quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ARTIGO - A Munificência Produtiva do Escritor Luciano Dídimo (VM)

A Munificência Produtiva
do Escritor
Luciano Dídimo
Vianney Mesquita*



 

Revela apreciável realce, constitui um ideal dos mais belos, ao modo instado ao Senhor Deus na epígrafe, o momento propício de experimentar-se proceder a rápidas considerações acerca de mais uma triunfante diligência gráfica para circulação pública do tão celebrado autor, Luciano Dídimo, em A Rosa Cinzenta – Sonetos de Interioridade, relativos à sua figura de cidadão e escritor da melhor índole, neste volume sob o rito de imersão batismal no jordão librário do Ceará.

 

Aqui ele pluraliza encantadoras produções, de sublimidade transposta às raias ordinárias dos bens poemáticos, ao dispor, em relevo, a gentileza, a brandura e as mercês de seu gênio acumulado de positividade, transferidas, na sua maioria, para estrofes do estalão decassilábico, porém adicionadas de estâncias de arte menor – silabadas em sete ictos – e dodecassílabos alexandrinos, tudo no âmbito da bitola constitutiva do provençal sonet. 

Sob a perspectiva histórica de ideação da craveira compositiva a que recorre o bardo sob comento – é oportuno exprimir, em velocíssima informação, carecente de incontáveis complementos – têm ressalto o italiano Francesco Petrarca e o português Francisco Sá de Miranda, entre quase inumeráveis outros seguidores e preceptores, conforme o pai do lavrador o exemplar sob comentário – Horácio Dídimo Pereira Barbosa Vieira – Rafael Sânzio de Azevedo e Otacílio Colares, ao se mencionar, por ensejada a ocasião, apenas literatos cearense.

 Eis, por consequente, um Tomé são-joanino a presumir além do que divisa, sem ser preciso ver para crer, nem introduzir os dedos nas injúrias da pessoa ledora, feito um Dydimus, um To’Oma aramaico, gêmeo, duplo, em tempos distintos e distantes, de dois Horácios (menestréis Horácio Dídimo e Quinto Horácio Flaco) a creditar brandura e indulgência aos seus iguais circunjacentes, tanto integrantes do sistema familiar como outros partícipes de suas circunstâncias amistosas.

A isto ele procede, máxime, por intermédio dos expedientes da arte maior, do jeito como se exprimiu há pouco, pois a pluralidade é ofertada em pés decassílabos lusitanos, magnanimamente produzidos, com suporte numa alma branda, leve e benfazeja, admirada e aplaudida, pelos bem-afortunados leitores brasileiros e da língua portuguesa. 

O Autor objeto destas fugazes notações, Luciano Dídimo Camurça Vieira, causídico operante no Tribunal Regional do Trabalho, no Ceará, e administrador da gema, já possui várias edições em formatos digitais e versões impressas, ao sabor de uma afluência selecionada de consulentes, no Brasil, em Portugal e nas outras sete nações lusófonas – Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné Equatorial. 

O doutor Luciano Dídimo estreou a mostra do seu alteado estro, no ano de 2011, com O Meu Carmelo é Marrom, acompanhado de A Rosa da Certeza (2016), contando, ainda, com o excecional séquito de A Rosa Marrom (2020), adido de A Rosa VerdeSonetos de Esperança (2022) e da Rosa de PérolaSonetos Preciosos (2024). Mencionados proveitos editoriais são faustosamente ortografados, a ornar de estimação sua obsequiosa habilidade literária, motivo por que é admirado pelo universo ledor, sancionado em diversas análises críticas, as quais costumam avultar, sistematicamente, a essência dos seus bem mensurados escritos, favorecidos de certificação pela diligente e pertinaz massa de avalistas coestaduanos. 

Neste lance prazenteiro, em decisão perto de conformar um atavio redundante, talvez pensem alguns – pois já devidamente apetrechado pelo rematado ânimo estral que enroupa sua caminhada rítmica -, o produtor da conjunção consoada A Rosa CinzentaSonetos de Interioridade decidiu aduzir ao contexto já nutrido de medidas lusitanas de dez acentos, e poucos pés bilaquianos e setessílábicos da melhor verve, inscrições epigrafadas de passagens bíblicas, menções a fragmentos da lavra de romancistas, poetas e outros intelectuais do Ceará, do Brasil e do inteiro orbe escritural, incluindo o molde literário humano Horácio Dídimo, Miguel Ângelo de Azevedo – o Nirez, São João da Cruz, Rachel de Queirós et multi alii. 

