domingo, 13 de julho de 2014

ARTIGO (RMR)

A POLÍTICA E AS ELEIÇÕES DE 2014
Rui Martinho Rodrigues*


A vida política expressa, entre outros fatores, a cultura de um povo; a sua organização jurídica e política; a dinâmica da política em sentido estrito.

Mário de Andrade fez, com o Macunaíma, uma caricatura do brasileiro, expressando a nossa irresponsabilidade e o nosso deboche. Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, aludiu à figura do “semeador”, referindo-se à falta de critério na condução da coisa pública, desde os tempos de colônia.

Ainda Buarque de Holanda, em “Visões do paraíso”, fala da licenciosidade sem limites, relacionando-a à crença segundo a qual não haveria pecado abaixo da linha do equador, também nos primeiros tempos de colônia. Cultura integra o que os historiadores chamam de longa duração.

A organização jurídica e política brasileira é marcada por uma federação paradoxalmente centralizada; e pelo Poder Executivo imperial, reinando absoluto sobre os demais poderes.

Estados e municípios pobres dependem do governo central. Os vereadores dependem dos favores dos prefeitos para elegerem-se. O governo central controla, via finanças, os prefeitos. Estes controlam os vereadores, que fazem a ligação com as bases eleitorais. Também por isso os governos são favoritos nas eleições, embora o povo esteja insatisfeito com os serviços públicos. São as eleições a bico de pena, em edição revista e atualizada.

A política é marcada pelo presidencialismo de coalizão, o voto proporcional, o quociente eleitoral e a transferência de votos para candidatos não sufragados. E mais: partidos sem programas, cujos candidatos saem do bolso do colete dos donos das agremiações. Campanhas eleitorais milionárias fecham com chave de ouro o quadro político, financiadas, indiretamente, pelos cofres da “viúva”. Não nos admiremos, pois, da crise de representação política que assola o País, nem do favoritismo governamental.

A disputa eleitoral de 2014 já está posta. Candidatos e partidos indiferenciados pela ausência de programas dignos de crédito – e pela falta de representação – esforçam-se por parecer mais convincentes, exibindo as mesmas bandeiras e promessas.

A completa hegemonia da ideia do estado provedor aboliu, sob certo aspecto, o debate programático. Temas específicos, como reforma tributária e matriz energética são cuidadosamente evitados. Políticos e marqueteiros não gostam de entrar em bola dividida.

O favoritismo governamental é, em grande parte, explicado pela facilidade de financiamento e pelo uso da “máquina” governamental. As alianças, por seu turno, não trazem novidade. Pactos eleitorais entre forças heterogêneas não surpreendem os brasileiros. A Aliança Liberal, que apoiou Getúlio Vargas em 1930, era a mistura de óleo e água, e a Nova República nasceu sob o Governo Sarney, integrante do regime destituído.

A possibilidade de quebra da mesmice, em 2014, se radica na substituição de uma eleição meio plebiscitária, por outra mais personalista, quebrando a falsa dicotomia da política brasileira. É por isso que a permanência de Marina Silva na pugna eleitoral causou tanta preocupação aos candidatos e marqueteiros de plantão. Será isso um pulo de gato?

*Rui Martinho Rodrigues
Professor - Advogado

Historiador - Cientista Político
Presidente da ACLJ
Titular de sua Cadeira de nº 10

ARTIGO (AG)

PARA SERVIR DE CONSOLO?
Aluisio Gurgel*

Em 1966 o Brasil foi eliminado na primeira fase. Classificaram-se Portugal e Hungria, rodamos nós e Bulgária. Pode parecer texto de consolo, mas não é. Os craques da época enchiam os olhos de qualquer torcedor.
O goleiro era Gilmar(SAN), A zaga tinha Paulo Henrique(FLA), Altair(FLU), Bellini(SAO) e Djalma Santos(PAL). Pelo meio jogavam Lima(SAN), Pelé(SAN) e Denilson(FLU). No ataque Garrincha(COR), Alcindo(GRE) e Jairzinho(BOT).

Após o desastre vieram as frases, a pior delas de Ernesto Santos, olheiro da Seleção de 1966: "Se os brasileiros encararem a realidade, vão perceber que o tri só virá por um milagre."

