domingo, 24 de setembro de 2017

CRÔNICA - Eu Ando na Linha (JPG)


EU ANDO NA LINHA
João Pedro Gurgel*


Muitas pessoas devotam seu ódio a quem está preso. Não importa qual crime, quais circunstâncias nem qual contexto. Se está na cadeia, é porque “não presta”, e assim, nenhuma humanidade deve ser oferecida, pois “gente ruim não tem salvação”.

A argumentação de quem é pró-desumanização é forte. Contudo, para os que ainda acreditam no bem da humanidade, há esperança, e, devo falar em minha maior inspiração para uma Justiça Criminal humana, que não vem de um jurista, nem de um cientista, mas sim do músico Johny Cash.

Johny Cash foi um cantor americano, contemporâneo de Elvis Presley, que, como muitos, compunha canções sobre o estilo de vida americano. Sucessos como “I Walk The Line” (Eu ando na linha), que falam sobre uma vida recatada, ir à Igreja, sonhar em pegar na mão da amada, e temas fins.

Contudo, o sucesso de Cash foi tão estrondoso que logo o dinheiro e a fama fizeram com que sua vida estivesse em um contexto diferente daquele das letras de suas músicas. Agora, imperavam o vício das drogas, a promiscuidade, o mundo libertino em torno dele.

Em meio à depressão que acompanhou a derrocada pós-vício, as cartas mais lindas e inspiradoras de fãs vinham de lugares inusitados: das prisões mais sombrias dos EUA. Sim, aqueles homens tinham perdido a esperança em si mesmos. Contudo, eles encontravam na música de Cash o desejo de um dia serem puros, terem uma família, enfim, andar na linha novamente.

Foi então que Cash quis voltar, mas, dessa vez, diferente: iria tocar nos presídios. E assim foi. A contragosto das gravadoras certinhas da época, Cash gravou um CD ao vivo dentro da prisão, trazendo festa, alegria e esperança para centena de pessoas, outrora “condenadas”.

Folsom Prison Blues”, produzido nessa fase, foi o maior álbum de sua carreira, que deixou marcado o legado de um homem que venceu a si mesmo e que, naquele momento, queria ajudar outros a também se superarem.


Não sei o que o futuro me reserva no Direito Penal, que tanto amo. Mas, como jurista, devo admitir que o conhecimento só fará sentindo se um dia tiver um pedaço do coração desse ídolo, falecido em 2003, o inabalável Johny Cash.



SONETO DECASSILÁBICO PORTUGUÊS - Casanova (MC-VM)


CASANOVA
Márcio Catunda (quartetos)*
Vianney Mesquita (tercetos)**


Além da forja vítrea de Vulcano,
Jaz a Chiesa degli Angeli, da freira
Que Casanova impressionou de engano,
Levando-a na sua barca sorrateira.



O sedutor galã veio a Murano,
Não para meditar na sua ribeira;
Entrou veloz, qual bóreas, minuano,
Resgatar do convento a companheira.



Giacomo Girolamo Casanova,
Ao pilhar a (também) sóror inane,
Vileza de caráter só comprova.



Embora dele a escroqueria emane,
Sua universal fama se renova
Em longa com Marcello Mastroianni.











sábado, 23 de setembro de 2017

CRÔNICA - A Manada (HE)

A MANADA
Humberto Ellery*


Em maio do ano passado (2016), o Sr. José Sérgio de Oliveira Machado celebrou uma delação premiada com o Sr. Procurador Geral da República, Rodrigo Janot Monteiro de Barros.

Quando as delações vieram a público verificou-se que  Sérgio, munido de um gravador, e usando de astúcia, induzira os senadores Romero Jucá, Renan Calheiros e o ex-presidente José Sarney a fazerem declarações criticando fortemente a Operação Lava-Jato.



Ficou famosa a fala do Jucá dizendo: “...é preciso estancar essa sangria”. Os três personagens disseram coisas que demonstravam um certo temor de que a operação os alcançasse masalém disso, nada tão comprometedor.

Li com muita atenção toda a degravação da denuncia, e, após muito analisar, cheguei à conclusão de que não havia nas falas dos envolvidos nenhum crime tipificado que merecesse uma denuncia formal.