Ao manobrar de tal maneira, concedeu um teor mais real e denso e ameno e distinto e vigoroso e donairoso ao livro, à luz do farol harmônico e integral da peça, uma vez que o complexo de quadras e trísticos, haja vista sua precisão em dignidade e elegância estética, está absolutamente desnecessitado de inclusões com o intento de lhe ajuntar e completar valor. 

Peculiaridade proveitosa, também, cursa nesta edição, configurada no fazimento de versos base com arrimo em concertos musicados ao lavradio de compositores brasileiros, conduta coberta de urbanidade e indicadora da valorização e benquerença de Luciano Dídimo em relação aos mentores de joias do cancioneiro nacional, com a honrosa e reta manifestação do seu reconhecimento, disposto na condição de intelectual, distinto da imensa cópia popular. 

O polido agente de A Rosa Cinzenta – Sonetos de Interioridade – neste passo atreito aos propósitos de consultantes avezados à sensibilidade poética – ao concertar suas harmonizações, reflete semelhantemente ao acerado e zombeteiro intelectual franco, François-Marie Arouet, dito Voltaire (in Dicionário da Sabedoria. São Paulo: Fittipaldi – 1985, vol. 3, decodificação livre e com acréscimos), o qual, ao se enjeitar aqui suas acerbas maledicências ao Cristianismo, alcança a poesia como humanamente necessária, pois quem não aprecia versos detém o desalento, um espírito áspero e carregado, uma vez que os modelos versíficos estampam a música da alma. 

Fazendo-se adições à conjectura do principal componente da parede intitulada Jovem Alemanha (Junges Deutschland), Lwdwig Börne (1786-1837, Ibidem), há de se entender, por conseguinte, segundo reflete seguramente, também, o trovador Luciano Dídimo, que, caso não houvesse inspiração, a vida não iria além de uma chaga icorosa, vez por outra sanguinolenta. As balizas métricas, plenas de dons, malgrado os males que devem ser denegados, nos outorgam o surripiado pela Mater Natura: autorizam-nos a vivência de um tempo áureo, que não envelhece, e a nós transfere uma felicidade sem nuvens e um verdor eterno. 

Por via da coerência, não se descortina nada capaz de ser verazmente poético, se não for plenificado de autenticidade, à maneira do conteúdo encantador, recheado de graça do Rosa Cinzenta Sonetos de Interioridade, ora disposto ao exame da imensa aleia admirante do alevantado conjunto manifesto pelo corpo arguto e a razão diserta do comentado sonetista. 

Despeje-se na observação, preclaro consulente! 

Fortaleza, fevereiro de 2026.


ENSAIO - Formação Humana Entre Disciplina, Intemporalidade e Tempo Social (LRF)

 FORMAÇÃO HUMANA
ENTRE DISCIPLINA,
INTERIORIDADE
E TEMPO SOCIAL
Luiz Rego Filho*

 

Um ensaio técnico-filosófico a partir de Pierluigi Piazzi, Monir Nasser e Domenico De Masi


1. Introdução 

O debate contemporâneo sobre educação, trabalho e sentido da vida humana encontra-se marcado por paradoxos profundos: nunca houve tanto acesso à informação, e nunca se observou tamanha fragilidade da atenção; nunca se produziu tanto, e nunca se discutiu tanto o esgotamento humano; nunca se falou tanto em bem-estar, e nunca se registrou tamanho vazio existencial. Nesse cenário, o diálogo hipotético entre Pierluigi Piazzi, Monir Nasser e Domenico De Masi permite iluminar, por contraste e convergência, os limites estruturais do modelo civilizatório vigente. 

Embora oriundos de campos distintos – pedagogia, ensaísmo filosófico e sociologia do trabalho – os três compartilham uma crítica comum à superficialidade contemporânea, ao culto da facilidade e à dissolução do tempo formativo. Este ensaio propõe analisar as incoerências aparentes, as afinidades profundas e a síntese possível entre esses pensamentos, sustentando que sua convergência aponta para um projeto integrado de formação humana no pós-produtivismo. 


2. Educação como tensão formativa: o núcleo do pensamento de Piazzi 

Pierluigi Piazzi construiu sua crítica educacional a partir da rejeição da pedagogia permissiva e do que denominou, em diversos textos e palestras, de infantilização prolongada do sujeito moderno. Para o autor, aprender não é um processo naturalmente prazeroso, mas um exercício de enfrentamento cognitivo e emocional, no qual a frustração exerce papel estruturante (PIAZZI, 2007). 

Segundo Piazzi, o cérebro humano se desenvolve mediante treino deliberado, repetição e esforço continuado, sendo prejudicado pela gratificação imediata e pela cultura do entretenimento permanente (PIAZZI, 2008). Essa posição o coloca frontalmente contra modelos educacionais que transformam o aluno em cliente e a escola em prestadora de serviços de conforto emocional. 