Em 1970 o milagre aconteceu nas férias do terceiro ano primário. Minha professora era a dona Margarida (nessa época, tia ainda era a irmã dos nossos pais), no Colégio Cearense do Sagrado Coração.

Depois disto, ainda embolsamos mais dois campeonatos mundias e, agora, em 2014 ficamos em quarto lugar jogando em casa. É um texto de consolo? Parece, mas não é. É texto de amadurecimento, de preparação para o que virá.

Falem os arautos da derrota, deem a conhecer as frases com as quais julgam demonstrar sapiência, à exemplo do pobre Ernesto Santos, que muito cedo engoliu o dito.

Como diria um verso de "Only Yesterday", dos Carpenters, the best is about to be!. O certo é que de futebol, quem mais sabe, sabe que ora é tempo de ganhar, ora é tempo de perder; e sempre é tempo de aprender, com vitórias e derrotas.


*Aluisio Gurgel do Amaral Jr
Juiz de Direito – Professor – Escritor
Titular da Cadeira de nº 14 da ACLJ

sábado, 12 de julho de 2014

CRÔNICA FUTEBOLÍSTICA – O RESCALDO(RV)

FUMAÇA E CINZAS
Reginaldo Vasconcelos*

Se um brasileiro ainda tivesse moral neste momento para pontificar sobre o football association, eu diria que os  selecionados da Alemanha e da Holanda não ganharam do Brasil nas semifinais e na disputa do terceiro lugar da Copa Mundi, respectivamente, pois foi o Brasil que perdeu, em ambos os casos.

Um time ganha de outro quando luta de forma esforçada para obter um resultado, sua a camisa, vira o placar, enfim, demonstra que superou uma deficiência própria ou desequilibrou uma igualdade, como  fez Rocky Balboa na película famosa. Não é isso que acontece quando se vence por pura incompetência do rival.

A torcida empurrou o time do Brasil para vencer, mal e porcamente, os primeiros jogos da Copa, com muita dificuldade, aproveitando-se de falhas da arbitragem,  contra as equipes menores de sua chave, para em seguida revelar-se um time de várzea contra os portentos mundiais.

E não vigora aqui o preceito basilar do espírito olímpico amadorístico, segundo o qual o que vale é competir, e se possível vencer, o que presumiria perder um campeonato com absoluto fair-play e altivez, com serenidade e com modéstia.

Não. Aqui se tem uma atividade milionária, profissional, em que os nacionais de cada país representam em campo o seu povo como um todo – sua saúde, seu vigor, sua inteligência, sua capacidade de prosperar e de vencer. Um resultado acachapante, neste caso, denota o desmantelo político e moral de uma nação.

Mas vale notar que não foram os jogadores brasileiros que perderam a Copa de maneira vergonhosa. Os rapazes se mostraram interessados, prontos a dar o próprio sangue, necessário fosse, para vencer cada partida. E choraram lágrimas de sangue ao defrontar o desafio. A culpa é toda ela da conjuntura em que eles se inserem.

A falta de entrosamento, de treino, de inteligência tática aplicada, para somar o valor de cada qual em prol do grupo, foi isso o que nos levou a quase perder tudo nos primeiros jogos, e por fim perder o restinho que restava, de maneira fragorosa. Não se  tinha uma equipe em campo, mas um grupo de talentos desconjuntados entre si.

E o cronista faz aqui a retratação do que considerou em um artigo anterior, quando imaginou que as lágrimas dos meninos do selecionado brasileiro, durante a execução do Hino e antes dos chutes diretos a gol que definiram uma partida, pudessem ser de raiva, de júbilo, frutos de vigorosos sentimentos.

Qual nada, tinha razão o vulgo quando viu naquilo um pranto de fraqueza e insegurança, de quem sabia que não poderia com aquele piano que a Nação encomendara e lhes cobrava, até o fim da jornada desportiva. Intuíam os jogadores brasileiros que a equipe não estava à altura do desafio tenebroso de salvar a honra nacional com as chuteiras.

Porém, na ordem geral das coisas, tudo começa pequeno e vai crescendo: a tragédia é a única exceção. Esta sempre nasce gigante, e depois vai encolhendo, à medida que o tempo passa e que os atingidos por ela vão absorvendo a realidade, vão superando a angústia, vão aprendendo a viver com as consequências – até que tudo esteja convertido nas cinzas da história e na fumaça da lembrança.


