domingo, 27 de julho de 2025

SONETO - Essência Compartida (VM)

 ESSÊNCIA COMPARTIDA
Vianney Mesquita*


 


(Para o amigo comum – Prof. Dr. Arnaldo Santos)

 

"A sombra do amigo de Deus em tempo algum está isenta de LUZ. Entrementes, o LUME do inimigo jamais remansa forro da intensa penumbra"

(Francisco Gómez de QUEVEDO y VILLEGAS, poeta e escritor satírico espanhol. Madrid, 14.09.1580; Vila Nova dos Infantes, 08.09.1645).


 



Ao surdimento de estremes fenômenos,
Ruborizado por ortivos sóis,
O Escritor ensaia os prolegômenos
Ao nume dos diáfanos faróis.
 
Relata a existência em si-bemóis
Em exemplares plenilúnios nômenos
Do róseo, rocicler dos arrebóis,
Conforme escriturais paralipômenos.
 
Com efeito, o Esteta, em tons singelos
Ao reunir os divinais anelos
Atrai compartes para sua história.
 
Não se lhe impôs, solito, a trajetória,
Porquanto, assim, não obtinha a glória
De Reginaldo Ayrton Vasconcelos.



sexta-feira, 25 de julho de 2025

CONGRATULAÇÃO - Dia Nacional do Escritor (SN)

 Dia Nacional do Escritor
Sousa Nunes*

 

Neste 25 de julho, quando se celebra o Dia Nacional do Escritor, a Academia Cearense da Língua Portuguesa rende homenagem a todos que, com a pena, o teclado ou o silêncio maduro das ideias, constroem a eternidade das palavras — sejam escritores ou escritoras, autores ou autoras, de obras de ficção ou de não ficção. 

Fonte: Wikipedia

Escrever, como nos recorda Drummond, não é apenas uma maneira especial de ver o mundo, mas a incapacidade de vê-lo de outro modo.

 


Fonte: Wikipedia

É, como diria Josué Montello, “um ofício que se exerce na solidão, mas cujo destino é a multidão”. Cada escritor é um artesão de abismos e claridades, transformando o cotidiano em obra de permanência, a dor em beleza e o instante em memória viva. 

A todos aqueles que carregam este dom e esta condenação — porque escrever é, ao mesmo tempo, graça e necessidade — o nosso tributo e gratidão. Que continuem a olhar o mundo, não como ele se apresenta, mas como ele se revela, por meio da palavra, que transcende o tempo e liberta o espírito. 

Feliz Dia Nacional do Escritor! 

Academia Cearense da Língua Portuguesa

 

quinta-feira, 24 de julho de 2025

RESENHA LITERÁRIA - Arrebóis e Plenilúnios (VM)

 

CLARÍSSIMA LUA LITERÁRIA 

E HISTÓRICA,
DE 
REGINALDO VASCONCELOS

 Vianney Mesquita*

 


Seu “Arrebóis e Plenilúnios” é uma obra que jamais poderia esquecer os circunstantes dos seus 25 mil dias. Como teria vivido sozinho? É admirável a decisão de jungir sua vida a situações e pessoas, tanto da família, quanto dos demais – pessoas e circunstâncias.
 
Fora de qualquer propósito está o conjunto de senões que recebe por não haver particularizado a contagem da sua História, que não é estória (nem “contação”, “palavra” que não existe), deixando de lado as ocorrências vinculadas a sua vida plena e exemplar. 

Louvo a relação dos assuntos, com o devido tempo de ocorrência, a lógica temática à medida temporal, e a expressão do EU ACOMPANHADO, não do “ad me solum”, situação absolutamente impossível!

Em adição, o CONTINENTE  lindíssimo – papel, capa, orelhas, prefácio etc – o qual, juntado ao CONTEÚDO insuperável, fica a anos-luz do que se conhece como “sepulcro caiado” – “praebuit sepulcrum”, expresso na Bíblia Sagrada por Jesus Cristo, em Mateus 23:27, ao comparar fariseus com escribas. 

É realmente excepcional. 