No dia seguinte encontrei alguns amigos e fiz o seguinte comentário:

Essa delação prova três coisas apenas, e duas eu já sabia: que o Sérgio é desonesto e inescrupuloso confesso; novidade pra mim só mesmo  sua deslealdade, pois, nas falas do Sarney, do Jucá e do Renan não vislumbrei crime algum”.

Foi o que bastou para eu ser xingado de “defensor de bandidos”.

Em nada adiantou eu dizer que não defendia, nem defendo, esses três. O que eu defendo, enfaticamente, é a Lei. Se queremos depurar a atividade política, e retirar da vida pública os bandidos que a infestam, temos que fazê-lo sob o império da Lei. Ou nós lutamos para viver sob a força do Direito ou seremos subjugados pelo direito da Força.

Um ano depois a Polícia Federal concluiu que não havia nenhum crime tipificado contra o Sarney, o Jucá e o Renan, conforme eu dissera. Nenhum dos que me chamaram de “defensor de bandidos” veio a mim se desculpar, nem eu quero isso.

Mas o arrogante Janot, antes de pedir o arquivamento da denuncia, do alto de sua empáfia, afirmou: “Os crimes só não foram cometidos porque eu denunciei antes”. Em sua cabeça perturbada ele criou mais uma ferramenta de combate ao crime: a “Delação Preventiva”. Palmas, que ele merece!

Antes de encerrar, um breve parêntese: Embora eu aceite como válido o instituto da “Colaboração Premiada”, não consigo ter simpatia pelos “dedos-duros”, mesmo porque são todos criminosos, por definição.

Agora alguns amigos queridos me avisam que vou acabar “queimando o meu filme”, por defender o Presidente Temer. Vou repetir mais uma vez: minha preocupação é com a Constituição, com o Direito, com a presunção de inocência, até que se prove a culpa.  

Nunca afirmei que o Temer é inocente, pois estaria incorrendo no mesmo erro que combato, dos que o dizem culpado sem uma investigação que conclua pela culpa (ou inocência).

O mais próximo disso a que cheguei foi dizer que, por sua esplêndida condução na recuperação econômica do País, e sua coragem em lutar por reformas tão indispensáveis quanto impopulares, ele tem comigo um crédito de confiança. Um político desonesto não assumiria o formidável desgaste decorrente de uma política austera, voltada para o bem das gerações futuras.

Vou repetir de novo (vou acabar tendo que desenhar): se amanhã o Ministério Público provar que o Temer é corrupto, mudarei de opinião. Tranquilamente.

Mas enquanto existirem contra Temer apenas delações e ilações, que não provam absolutamente nada, como admitiu seguidas vezes o próprio Janot, prefiro acreditar num político que, até “dar um golpe” no PT, jamais teve qualquer denúncia contra si.

Até lá, não darei crédito a bandidos mentirosos  como os brothers Batistas (com Nota Oficial assumindo seu desapreço pela verdade), ou como esse tal Lúcio Funaro, que, mesmo nunca tendo visto o Temer de perto, diz que “tem certeza quase absoluta de que ouviu falarem que não sei quem me disse que, não sei onde, alguém contou que parece estar cada vez mais convencido de que é verdade”. É a nova “delação terceirizada” (royalties para o jornalista Carlos Andreazza).

A parte da imprensa que está engajada no “Projeto Fora Temer”, utilizando a máquina petista de assassinar reputações,  já arranjou até uma profissão para o picareta do Funaro: “Operador Financeiro”.

Por último: Não vou seguir “cientistas políticos”, “especialistas”, colunistas ou comentaristas, principalmente da Globo News. Sigo a minha cabeça, a minha capacidade de discernimento e até a minha intuição. Sou infenso a seguir manadas.

Como no Cântico Negro do José Régio: “Não sei por onde vou /  Não sei para onde vou / Sei que não vou por aí!










COMENTÁRIO:

O ínclito, lúcido, e – por que não dizer? – o sábio confrade Humberto Ellery, meu estimado contraparente, é um aguerrido defensor de suas ideias e de suas próprias conclusões, o que, por todos os títulos, é edificante e admirável.

Todavia, a chamada “verdade real”, que é o grande objetivo do persecutio criminis, tem os mesmos atributos fugidios e miméticos do lagarto estelião: hora parece estar aqui, hora parece estar acolá; hora parece ser assim, hora parece ser assado.  

