EU
E
LÚCIO BRASILEIRO
Reginaldo Vasconcelos*
Cresci nos anos 60 ouvindo falar no jovem jornalista, maldito e detratado pela nossa classe média, porquanto ele já cortejava seletivamente o “ecossistema” dos “clubes elegantes” da cidade (principalmente o Ideal), que eram frequentados pelo estrato social composto por empresários e políticos, entidades que discriminavam fortemente a ninguendade popular.
Os clubes eram associações fechadas e com um número restrito de integrantes, e com um crivo apertado para a admissão de um novo sócio, que pudesse vir a superar suas muralhas para frequentar seus restaurantes, suas piscinas, suas festas.
Lúcio Brasileiro contou com o beneplácito dos colegas bem-nascidos dos bons colégios do passado, e, afinal, conseguiu a simpatia dos mais ricos e importantes, reportando inteligentemente na coluna social suas vidas glamorosas.
Lúcio Brasileiro tornou-se íntimo de governadores e de celebridades em geral, frequentando todos os grandes eventos da Capital cearense, dimanando noções intuídas e aprendidas de etiqueta social – o que a população machista da época considerava “frescura”, regramentos de conotação efeminada. Aliás, uma das pechas que lançavam injustamente contra ele era de “homossexualismo”, um gravíssimo labéu naquele tempo.
Lúcio namorava beldades, mas não se vinculava a alguma delas por noivado ou casamento, o que reforçava as suspeitas quanto à sua orientação sexual, pois era um tempo em que, por volta dos 18, 20 anos, todos os rapazes se casavam, raríssimas e malvistas exceções, enquanto as moças da mesma idade que não fossem desposadas passavam a ser vistas na condição de rejeitadas.
Mas LB flanava sobranceiro sobre a maledicência popular, sem responder às invectivas, no máximo lembrando o belo provérbio que certa vez eu o ouvi articular: “Ladram os cães... e a caravana passa”.
Porém, em certo momento, os cães não se limitaram a latir, mas resolveram morder a caravana que passava. Lançaram a público gravíssimas suspeitas absolutamente infundadas de que LB tivesse o hábito hediondo de praticar necrofilia – um distúrbio psíquico que causa atração sexual por cadáveres insepultos.
O jornalista Augusto Borges trazia para si o demérito de haver deflagrado esse boato, me contando, pessoalmente, que, na redação de um jornal em que ambos trabalhavam, um grupo de jovens repórteres acompanhava, de madrugada, o “fechamento” da edição, quando alguém lançou o desafio sobre qual deles teria coragem de ingressar no cemitério.
Ainda segundo Augusto Borges, o grupo teria se dirigido ao Cemitério São João Batista, subornado o porteiro, e somente LB teria se disposto a adentrar no campo-santo, aprofundar-se nele e retornar tranquilamente. Então, no outro dia, numa brincadeira de mau gosto, Augusto teria publicado uma nota no jornal dando conta de que LB fora visto vagando a desoras entre os túmulos na necrópole.
Mas o próprio LB me apresentou outra versão, dizendo que retornava de uma noitada no Country Clube com Gisa, sua namorada, conduzindo-a à casa dela, próxima ao Cemitério. Então, ele tentou convencer o porteiro a deixá-los entrar, para terem a experiência exótica de namorar entre os sepulcros.
Talvez o LB quisesse emular com a sua bela namorada cenas de cinema, arte que ele tanto apreciava, quem sabe lembrando Norka Ruskaya, dançarina russa que performava sobre túmulos, ou a brasileira Luz Del Fuego.
Aí passou um carro de reportagem d’O Estado, que publicou no outro dia que ele fora visto ali em altas horas – em nota do seu parente Venelouis, o dono do jornal.
Seja qual for a versão real – talvez as duas verdadeiras, primeiramente aquela a que Augusto Borges referia, e depois esta que ele mesmo relatou – a tragédia que se seguiu foi a exploração do fato pelos que deploravam LB, na imprensa e fora dela.
Em dois momentos da minha infância, testemunhei a malícia pública contra ele, quando, uma vez, fui ao mercado e vi uma obra de literatura de cordel sobre “O homem que come defunto” – e parte do povinho interpretava o verbo “comer” literalmente, “antropofagicamente”, o que era ainda tão absurdo quanto grave.