Do ponto de vista filosófico, Piazzi sustenta uma antropologia implícita: o ser humano não nasce pronto, tampouco eticamente estruturado. A educação, nesse sentido, é um processo civilizatório que exige limites, autoridade legítima e responsabilidade compartilhada entre família e escola. Sem essas balizas, o que emerge não é liberdade, mas dispersão. 


3. Interioridade e resistência ao espírito do tempo em Monir Nasser

Em contraste com a dimensão institucional da obra de Piazzi, Monir Nasser desenvolve uma crítica radical à modernidade a partir da experiência interior. Seus textos recusam a lógica da produtividade, da aceleração e da visibilidade, operando deliberadamente à margem do circuito acadêmico e mercadológico (NASSER, 2012).

Para Nasser, a crise contemporânea não é apenas educacional ou econômica, mas ontológica. A substituição do silêncio pelo ruído, da contemplação pela estimulação contínua e da sabedoria pela informação gera um empobrecimento da experiência humana. Em suas reflexões, a educação moderna fracassa não por excesso de rigor, mas por ausência de profundidade. 

O autor rejeita tanto a pedagogia utilitarista quanto os projetos de engenharia social otimistas. A formação humana, em sua perspectiva, passa pela aceitação da finitude, pelo enfrentamento da solidão e pela recuperação de uma relação não instrumental com o tempo (NASSER, 2016). Trata-se de uma educação que não visa adequar o indivíduo ao sistema, mas preservar sua interioridade diante dele.


4. Tempo, trabalho e criatividade em Domenico De Mais 

Domenico De Masi introduz no debate uma dimensão estrutural: a organização social do trabalho e do tempo. Seu conceito de ócio criativo propõe superar a dicotomia entre trabalho, estudo e lazer, defendendo que a criatividade emerge precisamente da interpenetração dessas esferas (DE MASI, 2000). 

O sociólogo critica a centralidade absoluta do emprego na definição da identidade humana e alerta para os efeitos patológicos da cultura do hipertrabalho, como burnout, alienação e perda de sentido. Para De Masi, o avanço tecnológico deveria liberar tempo humano para atividades intelectuais, artísticas e relacionais, e não intensificar a exploração (DE MASI, 2014). 

Entretanto, o autor reconhece – ainda que nem sempre com a devida ênfase – que o ócio criativo exige formação cultural sólida. Sem educação intelectual e ética, o tempo livre tende a ser colonizado pelo consumo passivo, convertendo-se em vazio existencial ou entretenimento alienante. 


5. Incoerências aparentes e conflitos reais

À primeira vista, os três pensadores parecem inconciliáveis. Piazzi desconfia do ócio; De Masi o valoriza. Monir Nasser rejeita projetos institucionais; Piazzi atua diretamente neles. De Masi acredita em reorganização social; Nasser suspeita de qualquer promessa redentora da técnica ou da política.

Contudo, essas tensões não configuram contradições insolúveis, mas níveis distintos de análise. Piazzi opera no plano da formação cognitiva e ética; Nasser, no plano da existência; De Masi, no plano da estrutura social. O conflito surge quando um nível pretende substituir os demais.


6. Afinidades estruturais: o que os une

Apesar das diferenças, os três convergem em pontos fundamentais:

 

a)    Crítica à cultura da facilidade – seja na educação (Piazzi), na vida interior (Nasser) ou no trabalho (De Masi); 

b) Defesa do tempo lento como condição de aprendizado, pensamento e criação; 

c)  Rejeição do entretenimento como substituto do sentido; 

d) Centralidade da formação humana, e não apenas da performance econômica.

Essas afinidades revelam uma crítica comum ao paradigma produtivista, ainda que expressa em linguagens distintas. 


7. Síntese possível: um projeto integrado de formação humana 

Se reunidos, Piazzi, Nasser e De Masi dificilmente produziriam um manual pedagógico ou um plano de políticas públicas convencional. O resultado mais plausível seria um manifesto técnico-filosófico sustentado por três pilares:

 

1.  Disciplina formativa (Piazzi): sem esforço, não há estrutura cognitiva nem ética;

 

2. Interioridade e silêncio (Nasser): sem profundidade, a disciplina degenera em adestramento;

 

3. Reorganização do tempo social (De Masi): sem tempo livre qualificado, caráter e interioridade não se sustentam. 

Essa síntese aponta para uma educação exigente, uma vida interior preservada e uma sociedade que não sacrifique o humano à produtividade. 