Então, a Polícia e o Ministério Público, que mourejam no procedimento criminal que a mídia escrutina, vão apanhando tudo que semelhe ser o réptil procurado. Na fase processual é que a verdadeira coloração da sua pele é enfim identificada.

Sim. Os investigadores não têm que ser imparciais. Eles apresentam no inquérito e na denúncia uma verdade horizontal, um quadro fático em duas dimensões, sem o necessário contraditório, cabendo ao Judiciário verticalizar, aprofundar, tridimensionalizar a verdade, para absolver ou condenar.

No caso, segundo Ellery, Michel Temer – tradicional aliado petista, líder de um grupo político muito suspeito, compositor de um Ministério com vários réus-presos, com o principal assessor pilhado em circunstância indefensável  seria ele o que se poderia chamar de um “corrupto Denorex”: tem cara da corrupto, tem cheiro de corrupto, vive cercado de corruptos, entretanto é honesto como a mulher de César, porque, realmente, até aqui, não há contra ele uma só prova cabal.

Eu sou advogado, com experiência no processo-crime e longa militância no Tribunal do Júri, e sei que diante de uma acusação não há neutralidade: ou a pessoa adota a tese incriminadora, ou assume os argumentos da defesa. Ou acredita no advogado, ou aceita a verdade da promotoria.

Assim, enquanto o camaleão da verdade real ainda não revelou exatamente onde está, nem a sua real pele mosqueada, o critério do observador é aleatório ou afetivo.

Para mim, Temer está na posição bíblica do inditoso Bom Ladrão. Embora ladrão e crucificado, suando e sangrando, está apoiando a boa causa cristã e não merece descer ao inferno – até porque, se o fizer agora, o Brasil vai afundar nas trevas. A política econômica está certa, estamos superando a crise, as reformas estão em curso, devemos esperar as eleições.  

Resultado da equação: A manada, ressentida e irrefletida, brada “Fora Temer!”; eu o culpo, mas, racionalmente, digo “Fica Temer”; Ellery o prefere desculpar e absolver.

Reginaldo Vasconcelos
          


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

NOTA JORNALÍSTICA - Centenário do Dr. Carlos Studart


CENTENÁRIO
DO
DR. CARLOS STUDART


A família Studart prestou hoje (22.09.2017) uma comovente homenagem póstuma ao médico Carlos Alberto Studart Gomes, comemorando o centenário de seu nascimento.



A solenidade vespertina teve lugar no belo anfiteatro campal dominado por um grande busto fundido em bronze do Dr. Carlos Studart, localizado no bosque de eucaliptos do hospital que tem o nome do homenageado, o antigo Sanatório de Messejana.



Aquele hospital foi dirigido pelo Dr. Carlos desde o início da década de 60, que lá residia com a família, por muitos anos, transformando aquele velho nosocômio, então destinado a tratar tuberculosos, em uma casa de saúde moderna e bem equipada, com leitos de pneumologia e de cardiologia.
  
O Governador Lúcio Alcântara, que também é médico, no apagar das luzes de sua  gestão, entre seus últimos atos, determinou que o Sanatório de Messejana passasse a se denominar oficialmente Hospital Dr. Carlos Alberto Studart Gomes, em reconhecimento do valoroso trabalho realizado por ele naquela unidade estadual de saúde. 

A cerimônia, singela e elegante, organizada para um público selecionado de parentes, profissionais de saúde e amigos da família, foi aberta com o discurso do Dr. Frederico Augusto Lima e Silva, atual Diretor-Geral do hospital.



Falaram em seguida o empresário Beto Studart, primogênito do Dr. Carlos, e o cardiologista Flávio Studart, o filho caçula, o qual comoveu a todos relatando o falecimento de seu pai, que ele assistiu até o fim.


Falaram também o Secretário de Saúde do Estado do Ceará, Henrique Javi, e o pneumologista Gilmário Teixeira, de 97 anos de idade, contemporâneo do Dr. Carlos Studart na administração do antigo Sanatório de Messejana. Na sequência, a família Studart e a Diretoria do Hospital agraciaram colaboradores da casa com a entrega de uma placa.

