segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

ARTIGO - O Pós-Natal (RMR)

O PÓS-NATAL
Rui Martinho Rodrigues*

 

O Natal 

As festas religiosas fazem parte dos ritos. Como tal lembram e reafirmam crenças, valores, costumes, identidades, congregam promovendo a coesão e contribuem para a transmissão da cultura. Os ritos, todavia, podem levar à banalização, podendo desviar o sentido e afastar dos objetivos citados. O Natal não é exceção no contexto da dinâmica dos fenômenos desta natureza. 

O debate 

O Natal, como festa da cristandade, suscita debates. O cristianismo é, entre outras coisas, uma relação pessoal entre criatura e Criador, mediada por Cristo, que promove a reconciliação entre ambos. Comer do fruto da ciência do bem e do mal, chamando a si o juízo moral, foi um rompimento com o Criador que orientava tal julgamento, causando a morte do homem, ao separá-lo de Deus (Gênesis capítulos 2 e 3).

O significado do paraíso 

O paraíso não era um lugar de ociosidade: o homem tinha o dever de “guardar e cultivar o jardim (Gênesis 2; 15). Paradisíaca era a condição de desfrutar da inocência por não formular juízo moral e, consequentemente, não ser responsabilizado, condição perdida quando o casal viu que estava nu (Gênesis 3; 7), isto é, o juízo moral que adquirira o atingiu. 

Olhando a própria nudez, exercitando o juízo moral proporcionado pelo fruto da ciência do bem e do mal, debatemos tudo, inclusive com argumentos equivocados. O Natal é criticado por vários motivos. (i) O consumismo, a secularização e banalização da grande festa cristã ensejam discussões. (ii) A festa pagã romana, que festeja o aniversário do sol invencível, foi oficializada por decreto do imperador Aureliano, em 274 d. C. pretextando facilitar a conversão dos pagãos, enquanto tentava salvar, pacificar e fortalecer o Império Romano, também é motivo de críticas. 

O sincretismo e o aniversário 

O sincretismo foi facilmente promovido, alegando que Cristo é a luz do mundo, tal qual o sol invencível dos cultos animistas. Outra festa do paganismo romano, a saturnália, de meados de dezembro, quando havia troca de presentes e banquetes, costumes que foram incorporados à festa cristã. 

Outro debate guarda relação com o fato de que (iii) o Natal é uma festa de aniversário, uma vez que na bíblia só temos o registro de dois aniversários, de Faraó e de Herodes, ambos ímpios. 

Tais festas, mundanas e associadas a assassinatos, são encontradas respectivamente em Gênesis 40; 20-22; e em Marcos 6; 21-28. Alguns (iv) alegam que a árvore de Natal teria origem no animismo dos pagãos germânicos, que evocavam fertilidade e vida cultuando o arvoredo. Sucede, todavia, que o tempo modificou o sentido da festa que já não lembra o deus sol nem a saturnália ou o culto animista às árvores. 

O Natal e o dia seguinte 

O Natal lembra Cristo e o seu significado. Congrega, promove a identidade cristã, reafirma valores e crenças. Mas a banalização, o desvio de objetivos, com a secularização e o mundanismo que pode levar, sim, ao consumismo e aos prazeres antropocêntricos rondam todas as práticas repetidas. A transmissão da doutrina, da crença e – para o cristianismo secularizado – a transmissão da herança cultural só serão efetivas se no dia seguinte não for esquecido o seu significado. 

O Natal passou. Ainda guardamos o espírito natalino? Lutamos por alcançar a condição de nova criatura, sepultada simbolicamente nas águas, após a morte do velho homem, nascendo de novo, também simbolicamente, ao emergir? Não se trata de uma transformação súbita, ocorrida no momento da decisão de aceitar a Cristo como Senhor, aceitando o senhorio dele sobre a sua própria vida. 

É um processo que perdura por toda a vida na terra. A nova criatura, que deixa de ser porca para ser ovelha de Cristo, não tem na lama o seu habitat natural, mas se suja. O sacrifício de Cristo foi para nos isentar de tal sujeira. Não representa, porém, um salvo-conduto para a prática de toda sorte de iniquidade, conforme lemos na Carta de Paulo aos Gálatas: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”. Não devemos proceder como o tolo, que o livro de Provérbios 26; 11 assim descreve: “Como o cão volta ao seu vômito, assim o tolo repete a sua insensatez”. 

