segunda-feira, 14 de setembro de 2015

ARTIGO - O Impasse (RMR)

O IMPASSE

Rui Martinho Rodrigues*


Os entes públicos estão devendo cada dia mais. Consumidores e empresas também. Os investimentos públicos estão próximos de zero e os particulares idem. A recessão chegou. A dívida cresce mais do que o PIB há um quarto de século. A nossa indústria está encolhendo e não tem competitividade. Estamos vivendo acima das nossas possibilidades, considerando a produtividade as dimensões da nossa economia. O déficit primário aponta gastos maiores do que as receitas. Não é possível viver acima das possibilidades indefinidamente.

É preciso investir. Para investir é preciso ter poupança, contrair dívidas ou atrair investidores. Não existe um quarto caminho. Atrair investidores exigiria a superação dos preconceitos ideológicos. Portos, aeroportos, estradas, centrais elétricas e inúmeras outras oportunidades de atração de investimentos privados estão a espera de oportunidade. Mas este é um caminho bloqueado pela barreira ideológica e a falta de definição de regras do jogo.

Contrair mais dívidas ainda é possível, mas a um custo cada vez mais alto. A dívida tende a fugir ao controle do governo.

A formação de uma poupança própria para investir é um caminho de duas faces. Uma delas exigiria redução de despesas. Precisaríamos buscar um novo ponto de equilíbrio, um padrão de vida menor.

Não sobrará dinheiro para investimentos sem sacrifícios. Mas não há clima para tanto. Nem lideranças, nem partidos, nem organizações da sociedade estão propondo nem inclinados a aceitar sacrifícios. Não se vislumbra redução das despesas públicas, até porque elas são quase inteiramente rígidas. Dispositivos legais e até constitucionais forçam o crescimento das despesas, ajudados pelos grupos de pressão politicamente organizados.

Restaria a outra face do caminho da formação de poupança própria para investir: o aumento de receitas. Isso foi feito nos últimos 25 anos. A carga tributária era baixa, favoreceram o crescimento das receitas. Mas não foi suficiente. A dívida cresceu. Agora a carga tributária é alta e já não é fácil aumentar as receitas.

O ambiente político se caracteriza pela falta de liderança e pela falta de propostas minimamente lúcidas. Propor sacrifícios parece suicídio político. A sociedade parece continuar iludida. A ilusão é alimentada pelos poucos anos de sucesso da política de frouxidão nos gastos. O fato de que alguns anos depois cheguem as contas e com elas o fracasso da política milagrosa não é suficiente para nos trazer de volta a realidade. Há sempre uma desculpa. Culpamos alguém e até a corrupção serve para preservar a ilusão do almoço sem conta. Mas não basta combater a corrupção.

Não sejamos ingênuos. O que temos é um impasse. A sabedoria popular diz que o que não tem remédio remediado está. A inflação poderá se transformar, não na solução, mas no desastre que rompe o impasse desvalorizando contas e o déficit. Ninguém assumirá o ônus de propor e aprovar medidas antipáticas. E os especuladores seriam responsabilizados pela alta de preços. Voltaríamos aos tempos sombrios da década de oitenta.


Ouro Preto – MG.


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

NOTA ACADÊMICA - Revista Palma Serrana


REVISTA PALMA SERRANA


A Nova Arcádia Palmaciana, cuja divisa é a sentença latina Palmam qui meruit ferat  significativa da ideia de que "Aquele que conquistou a palma que a conduza"  vem de instituir um periódico semestral para escoamento “midiático” da produção científica, artística e cultural dos seus árcades.

O primeiro número circulará, editado física e eletronicamente, em dezembro próximo, com matérias de teor geral, porém, nas edições seguintes, os conteúdos serão temáticos, ou seja, cobrirão áreas específicas de substratos do conhecimento.

De preferência, os assuntos hão de se vincular ao Município de Palmácia, de onde procedem todos os imortais, que, a igual das antigas arcádias de Portugal, têm criptônimos incluindo nomes de deidades da mitologia helênica, como, por exemplo, o do árcade aclamado Presidente ad hoc, Fernão de la Roche d’Andrade Sampaio – Eládio Dionisio.

