segunda-feira, 7 de setembro de 2015

ARTIGO - Sobre a Bravura (HE)

SOBRE A BRAVURA 
E O MEDO
Humberto Ellery*

A eterna discussão entre o que é medo e o que é coragem fez-me lembrar da história da Batalha de Zama, quando, na segunda guerra Púnica (sec. III a.C.), se defrontaram os Exércitos de Roma e de Cartago nas franjas do grande deserto africano, às margens do Mar Mediterrâneo.

Comandando os cartagineses estava ninguém menos que Aníbal,  considerado pelos historiadores militares o mais brilhante estrategista de todos os generais guerreiros. No comando das legiões romanas estava o general Publius Cornelius Cipião, conhecido por “o Africano”.

Aníbal viveu desde os nove anos acompanhando o exército de Amilcar, seu pai, que lhe transmitiu não só seus conhecimentos bélicos como todo o seu ódio pelo nascente império romano, além da ferocidade e enorme talento guerreiro. Com a morte de Amilcar na primeira guerra púnica, Aníbal assumiu o comando aos 26 anos, onde hoje está a Espanha.

Decidido a destruir Roma, Aníbal partiu com seus homens da península Ibérica, atravessou os Pirineus, os Alpes e chegou à planície do Rio Pó, onde infligiu três derrotas maiúsculas aos orgulhosos romanos nas batalhas de Ticino, Trébia e Trasimeno. Alguns meses depois derrotou o maior contingente de soldados romanos jamais reunido anteriormente, numa batalha tão devastadora que passou a ser designada”batalha de aniquilamento”.

Foi a Batalha de Cannas, quando, com grande inferioridade numérica, matou mais de 70 mil adversários em 6 horas de luta, usando apenas espadas, flechas e lanças. A partir de então, ao lado de toda sua competência militar, Aníbal passou a contar com a mística de invencível, com o que ele contava para subjugar Roma. Alguns historiadores acreditam que ele nunca atacou Roma diretamente pois queria que esta se entregasse, covardemente, sem oferecer resistência. Não foi o que aconteceu.

Catão ergueu-se contra aquele inimigo atrevido e  passou a bradar no Senado “Delenda est Carthago” ao final de cada discurso, insuflando o ódio entre os romanos, pois julgava que só com a destruição de Cartago o Império Romano teria paz.

A “Pax Romana”. Com esse fito Cipião foi enviado à África para combater os cartagineses em seu próprio território. Durante a noite que antecedeu a batalha Cipião alinhou seus soldados em frente ao terreno onde ele julgava estar o  Exército de Aníbal. Aos primeiros raios do sol, Cipião teve um impacto terrível.

De um lado ao outro do horizonte os cartagineses já estavam em posição de combate. Até onde a vista alcançava podia-se ver, tremulando à brisa da madrugada, os estandartes do formidável exército de Aníbal. Sobranceiras, dominavam a paisagem as flâmulas de suas divisões de infantaria, cavalaria, arqueiros, lanceiros e, a mais ameaçadora de todas, a tropa de Elefantes de Guerra.

Dezenas de elefantes, gigantes de até oito toneladas, cinco metros de altura, treinados para matar, conduzidos por hábeis ginetes que os transformavam em poderosas armas de guerra. Montado em seu cavalo Cipião estava pálido, congelado de pavor.

Rompendo o silêncio, a um sinal de Aníbal, os elefantes ergueram suas trombas agressivamente e, num bramido ensurdecedor, partiram para cima das tropas de Cipião. Eram como milhares de trombetas anunciando o Armagedom. Seu tropel fazia o chão tremer sob um ribombar surdo e cadenciado. Cipião começou a tremer convulsivamente. Tremia de medo, completamente sem controle sobre seu próprio corpo.

Seus generais se entreolhavam, mudos, apavorados. De repente Cipião, sem  pear do cavalo ergueu-se sobre os estribos,  e, em pé, braços abertos e espada empunhada, olhando para si próprio gritou, magnífico: “TREME CARCAÇA! TREME! TREMERIAS MAIS AINDA SE SOUBESSES AONDE PRETENDO TE LEVAR”.

Ato contínuo esporeou seu cavalo e partiu como um alucinado em direção ao que parecia ser uma morte certa. Destacando cada sílaba deu seu brado de guerra: A-TA-CAAAAAR! Seus soldados esponderam em uníssono: A-TA-CAAAAR!