Beto Studart, atual Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará,  é Membro Benemérito da ACLJ, que lhe concedeu o título de Homem do Ano em 2016,  enquanto o seu saudoso pai, o Dr. Carlos Studart, está entre os Patronos Perpétuos da ACLJ, que estava representada na solenidade pelo advogado e jornalista Reginaldo Vasconcelos e pelo engenheiro Humberto Ellery. 

Acesse o link abaixo para assistir ao discurso de Beto Studart  


CRÔNICA - Karla, Dita e Meirinha com Fátima Bernardes (RV0


KARLA, DITA E MEIRINHA
COM FÁTIMA BERNARDES
Reginaldo Vasconcelos*



A confreira Karla Karenina participou da edição desta quinta-feira (22.09.17) do programa Encontro Com Fátima Bernardes, em que se criticou a decisão judicial que reconheceu aos psicólogos o direito de tratar o sofrimento psíquico de homossexuais.

No programa, o circo estava montado para praticar uma condenação, não um julgamento. As bruxas já estavam julgadas e a fogueira da inquisição estava ardendo. 

Não havia espaço para que um convidado pudesse fazer qualquer contraponto – embora uma psicóloga presente o tenha feito – ainda que discretamente.  

Ora, homossexuais têm todo o direito de procurar tratamento médico para as suas angústias íntimas, assim como os psicólogos não podem ser obrigados a negar atenção profissional aos homossexuais que os procurem, até porque eles incorreriam em omissão de socorro.

Estranhamente, em nome de uma tal “ideologia de  gênero”, os adeptos do politicamente correto, que deveriam defender as liberdades civis, sob o dístico “é proibido proibir”, querem interferir no direito alheio de recorrer à ciência médica, e de praticar a ciência médica.

Quem for homossexual e se sinta feliz, que o seja, mas não queira defender que somente nessa condição sexual resida a felicidade plena. 

É preciso entender que pode haver homossexuais infelizes, portanto doentes, do ponto de vista psicológico. É preciso considerar que, até para melhor se aceitar como tal, um homossexual pode desejar ser ouvido e tratado por um especialista na matéria.

Foi assim que entendeu o Juiz Federal Waldemar Cláudio de Carvalho, que concedeu a liminar, sem denunciar nenhum grau de discriminação e preconceito, e sem temer as patrulhas fascistóides entrincheiradas na internet, que a grande mídia repercute.

Mas a participação de Karla Karenina no programa era principalmente para falar de sua personagem na novela A Força do Querer, atualmente no ar pela Rede Globo, em que ela vive a Dita, fiel escudeira de uma dondoca, adicta do jogo de azar, mas que não admite o vício.


Na entrevista, Karla deu uma canja de sua personagem Meirinha, que ela encarnava na Escolinha do Professor Raimundo, do saudoso Chico Anysio. A nossa KK é sempre brilhante.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

CRÔNICA - Os Quadro Dês (HE)


OS QUATRO DÊS
Humberto Ellery*


A posse ontem da Procuradora-Geral da República, Dra. Raquel Dodge foi plena de sinais positivos. Se palavras podem significar alguma coisa, seu discurso de posse foi irretocável. Depois dos desmandos e atropelos às Leis perpetrados por seu antecessor, foi com alívio ouvi-la dizer que “os valores que defenderemos e que definirão nossas ações estão na Constituição (...) o respeito à Lei e às instituições, observância do devido processo legal e responsabilidade. São os atributos da Cidadania”.

A não citação da Operação Lava-Jato foi emblemática, significa dizer que ela percebe um Ministério Público muito maior que uma operação de combate à corrupção, por importante que seja. Sua atuação por certo vai mostrar ao País a verdadeira dimensão do MP, que tem sido relegado a um “samba de uma nota só”.

Os que a conhecem dizem ser a Dra. Raquel uma pessoa Dura nas suas exigências, Destemida na persecução aos criminosos, Determinada em seus objetivos, e, por ser uma pessoa polida, educada, é muito Delicada no trato com as pessoas. São quatro dês, que combinam bem com seu sobrenome Dodge.

Já o Sr. Rodrigo Janot não tem atributos que eu admire. A começar por sua intolerável arrogância, sua postura de quem está rempli de soi-même, seu linguajar debochado, incompatível com uma autoridade que deveria estar, isso sim, num jardim de infância brincando de índio com seus bambus e suas flechas. 

