e Pedro I, onde anteriormente havia a Serraria Rodolfo.

O ano de 1940 foi pródigo em aparecer várias casas de exibições cinematográficas: no dia 6 de junho, foi inaugurado o Cine Cristo Rei, em 18 de junho, o Cine Odeon, e o Rex, em 10 de agosto, com o filme A Enfermeira Edith Cavell, com Ana Neagle, Edna May Oliver e Mary Robson. As suas portas, no entanto, foram fechadas no dia 13 de setembro de 1941, exibindo na última sessão o filme Os Milhões de Herança. Foi também a extinção da empresa que o havia criado, a Clóvis Janja & Cia. Ltda.

Esse “Cinema” ressurgiu em maio de 1944, com outro dono, fazendo parte do circuito Severiano Ribeiro, e, durante pouco mais de 16 anos (encerrou as atividades em 1960), foi de grande importância no entretenimento de muitos jovens. A nossa geração não dispunha da massa de informações disponível hoje na Internet e tinha que dar mangas largas à fantasia por intermédio dos filmes em preto e branco, da RKO, e das revistas Capitão Marvel, Superman, Mandrake, Gibi, Reis do Faroeste, O Globo Juvenil e tantas mais.

Todos estes meus relatos têm um tom nostálgico e, segundo Mário Quintana, “O passado não reconhece o seu lugar, está sempre presente”. O que ficou marcado indelevelmente não foi o “Cinema” em si, bem acanhado com os seus 600 assentos, as instalações físicas ou a localização, porém, o clima que havia na nossa geração, meninos ávidos por aventuras como as vividas pelos heróis dos quadrinhos.  

Era uma movimentação grande que começava cedo nas filas das matinês e vesperais dos domingos. Eu levava algumas revistas usadas (muitos faziam isso) e havia então uma espécie de escambo, quase sempre na base de três revistas usadas por uma nova, ou figurinhas repetidas. (As estampas do sabonete Eucalol tinham muito valor e fizeram sucesso desde 1930 até 1960. O formato era de 6 x 9 cm com um desenho na frente e um texto na outra face. Eram muito procuradas, como as da série Uniformes do Brasil).

Havia também o recurso para conseguir o dinheiro do ingresso: era chegar bem cedo e pegar um espaço no começo da fila, então, era só esperar os meninos mais abastados que chegavam prestes ao começo da sessão e “vender” o lugar. Quase sempre sobravam alguns trocados para comprar os bombons feitos na Fábrica Viriato, que ficava ali pertinho, na Av. Duque de Caxias. Esses bombons eram ruins até dizer chega, mas tinham um gostinho de lucro!

Claro que todo negócio tem seu dia de zebra e assim aconteceu numa vesperal quando a coisa desandou. A troca de revistas falhou, não houve venda de lugar na fila ...; e o pior: o ingresso tinha sido aumentado de oitocentos para mil réis; com o dinheirinho contado, a saída foi irmos, eu e mais dois colegas, numa marcha apressada até o bairro do Otávio Bonfim, onde conseguimos assistir, no Cine Nazaré, à imperdível série do Império Submarino.

Meu grande desejo era completar catorze anos para poder entrar na sessão noturna, onde, na minha imaginação, deveriam ser exibidos mistérios e coisas inomináveis para uma casta privilegiada, principalmente sobre sexo. Aliás, numa sessão da tarde, foi exibido um filme com uma cena onde a mocinha vai tomar banho numa lagoa e, antes de ela tirar a roupa, passava um trem impedindo a visão. Vi o filme três vezes e o trem nunca atrasou!

Esses fatos são bons para serem relembrados, mas, confrontando as gerações, vemos que os meninos de hoje são privilegiados pelo progresso em todas as áreas, pelo desenvolvimento da tecnologia que lhes dá um cabedal muito grande de conhecimento, inserindo-os na realidade desde tenra idade.

Hoje percebo a diferença ao ver crianças brincando nos parques naqueles pula-pulas, e aí fico pensando na minha meninice quando íamos jogar bola na calçada quente do Ginásio 7 de Setembro...


