quinta-feira, 3 de abril de 2025

ARTIGO - Bem Escrever: Ato de Resistência (IG)

 Bem escrever:
ato de resistência
Ítalo Gurgel*

 

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, edição digital 2024-2025, registra mais de 380 mil entradas. Com especial atenção à vertente brasileira, esse sistema é continuamente atualizado, numa prova de que os olhos e ouvidos da Academia Brasileira de Letras continuam abertos, sensíveis “aos apelos e às vozes de nossa língua”, como assinala Marco Lucchesi, Presidente da ABL, na apresentação da sexta edição digital do riquíssimo inventário.

Com vasto vocabulário, copiosas variações semânticas e uma estrutura gramatical complexa, a Última Flor do Lácio nos concede a oportunidade de expressar ideias com precisão e profundidade. Guiado por esse maná, resulta gratificante explorar as étagères da produção de Vianney Mesquita, um autor atento ao imenso potencial da nossa canora língua, em boa hora introduzida pelos colonizadores lusitanos nestes rincões tropicais. Mesquita não descuida dessa fortuna e, em tudo o que escreve, imprime a marca de seu profundo conhecimento do idioma e invejável cacife vocabular, que lhe enseja transmitir ideias concretas, subjetividade e a mais variada escala de emoções e conceitos, tudo com uma elegância e apuro formal que deixam marcado primoroso estilo, seja em verso, seja em prosa.

Afago, neste momento, um exemplar da mais recente pérola literária de Vianney Mesquita. Reservas de Minha Étagère recolhe ensaios que o autor produziu com procedência em leituras seletas, em que percorreu as páginas de mestres distinguidos por títulos universitários e por uma faina científica e literária das mais respeitáveis. São “adendos” de variadas áreas do conhecimento que se constituem numa autêntica antologia pela excelência do trabalho crítico de Vianney e pela luz que irradia com base nos autores analisados.

Impossível não citar aqui o Prof. Dr. Rui Martinho Rodrigues, intelectual com larga vivência nas áreas de Educação, História Oral e Memória, que, em magistral “Antecomeço”, aponta: 

É motivo de júbilo encontrar uma conjunção de escritos e, mais do que isso, um autor que preza o idioma pátrio, tratando com respeito o léxico e a sintaxe e que, escudado em vasta erudição, incursiona pelas sendas do Direito, da Literatura, das Ciências da Saúde e da Natureza, submetendo-as a reflexões filosóficas, sociológicas e antropológicas. Um verdadeiro polímata (p. 20).           

Membro da Academia Cearense da Língua Portuguesa, da Arcádia Nova Palmaciana e da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, Vianney Mesquita multiplica, em todos esses cenários, provas de seu compromisso com a Língua de Camões, de Machado e Drummond, patrimônio que prometeu defender e honrar em cada ensaio, em cada página, em cada estrofe que emerja de sua oficina criativa. Com 24 livros publicados, o Escritor, Jornalista e Professor tem a dimensão de que a palavra existe para ser prolatada e escrita; quando necessário, para ser resgatada dos baús da memória linguística, a fim de que, uma vez polida, posta a brilhar, seja novamente colocada em uso, expondo todas as virtualidades do mais doce rebento do Lácio. 

Ao laborar nesse filão, Vianney Mesquita explora uma riqueza vocabular que, à maioria dos escribas, permanece velada e inútil, em pudico resguardo. Tem ele a consciência de que lhe cabe valorizar a herança linguística, dado que o idioma pátrio, como veículo de expressão, carrega consigo não apenas significados, mas também a essência de um povo, suas tradições e modos de pensar. Explorando a vastidão lexical do Português, Vianney sabe que não apenas enriquece sua obra, mas também contribui para a preservação de um patrimônio linguístico que, de outro modo, se perderia na estandardização globalizada. 

O uso de um vocábulo – quase sempre único e preciso – concede ao operário das Letras o lance de transmitir nuances e sutilezas que são intrínsecas à experiência humana. É por esse caminho que a riqueza lexical propicia maior capacidade de evocação e imaginação, fazendo com que o leitor se conecte de maneira mais profunda com as ideias, as emoções e os cenários que deslizam sob seus olhos. Assim, o resgate do vocabulário nativo não se limita a um exercício estético, mas se configura como um verdadeiro ato de resistência e afirmação cultural.