*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ 

ARTIGO (VM)

AMÁLGAMA,
de Cristiane Almada
Vianney Mesquita*

Cristiane Almada,
Amada, amalgamada, numa gama de amor.

Amor que gama, se funde e flama,
Sem ou com dor: amálgama-chama. (V.M.)

José Bento Monteiro Lobato, já ao tempo de sua notável produção literária, deplorava o desgaste do vocábulo poeta, decerto em razão da munificência emprestada pelo Movimento de Fevereiro de 1922 – a Semana da Arte Moderna: Que surrada andas tu, pobre palavra, e quão longe do sentido íntimo, pelo abuso de te vestirem quantos por aí medem versos nos dedos para uma periódica postura nas revistas!

Evidentemente, assistia razão ao enorme Escritor e patriota, em decorrência da supercopiosa produtividade de versos de gosto desabrido e estro somenos derramados por todos os quadrantes do País.

Se vivesse hoje († 1948), a decepção se teria proporcionado, por certo, haja vista a pletora poética de má qualidade no ativo fixo de nossa Literatura, somente perdendo feio, felizmente, para o metro de boa essência, bem mais substancioso no recheio literário contabilizado no Brasil.

A fim de sossegar um pouco os cuidados de Lobato, me faz surpresa a novel poetisa (este é o único feminino de poeta) Cristiane Almada, com a estreia do seu Amálgama, onde esparge inspiração, ao empregar tropos e expedientes figurais dispostos pela Língua de Reginaldo Vasconcelos, com vistas a demonstrar o engenho e a estética de suas estâncias, admiravelmente adversas à mesmice da vala comum.

O traçado das suas estrofes é inteligente, nalgumas passagens sobra cristalino; noutras circunstâncias, porém, parece cifrado ao leitor menos perspicaz, o qual, ao insistir na demanda de descodificá-lo, sem dúvida obterá sucesso, pois lábil dissimulação estilística.

Sua temática é genérica, indeterminada, gravita, porém, em particular, como é costumeiro, à órbita do amor, divisa de todos os versejadores da Terra. A arte da qual se reveste, contudo, é demonstrativa não apenas do depurado influxo, mas também de seus haveres intelectivos e perspicácia elocutória, conducentes a uma poesia revestida da especiosidade própria dos versos bem consoados empós colhidos do interior anímico.


Cristiane Almada, com toda a convicção, não é barda comezinha, nas palavras e na expressão inspirativa, mas poetisa ilusória do leitor, pois, se o poeta não ilude – sugere Giacomo Leopardi (1798-1837) – não conduz esse nome; e falar em poesia pensante é igual a referir-se a animal falante.


Eis, por conseguinte, à disposição do público este conjunto de bons versos para deleite do espírito e floração da alma, num tempo tão difícil, de cataclismos, tsunamis e conflitos de toda ordem, não apenas no terreno secular, como também, principalmente, na circunscrição dos eventos espirituais.
 *Vianney Mesquita 
 Docente da UFC 
Acadêmico Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa  
Acadêmico Emérito-titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo 
Escritor e Jornalista

quinta-feira, 10 de julho de 2014

SEQUÊNCIA POÉTICA II

ODE AO BOTEQUIM
Luciano Maia
O botequim é esquina. Só a esquina o reconhece por inteiro.

Do norte, chegam os engravatados da bolsa, sem paletó
e consomem tagarelas as primeiras lapadas das seis horas.

A seu canto, o velho violonista que tangia a tarde, hesita.

Do sul, chega o cabeleireiro que leu Vinicius e se afeminou
por profissão. 

Do poente, chega o vereador antigo com a sua matreirice
mal disfarçada em sua cara de "tudo bem".

E do leste, eis que ainda chega o solitário, o sem-solução
calado em sua avidez de fogo líquido.

E do leste, eis que ainda chega o solitário, o sem-solução
calado em sua avidez de fogo líquido.

 - Boa noite, poeta.

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SEVANDIJA
Vianney Mesquita
Seguramente em erro o mau destino
Equivocadamente concedeu
A existência - enorme desatino!
À abjeta criatura que sou eu.

Incapaz de operar boas ações,
Fraco, infido, tratante e imoral,
Nas mais diferentes situações,
Tudo o que fiz foi para o bem do mal.

