A GEOGRAFIA DO PULGÃO
CRÔNICA EM TOM LEVEMENTE CIENTÍFICO,
PROFUNDAMENTE BRASILEIRO.
Luiz Rego Filho*
Tessitura de: “Parlim do cavalo alazão” (Aldeia de Arcozelo (Paty do Alferes, RJ): Considerada o maior centro cultural da América Latina em extensão (cerca de 51.000 m²) e “Luizão das Candongas”.
Iam investigar práticas agrícolas tradicionais numa pequena propriedade no interior de uma baixada litorânea.
Chegaram equipados.
Um carregava GPS, planilhas, prancheta, lupa de entomologia e uma suspeita permanente de que a realidade precisava ser confirmada pela literatura revisada por pares.
O outro carregava citações.
— Segundo a literatura recente…
— Conforme estudos internacionais…
— De acordo com a meta-análise…
A
propriedade era simples, mas viva: mangueiras, galinhas, um cachorro filosófico
dormindo à sombra e um vento que parecia saber para onde ia.
O dono da terra, homem de fala tranquila e pele curtida pelo sol, recebeu os visitantes com a hospitalidade clássica da agricultura brasileira: café forte, banco de madeira e uma pergunta.
— Os senhores vieram estudar o quê?
— Estamos analisando a incidência de afídeos nas culturas de solanáceas — respondeu o primeiro professor.
O agricultor piscou duas vezes.
— Ah… pulgão. Houve um pequeno silêncio acadêmico.
— Exatamente — confirmou o segundo professor, anotando pulgão = nomenclatura vernacular.
Começaram então a caminhar pela propriedade.
Passaram pela baixada.
Nada de tomate.
Nada de pimentão.
Nada de berinjela.
O professor da prancheta perguntou:
— O senhor não cultiva solanáceas aqui na baixada?
— Não.
— Por quê? O homem respondeu com a naturalidade de quem responde por experiência e não por bibliografia.
— Por causa do pulgão. Os dois professores se entreolharam como quem encontra uma vírgula fora do lugar.
— E onde o senhor planta?
— Lá em cima.
Apontou para a encosta do morro.
Subiram.
Na meia-encosta, lá estavam os canteiros de tomate.
Saudáveis.
Folhas abertas.
Nenhum pulgão aparente.
Os professores se aproximaram como quem examina um fenômeno paranormal.
— O senhor percebe menos pulgão aqui?
— Muito menos.
— E por quê? O agricultor coçou o queixo.
— Ah… aqui venta mais. Pausa.
— E pulgão não gosta muito de vento.
O professor da prancheta anotou freneticamente.
O outro fez cara de quem estava tendo um encontro místico com a agronomia.
— O senhor chegou a testar isso?
— Não.
— Não fez experimento?
— Fiz.
— Como?
— Plantei lá embaixo uma vez.
— E?
— Encheu de pulgão. Silêncio científico.
O professor das citações tentou recuperar a autoridade:
— O senhor sabia que existe uma literatura extensa sobre dispersão de afídeos na camada limite atmosférica?
—
Não.
— Sobre a influência da turbulência aerodinâmica na colonização de culturas?
— Também não.
— Sobre epidemiologia de viroses transmitidas por pulgões?
— Não senhor.
O
agricultor olhou para o morro, depois para a baixada e concluiu:
— Eu só sei que lá embaixo dá pulgão e aqui em cima não dá.
Houve então um daqueles momentos raros em que a ciência encontra a vida real e precisa tirar o chapéu.
Os dois professores ficaram em silêncio.
O vento passou.
Os
tomates balançaram.
O cachorro filosófico apareceu na encosta, olhou para os três e deitou novamente — como quem já sabia de tudo aquilo muito antes da CAPES.
Na descida, um dos professores murmurou:
— Curioso…
— O quê?
— Nós passamos anos estudando entomologia agrícola.
— Sim.
— E ele resolveu o problema com geografia. O outro suspirou.
— Isso acontece muito.
— O quê?
— A ciência demora trinta anos para explicar o que o agricultor já sabe há cinquenta.
Pararam na porteira.
O agricultor perguntou:
— Os senhores descobriram o que queriam?
O professor respondeu:
— Descobrimos sim.
— O quê?
— Que o senhor faz leitura da paisagem.
O homem sorriu.
— Não.
— Não?
— Eu só olho o lugar.
E essa talvez seja a diferença fundamental entre conhecimento e sabedoria.
O conhecimento pergunta:
— Por quê? A sabedoria pergunta:
— Onde plantar?
E, como diria o velho cronista da República do Galeão, se ainda estivesse por aqui:
No Brasil, o problema não é falta de ciência.
É
excesso de gente que acha que pulgão lê artigo científico antes de pousar no
tomate.
O que o Chicó do Alto da Compadecida diria sobre esse caso?
Se Chicó, o célebre filósofo da caatinga criado por Ariano Suassuna, tivesse presenciado essa cena dos dois professores e do agricultor, provavelmente diria algo mais ou menos assim:
______________
Chicó coçando a cabeça, olhando para os canteiros na encosta:
— Eu só sei que foi assim…
— Os dois doutor chegaram cheios de estudo, cheio de papel, cheio de nome difícil… afídeo, dispersão atmosférica, camada limite… parecia até nome de doença de bode.
— Aí perguntaram pro homem por que ele não plantava tomate na baixada.
— O homem respondeu:
“Porque lá embaixo dá pulgão.”
— Aí os doutor perguntaram:
“E por que aqui em cima não dá?”
— E o homem disse:
“Porque aqui venta.”
Chicó faz aquela pausa clássica, olha para o céu, pensa um pouco e conclui:
— Pois é… o doutor estudou vinte anos pra descobrir o vento… e o homem descobriu olhando a folha do tomate.
Depois completa, com ar filosófico:
— Isso é que dá quando a pessoa aprende primeiro no livro e só depois vai conversar com a planta.
Mais um silêncio.
Chicó se anima:
—
Agora uma coisa eu digo: se pulgão soubesse ler tese de doutorado, o tomate da
baixada estava salvo.
Olha para João Grilo e finaliza:
—
Mas pulgão é bicho prático… ele vai é onde o vento deixa.
______________
E provavelmente Chicó encerraria com sua famosa síntese epistemológica nordestina:
— Uma coisa é conhecimento… outra coisa é saber das coisas.
— O primeiro a gente aprende na escola.
—
O segundo a gente aprende olhando a roça.

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