Seu descompromisso com valores da nossa Constituição, como a presunção de inocência, o devido processo legal, o contraditório, a ampla defesa. Sua total irresponsabilidade com o sigilo judiciário, promovendo vazamentos seletivos com objetivos espúrios. Seu descaso para com uma investigação criteriosa a partir das delações (pois para isso é que existem), elevando delações e ilações ao patamar de provas. Sua desfaçatez em mover um Processo contra o Presidente da República e depois admitir cinicamente que não tem provas.

Além dessa imagem pública, fátua, para mim totalmente negativa, pesam contra ele episódios mal explicados, como o diálogo do Ex-Presidente Lula com o Advogado Sigmaringa Seixas, quando o boquirroto, naquele seu típico linguajar de mictório de cabaré, referindo-se ao então Procurador-Geral afirma que “...esse cara, se fosse formal, não seria Procurador-Geral, teria tomado cajú, teria ficado em terceiro lugar”, numa claríssima confissão de que houve fraude na eleição entre os procuradores que o alçaram ao posto que ele não soube honrar.

Seu açodamento em vazar para o Lauro Jardim, da Rede Globo, noticia da delação do Joesley, afirmando conter “coisas gravíssimas” contra o presidente Temer (que depois se mostraram completamente ineptas), justamente no dia 17 de maio, quando todos sabíamos que estava marcado para o dia seguinte, o dia 18, a primeira votação da inadiável Reforma da Previdência, que por conta do escândalo fabricado foi cancelada, e até hoje estamos aguardando que o Congresso dê esse passo importantíssimo para o deslanchar da economia do País.

Se vocês se deram ao trabalho de ler sua denuncia contra o PT, viram com certeza esta pérola de redação, assassinando a “inculta e bela”: “...entre os anos 2002 e 2016 integraram e estruturaram uma Organização Criminosa com atuação durante o período em que Lula e Dilma sucessivamente titularizaram a Presidência da República, para cometimento de uma miríade de delitos, em especial contra a Administração pública em geral”.

O “ilustre Procurador certamente queria dizer exerceram a titularidade da Presidência da República, mas, para demonstrar uma erudição que não tem, numa ousadia que só os ignorantes possuem, inventou o verbo titularizar, que não existe no vernáculo.

Em suma, o Sr. Janot, pelos fatos expostos, também pode ser definido através de quatro dês: Despreparado, Debochado, Deletério e Desonesto.



terça-feira, 19 de setembro de 2017

PREFÁCIO - Estudos Qualitativos (VM)


ESTUDOS QUALITATIVOS
(Para a Área da Saúde - Livro no Prelo)
Vianney Mesquita*


Ó saúde, saúde! Bênção dos ricos! Riqueza dos pobres! Quem pode comprar-te por preço demasiadamente caro, se sem ti não há prazer neste mundo? (Benjamin Jonson, dramaturgo inglês).


Depreendemos ser de domínio do saber geral, porém não é nocivo relembrar, o fato de que, antes de instituído o SUS no Brasil, pela Lei número 8080, de 19 de setembro de 1990, o cuidado público em relação à saúde no País era atrasado, inteiramente obsoleto e quase exclusivamente empresarial.

Conforme a letra rica da História, excetuam-se, por exemplo, os atendimentos procedidos pelas Santas Casas de Misericórdia e outras instituições de caridade, quase sempre vinculadas a confissões religiosas, ao modo como se verificou com a saúde pública desde os começos da civilização em todo o Mundo, especialmente para as pessoas desprotegidas de recursos financeiros, mulheres, crianças, portadores de doenças mentais e outros pouco ou não favorecidos pela sorte.




De tal maneira, no Brasil, a “atenção à saúde” era, por assim dizer, inexistente, e só funcionava para aquelas pessoas com relação de emprego e carteira de trabalho assinada. Os hospitais, na sua maioria, eram particulares e mantinham vínculo comercial com o Poder Público, provavelmente, em pactos vantajosos para os primeiros, por intermédio dos então institutos de aposentadoria e pensão, muito depois substituídos pelo INSS – Instituto Nacional do Seguro Social, instituído somente após a Nova Constituição, em 27 de junho de 1990, o qual tomara, bem antes, outros nomes e atribuições.