A fundação da Revista ocorreu em reunião da Arcádia Nova, na Sede do Município, no dia 22 de agosto recém-terminado, com a participação de 32 imortais-árcades, presidida – antes da aclamação do Presidente  pelo idealizador do mencionado Sodalício – Prof. Vianney Mesquita* (Jovem Chronos) – acadêmico-titular do nosso Silogeu.

O causídico palmaciano Dr. José Damasceno Sampaio (Adamastor Urano), imortal pertencente à Academia de Letras Maçônicas do Estado do Ceará-ALMECE e atual presidente da Academia Cearense de Letras Jurídicas, restou incumbido, com uma comissão, de preparar o Estatuto e o Regimento da Instituição, os quais serão submetidos a uma assembleia de árcades no dia 24 de outubro que vem.

A Arcádia Nova Palmaciana tem como efígie identificadora a deusinha Thyke helênica (correspondente à deidade Fortuna, na ideação mitológica romana), a qual representa, entre outras alegorias, a personificação da boa fortuna, do acaso, capricho e sorte, trazendo a ideia da divindade tutelar responsável pela prosperidade e riqueza de uma cidade.

A sede da Palma Serrana é o Solar dos Sampaios, na praça Padre Perdigão Sampaio, em Palmácia, residência do Presidente, Fernão, e de sua genitora, árcade Lúcia Andrade da Rocha Sampaio (Iolita Polínia), onde estão sendo recebidas as colaborações, inclusive por correio eletrônico [fernaosampaio@yahoo.com.br].

Entre outros, os árcades Maria Célia Mesquita Molinari (Cleonice Danae), Maria Amélia Sampaio Silveira (Amélia Antíope), Iolanda Campelo Andrade (Iolanda Athena), Junior Holanda (Ari de Teseu), Robério Telmo Campos (Robério Júpiter) João Teixeira Jr. (ainda sem criptônimo), Risoleta Muniz (Vitória Hera) compareceram à solene sessão.

Convém informar, por oportuno, o fato de que este Blog está aberto à colaboração de todos árcades da Arcádia Nova Palmaciana, consoante já ocorre com Vianney Mesquita, Paulo Tadeu Sampaio de Oliveira (Artur Zéfiro) e Iolanda Andrade (Iolanda Athena), pelo correio eletrônico [academiacearense@gmail.com].


*Vianney Mesquita é Membro Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa e da ACLJ.

CRÔNICA - Um Bar com Nome de Cearense (WI)

UM BAR COM NOME DE CEARENSE

Wilson Ibiapina*

Morando ou não no Rio, se você não frequentou, pelo menos já ouviu falar em um dos bares mais famosos da cidade maravilhosa. O Antonio's surgiu em novembro de 1967, com o nome da música Strangers in the Night. Imediatamente virou o ponto de encontro de artistas, cineastas, jornalistas, intelectuais e boêmios em geral, que movimentavam a noite do Rio.

Walter Clarck, diretor geral da TV Globo, foi um dos maiores incentivadores do bar-restaurante. Ele garantia algumas noites repletas de globais, o que alimentava a fama. O empresário Alex Gonçalves lembra que o sucesso foi tão rápido quanto a decisão de Otto Lara Resende de trocar o nome da casa instalada na loja C da Avenida Bartolomeu Mitre, 297.

O título da música que fazia sucesso na voz de Frank Sinatra não agradou. O banqueiro José Luiz Magalhães Lins, do Banco Nacional, rebatizou o restaurante de Antonio's em homenagem ao cearense Antônio Pereira, o cozinheiro preferido de Armando Nogueira, na época o todo poderoso diretor da Central Globo de Jornalismo. Os outros dois sócios do bar eram os espanhóis Manolo e Florentino. Os três viviam sob a proteção do guarda chuva do Nacional. O cearense, pouco depois foi trabalhar em Nova Iorque, mas deixou seu nome batizando o recanto mais agradável da noite carioca.

O famoso Jornalista e escritor mineiro, Otto Lara Resende aparecia lá quase todas as noites, para a alegria geral. O pernambucano Nelson Rodrigues dizia que a grande obra de Otto Lara Resende era a conversa. “Deviam pôr um taquígrafo atrás dele e vender suas anotações em uma loja de frases". Pois foi esse frequentador assíduo que, certa noite, encontrou os fregueses tristes, parecendo todos preocupados com os rumos do regime militar que comandava o país. 