Não tenho um senão, um quando não sequer. 

NOTE MAXIMALE AVEC MENTION! 

NOTA LITERÁRIA - Prof. Dr. Valdester - Cidadão Cearense

 PROF. DR. VALDESTER
CIDADÃO CEARENSE 

Não há princípio de Filosofia ou de religião que não seja capaz de ser santa ou celeradamente aplicado. Tudo depende do coração. 

[Ugo (Nicolo) FÓSCOLO, literato, revolucionário e poeta heleno-italiano. Zacinto, 06.02.1778; Londres, 10.09.1827).

 

ALEC ENTREGA TÍTULO DE CIDADÃO CEARENSE AO CIRURGIÃO CARDIOVASCULAR INFANTIL, DR. VALDESTER CAVALCANTE PINTO JÚNIOR.

 

Por moção justíssima dos parlamentares estaduais Guilherme Sampaio e Leonardo Pinheiro, a Assembleia Legislativa do Ceará entrega, em sessão solene, no dia 14 de agosto próximo, o título de Cidadão Cearense ao Prof. Dr. Valdester Cavalcante Pinto Jr., alagoano de Palmeira dos Índios, diplomado Médico pela Universidade Federal de Alagoas. A solenidade vai ocorrer no Plenário 13 de Maio, às 17 horas. 

Chegado a Fortaleza, nos primeiros anos de 1990, o Dr. Valdester, cirurgião cardiovascular, notadamente na seara infantil, é o dirigente do Incor – Instituto do Coração da Criança e do Adolescente (Incor-Criança), aqui em Fortaleza. 

Graduou-se em Medicina pela Universidade Federal de Alagoas (1987), cumpriu programa de Residência Médica no Hospital do Coração-São Paulo, feito componente da equipe do Prof. Dr. Adib Jatene. 

É especialista em Cirurgia Cardiovascular, detendo, ainda, diploma de Mestre em Avaliação de Políticas Públicas – UFC e de MBA – Mestrado em Administração de Negócios (Gestão em Saúde) pela Fundação Getúlio Vargas, e conquistou o título de Doutor em Biotecnologia - UECE/RENORBIO. 

Exerce a função de Diretor Técnico do mencionado Incor-Criança Cirurgião, faz cirurgias cardiovasculares na Universidade Federal do Ceará e cardiovasculares pediátricas no Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes. Sua experiência na área de Medicina envolve atuação, principalmente, nos seguintes temas: cirurgia cardiovascular pediátrica, cardiologia pediátrica, cardiopatias congênitas/cirurgia e procedimentos afins, políticas públicas e gestão em saúde. 

Após a celebração, será lançado o livro Entre Fios e Nós, de sua autoria, envolvendo matérias relativas ao seu labor científico, particular e de seus colegas facultativos do Ceará, desde os anos de 1990. 

Graduado em Medicina pela Universidade Federal de Alagoas (1987); Mestre em Avaliação de Políticas Públicas  UFC; MBA em Gestão em Saúde  FGV; Doutor em Biotecnologia  UECE/RENORBIO; Diretor Técnico do Instituto do Coração da Criança e do Adolescente; Cirurgião cardiovascular da Universidade Federal do Ceará e cardiovascular pediátrico do Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes. Tem experiência na área de Medicina, atuando principalmente nos seguintes temas: cirurgia cardiovascular pediátrica, cardiologia pediátrica, cardiopatias congênitas/cirurgia e procedimentos afins, políticas públicas e gestão em saúde. 

A fim de ressaltar a expressão incessante do seu trabalho científico, literário e acadêmico, conforme o são os ensaios sustentados na conquista de todos os seus títulos acadêmicos, o Prof. Dr. Valdester Cavalcante Pinto Junior, já tem pronto – hoje sob editoração final, seu novo livro (solo) intitulado CONATUS – Até Onde a Vida Pede Luta, no âmbito da mesma temática, porém sob distintos teores, o qual vai ser posto à disposição dos leitores dentro em pouco tempo.