Sucedeu que, afortunadamente – embora em ocorrência bem tardia – foi promulgada a Constituição de 1988, marcante evento histórico a situar nossa Nação na lista de Estados democráticos e em desenvolvimento, modificando diametralmente, e para melhor, o status quo do País no concerto internacional e, muito particularmente, no âmbito dos seus limites internos, fato representativo da inauguração da segunda fase da nossa história, assinalada, pois, pela Carta Magna, há 29 anos em vigor.

De tal sorte, como saudável consequência deste sucesso sem igual para o enredo autêntico do Brasil, aconteceu, também, a criação do Sistema Único de Saúde – SUS, o qual, diferentemente das circunstâncias mencionadas há pouco, na conjunção das quatro unidades federadas – União, Estados, Distrito Federal e Municípios – trabalha a atenção global, universalizando-a desde o atendimento ambulatorial ao transplante de órgãos. O SUS opera obediente às diretrizes do Art. 198-CF, conformado a ampla legislação complementar e a inúmeros outros instrumentos normativos e – não demora lembrar – sob a medida das ideias de descentralização, atendimento integral e participação comunitária.

No mesmo rastro do atraso secular há instantes manifesto, evidentemente, inexistiam estudos mais espessos em configuração e teor, em especial, como os experimentos defendidos neste livro. Tal sucedia porque as universidades e institutos de estudos formais e investigação científica no plano da Saúde, pelo fato de pesquisarem muito pouco (expressamo-nos em termos de Brasil), não se atinham à necessidade de investigar, por exemplo, assuntos como os que configuram a coletânea de que ora cuidamos.

Realmente, em sua maior parte, os motivos demandados eram matérias substantivas das Ciências da Saúde, como, no terreno da Patologia, o estudo das doenças no contexto dos vários sub-ramos e ofícios funcionais dessa conjunção de conhecimentos ordenados, relações dos profissionais com pacientes e tantos outros temas desse repertório, estudados com maior profundez desde Hipócrates e Paracelso, sem pesquisar, certamente por descabido, a respeito de temáticas vinculadas à apropriação de métodos e técnicas de busca sob os pressupostos da Metodologia Científica, conforme os capítulos enfeixados nesta publicação, estudos absolutamente necessários na contextura atual de pesquisa.

No decurso desse tempo, principalmente após a comentada instituição do SUS, consequência direta da Constituição Cidadã, cresceu em proporções a produção de trabalhos acadêmicos no recinto das diversificadas taxionomias das Ciências da Saúde, considerando-se as ligações estreitas com outros ramos do disciplinamento científico, conforme acontece de ser com os estudos qualitativos, envolvendo teorias e meios de coletar informações para servir à causa adjetiva da percepção e propagação, por via do trabalho intelectual, de descobertas resultantes das investigações.

Muito nos contenta, pois, vir a público para certificar a qualidade e já atestar a certeza do alcance editorial de uma obra da dimensão desta, que o público especializado brasileiro, leitor e produtor na seara de estudos em Ciências da Saúde, tem a oportunidade de deparar e, após seu exame, contribuir com os acrescentamentos naturais em pesquisas que houver por bem realizar, em favor da evolução dos pensamentos aqui esboçados.

Decerto, pelo que este livro traz no concernente a entendimentos novos e bem meditados no que respeita ao modus operandi de produzir conhecimento no terreno da progressiva criação do saber ligado à Saúde no Brasil, vai o leitor-estudioso incorporar às suas produções os conceitos recém-alcançados e aqui reunidos, fazendo aportar ao repertório científico da área as compreensões mais recentes, transitadas pelo crivo da Metodologia própria deste largo ramo da literatura ordenada e atestadas pela exigente autoridade da Epistemologia.

Estudos Qualitativos  Enfoques Teóricos e Técnicas de Coleta de Informações  é um conjunto de dezoito capítulos, organizado pela Prof.a Dr.a Raimunda Magalhães da Silva e cols., abrigando ensaios de elevado valor informacional, da lavra de nada menos do que 61 autores nacionais e do Exterior (Espanha e Portugal), em sua maioria, vinculados ao ofício acadêmico, particularmente da seara do magistério superior e em programas de pós-graduação stricto sensu.