De outra feita, LB passou em seu automóvel, um Simca Chabord, diante do Colégio Castelo Branco, do qual minha casa era defronte, e a estudantada que estava na calçada explodiu em vaias, apupos e gritos referentes ao boato ofensivo. Mas ele continuou impassível ao volante do seu carro – os cães ladrando e a “caravana” indo em frente.
Sim. Nada o abalava, naquela toada do adágio popular: “O que vem de baixo não me atinge”. De fato, não atingia, até porque a nata da sociedade dedicou a ele um jantar de desagravo, no Náutico Atlético Cearense, e consta que os colegas causadores do escândalo em alegada boa-fé, foram até lá se desculpar.
Neno Cavalcante, irmão mais jovem de LB, contou que o diretor da TV Ceará, Guilherme Neto, quis dar à vítima da boataria, que trabalhava na emissora, uma oportunidade de defesa. Convidou-o a gravar uma entrevista com o Narcélio Limaverde, mas LB pareceu não dar nenhuma importância à calúnia que sofria, desviando-se da resposta que o entrevistador quis provocar:
– Lúcio, qual foi a coisa que mais lhe entristeceu na sua vida?
Ele respondeu:
– Foi quando disseram que eu sou analfabeto.
De fato, ele nunca recrudesceu, nunca reagiu e nunca pareceu estar abalado com a campanha contra ele. Nunca nutriu ressentimento contra os colegas causadores do imbróglio, razão pela qual o jornalista Ciro Saraiva teria dito que: “Lúcio Brasileiro não se importa com nada, nem consigo mesmo”.
A contrario sensu, a primeira pergunta que fiz a LB para a sua biografia foi sobre a razão de não se ter ele casado, rapaz bonito e elegante, tão bem relacionado como era. A sua resposta foi aguda: “Não casei porque gosto tanto de mim mesmo que nunca me quis dividir com outra pessoa”.
Eu evitei transcrever a resposta nesses termos no livro sobre ele para não passar a ideia falsa de que ele fosse egoísta, o que não era. Pelo contrário, era humano, generoso, solidário. Era mesmo desprendido e caridoso. Certa vez ele vendeu o próprio carro para financiar uma festa em homenagem a um amigo. Perguntado o porquê dessas suas esquisitices, a resposta recorrente era apenas: “Porque eu sou assim...”.
É que LB tinha traços de autismo moderado – era solipsista, autorreferente, excêntrico, pontual, organizado, sistemático, excepcionalmente focado e inteligente, dotado de memória prodigiosa, que lhe possibilitava ter de cor todos os fatos, todas as datas, todos os locais e todas as escalações dos times de futebol das seleções. Ele respondeu sobre Copas do Mundo em um programa de TV que dava prêmios por respostas acertadas, mas ele só permaneceu respondendo até obter a quantia necessária para o pagamento de uma dívida, cedendo o espaço restante para outro respondente.
Lúcio Brasileiro não se incomodava com quem estivesse contra ele, pois o respeito daqueles cujo afeto lhe importava o satisfazia inteiramente – seus maiores amigos (que ele classificava como seus “irmãos civis”), e os seus grandes protetores e eventuais provedores na nossa “alta sociedade”. Entre os irmãos civis de LB posso citar Lustosa da Costa e Frota Neto, Sabino Henrique e Pádua Lopes, Paulino Rocha e Tarcísio Tavares, João Soares Neto e Fernando César Mesquita, todos esses jornalistas.
Ivens Dias Branco e José Macedo despontam entre os grandes empresários que tiveram por ele estima paternal, enquanto o casal Virgílio e Luiza Távora resplandecia no altar votivo do seu amor e de sua eterna gratidão.
Quanto às mulheres que atravessaram o sua vida, além da já referida namorada Gisa, constam uma anônima aeromoça, morena voluptuosa a que Tarcísio Tavares se refere; a bela Kitti Mourão, uma grande paixão que o acometeu; a Wanda Palhano, que narra a festa, o flerte, a dança, que iniciaram sua íntima amizade.

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