sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CRÔNICA - Do Pó ao Pó e Um Agrônomo do Centro (LRF)

 DO PÓ AO PÓ, COM SUOR NO MEIO
(E UM AGRÔNOMO NO CENTRO)
Luis Rego Filho*

Quia pulvis es et in pulverem reverteris II  
“Ad locum revertere”.
 

No princípio era o pó. Depois veio o homem. Depois veio o suor. E, logo em seguida, veio o engenheiro agrônomo para explicar a reação química – no caso, eu, modestamente metido até o tornozelo nesse destino universal. A Bíblia, sempre econômica e certeira, resolveu a biografia humana em meia linha: “és pó e ao pó tornarás.” Não especificou se haveria estágio probatório, nem progressão funcional, nem gratificação por insalubridade existencial. Apenas decretou. O texto é tão sucinto que parece despacho de repartição celestial. 

O que a Escritura não detalha – talvez por economia de pergaminho – é que entre o pó inicial e o pó final existe o suor intermediário. E é justamente aí que entro eu, engenheiro agrônomo, profissão que consiste basicamente em explicar para os outros aquilo que a terra já sabe desde o período Devoniano. Porque o suor humano, essa água salgada que brota do esforço, não é só testemunho moral do trabalho: é solução eletrolítica em estado de poesia. Quando cai no chão, não evapora filosoficamente; reage cientificamente. Troca íons com argilas, negocia com minerais, conversa com microrganismos. O sódio cochicha com o cálcio, o potássio flerta com o magnésio, e o solo, que é um anfitrião paciente, registra tudo em sua contabilidade coloidal. 

Eu passo o dia estudando essas conversas subterrâneas. Enquanto o cidadão comum pensa que está apenas suando, eu sei que ele está participando de um simpósio geoquímico. Cada gota que escorre de uma testa humana é uma carta de recomendação enviada ao subsolo: “Segue pequeno lote de nutrientes, favor reincorporar ao sistema”. 

Há profissões que lidam com cifras, outras com leis, outras com pessoas. A minha lida com partículas. Sou uma espécie de tradutor simultâneo entre o mundo mineral e o mundo vivo. Traduzo o idioma do cálcio para o dialeto da raiz, interpreto a gramática do nitrato para a sintaxe da folha. Em termos mais diretos: explico ao pó por que ele ainda é gente e explico à gente por que ela já é um pouco pó. 

É inevitável que, exercendo esse ofício, a gente adquira uma certa intimidade com o destino. Enquanto alguns temem o fim, eu o analiso em laboratório. Outros escrevem testamentos; eu escrevo laudos de fertilidade. Para muitos, a palavra “mineralização” é metáfora. Para mim, é rotina. 

Descobri, aliás, que a natureza é o único sistema realmente organizado que já existiu. Nada se perde, tudo se troca, tudo se recicla. O homem sua, o suor nutre o solo, o solo nutre a planta, a planta nutre o homem, e o homem volta a suar – um circuito fechado mais eficiente que qualquer política pública. A Terra não desperdiça nem lágrima. 

No fundo, a engenharia agronômica é a arte de acompanhar esse vai-e-vem sem atrapalhar. Não criamos o ciclo; apenas tentamos não estragar o mecanismo. Somos fiscais discretos do casamento entre a química e a vida. Se der certo, colheita. Se der errado, relatório. 

E assim sigo, profissionalmente envolvido com o destino universal, observando com certo orgulho técnico que a sentença bíblica não é só teológica – é pedológica. O homem veio do pó, voltará ao pó, e durante o intervalo presta consultoria involuntária ao solo através das glândulas sudoríparas. 

Moral quase científica: o ser humano é um fertilizante em estágio provisório. 