Antinomia aparente 

Então estamos de volta ao legalismo, deixando para trás o evangelho? Não. Só aparentemente o fato de que não devemos agir como o tolo, que a semelhança do cão volta ao próprio vômito lembra a volta ao legalismo. A boa nova, que é o significado da palavra evangelho, é a boa notícia da substituição da justiça retributiva pela equidade. Sim, quando Cristo assumiu, no nosso lugar, chamando a si as consequências das nossas iniquidades. Ele estava afastando de nós a justiça que premia e castiga em retribuição às obras, segundo o padrão retributivo, substituindo-a pela justiça proporcional às nossas capacidades, nos termos da equidade. 

Incapazes de cumprir a lei, fomos beneficiados pela retribuição que recaiu sobre o Messias ao invés de recair sobre nós, nos dando vida, que é reconciliação com o nosso Criador. O contrário disso é a morte espiritual, entendida como separação de Deus. Não tendo méritos para tanto, o prêmio nos foi dado do modo como é descrito na Carta aos Efésios 2; 8-9: “Pois pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie”. 

Buscando os limites do significado do citado excerto da Carta aos Efésios, indagamos qual é o alcance da anistia concedida por meio da fé? Lemos em Tiago 2; 19 a resposta: “Você crê que existe Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios creem e estremecem”! Então a crença salvadora é aquela que confia na direção de Deus, renunciando à ciência do bem e do mal, para voltar a seguir a direção do Criador, vomitando o fruto proibido.

Tal crença deve ser confirmada por meio de decisão, concretizada pelo esforço de ser nova criatura, nos termos propostos em Mateus 11; 28-30: 

Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vós. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrarão descanso para a alma. Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

O excerto transcrito afasta o legalismo intolerante da justiça retributiva, que não temos capacidade de satisfazer. Não promete ausência de jugo e de fardo, não estabelece a licenciosidade. Promete jugo suave e fardo leve da equidade consubstanciada no arrependimento de que somos capazes. Assim sendo se harmoniza com a exigência da equidade. 

A guisa de conclusão 

O Natal, comemorado em espírito e em verdade, não é página virada no dia seguinte. É a continuidade de decisão de vomitar o fruto da ciência do bem e do mal; é a crença no jugo suave e no fardo leve que é a aceitação do Messias como Salvador, dando a Ele o Senhorio sobre as nossas vidas.


 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

CRÔNICA - O Peru Que Faltou ao Natal (SQC)

O peru que
faltou ao Natal
Sávio Queiroz Costa* 

Na casa de minha avó – uma das mulheres mais espetaculares que conheci – a cozinha era comandada pela Maria, e peru de Natal não era exatamente um prato. Era uma instituição. 

Começava a existir muito antes de dezembro, meio abstrato, meio promessa, e ia ganhando corpo, peso e importância, à medida que o ano se cansava de si mesmo.

Na época não se comprava peru gordo. O nosso peru se criava, a Maria engordava, abatia, tratava. Era uma ave com biografia. 

Nós, os netos, participávamos desse processo com o entusiasmo inconsequente de quem ainda não compreende muito bem a relação entre afeto e sacrifício.

Íamos ao quintal observá-lo crescer, comentar suas formas, comparar seu tamanho com o do ano anterior – que, naturalmente, sempre fora maior, mais bonito e mais saboroso, segundo os adultos. 

O peru engordava, como se tivesse consciência do seu destino glorioso. Recebia milho, restos de cozinha, frutas maduras demais para a fruteira – uma generosidade alimentar que hoje só se concede a animais de estimação. 

Crescia firme, convicto, até começar a demonstrar sinais claros de que já não cabia em si. Chegou um momento em que o peru deixou de andar. Passou a se deslocar. 

Arrastava as ancas pelo galinheiro com uma dignidade pesada, como um velho coronel aposentado, vítima da sua prosperidade. Observá-lo era, ao mesmo tempo, engraçado e um pouco constrangedor – como rir de alguém que já não consegue amarrar os próprios sapatos. 

Dois ou três dias antes do Natal, o inesperado aconteceu: o peru faleceu. Assim, de repente. Sem aviso. 

