domingo, 1 de fevereiro de 2026

CRÔNICA - Um Céu Para os Animais (JPM)

 Um céu para os animais
João Pedro Maia*

 


Quando criança, “Tom e Jerry” era um dos desenhos a que eu mais assistia. Em um de seus episódios, Tom – o gato – vai ao Céu, em uma espécie de EQM. Na porta do Paraíso, Tom vê três filhotes de gato que saem de uma sacola outrora amarrada e encharcada. 

 

Os gatinhos aparecem felizes diante das grades, sem entender o que está acontecendo – assim como os inúmeros espectadores daquela época. Era uma maldade que só entendemos quando amadurecemos e que, ainda assim, gostaríamos que não existisse.

 

Nesta semana, vivemos maldade parecida. O Brasil acordou estarrecido com a barbaridade sofrida por Orelha, um cão comunitário que vivia na Praia Brava, em Santa Catarina. Orelha foi espancado até a morte por quatro adolescentes, que o acordaram e anunciaram, com golpes pontiagudos, o seu fim. É duro até mesmo descrever o ocorrido, e os relatos que se seguem debitam nossa fé na humanidade.


 

Não tenho dúvidas de que Orelha está no céu. A incerteza que paira, porém, é perturbadora: por quê? Por quê? Por que infringir tanta dor e sofrimento a um ser tão indefeso, tão vulnerável e tão amável? Que sentimento mórbido convive com tamanha perversidade?

 

É fato que dispomos de mecanismos legais para lidar com crimes dessa natureza. Mas a questão não é apenas essa. É mais profunda. Queremos punição, em todas as esferas possíveis e imagináveis, para os envolvidos – os monstros que o fizeram e os monstros que o toleraram. Mas queremos mais: queremos que isso nunca mais aconteça. É o mínimo que devemos a Orelha.

 

É duro saber da chegada antecipada ao céu de seres tão puros. Devemos um céu aos animais na Terra, consubstanciado em coisas tão simples: cuidado, comida, água, proteção – gestos pequenos para nós, mas divinos para eles. Precisamos de Céu para os animais. Aqui. Agora.


CRÔNICA - Os Dois Leões da Minha Vida (LRF)

 Os dois leões
da minha vida
Luiz Rego Filho*

 

Não sei por que os leões insistem em aparecer na minha vida profissional. Talvez confundam agrônomos com tratadores, ou talvez a natureza apenas goste de piadas internas. O fato é que encontrei dois leões no exercício da função — o que, convenhamos, não consta em manual técnico algum.

O primeiro surgiu em Miracema, município quente o suficiente para derreter convicções. Fui até lá com a pesquisadora Regina Celestino, do Ceprus — Centro Estadual de Pesquisa em Desenvolvimento Rural Sustentável — para avaliar uma propriedade rural. O proprietário era um sargento reformado da Polícia Militar, homem tranquilo, seguro, dono de um portão de ferro imenso, com trilhos, cadeado e a convicção de que tudo aquilo fazia sentido. 

Entramos. A estrada interna serpenteava até a sede, mas antes dela havia uma jaula. Uma jaula. Dentro da jaula, um leão. Não um símbolo, nem uma metáfora: um leão mesmo, com juba, dentes e um urro que parecia reclamar da falta de contexto. 

O animal não estava em seus melhores dias. A jaula misturava restos de comida e fezes, e o leão parecia menos rei da selva e mais síndico insatisfeito. Seguimos em frente, fingindo normalidade, porque o ser humano tem esse talento extraordinário de aceitar qualquer coisa, desde que ninguém faça escândalo.

Terminada a parte técnica, fomos recompensados com dois pés de jabuticaba em frente à casa. Frutos grandes, pretos, redondos, moralmente irresistíveis. 

Eu e a Dra. Regina atacamos com a dignidade possível. O sargento assistia, satisfeito, como quem oferece hospitalidade e recebe felicidade em troca. 

Depois veio a vergonha tardia, o pedido de desculpas e a saída protocolar. O leão ficou. Não comeu jabuticaba. Perdeu. 

O segundo leão me aguardava em Niterói, já num ambiente institucional, o que prova que o absurdo também presta concurso público. A Secretaria de Agricultura funcionava numa casa antiga da Alameda São Boaventura, que fora residência de Euclides da Cunha, autor de Os Sertões e protagonista involuntário de uma das maiores confusões familiares da literatura nacional. 

Cheguei de ônibus, atravessei a avenida com cuidado exagerado — atitude que, como se verá, foi inútil — e entrei num espaço silencioso demais para ser saudável. À esquerda, havia um zoológico botânico. Nunca soube explicar exatamente o que é isso, mas envolve plantas, animais e decisões administrativas passadas. 

Dirigi-me à sala da Diretoria Técnica. O Diretor, cuja sala ficava colada à jaula do leão, conversava tranquilamente comigo. Comentei, num tom quase profissional: 

— Hoje o leão está quieto. 

Ele respondeu, sem levantar a sobrancelha: 

— Fugiu. 

Não houve grito. Não houve correria. Houve apenas um colapso interno silencioso, aquele em que a alma se senta no chão e pensa se vale a pena levantar. 

— Fugiu? — perguntei, esperando que a palavra tivesse sido usada no sentido poético. 

— Fugiu — confirmou. 

Meu corpo começou a rever decisões recentes. Caminhos percorridos. Arbustos observados com excesso de confiança. Senti uma súbita vocação para estátua. 

— Mas… — arrisquei — encontraram? 

— Encontraram. 

Silêncio. 

— Onde? 

— Aqui perto. 

Foi nesse momento que compreendi: eu havia atravessado todo o zoológico a pé, calmamente, ignorando a possibilidade concreta de estar dividindo o espaço urbano com um leão desempregado. 

Saí da sala lentamente, como quem não quer acordar a própria memória. Desde então, aprendi que o Brasil é um país onde um leão pode fugir sem aviso prévio e o aviso vir depois, como nota de rodapé. 

E que, definitivamente, agronomia não é uma profissão para quem exige coerência.