 


segunda-feira, 21 de julho de 2025

CRÔNICA - Da Poesia e da Loucura (RV)

DA POESIA E 
DA LOUCURA
Reginaldo Vasconcelos* 

 

Às vezes eu ponho em dúvida íntima a minha sanidade cerebrina, e cogito conceder a mim mesmo um atestado de loucura – e aqui me consulto sobre se os psiquiatras, a quem cabe fazê-lo a terceiros, também não lhes ocorreria, eventualmente, diagnosticarem-se a si próprios sobre algum laivo de sandice. 

Por exemplo, acabo de editar o meu livro de memórias, em prosa poética, e a primeira impressão dos leitores mais chegados a mim é de que a obra dissente do normal, que não segue a fórmula ortodoxa das biografias em geral. “A tua é diferente... como tudo que tu fazes” – diz-me um deles. 

De fato, no meu relato, dou destaque às criaturas mais nobres que bordejaram a minha vida e que enfeitam a minha história, que não são, necessariamente, destacados e notórios personagens, dotados de grande importância social, mas, não raro, pessoas dentre os simples do povo, ricas daquela essência humana que a morte sublima, mas que o bronze das estátuas não conserva.

Fonte: Wikipédia

Aí eu me lembro da revelação de um amigo de infância do prodigioso compositor pernambucano Alceu Valença. Segundo aquele, este último, ainda mal saído da adolescência lhe apresentou as primeiras canções que produziu – de tão bela e exótica inspiração, e fornidas com letras de tão inusitada força lírica, que o jovem artista teria reiterado do seu confidente uma sincera opinião: “Tu achas que eu sou doido? Tu achas que eu sou doido?”. 

No meu caso, modestamente, não encontro em algum grau de genialidade artística a minha específica loucura, mas, pelo contrário, identifico-a na tendência de me enlevar com as pessoas e as coisas mais singelas da existência, como acima referi e em seguida especifico. 

As ervas incultas que medram entre as pedras das calçadas e no canto das paredes em qualquer ponto da Terra, assim como nas ruinas do Coliseu e de Pompeia e alhures além, meneando o caules frágeis na brisa, sob o sol meigo da manhã, me enternecem muito mais do que me deslumbram os suntuosos jardins bem amanhados mundo a fora.

O mármore domesticado e bem polido que brilha no piso dos palácios, por seu turno, não me diz tanto quanto o rude pavimento asfáltico que perfura imensidões, assoalhando a rota de aligeirados viandantes, conduzindo assim tantas almas e tantos corações ao seu destino de lonjura e de saudade. 

E as paisagens rústicas de árvores vagabundas e de pedras toscas e de aguadas infelizes, e de vivendas em que se nasce, vive e morre, que margeiam as rodovias pelas quais flano mansamente quando em vez – cenas que fogem aceleradas das minhas vistas rumo ao passado imediato, tudo isso é para mim uma rica experiência de vivência e de mistério, muito mais emocionante e realista do que a aventura de varar continentes e oceanos entre nuvens, através de amortalhados “deslugares”. 

Enfim, assim como as rosas de Cartola não falam, muito menos deblatera a pedra no caminho de Drummond, todavia, a mim e a ele um seixo casual que se interponha numa vereda da vida pode dizer muito no seu ontológico silêncio, quem sabe, no meu caso, ditando-me também um poema que escuto nos esconsos de mim mesmo e nem escrevo.

 

Fonte: Gazeta do Povo

A propósito, a poetisa Adélia Prado constata em lindo versejar retórico que, frequentemente, a plena sanidade mundana lhe vem cegar o espírito lúcido das suas musas: “Às vezes Deus me tira a poesia; eu olho pedra, e vejo pedra mesmo”.          

          

CRÔNICA - Quintal da Infância (TL)

 QUINTAL DA INFÂNCIA
Totonho Laprovitera*

  

No quintal de casa, cultivava-se uma pequena plantação de pés de macarrão, que cresciam obedientes à fome do dia. Quando os galhos estavam de bom humor, pendiam balas, bombons e, vez por outra, até jujubas coloridas.