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

RESENHA - Boaventura Santos (RMR)


A FÍSICA PARA A FILOSOFIA
COMO A LAVOURA PARA A POESIA
Rui Martinho Rodrigues*


NOTÍCIA
Para onde vai a democracia? Esse é o ponto de partida do livro A difícil democracia (Boitempo, 224 pp, R$ 52), de Boaventura de Sousa Santos, que busca também discutir a urgente reinvenção da esquerda. Essa reinvenção passa necessariamente por uma reflexão profunda sobre os impasses da experiência democrática, cujos sintomas despontam de maneira mais aguda no presente. “Vivemos em sociedades politicamente democráticas e socialmente fascistas”, adverte o autor. Boaventura argumenta que a chegada dos governos de esquerda ao poder na primeira década do século XXI, especialmente na América Latina, não deu espaço para o debate sobre a diversidade democrática, o que resultou, na segunda década do milênio, no monopólio de uma concepção de democracia de tão baixa intensidade que facilmente se confunde com a antidemocracia. Ao longo de mais de duzentas páginas – compostas por ensaios, cartas e entrevistas sobre o mundo contemporâneo –, o sociólogo passa a limpo o percurso da democracia ao longo do século XX em uma escrita rápida e de fôlego. 


Eis o que a notícia sobre o livro do Boaventura de Sousa Santos[1] me faz pensar, considerando o que é dito na notícia e o que eu conheço dele:

O que o Boaventura de Sousa Santos chama de “sociedade fascista”? Ele considera que vivemos tempos de movimentos de massa controlados por fortes partidos de convicção e isso é típico da sociedade de hoje? Ele percebe uma forte crença em algum projeto messiânico? Registra a presença de fortes lideranças personalistas, à frente dos grandes movimentos de massa a que aludi? Isso seria fascismo, mas não vejo nada disso.

O festejado autor português, em outros escritos, lança mão da Física Quântica e relativista de um modo que me faz lembrar o livro do Alan Sokal e do Jean Bricmont (um matemático e outro físico) cujo título sugestivo é “Imposturas intelectuais” e o subtítulo é “O abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos”, publicado pela BestBolso em 2014.

Os dois autores fizeram uma pegadinha: escreveram um artigo falando da Física referida e de alguns tópicos da matemática, dizendo essas coisas que filósofos e outros pensadores que não sabem Física gostam de dizer, limitando todo conhecimento a uma mera perspectiva, supostamente com base na teoria da relatividade e na física quântica.

Ao fazê-lo, navegam na esteira do “homem que falava javanês”[2]; desfrutam do prestígio da Física e da Matemática; e reforçam a ideia de que cognição e valores dependem da perspectiva de classe, abrindo a caixa de Pandora e tirando dela, entre outras coisas, a ética teleológica, que permite tudo a quem se coloca como “do bem”.

O artigo foi aprovado pelo conselho editorial e publicado por uma revista acadêmica de grande prestígio internacional. Choveram elogios por parte de pensadores de grande fama no mundo inteiro, em torno dos quais formaram-se “igrejinhas de adoradores”. Foi quando o matemático e o físico escreveram um artigo dizendo que era uma pegadinha. Tudo o que eles haviam dito sobre Matemática e Física estava errado.

Um filósofo francês muito cultuado (Jacques Derida, 1930-2004)que havia elogiado o artigo, defendeu-se dizendo que não era físico nem matemático, que sempre usou aqueles argumentos (errados) apenas como metáfora.

Alan Sokal e Jean Bricmont responderam dizendo que não se usa metáfora de algo menos conhecido, mais estranho à cognição de quem escuta, para explicar coisa mais simples. A polêmica causou impacto e os autores da pegadinha escreveram o livro sobre as imposturas intelectuais.

Eu não havia lido o livro a que estou me referindo e já achava estranho que tudo fosse tratado como mera perspectiva, sem uma separação do tipo proposição de que se trata. Afinal, quem fala em verdade precisa esclarecer se está se referindo à verdade lógica, à verdade objetiva, à verdade moral ou à verdade ontológica. Parece claro que a verdade lógica paira acima disso, salvo se nos apegarmos aos erros de verificação, que não devem ser postos como insuperáveis.