Conta o jornalista Carlos Henrique Santos que depois de alguns uísques, Otto, que nasceu com vocação para a galhofa, elevou o tom de voz e fez um verdadeiro discurso desancando a ditadura, convocando à resistência a juventude pensante ali presente (que outros chamavam de esquerda festiva). E fechou o seu pronunciamento indignado, quase aos gritos, desafiando os eventuais dedos-duros que se infiltravam no ambiente: “E para provar que não tenho medo desses gorilas, vou dizer meu nome. Podem anotar: “Eu me chamo José Aparecido de Oliveira...”

O chatíssimo Roniquito Chevallier, que perturbava a vida de todo mundo, era outro que estava lá todas as noites. Brigava e apanhava quando metia a mão no prato de comida das pessoas, ou cantava as senhoras acompanhadas dos maridos. Roniquito era Ronald Wallace Carlyle de Chevalier, irmão da jornalista Scarlet Moon de Chevalier. 


Era amigo de juventude de Walter Clark, com quem trabalhou na TV Rio e na Globo. Muito culto, formado em economia e, segundo Rui Castro, inventor da palavra aspone. Rui acredita que Roniquito talvez tenha sido o sujeito mais sem censura da história de Ipanema. “Dizia o que pensava para qualquer um, não importava o cargo, a idade, a cor, o sexo, ou o tamanho da pessoa”.

Quando Roniquito morreu de enfarte em 1983, Carlinhos Oliveira escreveu: "Ninguém podia ser patife perto dele. Ninguém ousava". E Paulo Francis escreveu na Folha de S. Paulo:"Roniquito fazia o que não temos coragem de fazer  virar a mesa contra os horrores brasileiros.

O bar tem toda a sua história contada num livro que o jornalista paulista Mário Almeida escreveu depois de longas pesquisas. O jornalista Aramis Millarch, em matéria publicada em 1992 num jornal do Paraná, diz que o biógrafo do Antonio's dedica parte do livro ao cronista capixaba Carlinhos de Oliveira que nos anos 60 emocionava milhares de leitores do Jornal do Brasil. 

Aramis lembra que José Carlos de Oliveira, como cronista do "Caderno B" do JB, foi sem dúvida o mais folclórico e famoso de todos os fregueses do Antonio’s  de cuja varanda escrevia sua coluna e ali permanecia, às vezes, até 40 horas ininterruptas. 

Um dia o Antonio's foi invadido por ladrões que prenderam os fregueses no banheiro. Foi de lá que Carlinhos fez um apelo desesperado aos marginais: “Seu ladrão, leva os vales, leva os vales. Essa caixinha de charutos no caixa...”

O Antonio's foi a capela sagrada da boemia que agitava as noites do Rio nos anos 60 e 70. O cozinheiro cearense não deve ter ideia do que se passou além do seu local de trabalho.



NOTA DO EDITOR:

Um dos principais personagens dessa bela crônica de Wilson Ibiapina, o Roniquito, um dos ícones da juventude dourada do Rio de Janeiro nos anos 60, tinha origem amazonense, pela parte paterna, e cearense, pelo lado da mãe.
 
Ronald Wallace Carlyle de Chevalier era filho do médico e político manauara Walmiki Ramayana de Paula e Souza Chevalier, e da cearense Neusa Magalhães Cordeiro de Chevalier, que ainda vive, muito idosa, em Copacabana. 
 
Dona Neusa tem seu berço original na cidade cearense de Ipapajé, para onde regularmente viajava. Da última vez que a jornalista, atriz e escritora Scarlet Moon de Chevalier esteve em Fortaleza, para dar uma palestra no Palácio da Abolição, a convite do então governador Ciro Gomes, encontrou-se com seus parentes cearenses, de quem recebeu e levou fotografias de seus antepassados. 

Falecida em 2013, além de irmã de Roniquito, Scarlet foi mulher do cantor Lulu Santos por 28 anos. Rita Lee lhe dedicou uma composição, que o marido gravou. Nas imagens, Scarlet Moon entre Lulu e Caetano Veloso, e sua avó, mãe de Ramayana, Raimunda de Souza Chevalier.