 

Ao se abrir a porta rolada da cozinha, a claridade entrava como visita, dando bom-dia à natureza. As aves tomavam seus lugares, ajeitando penas e gargantas para mais um concerto matinal. O canário belga, que morava num ninho rendado na goiabeira, regia a orquestra de olhos fechados. O velho galo, aprumado, soltava seu canto com tanta força que sacudia as telhas. No coro, galinhas se enfileiravam como cantoras, cocoricando melodias de alma livre.

 

Os galos campina saltavam sobre fios invisíveis, inventando coreografias desafiadoras às leis do chão. As formigas, em marcha organizada, desenhavam caminhos secretos por entre raízes e pedrinhas. Cada uma levava consigo a promessa de um mundo onde todo vivente tem seu quinhão. O vento da manhã soprava com cheiro de flor molhada, e o sol, feito padroeiro do céu, benzia a terra e desfazia os arrepios no espinhaço dos bichos.

Lá do fundo, o converseiro da vizinhança dava sinal de que o tempo já corria – mas não corria sozinho: levava vozes, sonhos e cheiros. O sino da igreja batia junto com o cheirinho de café, saído fumegando do bule. O gato miava antes de se espreguiçar; o cachorro respondia com um latido, marcando seu território. O leiteiro surgia montado em sua bicicleta. O verdureiro vinha logo atrás, empurrando um jumento que falava baixinho com a cangalha. E, a cavalo, o vendedor de carne fresca se anunciava com voz de trovador.

Às vezes, o pescador aparecia do nada, vindo de um mar que ninguém sabia direito onde ficava. Com os pés ainda molhados, exibia os peixes sobre folhas de bananeira. Cada peixe tinha uma história, e quem comprava levava junto um segredo das águas profundas. Tratava ali mesmo, na calçada – e o cheiro de mar, misturado às escamas prateadas, denunciava o cardápio do dia do freguês.

Naquele tempo, bebia-se mais água, refresco e suco de frutas. Refrigerante era raridade, restrito a festa ou febre. E, se a criança pegasse uma febre de sapo – dessas que vêm só para pedir agrado – já era motivo para ganhar brinquedo e colo dobrado.

 

Era assim, desse jeito, que começavam os dias na cidade da minha infância. E quanto mais o tempo passa, mais sinto que os costumes de antigamente eram feitos com a mesma luz dos sonhos. Tudo era simples – e, por isso mesmo, fabuloso. A vida tinha outro jeito de existir. E a gente era feliz... e sabia – até quando esquecia.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

ARTIGO - A Crise do Magistério (RMR)

A CRISE DO MAGISTÉRIO
Rui Martinho Rodrigues*

 

1 – Considerações preliminares

Professores eram respeitados e suas opiniões acatadas. Houve uma grande mudança. Mestres já não são chamados lente, que enxerga por nós ou nos faz enxergar e tem autoridade no campo dos saberes. A autoridade intelectual deve ser relativizada. A validação do saber deve ser obtida pela vigilância epistemológica, quando e se for bem sucedida.

A autoridade é necessária nos espaços escolares. Mas deve ser exercida nos limites da lei e ao abrigo dos costumes. Mas quais costumes? Os de antanho? Os fluidos marcos da sociedade líquida (Zygmunt Bauman, 1925 – 2017)? Os de utopia antevista entre as brumas do futuro? A sociedade pós-moralista (Gilles Lipovetsky, 1944 – vivo) tem padrões? 

2 – O caldeirão de bruxas da História

Caldeirão de bruxa, com asa de morcego e outros ingredientes permite a analogia com os fatores ligados às transformações históricas. O magistério sofreu o impacto do crescente prestígio do pensamento sofista, dando aparência de superioridade intelectual ao relativismo cognitivo e axiológico. 

Outro fator relacionado com a crise do magistério é a difusão do argumento de que tudo é política, se resolve por vontade política e toda neutralidade é um engajamento. A banalização dos mores, transformados em folkway vulgarizou valores, profissões e símbolos das instituições e estruturas sociais. 