Quem diz que se “A” é maior do que “B”, e “B”, por sua vez, é maior do que “C”, então “A” necessariamente será maior do que “C” está dizendo uma verdade incondicionada. Quem diz “se” “A”, “B” e “C” etc, apresentam essa ordem de grandeza está se referindo às grandezas certas, sem incluir medições deformadas pela perspectiva, isto é, está se referindo a cada coisa como ela é, não nas ilusões ópticas de uma perspectiva. “A” pode ter 8cm, “B” 5cm e “C” 3cm sem condicionamento de perspectiva.

Falar a respeito de verdade sem especificar a qual tipo de verdade se está tratando me parece negligência, paixão ou conveniência. Incomodado com o palavrório sobre Física Quântica e teoria da relatividade, procurei, quando estava em Recife, na UFPE, fazer a disciplina de teoria da relatividade no curso de Física (no tempo de colegial eu gostei muito de Física), como opcional do doutorado em História.

Os físicos não aceitaram. Alegaram que não havia tal intercâmbio com a História e que eu teria de fazer um monte de disciplinas previamente necessárias no campo da Física, principalmente da Matemática. Disseram ainda que a física relativista era disciplina opcional até para os físicos, e que estes raramente se interessavam por ela, por causa da exigência de Matemática muito avançada. 

Finalizando, disseram que eu não me preocupasse com o “besteirol” que o pessoal de humanidades (e até alguns físicos) diz sobre o assunto, porque é óbvio que os fenômenos de partículas menores do que o átomo (Física Quântica) e velocidade da luz, ou próximos a ela, e desagregação ou fusão de átomos (relatividade) nada têm a dizer sobre os fenômenos históricos e sociais ou sobre a cognição ligada a estes fenômenos. Acrescentaram que a teoria da relatividade não pode ser expressa em nenhuma língua, circunscrevendo-se estritamente à linguagem matemática.

Acrescentaram que Einstein explicou sucessivas vezes a teoria referida, mas ninguém entendeu (leigos e até físicos alheios especificamente ao assunto), simplificando cada vez mais a explicação, até que foi entendido por todos, mas aí já não era a teoria da relatividade! Esta não seria relativismo nem relacionalidade, como foi dito na explicação que todos entenderam, mas que já não era a teoria em questão, em um livrinho de divulgação científica muito divulgado, seguido de tantos outros de outros autores.

Explicaram que a constante da velocidade da luz, que é independente da posição e da velocidade do observador (integrante da teoria da relatividade), contraria a ideia de relação ou relacionalidade, justamente por ser uma constante independente: não interessa para que lado o observador está se movendo ou se está parado, a velocidade da luz será sempre a mesma em relação a ele. 

Afirmaram ainda que a maioria dos físicos não sabe nada da teoria da relatividade.

Quando o Boaventura de Sousa Santos invocou a teoria da relatividade e a Física Quântica, em escritos pertinentes aos fenômenos histórico-sociais, lembrei-me dos positivistas, que pretendiam explicar estes fenômenos com os parâmetros da Física newtoniana; do homem que falava javanês (a semelhança das teorias que ninguém entende); das imposturas intelectuais – e deplorei a atitude do português renomado. Lamentei mais ainda que ele seja tão festejado.




[1]  Pensador português aposentado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Doutrinador jurídico nos campos da Filosofia do Direito e da Sociologia do Direito.

[2]  Conto do escritor brasileiro Lima Barreto que narra a história de Castelo, um malandro que, no começo do século XX, finge saber o javanês para conseguir um emprego e afinal fica famoso como um dos únicos tradutores desse idioma, sem encontrar quem o desmascarasse. 


sábado, 7 de janeiro de 2017

NOTAS SOCIAIS - Evaldo e Luciano


HOMENAGENS AOS
ACADÊMICOS
EVALDO GOUVEIA E


Na Tenda Árabe, lounge da ACLJ na Embaixada da Cachaça, na noite de sexta-feira, 06 de janeiro, o célebre artista sônico cearense Evaldo Gouveia, Benemérito da ACLJ, e sua mulher, a advogada Liduína Bessa, bem como os alemães Jürgen e Gizela Thurn, diretamente da cidade de Colônia.





Em torno deles os acadêmicos Reginaldo e Adriano Vasconcelos, entre familiares, o embaixador Altino Farias e o comendatário da ACLJ Alexandre Maia.




















Evaldo se encantou com a voz da cantora Manu, que fazia a sonorização da festa com o violonista Tony Bala. Quis conhecê-la, e trocaram figurinhas. 