Nem de morrer, sequer, tenho coragem
E até a morte foge à minha imagem
Porque não faço jus ao lume eterno.

Decerto Satanás negue o decesso,
Pois se à geena eu tivesse acesso,
Congelaria o fogo do inferno.

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13 Graus
Karla Karenina
 Tá frio lá fora, meu amor.
Entra, que dentro de mim é só calor!
Tudo é calor no meu ser, lareira acesa.

Meu corpo incendeia, arde em brasa por causa de ti,
Vem, que esse fogo não te queima, não!
Ele só quer te esquentar, te aquecer
E acender a fogueira da minh'alma outra vez.

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DECRETO MAIOR
Vicente Alencar
Fica decretado,
por rigor da condição maior,
que brigas e desentendimentos,
entre duas pessoas que se amam,
estarão condenadas ao esquecimento.

Por ordem maior dos sentimentos,
não serão toleradas agressões,
e sim, maximizados todos os esforços
para que o amor não sofra danos nem arranhões.

Por completa decisão superior
anular-se-ão as discussões que, porventura, surgirem.
Acima de tudo,
os ressentimentos serão abolidos
evitando-se, assim, sofrimento
de ambas as partes.

Parágrafo único:
Que o amor seja o sentimento maior!

Paço do Entendimento,

dia do equilíbrio do ano do coração.

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AO POETA LUCIANO MAIA
Paulo Ximenes
Dentre os poetas nossos, alencarinos,
ao fogueio das estrofes mais vibrantes,
és o cearense-mor – poeta andante,
adeso à alma de um menino.

É volvendo o mundo, sem destino,
escreves versos tão elegantes!
(distantes dos poemas que assino)
em teu brilho de estrela viajante.

Das mil cidades por onde andaste
criptografadas em tua alma
fluem beleza, feitiço, história salva,
de cada povo, de cada dor, de cada arte.

E assim – da maneira com que me contaste
nas cidades míticas – tão alvas!
Conheci o mundo, inteiro, em parte
Sem sair de casa. Em minha calma.

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Prisioneiras
Concita Farias


A cadeia
Tem grades
Para aprisionar
Gente,
Que às vezes
Não devia presa
Ficar.
Gente
Que anda
Na rua,
Presa devia
Ficar.
E gente livre
Presa está
Dentro de si,
Consciência
A doer,
Medo de viver,
Medo de si
Sem liberdade

Ter.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

CRÍTICA LITERÁRIA (RC)

PERFIL DE UM ESCRITOR (2 de 2)
Renato Casimiro*

Está bem entendido que o título Arquiteto a Posteriori, de Vianney Mesquita, não conduz a um rótulo que o próprio autor rejeita para classificar seus escritos. Desmontar e remontar uma obra, uma contribuição, não é do seu espírito, senão o da análise sincera do texto, sem o necessário vexame da biopsia indesejada. Efetivamente, há o viés da louvação – muitas vezes até justificado apenas por conveniências à luz de questionada conduta entre ética e razão. Hoje, por exemplo, são comuns e reprováveis, a quaisquer títulos, os negócios que se montam em torno de marketing para suportar sucessos questionáveis de obras literárias de valores discutíveis, pelo mundo. E há o caminho enviesado da crítica abusada, dos catadores de falhas e erros de toda sorte, guardas-civis da ordem gramatical, no dizer de Gilberto Freyre, mencionado pelo autor. Quero crer que Vianney Mesquita não se filie, com algum ranço, à possibilidade de desmonte crítico sincero, como o que aconteceu, por exemplo, em obra gestada nesta U.F.C., entre o novelista Durval Aires de Menezes e o crítico F.S.Nascimento, que realizou um belo trabalho com sua Estrutura Desmontada. Parece não haver divergência na ideia de que o relevante não é a técnica em si, mas a sinceridade com a qual se julga o mérito da obra. O estilo é o homem, e o seu é este de uma feição e afeição pela arquitetura da obra, como tal, sem o desmonte, ao depois, como ele mesmo se refere.

Aliás, vossa senhoria advertira em obra anterior – Fermento na Massa do Texto – ao assinalar: Não provamos, até agora, dos nomeados arquitetos a posteriori, conforme Sérgio Milliet da Costa e Silva chama os críticos. Todas as apreciações de trabalhos nossos – em livros, artigos de revistas, ou escritos outros têm tido a marca da urbanidade, sem açoites violentos, nem servilismos compadrescos à guisa de retribuição qualquer.

