A
GOTA E
O
DESENHO
Totonho Laprovitera*
Na subida da serra de Guaramiranga, o verde se espreme e o tempo muda de passo, sossegando os pensamentos até cochilarem. E assim nasceu uma conversa com meu filho Fernando Victor – simples na forma, imensa de significados.
Falávamos de achar um mote – uma faísca que acende ideias. Então pensei: e se achássemos uma gota perdida no painel da camioneta? Pequena, qualquer, mas guardando um instante inteiro. Seria a gota d’água?
Minha praia é desenhar. O desenho é desígnio – risco do traço e da própria vida. Nele digo o que as palavras não alcançam. Não se prende ao tempo: é linguagem primeira, diz o que foi e o que será. Ao desenhar, a intuição guia a inteligência.
Valho-me da simplicidade e da ingenuidade guardadas da infância para enfrentar o que vem. Sou mais forte quando reconheço minhas fraquezas. Sigo aprendiz dos reinos que dão sentido à existência.
Tenho fé na alma da ciência e no espírito da religião. O impossível é quase certeza – desconfio dele. No universo, sou um viajante tateando o breu da infinitude.
Gosto do desenho gestual, como risco de estrela cadente. A cabeleira de fogo dos cometas assanha a realidade e lembra que sonhar é acreditar. Linhas azuis, longas, pautam o caderno das minhas memórias.
Procuro esquecer o que nos faz deslembrar. Espio e matuto: heróis são feitos de medo ou de coragem? Estico a baladeira para alcançar os mundos animal, vegetal, mineral e virtual – e outros tantos. O material passa; o imaterial fica.
Desenhar, para mim, é moto-contínuo – respirar a vida.
Tenho trocado o dia pela noite e sinto falta da luz da manhã, que aprofunda a janela da imaginação. Preciso sonhar mais dormindo; acordado, os encantos se encolhem. O corpo arde em chama clara – luz por dentro, lembrança do azul do alto.
Quero ouvir histórias de criança e cantigas de ninar – guardar o que não tem idade. Quero o coração pulsando a minha arte. Que a loucura me proteja da normose e acenda a criação. Quero ser eu, sem virar número – ser humano até virar luz.
Ao chegarmos ao Sítio Quatro Águas, a viagem já era outra – e eu também. Havia uma paz em mim, como se a gota imaginada se espalhasse, traçando caminhos invisíveis. Ali, na pausa da paisagem, entendi: a vida não é destino nem pressa de chegar. É o traço – o risco contínuo que traçamos ao seguir.
E, por
fim, talvez tudo comece assim, desse jeito: com uma gota de quase nada… que, de
repente, vira mundo.