8. Considerações finais 

A crise contemporânea não é resolvida por mais estímulos, mais flexibilidade ou mais eficiência. Ela exige formação, sentido e tempo. O diálogo implícito entre Piazzi, Nasser e De Masi revela que a superação do esgotamento civilizatório depende menos de soluções fáceis e mais de uma reconciliação entre disciplina, profundidade e liberdade temporal.

Trata-se, em última instância, de recolocar a pergunta fundamental que a modernidade tentou silenciar: para que, afinal, educamos, trabalhamos e vivemos? 


Referências (ABNT) 

DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. 

DE MASI, Domenico. O futuro do trabalho: fadiga e ócio na sociedade pós-industrial. Rio de Janeiro: José Olympio, 2014. 

NASSER, Monir. O vazio e o silêncio. São Paulo: É Realizações, 2012. 

NASSER, Monir. A perda do sentido. São Paulo: É Realizações, 2016. 

PIAZZI, Pierluigi. Os filhos que não dão certo. São Paulo: Aleph, 2007. 

PIAZZI, Pierluigi. O sucesso escolar não é um jogo. São Paulo: Aleph, 2008.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

CRÔNICA - Um Céu Para os Animais (JPM)

 Um céu para os animais
João Pedro Maia*

 


Quando criança, “Tom e Jerry” era um dos desenhos a que eu mais assistia. Em um de seus episódios, Tom – o gato – vai ao Céu, em uma espécie de EQM. Na porta do Paraíso, Tom vê três filhotes de gato que saem de uma sacola outrora amarrada e encharcada. 

 

Os gatinhos aparecem felizes diante das grades, sem entender o que está acontecendo – assim como os inúmeros espectadores daquela época. Era uma maldade que só entendemos quando amadurecemos e que, ainda assim, gostaríamos que não existisse.

 

Nesta semana, vivemos maldade parecida. O Brasil acordou estarrecido com a barbaridade sofrida por Orelha, um cão comunitário que vivia na Praia Brava, em Santa Catarina. Orelha foi espancado até a morte por quatro adolescentes, que o acordaram e anunciaram, com golpes pontiagudos, o seu fim. É duro até mesmo descrever o ocorrido, e os relatos que se seguem debitam nossa fé na humanidade.


 

Não tenho dúvidas de que Orelha está no céu. A incerteza que paira, porém, é perturbadora: por quê? Por quê? Por que infringir tanta dor e sofrimento a um ser tão indefeso, tão vulnerável e tão amável? Que sentimento mórbido convive com tamanha perversidade?

 

É fato que dispomos de mecanismos legais para lidar com crimes dessa natureza. Mas a questão não é apenas essa. É mais profunda. Queremos punição, em todas as esferas possíveis e imagináveis, para os envolvidos – os monstros que o fizeram e os monstros que o toleraram. Mas queremos mais: queremos que isso nunca mais aconteça. É o mínimo que devemos a Orelha.

 

É duro saber da chegada antecipada ao céu de seres tão puros. Devemos um céu aos animais na Terra, consubstanciado em coisas tão simples: cuidado, comida, água, proteção – gestos pequenos para nós, mas divinos para eles. Precisamos de Céu para os animais. Aqui. Agora.


CRÔNICA - Os Dois Leões da Minha Vida (LRF)

 Os dois leões
da minha vida
Luiz Rego Filho*

 

Não sei por que os leões insistem em aparecer na minha vida profissional. Talvez confundam agrônomos com tratadores, ou talvez a natureza apenas goste de piadas internas. O fato é que encontrei dois leões no exercício da função — o que, convenhamos, não consta em manual técnico algum.

O primeiro surgiu em Miracema, município quente o suficiente para derreter convicções. Fui até lá com a pesquisadora Regina Celestino, do Ceprus — Centro Estadual de Pesquisa em Desenvolvimento Rural Sustentável — para avaliar uma propriedade rural. O proprietário era um sargento reformado da Polícia Militar, homem tranquilo, seguro, dono de um portão de ferro imenso, com trilhos, cadeado e a convicção de que tudo aquilo fazia sentido. 

Entramos. A estrada interna serpenteava até a sede, mas antes dela havia uma jaula. Uma jaula. Dentro da jaula, um leão. Não um símbolo, nem uma metáfora: um leão mesmo, com juba, dentes e um urro que parecia reclamar da falta de contexto. 

O animal não estava em seus melhores dias. A jaula misturava restos de comida e fezes, e o leão parecia menos rei da selva e mais síndico insatisfeito. Seguimos em frente, fingindo normalidade, porque o ser humano tem esse talento extraordinário de aceitar qualquer coisa, desde que ninguém faça escândalo.