Houve silêncio no quintal. Depois, especulações. Concluiu-se, com a autoridade médica típica das famílias, que a causa mortis fora uma espécie de cirrose alimentar. Comeu demais, viveu demais, foi feliz demais. O peru morreu de excessos. 

O problema é que morreu fora de época. E, sem ensaio geral, não se come o peru morto. Instalou-se, então, um drama doméstico. Natal sem peru era quase uma heresia, um erro teológico. 

Minha avó, prática como só ela sabia ser quando a poesia falhava, resolveu a questão com um gesto moderno e definitivo: mandou comprar um peru de granja. Foi o primeiro peru de supermercado na história da família. 

Veio embalado, limpo, pálido. Não tinha passado, não tinha galinheiro, não tinha nome. Não o vimos crescer, nunca lhe demos milho, nunca o julgamos gordo demais. Era um peru sem culpa, sem memória, sem passado.


Imagem: Maren Caruso/Getty Images

Foi à mesa, cumpriu sua função, serviu a todos, nos  alimentou. Mas algo estava errado. Comia-se, mastigava-se, elogiava-se por educação – e sentia-se falta de alguma coisa que não estava exatamente no tempero. Faltava a história. 

Desde então desconfio das soluções práticas demais. Elas resolvem o problema, mas levam embora o assunto. E uma ceia sem assunto é apenas comida.

O peru do quintal morreu cedo, é verdade. Mas deixou lembrança. O do supermercado sobreviveu ao Natal – mas foi esquecido antes da sobremesa.


domingo, 21 de dezembro de 2025

ARTIGO - Um Exemplo de Mensagem Natalina (VM)

José NEUDSON Bandeira BRAGA
Protótipo de Cristão
(Um Exemplo de Mensagem Natalina)
Vianney Mesquita*

 

 

O homem piedoso e o ateu falam constantemente em religião: aquele se reporta ao que ama; este fala no que teme (MONTESQUIEU).


 

Com José Liberal de Castro, à esquerda.
Fonte: Jornal O Povo.

 

Travamos conhecimento inaugural com o Professor Doutor José Neudson Bandeira Braga (1935 – exatos 90 anos), no recuado ano de 1966, quando cursamos a disciplina (introdução à) Arquitetura, no Curso Técnico de Edificações da Escola Técnica Federal do Ceará, hoje Instituto Federal de Ciência e Tecnologia, vizinho ao Campus do Benfica da UFC. 

Nesse período, ele já privava de elevado prestígio em todo o País no estado de arquiteto de nomeada, autor de centenas e centenas de projetos, um dos mais conhecidos dos quais é a extensão do prédio da Reitoria da UFC, ao qual ele e o Dr. Liberal de Castro imprimiram a bilateralidade da construção do edifício, anteriormente residência de João Gentil e sua família, adquirido pelo Prof. Martins Filho, primeiro reitor da UFC, aumentando, no sentido da banda de Parangaba, no mesmo formato da casa dos Gentis, com lados simetricamente iguais. 

Nossa amizade, entretanto, se dotou de liames mais estreitos e de raízes com maior profundez, na oportunidade em que nos topamos como docentes da Universidade Federal do Ceará – da qual ele foi, com o Professor Antônio Martins Filho, e o Prof. Dr. José Liberal de Castro – um dos adeptos e construtores, juntamente a tantos outros paredros da mencionada Academia. 

Nessa Instituição, mourejou até bem pouco tempo, quando decidiu se jubilar e cuidar de seus trabalhos de arquiteto, juntamente com o filho, Prof. Dr. Bruno, arquiteto, o qual dirige no momento os programas acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo da UFC. 

Essa amistosa aliança e não menos proveitosa afeição veio a tomar proporções no exato ano de 1977, quando adentramos a Universidade Federal do Ceará como docente no Programa de Comunicação Social, vizinho, no bairro do Benfica, à Escola de Arquitetura e Urbanismo. 

Não obstante tal prestígio, absolutamente bem adquirido em razão de haveres sobremodo alçados, sua simpleza de humano cristão jamais arriou em favor da fama e a crédito metálico. Por toda a vida guardou a convicção de que mortalha não tem bolso nem caixão possui gaveta, e que, consoante seu colega arquiteto e compositor paraense William Blanco Abrunhosa Trindade (o Billy Blanco), compositor de “A Banca do Distinto”, todos terminam “na horizontal”. 