 

*Ítalo Gurgel é jornalista, professor da Universidade Federal do Ceará, escritor e poeta, imortal da Academia Cearense da Língua Portuguesa. Mestre na área de Letras.

sexta-feira, 28 de março de 2025

CRÔNICA - O Método (AG)

O MÉTODO
Aluísio Gurgel*


Era a coisa mais linda e desejada do mundo, a felicidade da família mas, como toda criança, dava um trabalhão para dormir. Na condição de pais de primeira viagem, não demorou muito para que exaurissem todas as técnicas possíveis e imagináveis até que, certo dia, alguém sugeriu o carro. “Não tem como errar. É tiro certeiro e não precisa de volta longa. Cinco minutinhos serão suficientes para derrubar no sono!”. 

De imediato, arrumaram a cadeirinha no banco traseiro, se ajeitaram e lá se foram em família. Decidiram dar algumas voltas na praça a título de experimentação. Começaram pelas 20h e o resultado da conferência foi o olhar aceso e atento a tudo. Prosseguiram com a segunda volta e perceberam que aquela cabecinha linda principiava a balançar. 

Na terceira volta sentiram o poder e a força do movimento: os olhinhos começaram a quebrar. Na quarta volta estavam completamente cerrados mas a cabecinha ainda bamboleava. Veio a quinta volta para completar o ciclo e a cabecinha pendeu sobre o pescoço. 

Uma magia espetacular, não fosse a desconfiança da polícia que parou o carro numa brusca abordagem. Nem deu tempo de explicar direito aos guardas, ela abriu o berreiro novamente!


POESIA - Soneto Decassílabo Lusitano (VM)

 PROVISÃO EXAGERADA
Vianney Mesquita*

 (Para o Prof. Régis Kennedy Gondim Cruz)

Entre a avareza e a prodigalidade está a Economia – virtude que o homem honesto deve predicar. (PAOLO MANTEGAZZA, ficcionista, neurofisiologista e antropólogo italiano. Monza, 31.10.1831; San Terenzo, 28.08.1910). 


Avaro é quem porta só dinheiro,
Eis que gaveta não há no esquife.
De tal não cogitou seu alarife,
Tampouco de pôr bolsos no carneiro.
 
Se subiu no luctífero cacife,
Do jogo sub ovante e passageiro,
Transformar-se-á em almoxarife
Das falsas gemas sem seu tabuleiro.
 
Outras conformes, racionais numismas
No ser humano ao proceder presidem,
Deseixando cifrões por vários prismas.
 
Fartura e mesquinhez impõem merismas –
Pois temas econômicos colidem –
Com vistas a defenestrar sofismas.


quinta-feira, 20 de março de 2025

NOTA ACADÊMICA - 6ª Reunião da Arcádia Alencarina

 6ª REUNIÃO DA
ARCÁDIA ALENCARINA

 

Em cerimônia magistralmente conduzida pelo árcade Vicente Alencar, ocorreu nesta terça-feira, dia 18 de março, a 6a. Reunião da Arcádia Alencarina, a terceira no salão de festas do icônico edifício Granville, que há 44 anos marca a Volta da Jurema, hoje atrás do Jardim Japonês, mais recentemente construído. 

A Arcádia Alencarina é um departamento da ACLJ, formada pelo “núcleo duro” da entidade como um todo, cujos dez integrantes, que a subvencionam, adotaram os fardões, em homenagem à Academia Francesa, fundada em 1635 por Richelieu, ministro do Rei Luiz XIII de França, entidade que inspirou as primeiras congêneres cearenses, em seguida as brasileiras. Esta instituição também atende por coetus decim, grupo dos dez, em latim, e os árcades também se dizem “fardonados”. 

Participaram os nove acelejanos fardonados do coetus decim, que compõem a Arcádia Alencarina, ausente apenas o árcade Stênio Pimentel, que reside no Rio de Janeiro.


Adriano Vasconcelos, Arnaldo Santos, Luciara Aragão, Pedro Bezerra de Araújo, Reginaldo Vasconcelos, Rui Martinho Rodrigues, Sávio Queiroz Costa, Vianney Mesquita e Vicente Alencar.


A Tribuna de Honra foi composta pelos acadêmicos César Barreto, George Tabatinga, Carlos Rubens e Humberto Ellery.

