sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

ARTIGO - Nem Crítica, Nem Sátira: Puxa-Saquismo Escrachado (BA)

NEM CRÍTICA,
NEM SÁTIRA:
PUXA-SAQUISMO ESCRACHADO
Barros Alves*

 

A tradição satírica do Carnaval sempre esteve associada à liberdade de crítica, ao riso que desafia o poder e à irreverência que desnuda hierarquias. Quando essa tradição é instrumentalizada por interesses governamentais ou por estruturas financiadas com recursos públicos, contudo, perde sua essência e se converte em peça de propaganda. É sob esse prisma que se deve analisar a atuação da Acadêmicos de Niterói e sua sintonia com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Sátira e crítica patrocinadas pelo poder para atingir adversários não são sátira nem crítica. São, antes, a forma mais rudimentar de adesismo, o puxa-saquismo explícito travestido de irreverência. A sátira clássica, em sua genealogia, sempre mirou o alto da pirâmide social, não o rés do chão. Em Portugal, Manuel Maria Barbosa du Bocage fez do sarcasmo uma arma contra hipocrisias e privilégios. 

No Brasil colonial, Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”, fustigou elites políticas, religiosas e econômicas. No Ceará, Antônio Sales conheceu a perseguição e o exílio interno ao confrontar a oligarquia aciolina. A sátira, quando autêntica, cobra um preço; e esse preço costuma ser pago por quem critica o poder, não por quem o serve. 

O que se observou, entretanto, foi a inversão dessa lógica. Ao adotar discursos e representações que coincidem com a narrativa governamental e ao fazê-lo num contexto de financiamento público e visibilidade massiva, a escola de samba não ampliou o debate democrático, mas estreitou-o. A irreverência carnavalesca, que poderia ser plural e incômoda para todos os lados, tornou-se seletiva. E a seletividade, em política, raramente é inocente. 

Há ainda um elemento agravante: o tempo. Em período pré-eleitoral, manifestações culturais de grande alcance que reproduzem discursos favoráveis a governos ou hostis a adversários suscitam questionamentos legítimos sobre equilíbrio e lisura. Não se trata de censurar a expressão artística, princípio essencial, mas de reconhecer que a fronteira entre arte, propaganda e uso indireto de recursos públicos pode se tornar perigosamente difusa. 

Quando essa difusão ocorre diante de milhões de espectadores, a crítica deixa de ser apenas estética e passa a ser institucional. Cabe aos órgãos responsáveis pela fiscalização eleitoral, entre eles o Tribunal Superior Eleitoral-TSE, avaliar se houve desvio de finalidade, promoção indireta ou tratamento desigual no espaço simbólico que o Carnaval ocupa na vida nacional. A omissão, real ou percebida, alimenta a sensação de que a legislação vale de modo desigual conforme o ator político envolvido. 

O dano maior, porém, é cultural. O Carnaval brasileiro sempre foi território de ambiguidade: celebração e denúncia, festa e crítica, riso e inconformismo. Quando a sátira se subordina ao poder, perde sua força transformadora e passa a funcionar como adereço. Em vez de desconforto, produz conforto; em vez de questionar, confirma. 

A Acadêmicos de Niterói, ao optar por essa linha, corre o risco de esvaziar justamente aquilo que poderia torná-la relevante: a capacidade de falar contra, não a favor; de tensionar, não de acomodar. E qualquer governo, inclusive o de Lula, que se beneficie dessa acomodação deve ser igualmente criticado. E punido. Democracias saudáveis dependem de arte livre, inclusive e, sobretudo, quando ela incomoda quem governa. 

Sem isso, a sátira deixa de ser coragem e se converte em ornamento. E o Carnaval, que historicamente foi espaço de inversão simbólica do poder, transforma-se apenas em palco de sua reafirmação. Picadeiro de uma palhaçada. 

#Publicado no Jornal O Estado - Edição de 19/02/2026

Um comentário:

  1. Belas, ricas e corajosas verdades, sem extremismos. Semelhante ao donaire linguístico utilizado. Há isto, aqui, ainda! Bendigamos ao Senhor! Escreva bem mais, Barros Alves! Uma senhora peça!
    Cumprimento-o efusivamente.

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