A vida opulenta de atributos morais, intelectuais e de cariz cristológico do Prof. Dr. Neudson Braga conformaria um verdadeiro tratado de centenas de páginas, e essas labílimas informações aqui transpostas publicamente servem, somente, para a narração de um lance de raríssimo contentamento, ocorrido hoje, 20 de dezembro de 2025. 

Ao bulir (desculpem o verbo nordestino...! Gostamos de usar esta insuperável língua!) nos guardados à cata de informação bem anosa, tivemos a ventura de deparar um cartão de Natal que já completou 15 anos, enviado pelo nosso modelo de pessoa, exatamente o Dr. Neudson Braga, onde retrata, em transposição à linguagem escorreita e elevada, a singeleza humana e seu estado cristológico verdadeiro, mediante o qual – veja o leitor – comprova a classificação de primeira que todos os que privam de seu contato admiram e com a qual se deleitam repetidamente. 

Há algum tempo, não ensaio a dignidade de provar das delícias pessoais advindas de tão distinto cidadão. A derradeira vez ocorreu no dia 9 de setembro de 2022, durante o velório do Prof. Dr. José Liberal de Castro (*21.05.1926)  na fotografia, com o Dr. Neudson. 

Vejam, preclaros consulentes, a qualidade da mensagem do meu amigo. 

Caríssimos amigos Vianney Mesquita, sua Socorro e Família. 

Nossos corações rejubilam-se com a chegada do Natal, sintonizados com o clima de alegria e festa que envolve as pessoas nessa bela ocasião, numa rara demonstração de solidariedade e fé coletivas. É momento, portanto, de profunda reflexão e definição de propósitos, uma vez que a celebração do nascimento de Jesus Cristo sinaliza o mais importante acontecimento de nossa história, dividindo o tempo em duas eras. 

Os princípios e os ensinamentos emanados da sabedoria de Jesus, ao largo de sua vida terrena, devem nortear nossos caminhos e decisões, porque se apoiam nos dons divinos de justiça, bondade, partilha, humildade, verdade, igualdade e misericórdia, tornando-se mais próximos dos escolhidos.

São nossos desejos de revisão e resistência, fortalecendo a corrente dos que ainda acreditam no Novo Tempo, porque as palavras e os exemplos do Cristo estimulam e desenvolvem nossos sentimentos, voltando-nos para as ações que elevam e consolidam a nossa vida cristã. 

O mundo atual, tão repleto de desigualdades e materialismo, necessita, urgentemente, de uma reação forte, consciente e poderosa, à procura da formação de uma irmandade universal, sem preconceitos nem diferenças, operadoras de uma paz só possível com a prática dos princípios cristãos, personificados na mansa figura de Jesus. 

Assim, entendendo e assumindo esse desejo de confraternização universal, somos capazes de preservar e comemorar o verdadeiro Natal de Cristo, certos de que estamos caminhando, com segurança, para a consagração do amor na qualidade de princípio e a paz como fim. 

Renovando nossa velha amizade [transposta aos anos de 1960] e acreditando que participamos dos mesmos propósitos, de modo fraterno e cristão, encaminhamos nossos mais sinceros votos de um Natal pleno de luz e esperança, com muita saúde e prosperidade, fundamento para a fruição de todos os dias do próximo ano com toda a felicidade merecida, sob as bênçãos e as graças de Deus. 

[Fortaleza-CE], 2009-2010. Neudson, Socorro e Bruno.

CONTO - LITERATURA INFANTIL - O Dentinho Sapeca (MJ)

 O dentinho sapeca
Maria Josefina*

 

Quando foi o tempo de nascerem os primeiros dentinhos na boca de Kal El, o menino super-homem, um dentinho sapeca quis ser o primeiro a aparecer. Tinha muitos dormindo na boquinha do Kal, mas Ligeirinho, o dentinho sapeca, não quis conversa, foi empurrando os outros para ser o primeiro a ver como era o lado de fora. 

– Ei, você não é pra sair agora. Ainda não é a idade de a gente aparecer – disse o dentinho que estava a seu lado. 

