segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

ARTIGO - O Pós-Natal (RMR)

O PÓS-NATAL
Rui Martinho Rodrigues*

 

O Natal 

As festas religiosas fazem parte dos ritos. Como tal lembram e reafirmam crenças, valores, costumes, identidades, congregam promovendo a coesão e contribuem para a transmissão da cultura. Os ritos, todavia, podem levar à banalização, podendo desviar o sentido e afastar dos objetivos citados. O Natal não é exceção no contexto da dinâmica dos fenômenos desta natureza. 

O debate 

O Natal, como festa da cristandade, suscita debates. O cristianismo é, entre outras coisas, uma relação pessoal entre criatura e Criador, mediada por Cristo, que promove a reconciliação entre ambos. Comer do fruto da ciência do bem e do mal, chamando a si o juízo moral, foi um rompimento com o Criador que orientava tal julgamento, causando a morte do homem, ao separá-lo de Deus (Gênesis capítulos 2 e 3).

O significado do paraíso 

O paraíso não era um lugar de ociosidade: o homem tinha o dever de “guardar e cultivar o jardim (Gênesis 2; 15). Paradisíaca era a condição de desfrutar da inocência por não formular juízo moral e, consequentemente, não ser responsabilizado, condição perdida quando o casal viu que estava nu (Gênesis 3; 7), isto é, o juízo moral que adquirira o atingiu. 

Olhando a própria nudez, exercitando o juízo moral proporcionado pelo fruto da ciência do bem e do mal, debatemos tudo, inclusive com argumentos equivocados. O Natal é criticado por vários motivos. (i) O consumismo, a secularização e banalização da grande festa cristã ensejam discussões. (ii) A festa pagã romana, que festeja o aniversário do sol invencível, foi oficializada por decreto do imperador Aureliano, em 274 d. C. pretextando facilitar a conversão dos pagãos, enquanto tentava salvar, pacificar e fortalecer o Império Romano, também é motivo de críticas. 

O sincretismo e o aniversário 

O sincretismo foi facilmente promovido, alegando que Cristo é a luz do mundo, tal qual o sol invencível dos cultos animistas. Outra festa do paganismo romano, a saturnália, de meados de dezembro, quando havia troca de presentes e banquetes, costumes que foram incorporados à festa cristã. 

Outro debate guarda relação com o fato de que (iii) o Natal é uma festa de aniversário, uma vez que na bíblia só temos o registro de dois aniversários, de Faraó e de Herodes, ambos ímpios. 

Tais festas, mundanas e associadas a assassinatos, são encontradas respectivamente em Gênesis 40; 20-22; e em Marcos 6; 21-28. Alguns (iv) alegam que a árvore de Natal teria origem no animismo dos pagãos germânicos, que evocavam fertilidade e vida cultuando o arvoredo. Sucede, todavia, que o tempo modificou o sentido da festa que já não lembra o deus sol nem a saturnália ou o culto animista às árvores. 

O Natal e o dia seguinte 

O Natal lembra Cristo e o seu significado. Congrega, promove a identidade cristã, reafirma valores e crenças. Mas a banalização, o desvio de objetivos, com a secularização e o mundanismo que pode levar, sim, ao consumismo e aos prazeres antropocêntricos rondam todas as práticas repetidas. A transmissão da doutrina, da crença e – para o cristianismo secularizado – a transmissão da herança cultural só serão efetivas se no dia seguinte não for esquecido o seu significado. 

O Natal passou. Ainda guardamos o espírito natalino? Lutamos por alcançar a condição de nova criatura, sepultada simbolicamente nas águas, após a morte do velho homem, nascendo de novo, também simbolicamente, ao emergir? Não se trata de uma transformação súbita, ocorrida no momento da decisão de aceitar a Cristo como Senhor, aceitando o senhorio dele sobre a sua própria vida. 

É um processo que perdura por toda a vida na terra. A nova criatura, que deixa de ser porca para ser ovelha de Cristo, não tem na lama o seu habitat natural, mas se suja. O sacrifício de Cristo foi para nos isentar de tal sujeira. Não representa, porém, um salvo-conduto para a prática de toda sorte de iniquidade, conforme lemos na Carta de Paulo aos Gálatas: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”. Não devemos proceder como o tolo, que o livro de Provérbios 26; 11 assim descreve: “Como o cão volta ao seu vômito, assim o tolo repete a sua insensatez”. 

Antinomia aparente 

Então estamos de volta ao legalismo, deixando para trás o evangelho? Não. Só aparentemente o fato de que não devemos agir como o tolo, que a semelhança do cão volta ao próprio vômito lembra a volta ao legalismo. A boa nova, que é o significado da palavra evangelho, é a boa notícia da substituição da justiça retributiva pela equidade. Sim, quando Cristo assumiu, no nosso lugar, chamando a si as consequências das nossas iniquidades. Ele estava afastando de nós a justiça que premia e castiga em retribuição às obras, segundo o padrão retributivo, substituindo-a pela justiça proporcional às nossas capacidades, nos termos da equidade. 

Incapazes de cumprir a lei, fomos beneficiados pela retribuição que recaiu sobre o Messias ao invés de recair sobre nós, nos dando vida, que é reconciliação com o nosso Criador. O contrário disso é a morte espiritual, entendida como separação de Deus. Não tendo méritos para tanto, o prêmio nos foi dado do modo como é descrito na Carta aos Efésios 2; 8-9: “Pois pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie”. 

Buscando os limites do significado do citado excerto da Carta aos Efésios, indagamos qual é o alcance da anistia concedida por meio da fé? Lemos em Tiago 2; 19 a resposta: “Você crê que existe Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios creem e estremecem”! Então a crença salvadora é aquela que confia na direção de Deus, renunciando à ciência do bem e do mal, para voltar a seguir a direção do Criador, vomitando o fruto proibido.

Tal crença deve ser confirmada por meio de decisão, concretizada pelo esforço de ser nova criatura, nos termos propostos em Mateus 11; 28-30: 

Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vós. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrarão descanso para a alma. Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

O excerto transcrito afasta o legalismo intolerante da justiça retributiva, que não temos capacidade de satisfazer. Não promete ausência de jugo e de fardo, não estabelece a licenciosidade. Promete jugo suave e fardo leve da equidade consubstanciada no arrependimento de que somos capazes. Assim sendo se harmoniza com a exigência da equidade. 

A guisa de conclusão 

O Natal, comemorado em espírito e em verdade, não é página virada no dia seguinte. É a continuidade de decisão de vomitar o fruto da ciência do bem e do mal; é a crença no jugo suave e no fardo leve que é a aceitação do Messias como Salvador, dando a Ele o Senhorio sobre as nossas vidas.


 

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