Era o início da mais sangrenta batalha da história: a Batalha de Zama!  Cipião esgueirou-se entre os elefantes e foi a procura de Aníbal. Queria matá-lo! Seus lanceiros, devidamente treinados, se imiscuiam entre os elefantes e cravavam suas lanças entre suas patas dianteiras, logo abaixo do pescoço, atingindo-lhes o coração. Os pobres gigantes tombavam entre golfadas de sangue, algumas vezes esmagando seus matadores com seus corpos. Terrível.

Seus arqueiros, com um joelho no chão, desferiam setas certeiras que cruzavam o céu levando a morte e a confusão às tropas da retaguarda. Sua cavalaria destroçou a cavalaria de Aníbal. Cavaleiros romanos pareciam tomados pelo espírito indômito de Cipião.

Cipião, já desmontado, lutava bravamente com sua espada numa busca louca por Aníbal. A batalha, sem descanso, durou o dia inteiro. Cipião, de tempos em tempos, trocava a espada de mãos para continuar lutando.


Ao por do sol fez-se finalmente um silêncio pesado. Cipião vagava entre os destroços e cadáveres. Desgrenhado, ensanguentado, Cipião ofegava ruidosamente, como um lamento rouco, como urros de uma fera. Olhando em volta percebeu finalmente a verdade que relutava em acreditar: Aníbal fugira! Transtornado de ódio ajoelhou-se sobre o solo africano e, com ambas as mãos, cravou-lhe sua espada. Parecia querer atingir o coração de Cartago, o coração da própria África, e gritou: DELENDA EST CARTHAGO! Em seguida, lentamente, deitou-se sobre o solo e fitou o céu.

O por do sol africano, tingindo todo o céu de vermelho, parecia refletir o solo arenoso empapado de sangue. Cipião observou então que, naquela hora, erguido e altaneiro apenas um estandarte tremulava embalado pela brisa quente do deserto, roto pela batalha, ensanguentado, mas glorioso. O estandarte de Cipião, o Africano. Seu rosto iluminou-se num sorriso. Seu corpo não tremia mais.


José Humberto Garcia Ellery
Engenheiro Químico
Ex-Oficial da Marinha Brasileira
Membro Honorário da ACLJ

  
NOTA DO EDITOR:

Oportuno e muito ilustrativo o artigo de Humberto Ellery sobre  a bravura e o medo, nestes dias em que o Brasil assistiu estupefato pela televisão à cena em que um idoso morador de rua ataca bravamente um bandido armado que subjuga uma mulher, na escadaria da Igreja da Sé, em São Paulo, enfrentando a morte em defesa de uma cidadã desconhecida.

Enquanto isso, policiais que acompanhavam inertes o desenrolar dos fatos no local  e bem de perto  não tiveram a iniciativa de conter o agressor injusto, não obstante o seu dever de proteger a sociedade, tampouco tiveram ação para evitar a morte do cidadão que o enfrentou de peito aberto. A polícia somente matou o facínora quando este já consumara a sua obra criminosa e descarregara a sua arma.  

Em qualquer país sério um atirador de elite da polícia teria abatido o agressor daquela mulher, agindo em legítima defesa de terceiro, pois a qualquer momento ele poderia cumprir a ameaça de matá-la – ou pelo menos o teria alvejado antes que ele fizesse sua vítima fatal, matando o herói popular que libertara a sua presa.

Lamentavelmente, no Brasil as polícias vivem acovardadas diante de uma imprensa contaminada por distorcido conceito de direitos humanos "politicamente correto", segundo o qual as pretensas prerrogativas humanitárias dos delinquentes superam em importância as legítimas atribuições legais dos que defendem a sociedade, com risco da própria vida, por um mísero salário.

A legislação penal também não concede qualquer vantagem aos que têm missão oficial de segurança pública. Em Fortaleza, há alguns anos, um policial revidou contra um homem que adentrou uma loja atirando, perseguindo um desafeto desarmado, e na troca de tiros um funcionário da empresa foi atingido fatalmente.