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

NOTA JORNALÍSTICA - Sereia de Ouro

No dia 25 deste mês de setembro o Sistema Verdes Mares de Comunicação promoverá a outorga do troféu Sereia de Ouro a mais quatro personalidades cearenses.

Essa será a 45ª edição da mais importante premiação estadual do gênero, criada pelo saudoso empresário Edson Queiroz, visando enaltecer os maiores destaques sociais de  cada ano, desde 1971. 


Hoje, Edson Queiroz é representado na presidência do grupo empresarial que leva seu nome, bem como na promoção do certame, por sua consorte e continuadora, Dona Yolanda Vidal Queiroz, a "Primeira Dama do Empresariado Cearense", detentora do título de benemerência concedido pela nossa Academia. 

Desta vez serão “sereiados” o ex-governador Cid Gomes, o médico Boutala Salomão, o educador Jesualdo Farias e a médica Lúcia Maria de Alcântara Albuquerque, filha de Valdemar e irmã de Lúcio, ambos médicos e ambos ex-Governadores do Estado – este último, também Membro Benemérito da ACLJ.

O evento será realizado no Teatro José de Alencar, como tem sido desde a sua edição inaugural, e para a plateia estão sendo convidados todas as principais autoridades, líderes empresariais, comunicadores da grande imprensa em Fortaleza e representantes da sociedade civil organizada. 

A ACLJ foi distinguida com o honroso convite, e se fará representar na solenidade de outorga do troféu, na pessoa de seu Presidente em Exercício.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

NOTA DA AUTORA - Oiticica - Romance (MN)

OITICICA – Romance
Editora Chiado – 2015*
Mara Nóbrega**

Quando fui receber este livro com as devidas correções gramaticais e estilísticas, feitas por um conhecido profissional da área, o escritor Vianney Mesquita, docente da Universidade Federal do Ceará, fiquei felicíssima, porém, a igual tempo, profundamente triste.

Se, por um lado, meu revisor teceu elogios ao que escrevi, de outra parte, me advertiu das dificuldades que poderia encontrar, no instante no qual pedi orientações sobre como fazer para publicar um romance de cariz regional por intermédio de uma editora de cobertura nacional no plano do Brasil. A fim de me ajudar, apontou o segundo caminho, caso eu assim resolvesse publicá-lo de maneira independente. Forneceu-me nomes de três editoras e se dispôs ao que eu precisasse.
 
Antes de sair da sala, porém, insisti mais uma vez no assunto de enviá-lo a uma editora que pudesse apreciar a estória e – quem sabe – levá-la ao lume.

A resposta dele, entretanto, me soou como verdade absoluta e saí pensando em como faria para seguir este improvável e último conselho. Talvez esta fosse outra forma de tentar me mostrar o quão árdua poderia ser a trilha até à publicação. A ele agradeço por isso, pois entendi exatamente o que pretendeu dizer. Só que segui ao pé da letra.

Pacientemente, o Prof. Vianney Mesquita falou, sorrindo uma maneira de seu livro ser lido por algum editor, e – quem sabe – ser publicado, é se algum escritor brasileiro renomeado, como, por exemplo, Ariano Suassuna, escrever a apresentação ou mantiver contato com uma casa publicadora recomendando a edição.

Em dois dias eu já havia entrado em contato com o assessor do Intelectual paraibano no Recife. Perguntei se poderia enviar ao mestre Ariano uma cópia do meu livro a fim de que o lesse. Este, de pronto, me forneceu a direção para a entrega.

Escrevi-lhe um bilhete, ajuntando-o ao volume. Sem rodeios, pedi que ele me desse uma opinião e, caso gostasse, escrevesse o Prefácio.

Aconteceu que o pacote foi extraviado e só chegou ao destino vinte dias depois. Na minha angústia, insisti tanto por notícias com o assessor que, no dia em que ele soube haver aportado o original às mãos de Ariano Suassuna, enviou-me um correio eletrônico: Acabo de saber que Ariano recebeu seus escritos.

Pronto! A sorte estava lançada. Será que iria gostar? Iria prefaciá-lo? Eram muitas as dúvidas.

O Destino, entretanto, não me deixou saber.

No dia seguinte ao e-mail, vi pela televisão a matéria dando conta de um acidente vascular cerebral sofrido pelo Escritor e aduzindo que havia sido admitido a hospital. Fora submetido a uma cirurgia. Não demorou muito e soubemos da triste nota do seu falecimento.