Terminada a parte técnica, fomos recompensados com dois pés de jabuticaba em frente à casa. Frutos grandes, pretos, redondos, moralmente irresistíveis. 

Eu e a Dra. Regina atacamos com a dignidade possível. O sargento assistia, satisfeito, como quem oferece hospitalidade e recebe felicidade em troca. 

Depois veio a vergonha tardia, o pedido de desculpas e a saída protocolar. O leão ficou. Não comeu jabuticaba. Perdeu. 

O segundo leão me aguardava em Niterói, já num ambiente institucional, o que prova que o absurdo também presta concurso público. A Secretaria de Agricultura funcionava numa casa antiga da Alameda São Boaventura, que fora residência de Euclides da Cunha, autor de Os Sertões e protagonista involuntário de uma das maiores confusões familiares da literatura nacional. 

Cheguei de ônibus, atravessei a avenida com cuidado exagerado — atitude que, como se verá, foi inútil — e entrei num espaço silencioso demais para ser saudável. À esquerda, havia um zoológico botânico. Nunca soube explicar exatamente o que é isso, mas envolve plantas, animais e decisões administrativas passadas. 

Dirigi-me à sala da Diretoria Técnica. O Diretor, cuja sala ficava colada à jaula do leão, conversava tranquilamente comigo. Comentei, num tom quase profissional: 

— Hoje o leão está quieto. 

Ele respondeu, sem levantar a sobrancelha: 

— Fugiu. 

Não houve grito. Não houve correria. Houve apenas um colapso interno silencioso, aquele em que a alma se senta no chão e pensa se vale a pena levantar. 

— Fugiu? — perguntei, esperando que a palavra tivesse sido usada no sentido poético. 

— Fugiu — confirmou. 

Meu corpo começou a rever decisões recentes. Caminhos percorridos. Arbustos observados com excesso de confiança. Senti uma súbita vocação para estátua. 

— Mas… — arrisquei — encontraram? 

— Encontraram. 

Silêncio. 

— Onde? 

— Aqui perto. 

Foi nesse momento que compreendi: eu havia atravessado todo o zoológico a pé, calmamente, ignorando a possibilidade concreta de estar dividindo o espaço urbano com um leão desempregado. 

Saí da sala lentamente, como quem não quer acordar a própria memória. Desde então, aprendi que o Brasil é um país onde um leão pode fugir sem aviso prévio e o aviso vir depois, como nota de rodapé. 

E que, definitivamente, agronomia não é uma profissão para quem exige coerência.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Soneto Decassílabo Português – VM

 NATALÍCIO DIGNIFICANTE

(* 25.01.1946)

 

A juventude na provecta idade constitui o anseio impotente de um coração que intenta romper os tecidos atrofiados, para dar pulos em pleno ar (CAMILO CASTELO BRANCO, escritor de todos os gêneros. Mártires - Lisboa, 16.03.1825; Vila Nova de Famalicão, 01.06.1890).


Vianney Mesquita
(Jovem Chrónos) 

No dia vinte e cinco de janeiro,
Na Vila de Palmeiras pastoril,
Para as hostes do esplêndido Brasil,
Assomou, ágil, este cristão parceiro.
 
De obras portentosas altaneiro,
Mesmo criança, adulto ou juvenil.
Impôs seriedade ao seu perfil...
Coeso, triunfante e cavalheiro.
 
Periodista de escol, lente de ofício,
Gestor excelso, habita o frontispício
De vida exemplar, tersa e maneira.
 
Eis que medra aos oitenta outro renovo
Do extraordinário Árcade Novo
Paulo Tadeu Sampaio de Oliveira.
 

(Palmácia (antiga Palmeiras), 25 de janeiro de 2026)



PATRANHA POÉTICA - Palmácia - Paris (VM)

 PALMÁCIA – PARIS
Vianney Mesquita*  



Tudo o que é difícil sai do que é fácil. Tudo o que é grande do que é pequeno. (LAO-TSÉ)

 

As centrais macrometropolitanas
Diversamente da ínclita Palmácia,
Sob a perspectiva da acurácia
Concertam as grandezas soberanas.
 
Árduas conurbações periurbanas –
Como uma vera e terrena galáxia –
Contudo sob o prisma da eficácia,
Distam pouco das urbes serranas.
 
Ao comparar Nossa Terra a Paris,
Notória é a distinção só por um tris
De nada abona, pois, fazer escarcéu.
 
Eis por que tal pretexto a razão diz
Conceder à História este matiz:
Torre da Lua igual à Torre Eiffel!