O grande foco do inquérito não era apurar a culpa de quem provocara o conflito injustamente, mas o exame balístico para definir de qual arma saíra o projétil que matara acidentalmente o vendedor, para somente sobre esse específico atirador pesar a acusação de homicídio, ainda que fosse ele o bem-intencionado agente público. Absurdo! Claro que, independentemente do laudo balístico, nesse episódio havia um assassino definido. 
     

domingo, 6 de setembro de 2015

ARTIGO - O "Fora Dilma" e o Dey After (RV)

O “FORA DILMA”
 E O DAY AFTER
Reginaldo Vasconcelos*

A esta altura ninguém desconhece, de sã consciência, que o Governo Dilma, seguindo os de Lula da Silva, teve o efeito de um míssil atômico sobre a economia Brasileira. 

Há uns poucos que veem, mas não querem ver, como as vítimas de um acidente grave, que em estado de choque negam os fatos, desmentem as feridas, minimizam a evidência da desgraça.

Mas alguns dos que sabem da tragédia e lhe reconhecem a autoria ainda murmuram um “fica Dilma”, meio tímido e desesperado, com medo de que após a hecatombe não haja vida inteligente na política brasileira. “Ruim com ela, pior sem ela”  lhes ocorre pensar.

De fato, não há no horizonte oposicionista nenhum grande líder de plantão, além de um Aécio Neves, político “pão de queijo” como o avô, vazio como as Minas, embora simpático como as Gerais, e de um empertigado Michel Temer, misterioso e insondável como um mordomo do cinema.

Há ainda uma sonhadora e desidratada Marina Silva, dois ou três milionários exploradores do Evangelho, uns outros da “bancado do boi e da soja” – e uma meia dúzia de ambiciosos fichas-sujas – correndo por fora o quixotesco, mas objetivo, Bolsonaro.

Foto: Wilton Júnior
Claro que não tem sentido pretender manter a Dilma no cargo, como um zumbi, por medo de que o vácuo no poder possa atrair as varejeiras – tese desastradamente defendida um dia desses pelo quase sempre lúcido articulista da Veja, Roberto Pompeu de Toledo – o qual diagnostiquei então como acometido da Síndrome de Estocolmo – vítima do sequestro político promovido pelo petismo, que, em transe, torna-se colaborador de seu algoz. 
 
Não. Por maior que seja a dúvida e mesmo o receito sobre quem sucederia Dilma Rousseff no Governo da República, levando-se em conta que ela somente poderá ter o mandato institucionalmente interrompido pela via legal, como ocorreu a Collor de Mello, isso impõe prova de crime de responsabilidade – e no campo criminal não se pode opor à aplicação da pena eventuais consequências sociopolíticas que a condenação provocaria.

Em outras palavras, no Estado Democrático de Direito não pode um criminoso ter o seu julgamento atenuado, ou sua pena comutada  enfim, não pode ser ele beneficiário de circunstâncias indesejadas que possam ser consectárias de sua punição. Que se apure o fato, que se confirme a culpa, que venha a punição rigorosa, e que se suporte o ônus de consertar posteriormente os estragos produzidos.

Ocorrendo o impeachment, assumindo o vice ou, preferivelmente, se realizando novas eleições, o novo Governo terá que tomar medidas austeras de redução da “máquina”, edemaciada e combalida, mas terá autoridade ética para pedir ao povo os agudos sacrifícios da “política de guerra” que a recuperação econômica e moral exigirá, em busca do resgate da credibilidade nacional, em relação à segurança jurídica e à estabilidade político-administrativa no País – e, com toda certeza, a população se submeterá a essas agruras com estoicismo. 

Em suma, precisamos limpar a sujeira que fizemos na Nação nos últimos anos, elegendo, seguidamente, incompetentes e desonestos administradores públicos, os quais conseguiram obter os votos numerosos das massas ingênuas com promessas quiméricas, como fazem os camelôs que vendem produtos mágicos aos simples e incautos que circulam pelo  centro das cidades, fazendo-os acreditar que a poção oferecida por eles pode mesmo transformar miçanga em ouro. Agora que caiu a ficha, todos querem manter a teta federal, que já secou. 

O que os nossos políticos têm feito é explorar teses político-ideológicas visionárias ultrapassadas, que prometem a promoção da igualdade plena, independentemente do mérito de cada um, de modo que os obtusos e preguiçosos se beneficiem do tirocínio e do trabalho dos que criam e que produzem.