Quanto a mim, aceito serenamente. Afinal, quando chegar a hora final, estarei apenas mudando de função – de engenheiro agrônomo para componente do horizonte.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

QUADRÍPTICO LITERÁRIO - (FSNF)

 QUADRÍPTICO LITERÁRIO
(Mote: Habilidade Natural – HN)
Sousa Nunes*

 

Somente o influxo da arte comunica durabilidade à escrita. Só ele marmoriza o papel, transformando a pena em escopro. (RUI BARBOSA DE OLIVEIRA. Salvador, 5.11.1849; Petrópolis, 1.3.1923).


Notações do Editor da Vernáculo 

Well Moraes

   

Esta conjunção de quatro breves textos foi procedida com base em publicações efetuadas, em conexão com a internet, em órgãos distintos e com arrimo na dicção da inventiva de Vianney Mesquita,  conforme à frente mencionada --, a fim de se mostrar na Vernáculo – revista da Academia Cearense da Língua Portuguesa - o acolhimento, favorável à ideação do produtor da seção de abertura deste quadríptico linguístico, da parte de três paredros da Codificação Lusitana aqui em Fortaleza, conforme consta à continuação. 

O tema concerne à opinião ali expressa, contraposta à noção de Inteligência Artificial (hoje sob exagerado crédito e, muitas vezes, erroneamente empregada) Habilidade Natural – novel dicção originada do seu autor, partícipe dos quadros da mencionada ACLP, conforme o são os assinantes das peças três e quatro. Entrementes, o escritor, cearense de renome, Reginaldo Vasconcelos, Presidente da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, responde pela seção 2 deste pequeno complexo textual. 

 

1 Habilidade Natural - HN

Vianney Mesquita

        


                

 Seja qual for a linguagem que empregares, somente aplicarás o que és. (RALPH WALDO EMERSON – escritor e filósofo estadunidense. Boston, 25.5.1803; Concord, 27.4.1852)

       

Em razão de entender como absolutamente necessário, acho oportuno declarar que, nas escritas por mim produzidas e publicizadas, onde quer que o sejam, somente recorro à HABILIDADE NATURAL – HN, com suporte em estudos efetivados em estabelecimentos escolares amparados pela legislação nacional, por intermédio de pessoas afeitas a matérias diversas, em universidades e ambientes de prova (laboratórios, exempli gratia), bem como em informações obtidas com amparo na autodidaxia praticada à extensão da experiência.  

Em adição  e esta é a ocasião de o atestar  ao fazer menção a obras e ideações doutros produtores desses bens, como instituições e órgãos semelhados, procedo às notações bibliográficas das quais me vali, consoante as ordenações legais do País, em particular, do direito autoral, inclusas as preceituações da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. 

Entendo que, à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – IA, conquanto seja magnificamente aditada no tempo fluente, porém com estremas de emprego, só é factível de a ela se socorrer em situação de dúvidas as mais diversas – por exemplo, de natureza histórica – conforme se procede com as consultas a dicionários, volumes gramaticais e correlatos. 

Assim, toda escrita e qualquer produto editorial assente na IA e não na HN, embora, como divisado hodiernamente, em textos “magnificamente” escritos (às vezes com 90 por cento de “auxílio” da IA e não pelos autores), deixa de retratar intenção e SABER NOVO, no entanto, somente repetição do que já se encontra exprimido em achados naturais e descobertas de investigadores, quer em tempos recentes ou em períodos mais transatos.  

Conquanto o pensamento ora exposto seja suscetível de contestação do lado de quase cem por cento da comunidade leitora nos países de Língua Portuguesa, a mim não me custa o conduzir pela via deste meio de propagação coletiva, de sorte a conformar até obrigação o ato de exteriorizá-lo.

 

2 Nova Expressão – Habilidade Natural

Reginaldo Vasconcelos

     


  
A língua é o trajo do pensamento. (SAMUEL JOHNSON – escritor britânico. Lichfield, 18.9.1709; Londres, 13.12.1784)             

 

Na manhã de 21 de agosto de 2026, telefonou-me o confrade Stênio Pimentel, demonstrando-se ainda assente na disciplina rígida da sua formação de “homem do mar”, que militou na Armada do Brasil, na fase áurea da sua juventude. 