 

A mesa transversal foi ocupada pelos convidados especiais Cândido Albuquerque, Membro Titular Fundador, e os Membros Beneméritos José Augusto Bezerra, Beto Studart e Lúcio Alcântara, Presidente de Honra Interino, que presidiu a solenidade.



Durante a solenidade tomou posse na Cadeira 28 Roberto Bomfim, patroneada pelo Patativa do Assaré, que ele saudou no seu discurso, e descerrou o seu retrato, desenho e pintura em acrílico de Reginaldo Vasconcelos, e finalização em óleo por Messias Batalha.


O Hino Nacional e o Hino do Ceará foram executados pelo tenor Franklin Dantas.

O tema central da reunião foi a Assembleia Geral de 03 de maio, que será dedicada ao Teatro Cearense, com foco na opereta A Valsa Proibida, sob tutoria do ator, dramaturgo e historicista Ricardo Guilherme, que esteve presente à reunião. 

Durante a solenidade, franqueada a palavra pelo presidente Lúcio Alcântara, Pedro Bezerra de Araújo fez uma dissertação sobre o compositor italiano Giuseppe Verdi, e, Sobre Gilberto Freire, falou César Barreto. 


Também usaram da palavra Reginaldo Vasconcelos, Cândido Albuquerque e Beto Studart, além do próprio Lúcio Alcântara, que declarou aberta a sessão e também decretou, ao final dos trabalhos, o seu encerramento. 




Samid Sales, do Jurídico da Assembleia Legislativa do Ceará, a musa da reunião, e Ana Sophia Paiva, mascote da ACLJ.

 

Após a solenidade, e depois do tradicional brinde com vinho do Porto, foi servido um arroz de camarão, harmonizado com excelente vinho branco português. 

 Quanta Honra!
Ana Paula de Medeiros Ribeiro*

 

Quintilhas Acrostiquenas...

[Vianney Mesquita]

 

A na Paula de Medeiros Ribeiro,

N ossa autora de crase genial,

A ltiva mestra, referencial,

P edagoga alçada ao mundo inteiro:

A professora inferencial.

U ma poetisa em plaino sendeiro,

L iterata excedente, especial,

A lma inspirada exponencial,

D e estrofe branca, límpido luzeiro,

E verso rimado excepcional!

M odelar do metro brasileiro,

E m inspiração celestial:

D a prosa e poesia é o luminal,

E stro alumiado, não lindeiro,

I nspiração multifatorial.

R ealeza do gênio verdadeiro,

Ode ao entendimento supernal,

S ucedes de Giselda – matricial

R ibeiro, de onde escorre o herdeiro

I nsuperável sulco sensorial.

B eletrista, fiel desfiladeiro

E xtremoso, de peça memorial,

I minência da estese, a credencial,

R epositório das letras, celeiro

O quartzo fulgente do cristal.

 

Não sei como definir o sentimento que vivi ao ver essa importante homenagem que me fez o Mestre Vianney Mesquita, em seu livro Estâncias Decassilábicas Lusitanas – Medidas em Arte Maior [Palmácia: Arcádia Nova Palmaciana, 2024, p. 188-9).

É o sua vigésima quarta obra, recém-saída do forno, cheirosa, apetitosa e intelectualmente saborosa! 

O que o Escritor palmaciano nos oferece nesta interessantíssima produção está expresso em bens poéticos de composição difícil, pois os versos são sempre constituídos de dez sílabas (ictos) poéticas e com rimas harmônicas que se preservam no mesmo formato à extensão do poema. 

Luís Vaz de Camões escreveu seu clássico Os Lusíadas recorrendo a este difícil arranjo poético. 

Na poesia que Vianney compôs para mim – Quintilhas Acrostiquenas – Quintetos para Ana Paula – ele inicia com um verso que é o meu nome completo, que, curiosamente, contém dez ictos e rimas do tipo ABBAB, ou seja, o primeiro consoa com o quarto e o segundo com o terceiro e o quinto. As estrofes são formadas com cinco versos. 

E ainda tem algo interessante: o poema é um acróstico, um tipo de composição elaborada com as letras iniciais do nome do homenageado. 

Então, nesta deliciosa brincadeira, Vianney Mesquita vai caminhando nas linhas do papel como um menino afoito atrás do vento! Escolhe palavras interessantes, surpreendentes e cheias de significado e as coloca simetricamente nos versos, concedendo-lhes vida e personalidade! 