Mas não acredito que os que herdem a cadeira presidencial tentem seguir a mesma trilha errática, pois estão atentos e eriçados como feras o Tribunal de Contas, o Ministério Público, a Justiça Federal. E o rebotalho infiltrado nas instituições pelo petismo, para fim de aparelhamento, vai se converter certamente num exército de enérgicos fiscais dos sucessores no Governo.

É necessário que se abram oportunidades para todos, que se busque o pleno emprego, que se disponibilize ensino gratuito e de qualidade, que se preste uma assistência social eficiente aos menos capazes. Que se revigorem os mecanismos da Justiça, especialmente os tribunais de pequenas causas, iniciativa ótima que restou desfigurada. Mas não faz sentido se dar o peixe aos pobres, em vez de lhes fornecer a vara de pescar, pois o “coitadismo” não empresta dignidade aos socorridos, e a pobreza em si não recomenda moralmente.

Não se pode parasitar os que produzem e que prosperam, por meio da discriminação imposta pelas tais políticas afirmativas e de impostos extorsivos, em prol de cotistas sociais, que ostentam em seu favor simplesmente  sua condição de gênero ou de raça.

Precisamos, enfim, abandonar esses delírios filosóficos do passado e pensar nas nossas crianças, no país que estamos construindo para elas. Que esse país seja de fato igualitário e justo, sem distinção de qualquer ordem, investindo nos melhores cérebros, premiando os que se esforcem, e atendendo com carinho, mas sem demagogia, os mais limitados e infelizes.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

NOTA FÚNEBRE - Morre Aloísio Bonavides (WI)


MORRE ALOÍSIO BONAVIDES
Wilson Ibiapina*


Morreu hoje, 04 de setembro, em Brasília, o ilustre jornalista Aloísio Fernandes Bonavides, Irmão do jurista Paulo Bonavides. Nascido em Patos, na Paraíba, radicou-se no Ceará desde muito cedo, em cuja Capital se iniciou no jornalismo. 

Aloísio foi correspondente do jornal O Globo no Ceará, foi assessor  do Governador Faustino de Albuquerque, entre 1947 e 1951, e escreveu em vários jornais. Nos últimos anos, Aloísio trabalhava em Brasília, como assessor do Senador Eunício Oliveira.

Aos 95 anos de idade, Aloísio Bonavides era um dos mais antigos jornalistas cearenses no exercício da profissão. 

O corpo dele será velado na capela 3 do Cemitério Campo da Esperança, onde será sepultado às 16 horas. Deixa viúva Dona Terezinha de Jesus, e os filhos Aloísio Júnior e Cristina, a quem apresentamos sentidas condolências, em nome da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. 



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

POEMA DO ABSURDO - Uma Estória de Nada (AG)

UMA ESTÓRIA DE NADA
Aluísio Gurgel*


Era uma vez o nada
Nada nada fazia
De tanto nada fazer
Nada acontecia
Um dia um ponto surgiu
No meio do nada parado
Nada fez que não viu
E continuou descansado
O ponto cresceu um pouquinho
E nada nem se mexeu
Esse nada não é de nada
Pensou o tal pontinho
E outro tanto cresceu
Foi crescendo, crescendo, crescendo
E nada de nada se ouviu
Ficou enorme, tão grande
Que pronto, nada engoliu
Mastigou nada todinho
Quebrou em mil pedacinhos
Depois deu um arroto
E foi dormir sossegado
Com sua barriga cheia
De nada alimentado
Enquanto ele dormia
Tudo acontecia
Nada havia acabado
Nada em seu sonho surgiu
Assim, despreocupado
Cresceu, cresceu, cresceu
E engoliu o ponto safado
Pois nada nunca morreu
Nada nunca tem fim
Nada é inacabado.

*Aluísio Gurgel do Amaral Jr. 
Juiz de Direito, Professor, Músico, Escritor
Titular da Cadeira de nº 14 da ACLJ

CRÔNICA - A propósito de Contraste (VM)


A PROPÓSITO DE CONTRASTE, SONETO PARADIGMÁTICO DE 
Pe. ANTÔNIO TOMÁS
Vianney Mesquita*


A mocidade na velhice é o anseio impotente de um coração que quer romper os tecidos atrofiados, para dar pulos em pleno ar. (CAMILO CASTELO BRANCO).

Lavo a alma e enxagúo o espírito, regado com a pureza artística desta vertente informativa – o jornal eletrônico da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. (V.M., em 5 de julho de 2015).