Caetana – como ele chamava a morte no sertão – o havia levado. E com ela ninguém negocia; mas, sabes, Senhora? Deixaste uma brechinha por onde pude entrar e me segurar. Concedeste-me o benefício da dúvida, e decidi acreditar no melhor.

Um dia após sua partida, ocorrida em 23 de julho de 2014, me peguei pensando nesse mestre de forma curiosa. Sinto-me ligada a ele, quando reflito que este livro não foi o primeiro, mas pode ter sido o derradeiro que Ariano folheou. E isto para mim é o bastante.

Agora, quando ouvir algo ringindo procedente lá de Cima, vou acreditar que é ele se balançando numa cadeira de palhinha a contar causos. Acho que o céu está ficando interessante...

E se você, leitor, estiver em contato com este texto, é porque alguma teimosa editora aceitou o desafio e resolveu publicar o tal romance.

Vou experimentar, então, uma felicidade só, pensando no que a gente é capaz quando se acredita com plena fé.


**Mara Nóbrega 
Pedagoga e 
escritora cearense


*Matéria eviada por Vianney Mesquita

ENTREVISTA - Cássio Borges Fala a Wilson Ibiapina


Entrevista concedida pelo engenheiro e jornalista Cássio Borges ao jornalista Wilson Ibiapina, no Programa BRASÍLIA CEARÁ, da TV Diário (que vai ao ar todas as terças feiras, às 14:30h), na sua edição do dia 1º do corrente mês de setembro.

Foram quatro perguntas e quatro respostas, todas sobre o tema dos recursos hídricos no Estado do Ceará. A primeira pergunta foi a seguinte:

"O Ceará já foi considerado o Estado brasileiro que tem a melhor política de água. O Senhor faz restrições à forma como a Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (COGERH) vem conduzindo o assunto. Na sua opinião, o que está errado na política das águas do Ceará?”.




terça-feira, 8 de setembro de 2015

CRÔNICA - Mais Franzonice - (VM)


MAIS FRAZONICE
Vianney Mesquita*

Aprendei de mim, ó flores, o que vai de ontem a hoje; que eu ontem maravilha fui e hoje sombra do que fui não sou. (Félix LOPE DE VEGA y Carpio, poeta e dramaturgo. YMadrid, 25.11.1562 - 27.08.1635).

Tenho na lista dos amigos o cratense Anselmo de Albuquerque Frazão, pessoa de bem, cidadão do melhor caráter, autenticidade a toda prova, dotado de temperamento alegre e jovial, malgrado os noventa, há pouco celebrados, tendo, também, como boa marca o fato de ser torcedor do Fortaleza.

Conheci-o quando adentrei a U.F.C. nas últimas unidades dos ’70, ele já como diretor da Imprensa Universitária, lugar onde permaneceu por cerca de quarenta anos, dos reitorados dos Professores Martins Filho a Hélio Leite.

Estão insertas no folclore da Universidade suas inteligentes tiradas, as nominadas frazonices, consoante cunhadas pelo médico e literato Prof. Dr. Pedro Henrique Saraiva Leão, algumas das quais já contei aqui.

Apesar de haver deixado a I.U. - U.F.C. (num lance desumano da vida), continuava a editar ali o Boletim Mensal do Rotary Club de Fortaleza, conforme o faz há dezenas de anos, como fidelíssimo e abnegado componente.

Ele próprio colhia e impunha arranjo às matérias, porém o artigo de fundo era feito pelo nosso amigo comum, ab imo corde, o itapajeense Prof. Dr. Agerson Tabosa Pinto, também jornalista e docente – ex-diretor da Faculdade de Direito, intelectual de escol, acadêmico atilado, doutrinador jurídico da melhor crase (03.09.1934 – 16.07.2011).

De estudo, intercalo na frazonice o que a canalha udenista da UFC conta a respeito desse editorialista, que era de corpo fornido, bastante avantajado. Narra a patuleia que ele fora vítima de uma mordida animal e se precatava da raiva canina, como se sabe, uma das mais graves zoonoses, recebendo uma longa série de doses intramusculares, na Farmácia José de Alencar e aplicadas, como é de hábito, por um rapaz alegre.

