FORMAÇÃO HUMANA
ENTRE DISCIPLINA,
INTERIORIDADE
E TEMPO SOCIAL
Luiz Rego Filho*
Um
ensaio técnico-filosófico a partir de Pierluigi Piazzi, Monir Nasser e Domenico
De Masi
1. Introdução
O debate contemporâneo sobre educação, trabalho e sentido da vida humana encontra-se marcado por paradoxos profundos: nunca houve tanto acesso à informação, e nunca se observou tamanha fragilidade da atenção; nunca se produziu tanto, e nunca se discutiu tanto o esgotamento humano; nunca se falou tanto em bem-estar, e nunca se registrou tamanho vazio existencial. Nesse cenário, o diálogo hipotético entre Pierluigi Piazzi, Monir Nasser e Domenico De Masi permite iluminar, por contraste e convergência, os limites estruturais do modelo civilizatório vigente.
Embora oriundos de campos distintos – pedagogia, ensaísmo filosófico e sociologia do trabalho – os três compartilham uma crítica comum à superficialidade contemporânea, ao culto da facilidade e à dissolução do tempo formativo. Este ensaio propõe analisar as incoerências aparentes, as afinidades profundas e a síntese possível entre esses pensamentos, sustentando que sua convergência aponta para um projeto integrado de formação humana no pós-produtivismo.
2. Educação como tensão formativa: o núcleo do pensamento de Piazzi
Pierluigi Piazzi construiu sua crítica educacional a partir da rejeição da pedagogia permissiva e do que denominou, em diversos textos e palestras, de infantilização prolongada do sujeito moderno. Para o autor, aprender não é um processo naturalmente prazeroso, mas um exercício de enfrentamento cognitivo e emocional, no qual a frustração exerce papel estruturante (PIAZZI, 2007).
Segundo Piazzi, o cérebro humano se desenvolve mediante treino deliberado, repetição e esforço continuado, sendo prejudicado pela gratificação imediata e pela cultura do entretenimento permanente (PIAZZI, 2008). Essa posição o coloca frontalmente contra modelos educacionais que transformam o aluno em cliente e a escola em prestadora de serviços de conforto emocional.
Do ponto de vista filosófico, Piazzi sustenta uma antropologia implícita: o ser humano não nasce pronto, tampouco eticamente estruturado. A educação, nesse sentido, é um processo civilizatório que exige limites, autoridade legítima e responsabilidade compartilhada entre família e escola. Sem essas balizas, o que emerge não é liberdade, mas dispersão.
3. Interioridade e resistência ao espírito do tempo em Monir Nasser
Em contraste com a dimensão institucional da obra de Piazzi, Monir Nasser desenvolve uma crítica radical à modernidade a partir da experiência interior. Seus textos recusam a lógica da produtividade, da aceleração e da visibilidade, operando deliberadamente à margem do circuito acadêmico e mercadológico (NASSER, 2012).
Para Nasser, a crise contemporânea não é apenas educacional ou econômica, mas ontológica. A substituição do silêncio pelo ruído, da contemplação pela estimulação contínua e da sabedoria pela informação gera um empobrecimento da experiência humana. Em suas reflexões, a educação moderna fracassa não por excesso de rigor, mas por ausência de profundidade.
O
autor rejeita tanto a pedagogia utilitarista quanto os projetos de engenharia
social otimistas. A formação humana, em sua perspectiva, passa pela aceitação
da finitude, pelo enfrentamento da solidão e pela recuperação de uma relação
não instrumental com o tempo (NASSER, 2016). Trata-se de uma educação que não
visa adequar o indivíduo ao sistema, mas preservar sua interioridade diante
dele.
4. Tempo, trabalho e criatividade em Domenico De Mais
Domenico De Masi introduz no debate uma dimensão estrutural: a organização social do trabalho e do tempo. Seu conceito de ócio criativo propõe superar a dicotomia entre trabalho, estudo e lazer, defendendo que a criatividade emerge precisamente da interpenetração dessas esferas (DE MASI, 2000).