Em 5 de julho transato, escrevi neste medium a crônica Pingos de Arte e Ciência, lance no qual me comprazi com enaltecer a maioria dos autores cujas matérias aqui circulam, numa demonstração patente de que o Sodalício mantenedor da folha sob atenção é objeto da consideração dos seus leitores no concernente aos proveitos que traz à ciência, à cultura, ao jornalismo e a outras vertentes do saber.

Remeto-me, por oportuno – e novamente – agora, à matéria intitulada Esqueci o Título, da colheita de Assis Martins, escrita no capricho, com ares de bom humor (no seu primeiro tempo), inteligência e preparo em todo o seu decurso.

Seu escrito professoral sossega na relação senescência-senilidade, inexorável porto onde abicam as naus daqueles que logram transpor a juventude. A crônica do escritor Assis Martins – conforme pode rever o leitor – foi objeto de judicativo comentário da editoria do jornal, quando reproduziu, com raro senso de ocasião, o vínculo jovem-velho e esperança-desengano, tão excelentemente configurado no decassilábico português do Sacerdote-poeta acarauense, Padre Antônio Tomás, cujos 146 anos de nascimento decorrem agora, no próximo dia catorze.

O celebrado versificador coestaduano foi o primeiro Príncipe dos Poetas Cearenses, mercê de suas composições elevadamente edificantes, como, e.g., Verso e Reverso, acerca de temáticas humanas e humanitárias, vazadas em pés de medida tecnicamente perfeitas, obsequentes às grades determinadas pelos tratados de versificação, o que, em adição ao seu precioso estro, resulta em peças artística e (também) moralmente apreciáveis, feito um dos maiores sonetistas da Língua Portuguesa.

Esse autor, que jamais publicou um livro – decerto por falta de oportunidade – foi o primeiro sonetista por mim conhecido, no começo dos ’50, quando cursava o Primário, com a Professora Eunice Leite, na Escola Paroquial Mons. Tabosa, na Palmácia bucólica da minha meninice. Foi quando, pela volta primeira, tomei gosto por essa craveira compositiva, mediante a qual elaborei alguns quadri-trísticos, decassilábicos e heptassilábicos. Neste sistema de ictos – sete acentos – publiquei, em 2004, ... E o Verbo se fez Carne (Sobral: Edições UVA), no chamado cordel clássico, composto no gradil no sonetilho, isto é, sextilhas setessilábicas.

Hoje, por conta da ensancha de leituras de que se aproveita, no fastígio da rede mundial de computadores, mesmo os autores menos conhecidos outrora aparecem nos media eletrônicos, distintamente de períodos mais recuados, quando a cultura literária estava apenas nos suportes de papel, particularmente naqueles circulantes pelo País por intermédio das boas editoras, as quais procediam à devida distribuição comercial.

Lembro-me do fato de que, estando no Rio de Janeiro, em formação em serviço na TV Educativa – Sistema Nacional, assistia a um desses programas de variedades culturais e informativas da própria emissora, no final dos ’80, quando um telespectador posto no ar recitou os dois extraordinários quartetos de Contraste, ao passo que indagou à produção sobre seu autor, pois sequer o nome sabia, e pediu para que alguém complementasse o soneto declamando os trísticos.

Após solicitar as informações aos sintonizantes – e até para a Academia Brasileira de Letras a apresentadora telefonou  sem resultado, decidi complementar, recitando os tercetos. Admitido, então, ao estúdio, onde o programa era desenvolvido ao vivo, forneci os dados pretendidos e disse:

Então nós enxergamos claramente/ Como a existência é rápida e falaz./E vemos que sucede, exatamente,/

O contrário dos tempos de rapaz:/Os desenganos vão conosco à frente/E as esperanças vão ficando atrás.



FÁBULA - O Gato Comeu (RV)


O GATO COMEU
Reginaldo Vasconcelos*


O bichano chamado petê se adonou do Estado Brasileiro, faz 12 anos, e tem feito gato e sapato com a Nação. Em vez de guardar a despensa da casa, zelando pela subsistência da família brasileira, o petê distribuiu os víveres nacionais a outros gatunos, e chamou para a festa um exército de ratazanas, do Brasil e de além-fronteiras.