Quando da décima injeção, o gaio enfermeiro notou os músculos receptores do braço direito bastante inflamados, ao que disse:

Ixe, dotô, num dá pra ser nesse não; tá inchado por demais!

Ao descobrir Agerson o outro bração, o faceiro profissional exclamou:

Do mermo jeito, ou até pior! Tem de ser nas nádiga!

Eis que, quando o Dr. Agerson desceu as ceroulas, assomou a retaguarda, e o jucundo rapás saltitou para trás e, garridamente, admirou:

Vala, dotô! Se eu tivesse um trazeiro desse, eu já tava na Lapa, no Ri de Janêro, quetempo! ...

Voltando à vaca fria, já batera dez horas e o Frazão, na Imprensa Universitária, aperreando o Assis Martins para aprontar o Boletim, mas o A.M. falou que tudo estava pronto, faltando somente o editorial, de assinatura do Prof. Agerson Tabosa Pinto, o qual prometera enviar o escrito ainda de manhã.

Com o tempo escasso, pois a reunião do Rotary ocorreria às 13 horas, o Frazão, mais vivo do que rabo de calango, se vexou e ligou para assustar o sueltista, a fim de obter resultado imediato. Foi só no que deu:

– Agerson como preciso do Boletim à uma hora, vou escrever o editorial e botar teu nome, certo ?

Conhecedor em profundidade dos dotes de cultura e prendas redacionais do ex-Sargento Frazão, em menos de meia hora, o Agerson bateu na Imprensa para entregar o suelto.



CRÔNICA - Os Chefs Cearenses (WI)


OS CHEFS CEARENSES
Wilson Ibiapina*

A minha incompetência culinária começa no frigir dos ovos. Cozido ou estrelado vem sempre cheio de casca. No meu tempo de criança, no interior do Ceará, cozinhar era coisa de mulher. Homem na cozinha é só para atrapalhar, diziam.

Por ironia do destino, o macho cearense, apesar de todo o patrulhamento paterno, é hoje grande chef. Eu continuo sem passar um café. Na cozinha me sinto um macaco numa casa de louça, mas admirando, principalmente os japoneses. O que causa inveja é a habilidade deles. O japonês vai usando faca, prato, panela, colher e vai lavando na hora. Não deixa nada sujo.  Quanto termina a cozinha está um brilho.

O cearense, principalmente o mais humilde, do norte do estado, que foge da seca, da fome e da miséria, procura trabalho nas cidades grandes. Como leva apenas a experiência  na roça,  vai ser porteiro de prédio ou   lavar pratos em restaurantes, e  até em navios.

Já disseram que o cearense é o japonês da cozinha. Não cria nada, mas copia tudo que é uma beleza.  O jornalista Marbo Giannaccini morou no Japão como correspondente de jornais e revistas do Brasil. Toda vez que fala da coragem e da audácia dos cearenses na luta pela sobrevivência, principalmente lá fora, Marbo costuma contar uma história que ele batiza de “Meu Japonês Inesquecível!”.

“Década de setenta no Japão. Uma reportagem me leva de Tóquio a Kobe, com uma excelente recomendação do Osvaldo Peralva, correspondente da Folha de São Paulo, ao Press Club local, que facilitou meu trabalho e, às duas horas da tarde, já havia enviado minha matéria para São Paulo.  Os jornalistas japoneses, amigos do Peralva, me levaram ao que disseram ser o melhor sushi do Japão.

Não acreditei, pois em Tóquio estão todos grandes chefes japoneses incensados pela mídia e pelos clubes gastronômicos, mas o ver para crer e o dever cumprido me fizeram acompanhá-los.

Ao entrarmos no Sushiya, que é como os japoneses chamam as casas especializadas em sushi, fiquei meio decepcionado com o ambiente, que parecia um corredor longo, com um balcão contínuo.

A fome e a curiosidade, porém, falaram mais alto e, depois de duas taças de saquê, meus novos amigos pediram o famoso sushi.

Servido de modo tradicional, aos pares, tive uma sensação muito estranha quando o primeiro sushi se desfez na boca, aguçando todas as papilas do paladar a apreciar o que concordei em denominar o melhor sushi do Japão.

Embora a gastronomia não fosse meu forte, minha experiência, desde a infância em São Paulo no convívio com nisseis e japoneses, me permitia identificar uma boa ou má comida nipônica.