– Ah! Este negócio de ficar no escuro, esperando não sei o que, não é para mim. Vou é logo – e saiu rompendo a gengiva de Kal, causando uma dorzinha que mamãe resolveu com uma pomadinha com gosto de tutifrut. 

E lá vem o Ligeirinho, saliente e deslumbrado com o mundo que via quando a boquinha do Kal se abria. E era muito frequente, pois Kal é um menino muito feliz. 

Sentir o gosto das comidas, sorrir junto com Kal, tomar banho de água e outras bebidas gostosas, levar uma ducha de pasta de dente com gosto de morango... que vida! – ele pensava. 

Depois vieram seus irmãozinhos, o que facilitou destruir as comidas que Kal dava para eles se divertirem, deixando a comida bem miudinha. E dias, meses, se passaram, e a vida de dentinho de leite (primeiros dentinhos a nascer) ia de vento em popa.

 

Foi o tempo que mamãe levou à dentista. Uma moça bonita, alegre, que fica em uma salinha super legal, cheia de coisinhas bonitas. Nunca ninguém tinha cutucado, com ferrinhos e duchinha bem fortes de dentista, os dentinhos do Kal. Era legal. Sinal de que ele estava ficando um menino grande. Não era mais bebê. Nem teve medo de sentar na cadeira que deitava (“LEGAL!!!!” – ele pensou). 

A doutora dentista passou um creminho (flúor) com gosto de hortelã e mandou Kal ficar de boquinha aberta. 

“ECA!” – disse Ligeirinho. “Que gosto de coisa de adulto!” (embora ele nem tivesse ideia do que dizia, apenas repetia o comentário que Kal fazia quando mamãe dava comida que ele não gostava). 

Todas as noites Kal dava o que Ligeirinho e seus irmãozinhos mais gostavam: a pasta com gosto de morango. Era seu momento de glória. 

– Quero mais! Quero mais! Quero mais! – gritava Ligeirinho... mas Kal não ouvia... 

Num dia que parecia ser como os outros, Ligeirinho sentiu uma coceirinha bem pertinho do seu pezinho (raiz). 

– Que será isso? – Pensou apreensivo. 

Mas logo descobriu. Um dentão, bem duro, estava lhe empurrando para cima. 

– Hei!! Onde você pensa que vai??? Este lugar é meu!!” – disse Ligeirinho já incomodado. 

– Fica quieto, Oh! Menino!. 

– Ah-Ah-Ah! Você já era, Ligeirinho! Eu vou ficar no seu lugar. Você só estava guardando meu espaço! – disse o dentão todo cheio de si. 

– Ah é? E quem é que mastiga as comidas? Quem dá aquele sorriso bem branquinho, que todos acham lindo? Quem recebe o carinho da mamãe quando diz: “querido, vamos limpar os dentinhos?” – e eu estou bem na frente. Ela disse que eu e meu irmãozinho somos os incisivos centrais. É pouco ou quer mais??? 

– Eu também tenho este nome, só que vou ficar no seu lugar para sempre, sou permanente – disse o dentão. “É pouco ou quer mais???”. 

O Ligeirinho ficou pensativo. “E agora, que vai ser de mim? Vou é ficar por aqui, e ver o que acontece”. 

Os dias se passaram e o dentão (que o Ligeirinho chamou de Grandão) foi crescendo e empurrando ele para a frente, até que foi ficando sem forças para se segurar em seu lugar.

O Kal sentiu que os dentinhos estavam disputando o lugar e falou para sua mamãe: 

– Mãe, tá doendo! – e mostrou sua boquinha. A mamãe deu um sorriso e disse: 

– É assim mesmo, filho. Você está crescendo. Os dentinhos que nasceram primeiro têm que dar lugar aos que vão chegando depois. Estes vão ficar na sua boca para sempre. Por isso, é preciso ter muito cuidado com eles, diariamente, pois sua saúde depende do trabalho deles. 

– Mas quando ele vai sair, mamãe? Este danadinho ficou brigando por tanto tempo que já ficou durinho de novo. 