Ele ainda está afeito à formalidade de quem, na maturidade, foi longamente enquadrado nos rigores funcionais da administração bancária, exercida em várias instituições financeiras, nacionais e estrangeiras.  

Ligou, então, para, em posição de sentido e em continência, comunicar a este Presidente haver aplicado um neologismo autoral em mensagem que postou no nosso Grupo de WhatsApp. 

Explicou que a palavra por ele aplicada, dirigindo-se carinhosamente a um coirmão da entidade, não repousa nos dicionários do idioma português, e que, portanto, ainda não está abonada pela lexicografia nacional.  

Esse telefonema e o seu teor, por uma coincidência magnífica, tangenciam o texto do dia anterior, remetido ao Blog pelo Professor Vianney Mesquita, um terceiro confrade, o maior experto em linguística românica da nossa Academia. 

No seu artigo Habilidade Natural, o Mestre Vianney inaugura essa expressão (HN), fazendo um contraponto à novel “Inteligência Artificial” (IA), e frisando que não a aplica na sua lavra literária, porque segue o próprio cabedal intelectual, citando as fontes dos estudos que empreende.  

Os dois abordam aspectos semelhantes, mas distintos, quando Vianney propugna pelo uso clássico da língua, ainda que de forma original e criativa, enquanto o Stênio revela que os dicionários são fontes relativas de consulta, já que apenas reúnem termos encontradiços em obras gráficas que os lexicógrafos coligiram.  

Assim, as edições dicionárias, analogicamente, são como papagaios que aprenderam e registram muitos verbetes, que se atualizam em novas edições – como outros louros que aprendam a falar. Se, porém, os vocábulos elencados estão corretamente escritos e aplicados, só os filólogos o dirão.  

Criar neologismos, com efeito, é perfeitamente permitido aos redatores cultos que precisem suprir lacunas semânticas no idioma que dominam, a bem da clareza, da sintonia fina da retórica e do discurso, DESDE QUE aplicando radicais condizentes com o latim, o grego, o árabe e com a gramática primordial do idioma. 

Vianney Mesquita, por seu turno, expressa nas entrelinhas que a IA tem sabença de textos alheios de que vai sendo informada e de que se vai apropriando, para aplicar combinações mais ou menos coerentes, porém não possui sapiência própria para criar fórmulas de dizer de maneira bela e correta, inovando artisticamente ao comunicar a humana cerebração, que é insuperável.  

       

3 A propósito da Habilidade Natural, 

de Vianney Mesquita       


Ítalo Gurgel     

                        

A língua é uma cidade para cuja construção cada ente humano contribuiu com uma pedra. (R. W. EMERSON)       

 

O texto do Vianney, confrade ilustre e amigo preclaro, distingue-se, desde o título, pela agudeza de uma formulação que contrapõe à Inteligência Artificial a expressão Habilidade Natural — HN, achado vocabular ao mesmo tempo engenhoso e provocador. 

A declaração afronta tema de incontestável atualidade e o faz sob perspectivas particularmente relevantes: a autoria, a honestidade intelectual, a formação do conhecimento, o respeito às fontes e a responsabilidade de quem subscreve e publica um texto. 

Fiel à sua reconhecida erudição e ao zelo que sempre dedicou ao vernáculo, o autor não se limita a registrar uma preferência pessoal: suscita uma reflexão necessária sobre os limites entre o auxílio instrumental e a substituição do trabalho criador. É possível seconcordar ou não, integralmente, com a rígida separação estabelecida entre HN e IA; permanece, contudo, o mérito maior da declaração: lembrar que nenhuma ferramenta, por mais avançada que seja, dispensa o discernimento, a experiência, a consciência ética e a responsabilidade autoral. 

Num tempo em que a tecnologia frequentemente se antecipa à reflexão sobre os próprios efeitos, Vianney traz ao debate uma advertência lúcida, corajosa e oportuna. 