Agora o queijo acabou, findou o mel, esgotou-se a farinha, e a casa está à míngua, para sobreviver a pão e água. Aliás, o pão já é pouco, e a água está no fim. Agora o petê pede ao povo da casa que se sacrifique para suportar a grande penúria, e para que se possam adquirir novos mantimentos com urgência. 

Como era de esperar, antes de empreender esforço ingente para recuperar suas provisões, grande parte das pessoas quer mais é atirar o pau no gato, em vez de atender aos seus apelos para roubar ficar roubando. Enquanto isso, quatro gatos pingados saem nos muros em apoio ao companheiro, que culpa as suas vítimas pela crise que causou.

Os gatos têm sete vidas, e o petê já sobreviveu quatro vezes às suas peripécias arriscadas. Da última vez deu o pulo do gato, miando falsamente, enterrando sujeira, e enchendo de areia as embalagens saqueadas. Enganou de novo, continuou roubando, e as pessoas agora estão com um olho no peixe, outro no gato, um olho no gato, outro no prato. E, a propósito, cadê o bolinho que estava aqui?



NOTA JORNALÍSTICA - DNOCS (CB)




quarta-feira, 2 de setembro de 2015

APRECIAÇÃO LITEROCIENTÍFICA - Manifestações do Dia a Dia Docente (VM)


MANIFESTAÇÕES
DO DIA A DIA DOCENTE
Vianney Mesquita*


Palmam qui meruit ferat. (Divisa da Nova Arcádia Palmaciana).


À proporção que se desenvolve o estado da arte das Ciências da Educação e de suas sistematizações afins, também cresce, em quantidade e essência, a propagação de trabalhos produzidos na contingência da Academia, resultantes de programas de pós-graduação, lato e stricto sensu, conforme acontece, de modo geral, nos mais variados tratos do saber ordenado.

A expansão dos projetos de pesquisa e o ampliamento dos planos de altos estudos universitários, também no Brasil – ocorrentes desde algum tempo – fazem aportar aos nossos centros reais e virtuais de guarda do conhecimento uma sequência intérmina de textos-relatórios de ensaios e experimentos, esteados nos procedimentos metodológicos propícios a cada classificação disciplinar, dotando-nos, por consequente, de numeroso e qualitativo recheio para emprego, pela Ciência, em proveito da Humanidade.

Esta quadra, induvidosamente, constitui tempo proeminente da civilização e da cultura, quando feitos se acumulam e perfazem ciclicamente, a fim de concederem, pari passu, à espécie produtora destes o ensejo de concorrer para o aperfeiçoamento da vida e maximização da figura humana, o seu mais importante segmento e razão sublime, em consórcio pacífico e respeitoso com os demais seres de sua convivência.

Outro exemplar aflui, nesse moto diuturno de sistematizações científicas, elaboradas sob o hálito salutar do debate e abrangência temáticos da Universidade, no terreno profuso da Educação.

Reporto-me a Trabalho Docente, Formação e Profissionalização, conjunção de ideações magnificamente refletidas por parte da professora doutora Tânia Cristina Meira Garcia, decorrente de tese doutoral sustentada na Faculdade de Educação da UFC, onde foi recepcionada com o máximo conceito.

São pensamentos em profundidade, representativos de circunstâncias fáticas, empiricamente experimentadas em ambiente de real laboratório, tendo por sujeitos professores do Ensino Médio de sistemas escolares do Rio Grande do Norte, onde a autora ensina, pesquisa e desenvolve extensão acadêmica, com atestada proficiência na área de Pedagogia, feita componente do corpo docente da Universidade Federal do nosso vizinho Estado.

Cumpre, também, revelar, por necessário, o fato de haver sido toda a tarefa de investigação efetivada in situ, jungida à literatura pertinente, atrelando cada achado às ideações esposadas pelos autores, todos de nomeada internacional.

De tal modo, esta asserção concede insuspeitamente ao seu livro o caráter de verdade, indicadora daquilo expresso tão bem no subtítulo – o que nos revela o cotidiano do professor.


CRÔNICA - Esqueci o Título (AM)

ESQUECI O TÍTULO
Assis Martins*
                                                                                       
[...] Pouco importa venha a velhice. Que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo, e ele não pesa mais que a mão de uma criança. (Carlos Drummond de Andrade)      

Velhice, senilidade, decrepitude e outras palavras antipáticas são companhia nada prazerosa, apesar da certeza de que nos alcançarão à revelia da nossa vontade.