 3 – O ensino pós-moderno 

O prestígio do professor, nos campos cognitivo e axiológico, tinha amparo no domínio dos conteúdos e na conduta pessoal do mestre. O relativismo desvalorizou estes sustentáculos do status do magistério. Os conteúdos foram desprestigiados. Ensino “conteudista” passou a ser coisa de ensino inferior. Conduta moral passou a ser confundida com moralismo, contrário a liberdade confundida com ausência de obstáculo ao desejo.

O domínio de conteúdos rebaixado como antiquado, abriu a porta para o animador de classe, substituto do mestre. O relativismo cognitivo leva ao descaso para com a formação do professor. O docente despreparado não inspira respeito A qualificação profissional não é cobrada por alguns, mas não tem o respeito de muitos. 

A conduta do professor sofre os efeitos da falta de referencial na sociedade líquida. A linguagem vulgar pode ser aprovada e o abandono da língua culta tolerado por uns e reprovado por muitos. O recato igualmente divide opiniões. O “professor povo”, engajado em causas revolucionárias, pode usar baixo calão e pode vestir-se e comportar-se de modo heterodoxo. Mas divide opiniões. 

4 – O ensino como proselitismo 

O engajamento apaga a separação entre magistério e proselitismo. A neutralidade axiológica pode ser facilmente praticada no campo das ciências da natureza. As ciências físicas, químicas ou biológicas levam – ou deveriam levar – o professor para o campo do juízo de fato. Não cabe – ou não deveria caber – atitude de pregador ou missionário nestes campos. Mas ocorre a prática de proselitismo até no campo da Matemática. Já se pode encontrar tal disciplina adjetivada politicamente. 

O proselitismo se manifesta abertamente nas ciências da cultura. Pregação se faz com juízo de valor. Juízo de fato se afirma por demonstração, não por apelo à justiça. Certamente os fenômenos sociais, no que concerne aos atos dos sujeitos da ação social, têm natureza de ação voluntária, dirigida e intencional, salvo se considerarmos tais agentes como incapazes para o exercício da cidadania. 

Conscientizar os incapazes, guiados por uma falsa consciência, é próprio do proselitismo. Mas quem prega o relativismo cognitivo e axiológico na sociedade líquida não pode proclamar uma consciência verdadeira contrária à falsa consciência dos alienados. Salvo se disser que só as suas palavras expressam a consciência verdadeira. Juízo de fato tem amparo nas demonstrações – empíricas ou racionais – verificáveis. 

Conteúdos de consciência são juízos valorativos. Não são susceptíveis à verificação empírica. Como falar em consciência verdadeira ou esclarecida, sem aceitar dogmatismo? Pregar o relativismo e ministrar dogmas é contradição. Não reconhecendo verdades, como pregar certezas? 

Conscientizar é verbo incompatível com pluralismo democrático. Consciência não existe sem autonomia. Citando a frase de Sócrates, “só sei que nada sei”, alguém dizia: nós, os mais conscientes, devemos esclarecer o povo. Sem nada saber ela era mais consciente? Quem deveria ser doutrinado era subalterno na hierarquia de consciências. 

5 – A crise do magistério: catequista versus catecúmeno 

A hierarquia de consciências pode existir legitimamente, mas no tocante a juízos de realidade. Calcular a resistência da coluna de um edifício cabe a engenheiro calculista, posicionado na hierarquia do saber, cujo trabalho pode ser julgado como certo ou errado por ser juízo de realidade. Professor de cálculo não tem problema com liberdade de consciência, nem diz que tudo é política. 

Proselitismo é coisa de escola confessional. Toma o caminho dos juízos valorativos que têm natureza política. Esta não trata apenas dos negócios da polis: é aquilo que não é técnica, mas juízo de valor. Não se faz eleição para saber o sexo de um passarinho, por ser um problema técnico. Nem se consulta um especialista para decidir se é importante saber o sexo do passarinho, porque esta não é uma questão técnica. Política é juízo de valor. Técnica é juízo de fato. 