O sociólogo critica a centralidade absoluta do emprego na definição da identidade humana e alerta para os efeitos patológicos da cultura do hipertrabalho, como burnout, alienação e perda de sentido. Para De Masi, o avanço tecnológico deveria liberar tempo humano para atividades intelectuais, artísticas e relacionais, e não intensificar a exploração (DE MASI, 2014).
Entretanto, o autor reconhece – ainda que nem sempre com a devida ênfase – que o ócio criativo exige formação cultural sólida. Sem educação intelectual e ética, o tempo livre tende a ser colonizado pelo consumo passivo, convertendo-se em vazio existencial ou entretenimento alienante.
5. Incoerências aparentes e conflitos reais
À primeira vista, os três pensadores parecem inconciliáveis. Piazzi desconfia do ócio; De Masi o valoriza. Monir Nasser rejeita projetos institucionais; Piazzi atua diretamente neles. De Masi acredita em reorganização social; Nasser suspeita de qualquer promessa redentora da técnica ou da política.
Contudo, essas tensões não configuram contradições insolúveis, mas níveis distintos de análise. Piazzi opera no plano da formação cognitiva e ética; Nasser, no plano da existência; De Masi, no plano da estrutura social. O conflito surge quando um nível pretende substituir os demais.
6. Afinidades estruturais: o que os une
Apesar das diferenças, os três convergem em pontos fundamentais:
a) Crítica à cultura da facilidade – seja na educação (Piazzi), na vida interior (Nasser) ou no trabalho (De Masi);
b) Defesa do tempo lento como condição de aprendizado, pensamento e criação;
c) Rejeição do entretenimento como substituto do sentido;
d)
Centralidade da formação humana, e não apenas da performance econômica.
Essas afinidades revelam uma crítica comum ao paradigma produtivista, ainda que expressa em linguagens distintas.
7. Síntese possível: um projeto integrado de formação humana
Se reunidos, Piazzi, Nasser e De Masi dificilmente produziriam um manual pedagógico ou um plano de políticas públicas convencional. O resultado mais plausível seria um manifesto técnico-filosófico sustentado por três pilares:
1. Disciplina formativa (Piazzi): sem esforço, não há estrutura cognitiva nem ética;
2. Interioridade e silêncio (Nasser): sem profundidade, a disciplina
degenera em adestramento;
3. Reorganização do tempo social (De Masi): sem tempo livre qualificado, caráter e interioridade não se sustentam.
Essa síntese aponta para uma educação exigente, uma vida interior preservada e uma sociedade que não sacrifique o humano à produtividade.
8.
Considerações finais
A
crise contemporânea não é resolvida por mais estímulos, mais flexibilidade ou
mais eficiência. Ela exige formação, sentido e tempo. O
diálogo implícito entre Piazzi, Nasser e De Masi revela que a superação do
esgotamento civilizatório depende menos de soluções fáceis e mais de uma
reconciliação entre disciplina, profundidade e liberdade temporal.
Trata-se, em última instância, de recolocar a pergunta fundamental que a modernidade tentou silenciar: para que, afinal, educamos, trabalhamos e vivemos?
Referências (ABNT)
DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
DE MASI, Domenico. O futuro do trabalho: fadiga e ócio na sociedade pós-industrial. Rio de Janeiro: José Olympio, 2014.
NASSER, Monir. O vazio e o silêncio. São Paulo: É Realizações, 2012.
NASSER, Monir. A perda do sentido. São Paulo: É Realizações, 2016.
PIAZZI, Pierluigi. Os filhos que não dão certo. São Paulo: Aleph, 2007.
PIAZZI, Pierluigi. O sucesso escolar não é um jogo. São Paulo: Aleph, 2008.

Nenhum comentário:
Postar um comentário