Repetimos algumas vezes aquela dupla maravilhosa e, no final, perguntei se podia conhecer o sushiasan, o chefe da casa de sushi. Não demora muito, lá vem o japonesinho jogando o corpo de um lado para outro, com o tradicional lenço amarrado na testa e nos cumprimenta com uma reverência.

Depois de apresentado como jornalista brasileiro, perguntei de chofre em japonês:

 – Como é seu nome?

Foi aí que conheci meu japonês inesquecível!

– Severino, de Ibiapina, lá na Serra da Ibiapaba, no Ceará. Mas pode me chamar de Severino da Serra Grande.

Saiu um dia do Mucuripe, onde trabalhava carregando navios e foi navegar pelo mundo lavando pratos, limpando cozinha, fazendo comida...

Estava ali o ex-cozinheiro de navio que um dia aportou em Kobe, e uma linda japonesa retemperou o seu querer”.


ARTIGO - Um Silêncio Eloquente (RMR)

UM SILÊNCIO ELOQUENTE
Rui Martinho Rodrigues*


O presidente Evo Morales, da Bolívia, fez um pronunciamento dirigindo-se aos militares daquele país, imiscuindo-se na política interna do Brasil. Ameaçou lançar o exército boliviano contra nós. Bastaria que o Congresso Brasileiro ou o Poder Judiciário entendessem haver motivos suficientes para defenestrar a presidente Dilma do Poder, para que o “poderoso” exército boliviano nos invadisse.

A ingerência nos nossos assuntos internos já seria descabida. A ameaça, porém, mistura ridículo com uma grave afronta diplomática, e advertência a ser considerada. Ridículo: a Bolívia não tem condições materiais de invadir nem o complexo da Maré, no Rio de Janeiro, ainda que este fosse na fronteira do Estado “ameaçador”. Uma afronta: é uma declaração de um chefe de governo, completamente intolerável do ponto de vista político e diplomático. Advertência a ser considerada, por várias razões.

Milícias de movimentos políticos que se apresentam como “movimentos sociais”, organizada dentro das nossas fronteiras, recrutando brasileiros, já foram citadas como uma força capaz de decidir por meios violentos a crise política vivida pelo nosso país. Já houve líder de organização aparelhada que convocou os seus militantes e simpatizantes a recorrer às armas com o mesmo objetivo da declaração do presidente boliviano (coincidência?).

Tais milícias, organizadas aqui mesmo, poderão encontrar na Bolívia uma fronteira de apoio: refúgio, meios logísticos, principalmente na fronteira de Rondônia e do Acre. Pior: a ameaça não tem o perfil da Bolívia. Morales se mostrou arrogante porque conta com apoios na UNASUL. Venezuela, bem mais armada do que a Bolívia, ansiosa por encontrar um inimigo externo, para desviar a atenção dos seus problemas internos, se somam às FARC e a outros governos do continente, alinhados com o governo de Caracas.

Os demais países não preocupam. Mas a organização narco-revolucionária tem algum potencial. Pode criar problemas, principalmente nos vales dos rios Iça, Japurá, Negro e Solimões.

Passaram-se os dias. Nada se fez. Protesto do governo brasileiro, pedido de explicações, um pronunciamento da Presidente Dilma, já que a resposta deveria ser dada no mesmo nível hierárquico da manifestação do governo de La Paz. Nada. Presidência da República brasileira, ministérios das Relações Exteriores e da Defesa, todos se omitiram. 

A resposta dada por Floriano Peixoto aos ingleses, quando estes perguntaram como receberia uma intervenção daquela potência na guerra civil que então se travava no Brasil, bem poderia ter sido repetida. O Marechal de Ferro disse simplesmente que receberia tal intervenção a bala. Mas, nem os chefes dos grandes comandos situados na fronteira ameaçada quebraram o silencio.

A omissão é eloquente. A ameaça a ser considerada é aprovada por setores situados na alta hierarquia do governo brasileiro. Outros estão intimidados. Não se justifica o silêncio que envolveu até as organizações da sociedade civil. Esta é sabidamente aparelhada. Mas as lideranças e partidos, inclusive os que se dizem de oposição, guardaram inexplicável silêncio.