MEMÓRIA
Reginaldo Vasconcelos*
Tomei ciência recentemente de que existe em Fortaleza um maestro chamado
Tarcísio José de Lima. Indaguei-me se seria o mesmo “Tarcísio Pintado” que
assim assinava com Ricardo Guilherme a coautoria de uma série de canções, cuja "fita demo" produzimos e levamos ao célebre Frei Memória.



Fomos encontrar o Frei Memória em uma
quermesse, certa noite, na igreja do Mucuripe, e fomos com ele de táxi até a casa
paroquial do Pirambu, bairro praiano paupérrimo de Fortaleza em que o religioso
morava e em que cuidava de bem encaminhar a juventude, viajando ao Rio toda semana para gravar o programa na Tupi.
Refestelado no banco da frente do táxi, o gordo Frei
Memória ia gritando, para quem fosse pelas calçadas, a plenos pulmões, “como a
vida é boa!”, enquanto percutia com a mão na lataria da porta (naquele tempo os
carros não tinham ar condicionado, circulavam sempre de janelas abertas, e os passageiros com um dos braços para
fora).
O Frei fez parar o táxi em frente a uma bodega do seu bairro, onde pediu cervejas e enlatados, e em seguida gritou para o bodegueiro,
entre risadas, enquanto o carro partia: “Que Deus lhe pague, porque eu não
tenho um tostão!”.
Uma vez na casa dele, em torno de uma grande mesa, ele mandou chamar alguns
integrantes da banda de música juvenil que organizara, aos quais nos apresentou dessa
forma desabrida: “Aquele é músico, esse é poeta, e este aqui é picareta”. O
“picareta” era eu, obviamente, que nada tinha a ver com a obra musical que estava
tentando promover.


Frei Memória depois disso ficaria meu amigo, até a sua morte, décadas depois. Ele era filho de rica família cearense, formou-se em Direito no Rio, chegou a advogar por lá, mas depois resolveu fazer voto de pobreza e entrar para o convento. De uma prestigiosa função episcopal em bairro de luxo carioca pediu para vir servir no Pirambu, que se dizia ser o lugar mais miserável do Brasil.

Nesse evento campal sertanejo aconteceram dois patuscos episódios. Primeiramente, na hora da comunhão, uma súbita ventania retirou as hóstias do grande cálice que o frade segurava e as espalhou pelo terreiro da fazenda.
As hóstias foram perseguidas e apanhadas por um
mutirão de convidados matutos, numa algazarra de adultos e meninos, que as devolveram ao receptáculo original, naquele tempo
em que depois de consagradas elas somente poderiam ser tocadas pelo padre
celebrante.
Ao final, um dos noivos, na hora de dizer o “sim” ao
casamento, saiu-se com a gíria enfática e eufórica: “Só se for agora!”.
*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ
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