– Não tem problema – disse mamãe. Lembra da doutora dentista? Pois é, vamos lá e ela vai botar ele pra dormir. Quando ele ficar bem distraído ela aproveita e tira ele. É bem rapidinho... e ele já está é atrapalhando o outro que está nascendo. Quando ele acordar, já vai estar é no seu bolso, indo para uma caixinha. Ele cumpriu a missão dele muito bem. Lhe ajudou a comer seus alimentos de forma saudável, lhe deu um sorriso lindo, guardou bem direitinho o espaço do Dentão, e agora é hora de descansar. Os irmãozinhos dele vão passar pelo mesmo processo: dar lugar aos outros que vão chegar mais tarde. 

Kal disse para a mamãe, com um largo sorriso: 

– Pois eu vou querer que ele fique guardado na minha “Caixinha do Amo” para eu lembrar quando eu era menininho. Ele é tão fofinho!!! (Caixinha do Amo foi uma caixa que a vovó fez para Kal guardar seus objetos preferidos, que ele ama).

 

E assim, no dia seguinte, Kal e sua mãe foram ao dentista dar um tchau para o Ligeirinho e deixar que o Dentão começasse seu trabalho. Ele vai ter uma longa vida pois o Kal é muito cuidadoso.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

ARTIGO - Engano e Autoengano (RMR)

 ENGANO E AUTOENGANO
Rui Martinho Rodrigues*

 

A percepção e a realidade 

Realidade: livro aberto ou enigma? Tem aspectos óbvios ou assim considerados sem grandes prejuízos. Mas pode ser enganosa. A complexidade do objeto, os nossos desejos, com o véu de Maya, de Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), e informações ou convicções anteriores podem dificultar a compreensão do real e do imaginário. 

Gaston Bachelard (1884 – 1962), em "O novo espírito científico", menciona obstáculos epistemológicos ou desafios à compreensão da realidade em razão de conhecimentos prévios supostamente válidos. Thomas Kuhn (1922 – 1996), na "A estrutura das revoluções científicas", trata da incomunicabilidade dos paradigmas e ressalta os limites da razoabilidade de estudos e pesquisas. Bachelard e Kuhn eram físicos que se tornaram excelentes historiadores e filósofos da ciência. 

As ideias políticas são mais escorregadias do que as ciências da natureza, porque o fator humano não tem a regularidade nas respostas a estímulos, como os fatores físicos. Interferências de interesses e paixões são incomparavelmente maiores nos problemas políticos. A inconformidade com a realidade pode ser enaltecida como ato de coragem, visão privilegiada e abnegação, mas pode desconectar da realidade. 

Isaiah Berlin (1909 – 1997), em "O sentido da realidade", examina o discernimento político ao tratar das tradições doutrinárias. Na obra Ideias políticas na era romântica, ele analisa o efeito do titanismo, atributo romântico que se opõe à realidade, podendo escorregar para ilusões, longe da superioridade intelectual de quem percebe o que foge à compreensão dos “alienados”. 

Raoul Girardet (1917 – 2013), em "Mitos e mitologias políticas", ressalta a semelhança entre o pensamento das tradições políticas e a mitologia. Prudente, não nomeou nem descreveu mitologias políticas mais prestigiosas, que poderiam alijá-lo dos meios intelectuais. Mas pode inspirar o exame de aspectos que ele não ousou citar. 

O paraíso perdido e o pecado original 

A ideia de uma idade de ouro ou paraíso perdido está presente no pensamento político supostamente secular, inclusive o jacobino e o neojacobino. Uma comuna primitiva, sem distinção de classe, no passado distante, no relato bíblico, guarda semelhança com a narrativa havida como laica, do pensamento político. A perda do paraíso por um pecado original, cujos efeitos perduram, é outra semelhança embora um relato fale do fruto da ciência do bem e do mal, enquanto o outro culpa a apropriação da propriedade privada. 

A promessa messiânica 

Imediatamente após a queda e a consequente perda do paraíso, o relato bíblico introduz a promessa messiânica: a semente da mulher irá esmagar a cabeça da serpente e está lhe morderá o calcanhar. A semente da mulher, o Messias; a serpente o inimigo das criaturas de Deus. A propriedade privada, como o pecado original na narrativa ideológica, ao produzir a desigualdade de classe dá origem ao conflito fundamental entre elas, criando a dinâmica que terminará por destruir a divisão de classe recriando a sociedade sem conflito fundamental, sem exploração, sem desigualdade, análoga ao paraíso bíblico. 

