Bem escrever:
ato de resistência
Ítalo Gurgel*
O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, edição digital 2024-2025, registra mais de 380 mil entradas. Com especial atenção à vertente brasileira, esse sistema é continuamente atualizado, numa prova de que os olhos e ouvidos da Academia Brasileira de Letras continuam abertos, sensíveis “aos apelos e às vozes de nossa língua”, como assinala Marco Lucchesi, Presidente da ABL, na apresentação da sexta edição digital do riquíssimo inventário.
Com vasto vocabulário, copiosas variações semânticas e uma estrutura gramatical complexa, a Última Flor do Lácio nos concede a oportunidade de expressar ideias com precisão e profundidade. Guiado por esse maná, resulta gratificante explorar as étagères da produção de Vianney Mesquita, um autor atento ao imenso potencial da nossa canora língua, em boa hora introduzida pelos colonizadores lusitanos nestes rincões tropicais. Mesquita não descuida dessa fortuna e, em tudo o que escreve, imprime a marca de seu profundo conhecimento do idioma e invejável cacife vocabular, que lhe enseja transmitir ideias concretas, subjetividade e a mais variada escala de emoções e conceitos, tudo com uma elegância e apuro formal que deixam marcado primoroso estilo, seja em verso, seja em prosa.
Afago, neste momento, um exemplar da mais recente pérola literária de Vianney Mesquita. Reservas de Minha Étagère recolhe ensaios que o autor produziu com procedência em leituras seletas, em que percorreu as páginas de mestres distinguidos por títulos universitários e por uma faina científica e literária das mais respeitáveis. São “adendos” de variadas áreas do conhecimento que se constituem numa autêntica antologia pela excelência do trabalho crítico de Vianney e pela luz que irradia com base nos autores analisados.
Impossível não citar aqui o Prof. Dr. Rui Martinho Rodrigues, intelectual com larga vivência nas áreas de Educação, História Oral e Memória, que, em magistral “Antecomeço”, aponta:
É motivo de júbilo encontrar uma conjunção de escritos e, mais do que isso, um autor que preza o idioma pátrio, tratando com respeito o léxico e a sintaxe e que, escudado em vasta erudição, incursiona pelas sendas do Direito, da Literatura, das Ciências da Saúde e da Natureza, submetendo-as a reflexões filosóficas, sociológicas e antropológicas. Um verdadeiro polímata (p. 20).
Membro da Academia Cearense da Língua Portuguesa, da Arcádia Nova Palmaciana e da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, Vianney Mesquita multiplica, em todos esses cenários, provas de seu compromisso com a Língua de Camões, de Machado e Drummond, patrimônio que prometeu defender e honrar em cada ensaio, em cada página, em cada estrofe que emerja de sua oficina criativa. Com 24 livros publicados, o Escritor, Jornalista e Professor tem a dimensão de que a palavra existe para ser prolatada e escrita; quando necessário, para ser resgatada dos baús da memória linguística, a fim de que, uma vez polida, posta a brilhar, seja novamente colocada em uso, expondo todas as virtualidades do mais doce rebento do Lácio.
Ao laborar nesse filão, Vianney Mesquita explora uma riqueza vocabular que, à maioria dos escribas, permanece velada e inútil, em pudico resguardo. Tem ele a consciência de que lhe cabe valorizar a herança linguística, dado que o idioma pátrio, como veículo de expressão, carrega consigo não apenas significados, mas também a essência de um povo, suas tradições e modos de pensar. Explorando a vastidão lexical do Português, Vianney sabe que não apenas enriquece sua obra, mas também contribui para a preservação de um patrimônio linguístico que, de outro modo, se perderia na estandardização globalizada.
O uso de um vocábulo
– quase sempre único e preciso – concede ao operário das Letras o lance de transmitir
nuances e sutilezas que são intrínsecas à experiência humana. É por esse
caminho que a riqueza lexical propicia maior capacidade de evocação e
imaginação, fazendo com que o leitor se conecte de maneira mais profunda com as
ideias, as emoções e os cenários que deslizam sob seus olhos. Assim, o resgate
do vocabulário nativo não se limita a um exercício estético, mas se configura
como um verdadeiro ato de resistência e afirmação cultural.
*Ítalo Gurgel é jornalista, professor da Universidade Federal do Ceará, escritor e poeta, imortal da Academia Cearense da Língua Portuguesa. Mestre na área de Letras.