Um céu para os animais
João
Pedro Maia*
Quando
criança, “Tom e Jerry” era um dos desenhos a que eu mais assistia. Em um de
seus episódios, Tom – o gato – vai ao Céu, em uma espécie de EQM. Na porta do Paraíso,
Tom vê três filhotes de gato que saem de uma sacola outrora amarrada e
encharcada.
Os
gatinhos aparecem felizes diante das grades, sem entender o que está
acontecendo – assim como os inúmeros espectadores daquela época. Era uma
maldade que só entendemos quando amadurecemos e que, ainda assim, gostaríamos
que não existisse.
Nesta
semana, vivemos maldade parecida. O Brasil acordou estarrecido com a
barbaridade sofrida por Orelha, um cão comunitário que vivia na Praia Brava, em
Santa Catarina. Orelha foi espancado até a morte por quatro adolescentes, que o
acordaram e anunciaram, com golpes pontiagudos, o seu fim. É duro até mesmo
descrever o ocorrido, e os relatos que se seguem debitam nossa fé na
humanidade.
Não
tenho dúvidas de que Orelha está no céu. A incerteza que paira, porém, é
perturbadora: por quê? Por quê? Por que infringir tanta dor e sofrimento a um
ser tão indefeso, tão vulnerável e tão amável? Que sentimento mórbido convive
com tamanha perversidade?
É
fato que dispomos de mecanismos legais para lidar com crimes dessa natureza.
Mas a questão não é apenas essa. É mais profunda. Queremos punição, em todas as
esferas possíveis e imagináveis, para os envolvidos – os monstros que o fizeram
e os monstros que o toleraram. Mas queremos mais: queremos que isso nunca mais
aconteça. É o mínimo que devemos a Orelha.
É
duro saber da chegada antecipada ao céu de seres tão puros. Devemos um céu aos
animais na Terra, consubstanciado em coisas tão simples: cuidado, comida, água,
proteção – gestos pequenos para nós, mas divinos para eles. Precisamos de Céu
para os animais. Aqui. Agora.