 

4 HABILIDADE NATURAL, de Vianney Mesquita,
e o risco da maquinização do humano

Sousa Nunes

 

A linguagem é a morada do ser. (MARTIN HEIDEGGER, pensador e reitor acadêmico alemão. 26.09.1889 – 26.05.1976).

 

O breve e indispensável artigo do confrade Vianney Mesquita sobre a Habilidade Natural — HN, em face da Inteligência Artificial, é uma defesa da dignidade do ato de pensar. E, vindo de sua lavra, não surpreende que a reflexão se exprima pensada, cogitada e ponderada, numa linguagem primorosa, em que o erudito convive, sem afetação, com a harmonia da língua.  

Concordo com o citado mestre, quando reivindica, para a criação intelectual, a primazia de experiência, leitura, investigação, memória cultivada e exercício pessoal da inteligência. A máquina é capacitada a consultar, ordenar, combinar e restituir, com espantosa velocidade, o que o engenho humano acumulou. Existe, entretanto, a distância essencial entre a informação recomposta e o pensamento amadurecido – o conluio da resposta instantânea com o saber conquistado na intimidade silenciosa da reflexão. 

Eis um dos grandes perigos atuais: a fase da máquina está a destruir o tempo humano. Este é aquele de leitura demorada, escuta, reflexão e contemplação. É o período em que uma ideia repousa em nós antes de encontrar a palavra que a exprima. A época da máquina é a mesma da pressa, do automatismo, resposta imediata, superfície. E, quando a velocidade substitui a meditação, sobra depauperado, também, o vocabulário — e, empobrecendo-se a linguagem, estreita-se o próprio mundo interior. 

Heidegger deixou-nos a luminosa advertência, exprimida à epígrafe, de que a linguagem é a morada do ser. Se habitamos o mundo pela linguagem, perder a intimidade com as palavras é, de algum modo, desperdiçar parcelas de nós mesmos, porquanto somos também o que conseguimos nomear, pensar e dizer. Por isso, abandonar a escrita pensada, criativa, reflexiva e contemplativa significa consentir, pouco a pouco, que ocorra uma perigosa maquinização do humano.  

E ocorre-me Manuel Bandeira, no inesquecívelMomento num café” (em Estrela da Manhã, 1936): diante do enterro que passava, todos cumpriam maquinalmente o gesto convencional; apenas um homem interrompeu o automatismo e descobriu-se, por um instante, diante da vida, da morte e do mistério de existir. A palavra decisiva talvez seja esta: maquinalmente. Há o risco de que estejamos ingressando numa civilização que lê automaticamente, escreve instintivamente, responde inconscientemente, e, por fim, vive maquinalmente – unificando as referidas moções comunicativas. 

É contra esse empobrecimento que o valioso texto do erudito Vianney Mesquita adquire especial oportunidade. Conduz-nos a lembrar de que nenhuma tecnologia deveria dispensar o ser humano da aventura insubstituível de formar o próprio pensamento.  

Parabéns, doutíssimo confrade e ínclito mestre palmaciano. Sua reflexão merece os mais elevados encômios, porque, ao defender a Habilidade Natural, postula, em última instância, o que ainda nos cabe preservar: a soberania da inteligência humana, o lavor da palavra e o tempo interior sem o qual não há verdadeira criação.


 

Soneto Decassilábico Lusitano com Rimas Totalmente Encadeadas (VM)

 VIDA DE ANGÚSTIAS

Vianney Mesquita

 (Escrito com suporte na Habilidade Natural- HN) 


A rima é o coração que sai cantando em verso. 

(JOSÉ OITICICA – linguista, dramaturgo e poeta parnasiano brasileiro. Oliveira-MG, 22.07.1882; Rio de Janeiro, 08.07.1957).


