Os dois leões
da minha vida
Luiz
Rego Filho*
Não sei por que os leões insistem em aparecer na minha vida profissional. Talvez confundam agrônomos com tratadores, ou talvez a natureza apenas goste de piadas internas. O fato é que encontrei dois leões no exercício da função — o que, convenhamos, não consta em manual técnico algum.
O primeiro surgiu em Miracema, município quente o suficiente para derreter convicções. Fui até lá com a pesquisadora Regina Celestino, do Ceprus — Centro Estadual de Pesquisa em Desenvolvimento Rural Sustentável — para avaliar uma propriedade rural. O proprietário era um sargento reformado da Polícia Militar, homem tranquilo, seguro, dono de um portão de ferro imenso, com trilhos, cadeado e a convicção de que tudo aquilo fazia sentido.
Entramos. A estrada interna serpenteava até a sede, mas antes dela havia uma jaula. Uma jaula. Dentro da jaula, um leão. Não um símbolo, nem uma metáfora: um leão mesmo, com juba, dentes e um urro que parecia reclamar da falta de contexto.
O animal não estava em seus melhores dias. A
jaula misturava restos de comida e fezes, e o leão parecia menos rei da selva e
mais síndico insatisfeito. Seguimos em frente, fingindo normalidade, porque o
ser humano tem esse talento extraordinário de aceitar qualquer coisa, desde que
ninguém faça escândalo.
Terminada a parte técnica, fomos recompensados com dois pés de jabuticaba em frente à casa. Frutos grandes, pretos, redondos, moralmente irresistíveis.
Eu e a Dra. Regina atacamos com a dignidade possível. O sargento assistia, satisfeito, como quem oferece hospitalidade e recebe felicidade em troca.
Depois veio a vergonha tardia, o pedido de desculpas e a saída protocolar. O leão ficou. Não comeu jabuticaba. Perdeu.
O segundo leão me aguardava em Niterói, já num ambiente institucional, o que prova que o absurdo também presta concurso público. A Secretaria de Agricultura funcionava numa casa antiga da Alameda São Boaventura, que fora residência de Euclides da Cunha, autor de Os Sertões e protagonista involuntário de uma das maiores confusões familiares da literatura nacional.
Cheguei de ônibus, atravessei a avenida com cuidado exagerado — atitude que, como se verá, foi inútil — e entrei num espaço silencioso demais para ser saudável. À esquerda, havia um zoológico botânico. Nunca soube explicar exatamente o que é isso, mas envolve plantas, animais e decisões administrativas passadas.
Dirigi-me à sala da Diretoria Técnica. O Diretor, cuja sala ficava colada à jaula do leão, conversava tranquilamente comigo. Comentei, num tom quase profissional:
— Hoje o leão está quieto.
Ele respondeu, sem levantar a sobrancelha:
— Fugiu.
Não houve grito. Não houve correria. Houve apenas um colapso interno silencioso, aquele em que a alma se senta no chão e pensa se vale a pena levantar.
— Fugiu? — perguntei, esperando que a palavra tivesse sido usada no sentido poético.
— Fugiu — confirmou.
Meu corpo começou a rever decisões recentes. Caminhos percorridos. Arbustos observados com excesso de confiança. Senti uma súbita vocação para estátua.
— Mas… — arrisquei — encontraram?
— Encontraram.
Silêncio.
— Onde?
— Aqui perto.
Foi nesse momento que compreendi: eu havia atravessado todo o zoológico a pé, calmamente, ignorando a possibilidade concreta de estar dividindo o espaço urbano com um leão desempregado.
Saí da sala lentamente, como quem não quer acordar a própria memória. Desde então, aprendi que o Brasil é um país onde um leão pode fugir sem aviso prévio e o aviso vir depois, como nota de rodapé.
E que, definitivamente, agronomia não é uma
profissão para quem exige coerência.

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