Quem troca juízo de fato por juízo valor não faz magistério, mas catequese. Juízo de valor não é ciência. Catequista não tem a legitimidade do magistério. Democracias não têm consciências oficiais. A política apaixona e divide. Tudo é política? Então tudo é discutível, apaixona, divide e a autoridade intelectual falece. O fiscal de consciência, formado na escola que despreza os conteúdos, agrava a crise do magistério. 

As redes socais quebraram o monopólio da informação resultante do aparelhamento do ensino desde as universidades até o ensino infantil. Professores e jornalistas perderam o controle das massas. A internet deu oportunidade ao pensamento divergente. Professores e jornalistas seguiram o mesmo caminho e vivem a mesma crise. 

6 – O debate acerca do poder e as razões da resistência 

Economia, estrutura social e justiça, sem passar pelo crivo da crítica, era discurso sedutor. Sentindo-se poderosos em razão do aparelhamento do ensino e dos veículos de informação, os diretores de consciência julgaram haver chegado a hora de completar a destruição das instituições que podem oferecer alguma opção ao poder do Leviatã na assistência e na formação das consciências: a família e as igrejas. 

Todo o poder ao Leviatã é entregar o comando ao estamento burocrático-patrimonial (Raymundo Faoro, 1925 – 2003); à elite citada na obra A elite do poder (C. Wright Mills, 1916 – 1962) composta, nos EUA, por super-ricos, senhores da guerra (elite militar), celebridades e intelectuais. Gaetano Mosca (1858 – 1941), na obra La classe política, enumera as elites: política, econômica, guerreira, sacerdotal e intelectual. Elas podem ser excluídas ou formar alianças. A teoria da circulação das elites (Vilfredo Pareto, 1848 – 1923) descreve as mudanças de regime político pelas transformações nas alianças entre elas. 

A concentração de atribuições nas mãos do Estado fortalece o poder das elites que controlam o Leviatã. O poder corrompe e o poder absoluto corrompe de modo absoluto (Lord Acton 1834 – 1902), isto é: o poder absoluto é corrupto, abusivo, controlador, ilimitado. Estado é controlado pelo estamento descrito por Faoro; pela plutocracia apontado por Wright Mills como super-ricos; e pela cleptocracia de que fala Lamberto Maffei (1936 – vivo). 

Maffei, na obra Elogio da rebeldia, trata da cleptocracia como um grupo minoritário, que explora a maioria (exploração como fenômeno incidental, não como exploração imanente ao trabalho assalariado) com objetivos econômicos e em razão do poder. A hegemonia da aliança da plutocracia com o patriciado em alguns países degenerou para cleptocracia, que convencia e dominava. Proponha o Estado provedor, paraíso terrestre com igualdade, sem excluir os “mais iguais” da obra A Revolução dos bichos (George Orwell, 1903 – 1950) e a “fraternidade” da guilhotina, demonstrada na Revolução Francesa. Sentindo-se seguros, os senhores das consciências passaram ao ataque aos costumes, como gestores da consciência e da moral pública. Valores passaram à condição de preconceito, embora sejam conceitos ex post facto. 

As massas encontraram forças nas redes sociais e ensaiaram alguma resistência. Costumes não ensejam argumento de autoridade de professor ou especialista convidado de jornalista. Criticar o Banco Central é diferente de defender o uso de drogas psicoativas ou de práticas sexuais inspiradas nos textos do marquês de Sade (1740 – 1814). 

Imprecar a sociedade “injusta”, como excludente de culpa dos nossos fracassos é delicioso. O trabalho de catequista da revolução dos costumes, porém, soprado nos ouvidos de filhos, no campo dos costumes, estimulou a resistência que as redes sociais viabilizaram. A transparência da política fez o resto. O povo agora sabe como se fazem as linguiças e as leis (Otto von Bismarck, 1815 – 1898).

domingo, 13 de julho de 2025

NOTA CULTURAL - Ceará Francês

 CEARÁ FRANCÊS
O FILME

UM RESGATE HISTÓRICO IMPORTANTE
 

O estúdio Zoom Digital, do produtor de vídeo Eduardo Barros, lançou, com grande sucesso de público, na noite deste dia 12 de julho, no Cine Teatro São Luiz, em Fortaleza, o documentário intitulado “Ceará Francês”, idealizado e dirigido pelo jornalista e pesquisador Roberto Bomfim, Membro Titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. 