Isto, ao que me parece, também foi testemunhado por outros ao apreciar-lhe nos escritos. Batista de Lima, por exemplo, reconhece que o autor se esmera por [...] um vocabulário rico, uma frase lapidada dentro das normas da língua culta, um ritmo agradável que sequestra o leitor do começo ao fim. O intelectual, docente universitário e escritor, Gilmar de Carvalho – com predicados semelhantes ao do há pouco mencionado autor de Janeiro da Encarnação – em momento anterior, confirmara sua impressão mais forte, ao realçar o compromisso de Vianney Mesquita com a palavra, ao fazê-lo em textos de profundidade e elegância, especialmente em uma das suas áreas de domínio – a Comunicação.

Assim, professor Vianney Mesquita, agradeço-lhe pela convocação. Digo mais que assimilada como certa intimação que a admiração e o respeito, recíprocos, inspiram a nossa convivência fraterna e até familiar. Foi com muito gosto que procurei ler sua escrita mais recente, alargado pelo prazer de rever edições mais recuadas. De outras lavras, não foi menos prazeroso me deixar viajar por entre essas linhas de fino artesão da palavra, de frases e ideário que o vinculam ao necessário dom patriótico de cuidado e zelo pelo vernáculo, para, por ele, cantar o sentimento de sua nacionalidade exemplar. Conforme já nos advertia Alberto Nepomuceno, Não tem pátria que não canta em sua própria língua. E ao fazê-lo, sua linguagem nos encanta pela diversidade do vocabulário, pelo polimorfismo de suas construções frasais e pela elegância de um estilo comprometido com a beleza da expressão de seus sentimentos. Como exemplo fiel destas preocupações, sabe perfeitamente como estas são obrigações inadiáveis. Fê-lo, com certeza, e tão insistentemente, ao modo da crítica necessária a esclarecer e a orientar, na penitência da revisão, do analista, do professor, do editor, do patrocinador da emergência de novos quadros, dos quais ainda vai muito depender este deitado em berço esplêndido com o qual nos referimos, reservadamente, nos temores, os renovadores, novos e necessários caminhos da Literatura.

Por fim, foi do que li, gostei e recomendo sua leitura imediata e atenta. E se mais não aprendi, já lhe peço vênia por esta manifesta franciscana indigência literária. Aquilo que escreve nos faz muito bem, e aguardar que isto seja mais um livro é melhor ainda.
Que este seja como um daqueles ao qual se referia Dona Clotilde Queiroz ao dizer a sua filha, Rachel, para que seja um destes que ficam em pé, sozinhos, em nossas estantes.

***

*Os dois segmentos de Perfil de um escritor, ora publicados, configura o texto de apresentação do livro Arquiteto a Posteriori, do Professor João VIANNEY Campos de MESQUITA, lançado na Associação dos Docentes da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, no dia 19 de setembro de 2014.



*Antônio Renato Soares de Casimiro
Docente da Universidade Federal do Ceará
Escritor 
Engenheiro químico
Acadêmico Titular da Academia Cearense de Química

ARTIGO (RV)

É PROIBIDO PROIBIR
Reginaldo Vasconcelos*


“É proibido proibir” é uma frase popularizada por Caetano Veloso em título e letra de música dos anos 70, canção na qual a expressão é utilizada como refrão, e mesmo como mantra ideológico reiterado com insistência.

Claro, trata-se de uma frase de efeito que se referia aos excessos restritivos que se sofriam na época, quando a repressão política do Governo Militar, na sanha de controlar a esquerda, praticava censura cultural, que se espraiava para o campo da carolice e do pieguismo moralista.

A intenção do autor da música não era implantar a anarquia, mas protestar contra o cerceamento das liberdades individuais que a ditadura praticava, atacando as letras e as artes de forma radical naquele tempo, limitando os impulsos inovadores da juventude criativa.

Porém, passado o transe político já há tantos anos, como que sob o efeito prolongado de estresse pós-traumático o Poder Público brasileiro ainda permanece claudicando entre os conceitos de autoritarismo e autoridade – aquele um vezo nefasto, este último um preceito essencial à ordem pública, ao bem comum, à paz social.

