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sábado, 23 de maio de 2015

CRÔNICA (RV)

MEMÓRIA
Reginaldo Vasconcelos*

Tomei ciência recentemente de que existe em Fortaleza um maestro chamado Tarcísio José de Lima. Indaguei-me se seria o mesmo “Tarcísio Pintado” que assim assinava com Ricardo Guilherme a coautoria de uma série de canções, cuja "fita demo" produzimos e levamos ao célebre Frei Memória.

Frei Kerginaldo Memória, muito gordo e bonachão, sempre de batina marrom, era jurado do Programa Flávio Cavalcante na televisão, e a nossa meta era tentar fazer a fita chegar ao famoso maestro  paulista Érlon Chaves, colega do frade no júri de TV. 

Intrigado, curioso, há alguns dias consultei por e-mail ao Ricardo, meu confrade na ACLJ. Sim, respondeu-me ele, o grande maestro cearense de hoje é aquele jovem violonista do passado.

Corriam os anos 70. O jovem Ricardo Guilherme me apareceu com poemas dele próprio, lindamente musicados por esse Tarcísio, que como ostentava muitas sardas no rosto o seu parceiro musical resolveu chamar  “Pintado” – e ele aceitara o apelido na composição do nome artístico. Gravamos as músicas no meu gravador cassete e as levamos ao bom frade. 

Fomos encontrar o Frei Memória em uma quermesse, certa noite, na igreja do Mucuripe, e fomos com ele de táxi até a casa paroquial do Pirambu, bairro praiano paupérrimo de Fortaleza em que o religioso morava e em que cuidava de bem encaminhar a juventude, viajando ao Rio toda semana para gravar o programa na Tupi.

Refestelado no banco da frente do táxi, o gordo Frei Memória ia gritando, para quem fosse pelas calçadas, a plenos pulmões, “como a vida é boa!”, enquanto percutia com a mão na lataria da porta (naquele tempo os carros não tinham ar condicionado, circulavam sempre de janelas abertas, e os passageiros com um dos braços para fora).

O Frei fez parar o táxi em frente a uma bodega do seu bairro, onde pediu cervejas e enlatados, e em seguida gritou para o bodegueiro, entre risadas, enquanto o carro partia: “Que Deus lhe pague, porque eu não tenho um tostão!”.

Uma vez na casa dele, em torno de uma grande mesa, ele mandou chamar alguns integrantes da banda de música juvenil que organizara, aos quais nos apresentou dessa forma desabrida: “Aquele é músico, esse é poeta, e este aqui é picareta”. O “picareta” era eu, obviamente, que nada tinha a ver com a obra musical que estava tentando promover.

Essa história tem um epílogo dramático. Dizia o Frade que entregou a fita ao maestro Érlon Chaves, da Banda Veneno, grande sucesso da época, para que este estudasse a possibilidade de incluir algumas daquelas músicas em seu repertório, mas o músico faleceria, logo em seguida (novembro de 1974),  talvez antes de a poder apreciar. 

Frei Memória depois disso ficaria meu amigo, até a sua morte, décadas depois. Ele era filho de rica família cearense, formou-se em Direito no Rio, chegou a advogar por lá, mas depois resolveu fazer voto de pobreza e entrar para o convento. De uma prestigiosa função episcopal em bairro de luxo carioca pediu para vir servir no Pirambu, que se dizia ser o lugar mais miserável do Brasil.

Chegou a ir conosco à nossa fazenda certa vez, a nosso pedido, fazer o casamento coletivo dos caboclos. Grande honra para os sertanejos receber o sacramento do frade famoso, que o “vídeo tape” já lançava do Rio de Janeiro para todo o Brasil o programa de televisão de maior audiência semanal, do qual ele era uma atração.

Nesse evento campal sertanejo aconteceram dois patuscos episódios. Primeiramente, na hora da comunhão, uma súbita ventania retirou as hóstias do grande cálice que o frade segurava e as espalhou pelo terreiro da fazenda.

As hóstias foram perseguidas e apanhadas por um mutirão de convidados matutos, numa algazarra de adultos e meninos, que as devolveram ao receptáculo original, naquele tempo em que depois de consagradas elas somente poderiam ser tocadas pelo padre celebrante. 

Ao final, um dos noivos, na hora de dizer o “sim” ao casamento, saiu-se com a gíria enfática e eufórica: “Só se for agora!”.

*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ

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