Ela ficou de ensaiar o repertório de Evaldo, para uma audiência especial na próxima sexta-feira, na Embaixada, e ele quer promover sua carreira nacional, apresentando-a fora do Ceará. 

Na reunião, que se alongou até as 4:00h da manhã, Dona Estefânia Vasconcelos, que é grande fã do repertório romântico do compositor, do alto dos seus 84 anos, permaneceu até o fim.


LUCIANO MAIA


Já na tarde deste sábado, dia 07, a Embaixada da Cachaça recebe festivamente o aniversariante Luciano Maia, seu irmão Virgílio, sua mulher Ana Maria Jereissati (nos detalhes) e amigos que homenageiam o poeta pelo transcurso da sua sexagésima oitava primavera. Em pé, o acadêmico da ACLJ Sávio Queiroz. 
     

   
A reunião é embalada pelo violão de Ronald Carvalho e pela voz da jovem cantora Jessica Giambarba, que trouxe sua claque pessoal, a mãe Socorro e a tia Inês, e a bela psicopedagoga Rosamélia Balreira, registradas nas imagens abaixo. 



Luciano Maia, cônsul da Romênia em Fortaleza, é advogado, jornalista e professor universitário, um dos maiores poetas cearenses da atualidade. É ainda imortal da Academia Cearense de Letras e Membro Titular da Academia Cearense de Literatura de Jornalismo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

NOTA JORNALÍSTICA - Espelhando Arte


ESPALHANDO ARTE

O artista plástico Totonho Laprovitera está espalhando sua arte pela cidade em outdoors afixados no transporte coletivo, conforme o flagrante, em foto de Fernanda Laprovitera,  que abaixo registramos. As ruas da Capital estão em flor, com exemplos da obra de um de seus mais talentosos artífices da beleza.
    


FILOSOFIA - A Amizade (RV)


A AMIZADE
Reginaldo Vasconcelos*

Não ser amigo, não é ser inimigo. Não é sequer ser indiferente. Pode-se ser muito atencioso com alguém, ser respeitoso, afetuoso e reverente com ele, até admirá-lo, e nem por isso ser amigo.

O amigo é aquele para quem você olha e se vê nele. Você se vê nele, um pouco diferente do que você é, mas aceita as diferenças com carinho e com respeito. É a identificação mais imediata e mais perfeita.

Em suma, o amigo é você mesmo, sendo e vivendo uma experiência diferente na existência. É uma extensão afetiva do próprio ser. Para o amigo não se tem segredos. Por ele não se medem esforços, e se lhe reserva um manancial infinito de perdões.

Entre os amigos as palavras são sinceras de tal forma que quando evidentemente são pequenas mentiras defensivas, aquele que as ouve faz de contas que acredita, mas passa a atuar para que, naquele particular, o amigo não mais se precise defender.

Aliás, se as palavras são preciosas na amizade, porque mesmo quando não são verdadeiras são paródias da verdade, no entanto entre amigos que demoram juntos elas não são imprescindíveis, como o são entre conhecidos menos íntimos que se façam companhia.

Somente verdadeiros amigos podem ficar calados lado a lado no sofá, cada um entregue aos próprios pensamentos, ou numa longa viagem por terra de automóvel, desfrutando serenamente a convivência, sem que o silêncio de um incomode o outro, ou sugira tédio, ou provoque mal-estar.        

Interessante notar, ninguém é amigo porque admira as grandezas do outro, que, embora orgulhem o amigo, não são elas jamais a causa da amizade – até porque as grandezas alheias são mais razão de inveja que de afeto.

Já as pequenezas do amigo fazem parte da amizade, quando se as conhece, as aceita, procura compensá-las – assim como o filho belo, sábio, célebre, certamente envaidece, mas o amor desmedido dos pais é por aquele limitado, feioso, doentinho.

Então, a amizade é uma instituição muito importante, relacionada ao conceito de ética, não se devendo confundir com outros tipos de relações e sentimentos.

A ética não é uma lei natural, ou um intuitivo código universal a ser seguido, ao contrário do que se tende a acreditar. A ética é na verdade uma norma de conduta que se estabelece entre o indivíduo e um determinado estamento social a que pertence – a sociedade civil, a família, a igreja, a profissão, o casamento...