Por exemplo, vem de lá um autoritário chapa-branca moderno e inventa de impor nível zero de alcoolemia aos guiadores de veículos, de modo a impedir até os padres de consumir o vinho ritual em suas missas e sair do estacionamento da igreja dirigindo, o que, está visto, é um exagero absoluto.

O Resultado disso, como já se sabe hoje, é que resta desmoralizada a tal “lei seca”, e os grandes bebedores continuam a guiar ébrios e a causar tenebrosos acidentes, enquanto as pessoas de bem enfrentem o ridículo de evitar até o brinde de champanhe, se vão dirigir, para não descumprir a letra fria.

Um outro obtuso do Governo resolveu reduzir a criminalidade nacional  restringindo severamente a arma lícita, para desarmar a cidadania e deixá-la ainda mais vulnerável à bandidagem desvairada, que permanece e permanecerá armada até os dentes, enquanto as polícias e a Justiça enxugam gelo – por mais enxuto fique ele.  

Não é que as pessoas de bem fossem reagir aos assaltos e dar cabo dos criminosos de plantão que as abordassem, mas o fato é que em sabendo não haver mais armas de fogo nas residências e nos automóveis das famílias, nos escritórios e nas fazendas, muito maior é o estímulo e a tranquilidade dos delinquentes para atacar as suas vítimas – isso é o óbvio ululante.

Houve ainda algum gênio federal que resolveu há algum tempo proibir o uso de filtros solares escurecedores dos vidros dos veículos, na presunção estúpida de evitar o anonimato de eventuais guiadores bandidos em fuga, num torto raciocínio dedutivo. 

Ora,  o que se conseguiu com isso foi facilitar o assalto a automóveis, já que sem a película escura os meliantes podem constatar a momentânea distração de suas presas ao volante, bem como a sua eventual condição de mulher indefesa, para perpetrar com mais segurança os seus ataques. Resultado: ninguém mais cumpre essa lei, que ficou sem eficácia.

Agora vem outra plêiade de notáveis impor a tal da “lei da palmada”, que certamente vai prejudicar a boa educação das crianças no seio das famílias sadias e normais, e não evitará que pais psicopatas e madrastas perversas trucidem e matem seus filhos e enteados, como fazem no mundo todo desde sempre – e tanto a história quanto a literatura o comprovam fartamente.

Todavia, ninguém tem autoridade para impor condições dignas de sobrevivência e tratamento a homens, mulheres e crianças que moram nas ruas das grandes cidades do País, ao relento, traficando e consumindo compulsivamente drogas aliciantes e mortais, em guetos imundos que o próprio Governo, nas três esferas, institucionaliza, respeita e legitima como sendo “cracrolândias”.

Essas pessoas, por lógica presuntiva, querem ser recolhidas e tratadas, na subjetividade de seu estado normal; precisam disso, pela evidência de seu mau estado de saúde; e devem sê-lo, ainda que compulsoriamente, pelo bem da sociedade, que perde seus cidadãos para a droga e vê a pequena criminalidade alimentada pela compulsão dos viciados.

Também se falece de autoridade para coibir invasões de imóveis públicos e privados por grupos de baderneiros, o ataque violento à sociedade sob o pretexto de fazer greve, de realizar protesto político, de exigir a reforma agrária, como se isso representasse o mais hígido exercício da cidadania e da liberdade de expressão, entrevistas na democracia e nos postulados da República.

Por fim, não há ainda quem tenha moral ministerial para dizer à Nação: a um, que a palavra “esporte” pressupõe uma atividade humana lúdica em que as pessoas disputem de forma leal, sobre o preceito olímpico do culto à saúde física e mental – mens sana in corpore sano; a dois, que, embora todas as modalidades desportivas envolvam riscos naturais de acidentes, não faz sentido tratar como esporte um jogo em que se vise objetivamente machucar o oponente, provocar-lhe dor, tirar-lhe sangue, se possível fazê-lo desmaiar a custa de sufocamento ou de pancadas; a três, que as verdadeiras artes marciais, sejam as japonesas, as coreanas e mesmo a capoeira brasileira  que os atletas treinam e em que competem procurando conter ou tocar os oponentes sem lhes afetar a integridade  não podem ser praticadas por dinheiro, com fins circenses, como nas sangrentas arenas romanas, nem combinadas para que se tornem beluínas.


*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