No Livro Sagrado (Gênesis, 2-7), registra-se que o Senhor Deus soprou a vida e fez o Homem. Por sua vez, o Poeta usou tinta e papel e impôs vida às palavras, que pulsam pujantes nesta rica obra de literatura... 

*Ana Paula Medeiros Ribeiro

Professora-titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará – FACED. Da Academia Cearense da Língua Portuguesa.

ARTIGO - Saudade da Lucidez - Parte 2 (RMR)

SAUDADES DA
LUCIDEZ

Parte 2


Rui Martinho Rodrigues*

A imunização cognitiva e a guerra de todos contra todos 

A incomunicabilidade dos paradigmas, que alguns chamam “imunização cognitiva”, porque o prefácio da obra Estrutura das revoluções científicas, de Thomas Kuhn, fala em “vacina contra a realidade”, tem origem em uma grande pluralidade de fatores. Merece destaque, neste estudo, o problema do significado das palavras. Não por ser o fator mais importante, mas por ser um dos mais esquecidos. A divisão das sociedades em tendências adversárias, mais do que isso, inimigas, não decorre de desentendimentos científicos, embora o nome da ciência seja usado pelas partes em conflito. 

O quadro descrito como a guerra de todos contra todos, por Thomas Hobbes (1588 – 1679), na obra O leviatã, ou simplesmente Leviatã, seria o estado de natureza, que teria sido superado pelo Estado político, por meio do pacto social, conforme as discutidas teorias contratualistas. A atual beligerância nas sociedades, ameaçando dividir instituições jurídicas e políticas, amizades e até famílias seria um retorno ao Estado de natureza. Sim, para quem considere que tal Estado seja próprio da essência da convivência humana. Sucede, todavia, que o retorno ao estado de natureza, seria a dissolução do Estado político.

A contenção da beligerância, independentemente da teoria hobbesiana, é mantida dentro de certos limites pelas instituições jurídicas, políticas, sociais, confessionais e pelos sistemas de parentesco, que formam o controle social. A sociedade, assim concebida, repousa sobre um ordenamento normativo, que por sua vez tem como alicerce um sistema axiológico. Normas e valores, entretanto, são comunicados por meio de palavras. A sociolinguística, com destaque para as contribuições de William Labov (1927 – 2004), juntamente com algumas teorias da Filosofia da linguagem, abriram uma larga avenida para a revisão da semântica no vocabulário coloquial como também no jargão das ciências da cultura. 

O discurso é uma alvenaria formada por palavras. As correntes políticas têm como objetivo a conquista, manutenção e ampliação do poder. Quem domina a linguagem exerce grande influência sobre as consciências. Ressignificar palavras tem sido parte dos projetos de poder. Os pretensos demiurgos formulam engenharias sociais e antropológicas. Querem criar uma sociedade radicalmente nova, conforme expressamente declarado na obra O mundo não tem mais tempo a perder, coletânea coordenada por Sacha Goldman e prefaciada por Fernando Henrique Cardoso. Ressignificar não basta. É preciso satanizar certos significados.

A dinâmica das línguas tem sido usada como argumento para justificar o trabalho de ressignificação do léxico. É preciso, todavia, diferenciar as transformações espontâneas, decorrentes de circunstâncias históricas e sociais, da transformação planejada e executada com o objetivo de dominação política. A linguagem jurídica não pode ser aberta às metamorfoses criadas pelos mais diversos interesses, distintos da dinâmica espontânea da língua. No campo do Direito a manipulação da semântica agride a segurança jurídica. No campo político e social leva ao domínio das consciências caracterizando o desvirtuamento do processo democrático.


No campo do Direito, os tipos penais podem ser reescritos, mas pela via legislativa, em obediência ao princípio da reserva legal. Injúrias, calunias e difamações estão tipificadas no Código penal, respectivamente nos artigos 138 e 139 e 140. Nomeá-los como “crime de ódio”, sem que exista tal tipo penal no ordenamento jurídico brasileiro, é uma clara violação do princípio da reserva legal. Não é parte do processo evolutivo espontâneo da língua. É uma tática de manipulação da opinião pública obtida por meio do aparelhamento de instituições, da intimidação e da violação do rigor metódico na produção intelectual.


Página: 1 de 132812345...1328Próxima