Como a pessoa vai firmando muitos desses pactos sociais durante a vida – a partir do compromisso tácito que o cidadão assume com o ordenamento jurídico – a ética tem várias camadas, como as que formam uma cebola.

No centro da cebola está a ética da lei, depois a ética da família, e logo em seguida a ética da amizade. Somente depois as outras camadas. Por exemplo, mesmo não devendo ser conivente com um amigo incriminado por delito penal, se lhe deve ser moralmente solidário até a morte. Então, nessa hierarquia deontológica, apenas o núcleo familiar é mais importante que os amigos. 

E a amizade se verifica dentro e fora da mais ampla parentela. O segredo do casamento feliz, por exemplo, é a amizade do casal.

Ninguém pode ser mais amigo do que o próprio cônjuge, para as grandes e as pequenas coisas da existência. Quando essa amizade se desgasta, contaminada por segredos e mágoas, resta abalado o matrimônio.

Para além da amizade, há ainda a “alegria da amizade”. Aspectos do caráter de um amigo até então insuspeitados, uma vez percebidos, podem ocasionar a perda da euforia do encontro e do prazer da convivência – mesmo sem destruir a amizade, que por definição é imorredoura. 

Aliás, a amizade não sofre a ação do tempo e da distância. É como o mel, único alimento puro e imune, que nunca se degrada ou se corrompe. Amigos distantes e ausentes um do outro, por mais longínquas geografias e por mais longas eras, mantêm sempre fresca e atual a amizade. 



COMENTÁRIOS:

Esse texto de Reginaldo Vasconcelos é uma das suas mais belas performances literárias. Vejo ali o seu incontestável talento com as palavras e a agilidade com a qual trafega entre os diversos gêneros e estilos da curta literatura mas, e em particular, a sensibilidade de quem não teme as lágrimas ou os sorrisos e a nobreza de caráter de quem elege a amizade a sentimento sagrado. George Eliot sentenciou: “A amizade é o conforto indescritível de nos sentirmos seguros com uma pessoa, sem ser preciso pesar o que se pensa, nem medir o que se diz”.

Geraldo Jesuino





Congratulações ao prezado amigo Reginaldo Vasconcelos pelo belo texto filosófico “A Amizade”, que realça a fraternidade e a compreensão verazes, cujos atributos merecem ou mereceriam imperar no âmago da humanidade.

Por oportuno, rogo-lhe a permissão de atentar para o antagonismo da 'verdadeira amizade' e da 'falsa amizade' (nem sempre inimizade), expresso nas duas assertivas seguintes:

 – uma, “os verdadeiros amigos são iguais às estrelas, embora possam estar distantes, não deixam de brilhar”; e,

– duas, “amigos falsos são iguais às aves de arribação: se faz bom tempo, eles ficam; se faz mal tempo, eles vão”.


Betoven Rodrigues





Há um pagode, de autoria de Serginho Meriti e Claudio Guimarães, que considero o que há de melhor no repertório do Zeca Pagodinho. A letra, encaixada em uma melodia épica, trata exatamente sobre a amizade verdadeira e a amizade falsa, a que o amigo Betoven se refere. A música se chama “Quando a Gira Girou”. Recomendo conferir no Google.

Reginaldo Vasconcelos



QUANDO A GIRA GIROU

O céu de repente anuviou
E o vento agitou as ondas do mar
E o que o temporal não levou
Foi tudo que deu pra guardar
Só Deus sabe o quanto se labutou

Custou, mas depois veio a bonança
E agora é hora de agradecer
Pois quando tudo se perdeu
E a sorte desapareceu
Abaixo de Deus, só ficou você

Quando a gira girou, ninguém suportou
Só você ficou, não me abandonou
Quando o vento parou e a água baixou
Eu tive a certeza do seu amor

Quando tudo parece que está perdido
É nessa hora que você vê 
Quem é parceiro, quem é mau amigo
Quem tá contigo, quem é de correr
A sua mão me tirou do abismo
O seu axé evitou o meu fim
Me ensinou o que é companheirismo 
E também a gostar de quem gosta de mim

Na hora que a gente menos espera
No fim do túnel aparece uma luz
A luz de uma amizade sincera
Para ajudar a carregar nossa cruz
Foi Deus que pôs você no meu caminho
Na hora certa pra me socorrer
Eu não teria chegado sozinho
A lugar nenhum, se não fosse você.