Esse primoroso trabalho audiovisual, que marca os 200 anos das relações diplomáticas França-Brasil, foi realizado sob patrocínio da empresa franco-brasileira QAIR Brasil (Quer Brasil) e do Grupo BSPAR.

 

Contou com o apoio institucional do Governo do Estado do Ceará, da Prefeitura de Fortaleza, da Academia Cearense de Letras, do Instituto do Ceará – Histórico, Geográfico, Antropológico, do Museu Tertuliano de Melo e da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo.


Na plateia numerosa se destacaram dois imortais da Academia Cearense de Letras – o empresário e bibliófilo José Augusto Bezerra (Presidente Emérito daquela veterana e veneranda casa literária), acompanhado pela consorte Bernadete e pela filha Margarete, e o Professor Batista de Lima. 

Além deles: o Consul da França em Fortaleza, Serge Gas; o representante da Câmara de Comércio França-Brasil, Advogado Ilo Marques; Cira Leona e Rocélio, da CL Produções; e o Maestro Potiguar Fontenele, Membro Honorário da ACLJ, enlevado com a reportagem realizada na bela e aprazível cidade serrana de Viçosa em que nasceu, uma das locações do documentário.




Representando a ACLJ, além do seu presidente Reginaldo Vasconcelos, que proferiu discurso de abertura do evento, e do documentarista Roberto Bomfim, que também se pronunciou, os confrades Humberto Ellery e George Tabatinga, além do candidato eleito para a quadraginta numerati da entidade, o motociclista desbravador internacional, pesquisador e escritor Franzé Cavalcanti Façanha, o célebre Bozoka.


Antes do início da projeção, Reginaldo Vasconcelos autografou a sua autobiografia recém-editada aos confrades da ACLJ que compareceram, obra intitulada Arrebóis e Plenilúnios – 25.000 Diasque resolveu distribuir aos seus afetos, no sereno dos eventos culturais, em vez de promover noite do autógrafos.


Fotografias: Margarete Bezerra, R. Bomfim e Cira Leona       

 

ABERTURA
 REGINALDO VASCONCELOS 


Minhas Senhoras e meus Senhores, boa noite. Como já anunciado, eu estou presidente da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, uma das instituições culturais apoiadoras dessa brilhante iniciativa audiovisual, no projeto intitulado Ceará Francês, que marca 200 anos de relações diplomáticas Brasil-França. Instado a fazer a abertura desta solenidade de lançamento do referido documentário, peço a sua atenção e a sua paciência para uma rápida contextualização da matéria, talvez cometendo algum spoiler

A partir do Século XV, ingleses, portugueses, espanhóis e holandeses se aventuravam pelos mares na direção do Oriente, procurando fazer negócios com civilizações desenvolvidas da Ásia, através das chamadas rotas da seda e das especiarias, como também, já nos séculos XVI e XVII, em busca de territórios ainda incultos que pudessem ser colonizados – e foi a essa saga colonizadora que se incorporaram os franceses.


A Inglaterra colonizou a parte setentrional da América do Norte, onde fundou os Estados Unidos, ficando os holandeses na América Central, assim como os franceses, que também colonizaram a região de Quebec, no Canadá, e do Golfo do México e regiões do vale do rio Mississipi (e mantêm hoje uma extensa fronteira com o Brasil, entre a Guiana e o Estado do Amapá) – enquanto Portugal e Espanha conquistaram e partilharam a Sul-América. 

O Ceará foi visitado antes do descobrimento do Brasil por navegadores espanhóis, teve um enclave militar holandês, mas prevaleceram os portugueses, muito sincretizados com os indígenas locais, com pouca presença africana e com ascendência dos chamados cristãos novos europeus, que eram judeus aculturados.

Já no Século XIX, Fortaleza teve duas famílias europeias de destaque, a do Barão Smith de Vasconcellos, uma fusão britânico-lusitana, e a família do Barão de Studart, essa com origem na Inglaterra.