A semente libertadora, no discurso político, não virá da Abraão, mas da dinâmica social conflitiva como uma classe revolucionária. É grande a variedade do pensamento neojacobino. Mas a dinâmica do conflito, a marcha triunfal de volta para o paraíso não pode ser ignorada. 

O novo homem redimido 

Jean Jacques-Rousseau (1712 – 1778), no "O Contrato Social", afirma que os homens nascem bons, mas a sociedade os corrompe. Não explicou quem corrompeu a sociedade que corrompe os homens nascidos bons. Jacobinos ou os seus descentes guardam estreita afinidade com o Iluminismo do Contrato Social. A sociedade molda o homem, mas uma vez corrigida, deixará de corrompê-los, dando lugar a um novo homem. O texto bíblico diz: quem está em Cristo é transformado pelo Espírito Santo em nova criatura. Engenheiros sociais não admitem uma natureza humana cuja modelagem radical seja ilegítima, como a lavagem cerebral. 

Autores laicos, mas educados em famílias de tradição judaica, cuja conversão, conveniente ou sincera, não implica em afastamento do relato do Gênesis, tornam as citadas semelhanças mais relevantes. O espírito missionário de personagens do mundo confessional e do ativismo político são muito semelhantes. Nas conversas jocosas é comum ouvir que a diferença entre um neojacobino e uma pessoa comum é que os comuns, se gostam de cinema vão ao cinema, o neojacobino, porém, se gosta de cinema quer que todos gostem, como imperativo de verdadeira consciência e de virtude cívica. 

Ativistas virtuosos e carolas 

Distinguir o missionarismo político do religioso é ainda mais difícil quando examinamos o virtuosismo de ambos os lados. Um lado tem ativismo político radical. O  outro o carolismo. A fusão dos dois tipos é o fariseu que patrulhava condutas políticas, exigia correção, sendo uma corrente religiosa. O sentido de heresia e de blasfêmia está presente na correção política havida como laica. 

Separar laicos e confessionais requer uma diferença essencial entre eles. Religião é a busca de superação da finitude, da totalidade e de radicalidade, conforme Thomas O’Dea, na obra Sociologia da religião. Não precisa haver divindade no fenômeno religioso. A superação da finitude do indivíduo pode ser na classe social, grupo identitário ou partido político, conforme as muitas faces do neojacobinismo. 

A totalidade está presente em movimentos políticos que podem moldar literatura, teoria econômica, jurídica, política, saúde pública, urbanismo, pedagogia e Teologia. Tal abrangência é a totalidade e a radicalidade do fenômeno religioso. O debate sobre a contaminação da política por convicções confessionais deveria considerar o desafio que é fazer a distinção entre os confessionais e o laicismo.

 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

SONETO - Condutores da Palma (JC)

 Condutores
da Palma
Jovem Chronos*
(Árcade Novo da Arcádia Nova Palmaciana)
Para os Árcades Novos
Iolita Polínia e Eládio Dionísio

 

 

 

Árcades primos de nossa Palmácia,
Sem a falácia de luminescência
Na coerência, sob perspicácia,
Com acurácia, mostram inteligência.
 
Na eficiência, tino e pertinácia,
Bravura, audácia e grande eloquência,
Tomam tenência, expondo eficácia
Sem contumácia, com clarividência,
 
Deusa Fortuna, dona da vitória,
É nosso marco pra que o brilho luza
Nos passos da cadência compulsória.
 
A fim de que o Destino mais aduza
E aportemos aos píncaros da glória,
Quem tiver a palma que a conduza!
    

Palmácia, 14 de dezembro de 2019 – quando da derradeira reunião do ano desse Sodalício.