Todos os textos, sob providências editoriais das Edições UVA, de Sobral-CE, provêm de análises procedidas na contextura de instituições universitárias em atividades de pós-láurea, também de estreito sentido, de modo a nos alimentar a convicção de que esta seleta experimentará excelente recepção por parte dos consulentes afins ao seu sortimento em todos os quadrantes por onde circular.


CRÔNICA - Rachel Vive (RV)


RACHEL VIVE
Reginaldo Vasconcelos*


Escrevi uma crônica há algum tempo, tratando da tristeza “crônica” que nossa imensa Rachel de Queiroz sempre acusou. Viva, personagem histórica, passado glorioso, reconhecimento público absoluto, mas, não obstante tudo isso, sempre a dizer que morrer tanto faz, que não se incomodava se morresse.

Dentre outras tantas expressões de modéstia e desapego, Rachel fez pouco do seu romance de estréia, O Quinze, que de tão parco volume, não teria competência para ficar “em pé” sobre uma mesa. Seria para ela apenas um livrinho que escreveu e que a “persegue” desde então.

Elvis morreu, morreu Hitler lá pela Europa, Lampião aqui pelo sertão – talvez não exatamente quando e como se acredita. Inobstante tenha sempre havido alguma discórdia sobre isso, morreram sim. Consta que Jesus ressuscitou e subiu aos céus, mas morreu na Cruz; quanto a isso não há dúvida alguma.

Agora me dizem que morreu Rachel de Queiroz. Não sei. Não vi. Não quero acreditar. Ficarei como os suspicazes inimigos de Hitler, como os inconformados fãs de Elvis Presley, como os crentes que confirmam as escrituras, em que Jesus, embora morto, enviveceu. Para reforçar minha dúvida, vou percorrer os cemitérios cearenses, em Fortaleza, no Quixadá, onde certamente haveria alguma lápide com seu nome, fosse verídica a informação.  

E para desafiar a minha crença, vou ao Junco, à Não Me Deixes, verificar se Rachel não estaria por lá homiziada, fugindo da celebridade que sempre a incomodou. Perguntarei aos caboclos se não a terão visto nestes dias; observarei se ela não terá colhido flores, esta semana, nos canteiros da fazenda; examinarei se as cinzas do seu fogão a lenha não estariam ainda fumegantes. E ficarei muito aborrecido com ela se todas as evidências de que esteja viva se frustrarem.

Disseram que acordou na madrugada, chamou pela mãe e pelo pai, em doce delírio, e que de manhã havia seguido com eles. Se foi assim, bem-aventurada partida, “chave de ouro” para uma vida de venturas. De todo modo, não era esse o combinado: nós a queríamos imortal. Sempre rebelde, ela teria decidido que, mesmo imortal, não era imorrível. Não sei. Eu prefiro a dúvida.

Em 05.11.2003







NOTA DO EDITOR

A crônica acima foi escrita no dia seguinte à morte de Rachel de Queiroz, e foi publicada no livro O Passado Não Passa, do mesmo autor, em 2005.

Constituindo-se em um protesto irônico contra o sepultamento de Rachel de Queiroz no Rio de Janeiro, a oportunidade de sua republicação aqui no Blog se prende aos esforços atuais pelo traslado dos restos mortais do jurista cearense Clóvis Beviláqua e de sua mulher, a poetisa piauiense Amélia Carolina de Freitas Beviláqua, da antiga Capital da República, onde também repousam até hoje, para a cidade de Viçosa do Ceará, da qual ele é natural.

A campanha é encetada pela Academia de Direito de Sobral, de que o grande jurista é patrono, encampada pela Prefeitura de Viçosa, com o apoio de toda a comunidade local, contando ainda com a colaboração da família Miranda, a que pertence a nossa confreira Inês Mapurunga, e com o assentimento da família Beviláqua, hoje radicada no Rio de Janeiro, mas que considera importante preservar hígidas as suas raízes cearenses.

O Colégio de Presidentes das Entidades Culturais do Ceará (COPENCE), que tem como titular o Ministro Ubiratan Aguiar, atual bastonário da veneranda Academia Cearense de Letras, está sendo instado a apoiar essa campanha, que visa trazer para o Ceará os despojos do pai do Código Civil Brasileiro e de sua mulher, que jazerão para sempre no plinto da estátua de Clóvis Beviláqua, na praça homônima em Viçosa. Quem sabe, um dia traremos também Rachel de Queiroz para Fortaleza.