O chato é que não há um “grid de largada” para a corrida que encetarão durante a nossa marcha cronológica, e não marcam hora para as mudanças insidiosas que farão nos nossos hábitos e relações sociais.

A primeira dessas fases é a senescência (do latim senex = velho), cujas características se acentuam com o envelhecimento biológico: mudanças hormonais, fisiológicas e anatômicas, de modo lento e gradual; o corpo perde a capacidade de responder às infecções e à memória imunológica. Depois, começa a fase mais cruel, a senilidade, quando a debilidade intelectual e física é mais acentuada, em razão do declínio de todos os sistemas do corpo (respiratório, endócrino, genital etc.), às vezes acompanhado de desorganização mental.

Ilustração: Assis Martins
A linha tênue que serve de fronteira entre a mocidade e a velhice não é percebida, e assim, alguns podem alcançá-la mais cedo, outros não. A evolução bio-psicológica depende de muitos fatores, entre os principais o modo de vida, a classe social, o ambiente et reliqua. 

O progresso da Medicina e uma qualidade de vida melhor propiciaram um aumento na expectativa de vida dos brasileiros na ordem de 75 anos. Juntando-se a isso a queda da mortalidade infantil, podemos afirmar que os demógrafos que se preparem para desenhar a pirâmide social com a posição invertida.

Estes prolegômenos estão ficando muito enfadonhos e, para aliviar, é melhor colocar um tom bem humorado ao assunto, apesar da sua seriedade. O seguinte diálogo entre dois adultos, na fronteira entre a senescência e a senilidade, foi ouvido por um amigo numa parada de ônibus:

– Zé, faz um tempão que a gente não se encontra. Cê tá morando onde?

– No Conjunto Ceará.

– Onde, no Conjunto Ceará?

– Não, no Conjunto Ceará.

– Ah, pensei que fosse no Conjunto Ceará...

Não é humor negro (ou como se diz agora, politicamente incorreto) citar esses diálogos engraçados, muito comuns até em pessoas de meia-idade. A nossa mente, sobrecarregada de muitos pensamentos, às vezes nos surpreende com cortes súbitos na ordenação de coisas ou fatos que estamos narrando.

Comigo, e acho que com muitos, já aconteceu a seguinte conversa:

– Cara, o Paulo, que mora lá na rua... (pausa)  perguntou por você.

– O Paulo vendedor ou o da...

– Não, o Paulo, irmão daquela loura, a... (como é mesmo o nome dela?)

– Ah! Já sei, me encontrei com ela quando fui assistir àquele filme do... 

Levando em conta que esta curta conversa tem quatro reticências, e cada uma três pontinhos, e sabendo que milhões de diálogos semelhantes a este estão ocorrendo agora, dá medo ao pensar que faltarão pontinhos para futuras reticências. A solução seria, então, utilizar os pontinhos dos tremas deletados pela Reforma Ortográfica.




NOTA DO EDITOR:

A crônica de Assis Martins trata de maneira bem-humorada o drama da velhice, que não atinge as pessoas em geral, mas, ironicamente, apenas aquelas que têm a ventura de sobreviver à juventude.

Importante notar que a Natureza só tem interesse na sobrevivência dos seres com suficientes higidez e resistência para superar a sua infância (vencendo a seleção natural para transmitir os melhores genes), e relega ao descarte natural os indivíduos que superem sua fase produtiva.

A  civilização subverte essa regra quando preserva os jovens menos capazes e prolonga a sobrevida dos idosos. Entretanto, pela via caridosa. Na prática, todos os bens da vida que a sociedade produz e cultua priorizam atender o universo dos mais jovens. Os esportes, a moda, a poesia, a música, o erotismo, os novos modelos de automóveis, a moderna arquitetura, tudo isso visa os que ainda estão vivendo as primeiras estrofes do poema Contraste, de Pe. Antônio Thomaz.

CONTRASTE
Pe. Antônio Thomaz

Quando partimos no verdor dos anos
Da vida pela estrada florescente
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo, cantando, céleres, ufanos,
Vamos marchando descuidosamente;
Eis que chega a velhice, de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então nós enxergamos claramente,
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede exatamente,

O contrário dos tempos de rapaz:
Os desenganos vão conosco à frente,
E as esperanças vão ficando atrás.