 

ARTIGO - Viaja Ligeiro (JDS)

Viaja Ligeiro
o Número Inaugural de Palma Serrana
(Revista Anual da Arcádia Nova Palmaciana)
 
José Damasceno Sampaio *
(Árcade Novo Adamastor Urano)


Nada fica tão bem na testa do vencedor do que a coroa da modéstia (DONOSO CORTÊS,  filósofo e político espanhol. Vale de la Serena, 6.5.1809; Paris, 3.5.1853)

 


Foi efetivada no último dia 6, sábado passado, a última reunião, de 2025, da Arcádia Nova Palmaciana, instituição científica, literária e artística da nobílima terra dos celebrados professores Vicente de Paulo Sampaio Rocha, José Rebouças Macambira, Maria Grasiela Teixeira Barroso e, entre tantos outros, Paulo Tadeu Sampaio de Oliveira, árcade novo titular, com o agnome de Artur Zéfiro, partícipe da magnífica sessão. 

O evento sucedeu na estância Balneário do Zé Moisés, bairro Caboclos, em Palmácia-CE, de propriedade de D.a Rejane Mendes Andrade (rebento do Sr. Luís Mendes e da Prof.a Ivanise Mendes, hoje com 90 anos) que recebeu com alteada generosidade a Diretoria e os componentes da Instituição e acompanhantes com um lauto almoço, acompanhado de mil conversas e lembranças da Cidade. 

A reunião teve como primordial propósito proceder à eleição da Diretoria para o biênio 2026-2027, depois de dez anos tendo como Presidente o Árcade Novo Eládio Dionísio,  Prof. Fernão de la Roche D’Andrade Sampaio, o qual, além de não consentir que a entidade perecesse, haja vista, principalmente, a ocorrência da pandemia de covid-19 e das grandes chuvas impedientes da comparência dos imortais ao Distrito-Sede do Município, desenvolveu esta série de mandatos (cinco), no âmbito dos quais dirigiu o patrocínio de  uma conjunção de procedimentos institucionais, culturais, científicos e de lazer, de considerável significação, como, num exemplo entre tantos outros, a edição de livros sob a égide do Solar dos Sampaios e da Arcádia. 

Foi unanimidade a manifestação de parabéns e agradecimentos ao ex-presidente por tão vasto e proficiente mandato, bem como à Prof.a Lúcia, a principal do Solar dos Sampaios. 

Naquela ocasião, lançou-se a chapa postulante à Diretoria sequente, quando meu nome estava na cabeça, e o grupo foi eleito por aclamação. Depois de muitas participações verbais dos árcade novos, inauguradas pela minha fala, momento em que expressei ligeiramente os planos para esta Direção e que, noutra oportunidade, voltarei a detalhar, o Árcade Novo Jovem Chronos – Vianney Mesquita - lembrou o fato de que está no tempo de trazer à luz o primeiro número da revista Palma Serrana, por ele sugerida há já algum tempo e ainda não levada a efeito por causa da endemia mundial do sars.cov.19, a qual – repito – não logrou matar a Arcádia. 

 

Por tal pretexto, este magazine, o qual ainda não tem uma editoria definitiva, ficará por enquanto sob sua tutela, como sobrou acertado, e vai configurar uma seleção de textos de ciência, literatura, artes e cultura, da lavra, principalmente, dos árcades novos, bem assim de outros escritores indicados pelos titulares. O periódico receberá escritos das diversificadas áreas do conhecimento e matérias diversas no âmbito há pouco mencionado. 

Por esta razão, solicito aos nossos imortais, ao Dr. Mateus, por exemplo – e, inclusive, aos que ainda não tomaram posse, eleitos na reunião a que ora me refiro – Helder Sossa, Crisando JIC, Arino Marques e Aíla Calu – que remetam seus textos para o árcade Vianney pelo endereço eletrônico vianneymesquita@gmail.com. 

Poesias, contos, artigos científicos, relatos, piadas, chistes, serão acolhidos com satisfação, nomeadamente aqueles relativos à nossa Terrinha. Será, consoante se conforma a ANP, a primeira revista de Palmácia. 

Noutro lance, voltarei por aqui, com a gentileza da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, a dar mais informações acerca da ANP, incluindo a posse da Diretoria, cujos componentes indicarei, e o lançamento deste magazine, que, sem dúvida, representa mais uma glória para a Terra dos Prefeitos Atanásio Perdigão Sampaio, Chico Damasceno, Campelo, João e Antônio Simplício, Darcília etc etc. 

Até outra ocasião.



* José Damasceno Sampaio

Advogado
Presidente do Instituto dos advogados do Ceará
Membro da Arcádia Nova Palmaciana