Ao abominar as paupérrimas rimas denunciadas, com revolta latente, pelo intelectual coestaduano Prof. Dr. Rui Martinho Rodrigues, em matéria publicada na Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, no dia 12 de março de 2018 – há um pouco mais de oito anos (Comédia, Sátira ou Tragédia?), procedo a ligeiro relato a respeito de um dos recursos de concordância sonora, no âmbito da versificação em língua portuguesa.

Dos muitos que há na taxionomia inserta nos compêndios de versificação – conforme resulta o Tratado de Versificação (1930), de Olavo Bilac e Guimarães Passos, reporto-me ao modelo de consonância poética, denominado rima encadeada, obtida pela vinculação melodiosa do término de um verso ao interior do pé seguinte, a fim de conceder bem mais estese à poesia, principalmente se múltiplos restarem esses elegantes expedientes, hoje em dia, pouco (quase nunca) divisados na produção dos “menestréis” da contemporaneidade.

Clássico exemplo desta casta de conciliação de sons está na letra de Flores D’Alma, do lusitano Thomás Ribeiro (1831-1901), inserido em Dom Jaime, no qual se aviva a beleza composicional. Apreciemos.


As flores d’alma que se alteiam BELAS,
puras, SINGELAS, orvalhadas, vivas,
têm mais aroma e são mais FORMOSAS
que as pobres ROSAS de um jardim cativas.

Sol benfazejo lhes aquece a RAMA,
lúcida CHAMA, sem o ardor que mata;
banham-se as hastes, retratando as FRONTES,
límpidas FONTES em ramais de prata. [...].


Sobra, ainda, mais apreciável se o compositor impuser mais encadeadas nas estrofes, como neste exercício, em que todos os versos do soneto Vida de Angústias – tanto nas quadras como nos trísticos – preenchem esse gradeado.       

Sobejam, porém, um interesse e quiçá uma desvantagem, declarada na sequência, e que, no fim, no entanto, significa algo positivo, configurado no enriquecimento do vocabulário do leitor, caso ele desconheça as unidades de ideias empregadas, pois a

necessidade o transporta ao dicionário. Mencionado proveito está no encanto das estrofes, rimadas no fim do vocábulo anterior, no meio e no final do termo sequente, dotando o poema de uma magia inusitada, porquanto em todas as catorze estâncias do mencionado soneto decassilábico português ocorre essa triplicidade de correspondências sônicas. Sucede, todavia – e aí reside a aparente inconveniência – o fato de a profusão de palavras consoadas impelir o autor à recorrência de expressões pouco conhecidas, porém de registo e bom curso no código camoniano, quase obrigando o consulente a visitar as obras lexicográficas, fato positivo, pois, conforme expresso há pouco, aumenta o aparelhamento vocabular do consultante, conducente a amortecer a suposta desvantagem. 

Decerto, antes de reproduzir Vida de Angústias, sem qualquer intento de desconsiderar as habilidades decodificadoras dos visitantes deste escrito, bem assim do conjunto poético propriamente dito, impende demonstrar o teor da dita peça em língua-prosa, oferecendo as significações de assertos e dicções menos empregados nas manifestações da linguagem comum. 

A sugestão é de que leiam cada texto em prosa e o comparem com as estâncias totalmente encadeadas. 

A personagem inventada pelo autor, em viagem paciente e solitária, como um tolo, vai a um local escondido. Então, ao chegar a esse ambiente, se prende a esse destino (fadário) sob os variados (multifários) sofrimentos de um doente. 

Na sequência, expressa que diminui (mermo; do verbo mermar = reduzo) sua mortalha (sudário) representativa de sofrimento, a consequência primeira do empecilho, do atrapalho (estafermo); ele é dispermo, isto é, com líquidos genitais masculinos alterados, motivo por que não toma partido nem do sexo, conservando o corpo modificado em volume e pressão nas condições de temperatura constante. 

Ele é uma estrela-do-mar, um equinodermo sofrendo (entra aqui uma como licença poética para aplicar a palavra “equinodermo”). Por um instante, ao rir, se vai sua dor. 