        

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

NOTA CULTURAL - Lançamento-Show de Livro-CD


INÊS MAPURUNGA
E SUA MÚSICA DE RAIZ


A acadêmica Inês Mapurunga lançará um alentado trabalho literário e musical sobre ritmos de raiz africana sincretizados na cultura cearense, como o Maracatu, na sua versão local, dentre outras manifestações artístico-musicais do mesmo gênero.

Inês Mapurunga de Miranda, nas artes Inês Mapurunga, tem formação em Geografia, com pós-graduação em Agronomia, e com militância no magistério superior na Cadeira de Educação Ambiental.

É também escritora e poetisa, além de compositora e estudiosa de cultura e arte, com foco na herança indígena e africana no ambiente alencarino. 

A musicista convida a todos para o lançamento-show de seu livro-CD, que será no próximo dia 15 de janeiro, no Cine Teatro São Luiz (Praça do Ferreira), às 18:00h, e que certamente será de grande beleza artística e riqueza cultural. Terá entrada franca.


POEMA - Distância (VA)


DISTÂNCIA
Vicente Alencar*


O coração saindo pela boca
o corpo sofrendo horrores,
o nervosismo
tomando conta de tudo.
Estavas ali
pertinho de mim
mas tão longe
como o outro lado da montanha.
Sofri mais,
pois senti a frieza
do instante.
Uma superando a outra
deixando-me
infinitamente triste.
Pensei
que a morte estava perto!
Em 2 de setembro de 2009.
  


A coisa mais divina que há no mundo
é viver cada segundo como nunca mais.

(Vinícius de Moraes)



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

CRÔNICA - Bolinhas de Natal


Bolinhas de natal
Paulo Ximenes*


Se o presente é curto, o futuro traduz a incógnita. Por isso, a minha memória ecoa como um tiro. Só o passado é longo; só ele abocanha inteiramente a minha vida. Louvo o meu passado porque o meu passado sou eu.

 
Morávamos na Rua Padre Mororó, defronte ao atual Mercado São Sebastião, quando eu ia pelos meus seis anos. Éramos quatro: eu, minha irmã Ângela e os meus pais. Impressiona-me muito a nitidez das memórias de infância. Imagens tridimensionais com cheiro e cor. O calendário acusava 1956.

Antes do mês de dezembro se iniciar, como ocorreu por anos a fio, a minha mãe já armava uma grande árvore de natal. Como eu era pequenino ela parecia gigantesca, uma árvore real. Meu pai, na folga de um domingo, recortava finas camadas de algodão que fazia estender pelos galhos verdes, querendo imitar a neve; e minha mãe pendurava graciosos enfeites coloridos, principalmente brilhantes bolinhas douradas, vermelhas e prateadas.

O que me encantava mesmo era o brilho intenso delas; refletiam a minha imagem e a dos carros que passavam velozmente pela rua. Situada a árvore nas proximidades de uma pequena janela – a casa era simples – raios de sol entravam pela fresta da porta e davam justo em cima de um punhado daquelas bolinhas espelhadas. Um luzeiro forte enchia a sala.

Aqueles instantes fugazes eu nunca soube explicar. Talvez tivessem relação com a grande ansiedade em receber presentes (como meu aniversário é no dia 24 de dezembro eu deveria receber, no mínimo, dois!), ou com a possibilidade de eu flagrar o “bom velhinho” entrando sorrateiramente em meu quarto, nas caladas da noite, com o seu pesado saco de presentes, em seus trajes vermelhos, em seu trenó de renas voadoras.

Preciosa oportunidade se me afigura nesta crônica: agradecer aos meus, pais que conseguiram driblar a minha curiosidade, e não permitir que me fosse tirado o envoltório de uma inocência tão pura, deixando acesa por mais alguns anos a lenda do Papai Noel. 
Agora, quase sessenta anos depois, eis-me aqui em meu sofá, observando a montagem de uma moderna árvore de natal, a servir de encanto ao meu primeiro neto. Muito laço de fita, sinos de Belém, luzes piscantes, mas sem o algodão-neve (saiu de moda) e com bolinhas de natal de pouca resplandecência. Que ele veja nelas o mesmo brilho que eu vi em 1956.