Mas por todo esse período colonial a cultura francesa predominava, a começar pelo idioma, pois o francês era o que se chama “língua franca”, aquela que as pessoas aprendem e usam para a comunicação universal, entre falantes de idiomas diferentes. Mas também na culinária refinada, nas artes, na moda, nos costumes, sob os eflúvios da renascença francesa, da bella époque, e do humanismo em geral, principal motor do iluminismo.

Por isso mesmo foi intensa a influência da França no mundo todo, tal sorte que os itens automotivos eram designados em francês – capô, giclê, tabeliê, chassi, chofer, etc. 

Inclusive na cultura nordestina – onde se dançava a quadrilha em francês – mormente no Ceará, que teve a sorte de receber o polímata Pierre François Théberge, nascido em Marceille, que se fixou no sertão central, em 1845, e deu ares parisienses à arquitetura da cidade de Icó – a cidade do Brasil que tinha mais pianos nas residências, em proporção aos habitantes, e que influenciou outras urbes importantes do Estado, inclusive a Capital. 

Nos negócios de comércio exterior, a família Boris abriu em Fortaleza, em 1869, filial de sua empresa sediada em Paris, e um ramo desse clã de empresários franceses prosperou em Fortaleza, e se radicou definitivamente no Ceará, com ilustres descendentes até hoje entre nós. 

E por inspiração francesa, o Ceará fundou as primeiras arcádias literárias do Brasil, inclusive a Academia Cearense de Letras, mais antiga do que a Academia Brasileira de Letras. Esta última adotou o fardão da congênere francesa, que a nossa Arcádia Alencarina, da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, também copiou.

Esses fatos explicam o significado e demonstram a relevância da peça cinegráfica que vai ser lançada a seguir, e a que nós vamos ter o privilégio de assistir, intitulada “Ceará Francês”, idealizada e realizada por dois talentosos cearenses, nosso confrade Roberto Bomfim, jornalista e documentarista, e o Eduardo Barros, o Dudu, prodigioso videomaker.

Esse seu trabalho vislumbra pontes históricas de sensibilidade artística, numa obra que reconstrói, valoriza e eterniza as antigas e profundas relações entre o nosso povo cearense e a cultura francesa. 

O principal mecenas desta iniciativa cultural é a empresa Qair Brasil, cujo apoio, mais do que financeiro, é meritório, porque representa o nobre compromisso com o resgate da memória, a preservação da história e a promoção da nossa identidade cultural.

Exaltamos ainda a Câmara de Comércio França-Brasil, por acreditar no potencial transformador da arte como vetor de aproximação entre os nossos povos, e ao empresário Beto Studart, cuja sensibilidade cultural e o espírito de mecenato têm sido exemplos de cidadania, comprometido com as raízes do Ceará.

O apoio institucional de entidades culturais prestigiosas para o sucesso deste projeto: além da nossa Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, a Academia Cearense de Letras, o Instituto do Ceará – Histórico, Geográfico e Antropológico, a Aliança Francesa e o Museu Tertuliano de Melo. Elas somaram esforços para garantir a legitimidade e o alcance dessa produção cultural.

Reverenciamos também os pesquisadores, historiadores, artistas e cidadãos em geral, que colaboraram com suas memórias e saberes – gente do povo, que enriquece a narrativa com autenticidade e alma – e a presença institucional do Governo do Estado do Ceará, bem como da Prefeitura da Capital – e do senhor Serge Gas, Cônsul da França em Fortaleza, cujo apoio moral reafirma os laços culturais que unem nossas nações.

Finalmente, importante ressaltar que este projeto não se encerra com este lançamento. Ele se prolonga – e se amplia. Ceará Francês seguirá sendo compartilhado em escolas, bibliotecas, instituições culturais, no Brasil e na França, onde será lançado em versão transcrita em Paris para o francês, perpetuando esse elo de amizade e intercâmbio.

O filme não é dos que produziram, mas de todos nós... Cearenses e franco-cearenses.

Tenho dito,

Merci beaucoup.