No fecho, diz que o riso é um unguento, uma pomada para a dor da alma cansada (lassa, lassada), bem como funciona como uma saída (portada) do lamentável caso; é um medicamento lenitivo (lenimento) para lutar, numa lida tão amargurada.



Vida de Angústias

Em mister paciente e solitário,
Feito um otário, sigo a lugar ermo;
E, neste termo, prendo-me ao fadário
Do multifário sofrer de um enfermo.

Eu mermo (diminuo) o meu sudário,
O corolário primaz do estafermo,
Pois sou dispermo, em sexo apartidário,
Recipiendário de corpo isotermo.

Equinodermo sob sofrimento;
Por um momento, ao rir, se esvai, passada,
Pois transitada a dor de tal tormento.

Esse unguento para a alma lassada
É uma portada ao lamentoso evento,
Um lenimento à lida amargurada.


ARTIGO - O Esquerdismo e a Sombra da Caverna (SQC)

 O esquerdismo e
as sombras da caverna
Sávio Queiroz Costa* 


No Livro VII de A República, Platão descreve homens que vivem acorrentados, desde a infância, no interior de uma caverna. Imobilizados, enxergam apenas uma parede sobre a qual são projetadas sombras produzidas por uma fogueira. Como nunca conheceram outra realidade, tomam aquelas imagens pelo mundo verdadeiro. Para eles, a sombra não é uma representação das coisas: é a própria coisa. 

Um dos prisioneiros, entretanto, consegue libertar-se. Ao voltar-se para a fogueira, percebe que as imagens nas quais sempre acreditara eram apenas projeções. Depois, conduzido para fora da caverna, encontra uma luz que, inicialmente, lhe fere os olhos. A verdade não lhe chega como conforto, mas como desconcerto. É preciso tempo para que consiga distinguir os objetos, contemplar o mundo e, finalmente, olhar para o Sol. 

Quando retorna para libertar os antigos companheiros, é recebido com desconfiança e hostilidade. Seus olhos, desacostumados à escuridão, já não distinguem bem as sombras. Os prisioneiros interpretam isso como prova de que sair da caverna o tornou confuso e perigoso. Preferem a segurança da ilusão conhecida à inquietação de uma verdade que exigiria rever tudo aquilo em que sempre acreditaram. 

A alegoria oferece uma poderosa chave para compreender o esquerdismo, quando ele abandona a condição de pensamento político e assume a forma de uma visão total do mundo.

Nesse ambiente, a ideologia converte-se em caverna. As correntes já não são feitas de ferro, mas de palavras de ordem, categorias rígidas, culpas coletivas e certezas morais. As sombras são narrativas selecionadas e repetidas até adquirirem aparência de verdade incontestável. Os responsáveis pelas projeções podem ser partidos, movimentos, intelectuais, artistas, universidades, meios de comunicação ou burocracias que se atribuem a prerrogativa de decidir quais ideias são legítimas e quais devem ser afastadas do debate.

Tudo passa a ser interpretado segundo o mesmo roteiro. A sociedade divide-se entre opressores e oprimidos; as diferenças individuais desaparecem sob identidades coletivas; o mérito torna-se suspeito; o fracasso é sempre atribuído a estruturas externas; e a discordância deixa de ser um erro intelectual para transformar-se em falta moral. Já não basta demonstrar que o adversário está equivocado: é preciso apresentá-lo como mau, ignorante ou indigno de participar da discussão. 

É nesse ponto que a ideologia começa a substituir a realidade. 

Quando um fato confirma a narrativa, ele é celebrado como evidência definitiva. Quando a contradiz, é relativizado, omitido ou desqualificado. Em vez de permitir que os acontecimentos corrijam a teoria, exige-se que os acontecimentos se curvem a ela. A experiência concreta perde importância diante da explicação previamente estabelecida. Não se investiga para descobrir a verdade; selecionam-se fragmentos do mundo para confirmar aquilo em que já se decidiu acreditar. 

A linguagem exerce papel central nesse processo. As palavras deixam de servir apenas à descrição da realidade e passam a funcionar como instrumentos de controle. Certos termos são proibidos, outros recebem significados inteiramente novos, e conceitos vagos são empregados para encerrar discussões, antes mesmo que elas comecem. Quem domina o vocabulário tenta também delimitar o pensamento, pois aquilo que não pode ser nomeado dificilmente pode ser discutido. 

O policiamento da linguagem produz o policiamento da consciência. 

Surge, então, a figura do dissidente: aquele que ousa virar a cabeça e perceber a fogueira por trás das sombras. Pode ser alguém que pertenceu à própria esquerda, mas começou a questionar suas contradições; um intelectual que se recusou a ajustar os fatos à doutrina; ou simplesmente um cidadão que observou uma distância crescente entre o discurso e a vida real. 

A reação contra ele costuma ser reveladora. Em vez de responder aos seus argumentos, procura-se desabonar sua pessoa. A dúvida é tratada como traição; a independência, como desvio; a ironia, como ofensa intolerável. O indivíduo deve ser rotulado, isolado e, quando possível, silenciado. Assim como os prisioneiros de Platão preferem atacar aquele que regressa à caverna, o militante dogmático frequentemente combate quem ameaça romper o confortável cenário das sombras. 

Há uma razão humana para essa resistência. Abandonar uma ideologia não significa apenas mudar de opinião. Pode significar perder amizades, prestígio, pertencimento e até uma identidade construída durante anos. A caverna oferece segurança: nela, o mundo é simples, os culpados estão previamente identificados e todas as respostas parecem disponíveis. Do lado de fora, porém, existe a complexidade – e a complexidade exige humildade. 

A verdade raramente se apresenta pura, imediata e conveniente. Como a luz do Sol para o prisioneiro recém-libertado, ela pode doer. Obriga-nos a reconhecer erros, abandonar slogans e admitir que pessoas das quais discordamos talvez estejam certas em determinados pontos. Pensar livremente não é trocar um conjunto de certezas por outro, mas aceitar o risco permanente de rever as próprias convicções. 

Por isso, a crítica ao esquerdismo não deve conduzir à construção de uma caverna de sinal contrário. Também a direita, o conservadorismo, o liberalismo, o nacionalismo e a religião podem degenerar em sistemas fechados, incapazes de tolerar perguntas. A alegoria de Platão não concede certificado de lucidez a nenhum grupo político. Ela nos adverte de que todo ser humano pode confundir a parte com o todo, a versão com o fato e a sombra com a realidade. 

A caverna começa quando uma ideia se declara imune ao questionamento. 

Começa quando a fidelidade ao grupo vale mais do que a honestidade intelectual; quando o adversário deixa de ser alguém com quem se debate e passa a ser um inimigo que precisa ser eliminado moralmente; quando a censura recebe nomes virtuosos; e quando a mentira se torna aceitável por estar supostamente a serviço de uma boa causa. 

Combater o esquerdismo dogmático, portanto, não é perseguir pessoas nem negar a legitimidade de toda preocupação social. É recusar a pretensão de que uma doutrina detenha o monopólio da virtude, da compaixão e da verdade. É defender o direito de examinar ideias sem pedir licença, confrontar narrativas com fatos e discordar sem ser condenado ao silêncio. 

Sair da caverna é um exercício permanente. Nenhum de nós conquista definitivamente a luz; todos carregamos preconceitos, interesses e zonas de cegueira. A liberdade intelectual exige vigilância, inclusive contra nossas próprias certezas. 

A luz não pertence à direita nem à esquerda. Pertence à verdade — e a verdade não teme perguntas. 

O esquerdismo transforma-se em caverna quando projeta suas narrativas na parede, chama as sombras de realidade e persegue quem ousa caminhar em direção à luz. Libertar-se é recuperar o direito de olhar para o mundo sem os filtros da ideologia e ter coragem de enxergá-lo como ele é, não como alguém determinou que deveria ser.