sexta-feira, 21 de setembro de 2018

NOTA ACADÊMICA - Bicentenário do Senador Pompeu (AG)


ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS 
SESSÃO ESPECIAL
BICENTENÁRIO DO SENADOR POMPEU
 Angela Gutiérrez*


A Academia Cearense de Letras dará continuidade às comemorações  do Bicentenário de Nascimento de Thomaz Pompeu de Souza Brasil, Senador Pompeu (1818 – 2018), iniciadas em agosto deste ano, em sessão especial, no Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico). 

No dia 26 de setembro próximo, quarta-feira, às 10 horas da manhã, no Palácio da Luz, será realizada mesa-redonda, intitulada “Thomaz Pompeu e a questão ambiental no Século XIX”, coordenada pela Profa. Dra. Kênia Rios,  do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UFC.


Como sabemos, Thomaz Pompeu tem seu nome gravado na História como um dos parlamentares mais importantes no Senado do Império. 

Foi um dos intelectuais mais respeitados no Brasil do Século XIX, atuando como professor, pesquisador, autor de obras de grande relevância para a Ciência e a Cultura no Ceará e no País.


Esperando contar com a presença dos colegas nesse evento da ACL, despeço-me com saudações cordiais, 

Acadêmica Angela Gutiérrez, Vice-Presidente da ACL.


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

RESENHA - Programa Da Hora (20.09.18)

PROGRAMA “DA HORA”
APRESENTADOR
ALFREDO MARQUES
TV UNIÃO
 20.09.18

O Programa Da Hora – que vai ao ar, ao vivo, de segunda a sexta-feira, às 12:30h, com reprise às 18:30h, pela TV União (Canal 17.1 na TV aberta e 521 na Multiplay) – na edição desta quinta-feira (20.09) teve a participação do seu apresentador titular Alfredo Marques, e dos também advogados Roberto Pires, Djalma Pinto e Reginaldo Vasconcelos, presidente da ACLJ. Na edição ao vivo, antecipado para as 12:00h, durante o período da propaganda eleitoral.


Alfredo Marques abriu o programa comentando colocações feitas por Ciro Gomes, candidato à Presidência da República, no sentido de que facções criminosas teriam interlocução com o Governo do Ceará, desde 2016, negociando uma redução dos assassinatos no Estado, em troca de menor perseguição policial contra o tráfico de drogas. 

Reginaldo Vasconcelos e Djalma Pinto opinaram sobre o absurdo dessa realidade que o Ciro Gomes escancara, pois pactos entre os Poderes Constituídos e o crime organizado é a demonstração cabal da absoluta falência da República. 

Isso talvez explique a razão pela qual não se instalam bloqueadores de celular eficientes nos presídios, de modo a permitir de "barões do narcotráfico" continuem comandando os negócio ilícitos de  dentro das cadeias.

Roberto Pires colocou então na mesa a notícia de que a Secretaria da Justiça cearense resolver permitir que mulheres, amantes e namoradas de presos, enfim, as mulheres que os presos indicarem, poderão doravante pernoitar no presídio nos fins de semana, para um longo momento de intimidades sexuais dentro dos muros das penitenciárias.

Djalma Pinto reputou essa medida como absurda, e considerou que muito provavelmente essa concessão especial pode estar entre as cláusulas dos acordos a que Ciro Gomes se refere, celebrados entre autoridades e bandidos. 

Tratou-se em seguida da liberação do nome do político carioca Anthony Garotinho para concorrer ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, por parte do Tribunal Superior Eleitoral, embora seja ele tido e havido como Ficha-Suja, e ter tido a candidatura vetada pelo Tribunal Regional Eleitoral.  

Consultado a respeito pelo apresentador Alfredo Marques, Djalma e Reginaldo frisaram que advogados não se sentem confortáveis em falar sobre processo judicial de que não conheçam os autos. 

Não se sabe que argumentos foram manejados pelos advogados de Garotinho, tampouco qual a motivação e que fundamentação que respaldou a decisão do TSE. Todavia, ambos estranham que uma pessoa notoriamente envolvida em escândalos, com episódios de prisão, e com sentenças condenatórias contra si, possam participar do pleito eleitoral.

Por fim discutiu-se a questão do "voto útil", fenômeno em que os eleitores, ao final da campanha, façam convergir o seu voto para o candidato mais bem cotado nas pesquisas, abandonando aquele em que originalmente iria votar. 


Reginaldo Vasconcelos comentou o vezo do eleitorado brasileiro de confundir campanha eleitoral com campeonato de futebol, em que ninguém quer figurar na condição de perdedor  – quando a pessoa deve votar naquele que considera o melhor, independentemente de que seja ele detentor de uma maior intenção de votos nas consultar populares.

Djalma pinto encerrou o tema se reportando ao efeito nefasto de tais pesquisas, que antes não poderiam ser divulgadas em datas próximas às eleições, e hoje podem, de modo a influenciar o eleitorado e induzir o voto.  

ARTIGO - Continuidade nas Mudanças (RMR)


CONTINUIDADE
NAS MUDANÇAS
Rui Martinho Rodrigues*


A vida cultural brasileira é marcada pela continuidade nas mudanças. Estas circunscrevem-se mais ao campo das aparências. Os jesuítas lançaram as bases da nossa educação. O Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho, 1699 – 1782) os expulsou, em 1759. A semente plantada pelos seguidores de Inácio de Loyola permaneceu após a expulsão. Todos eram ex-alunos deles. A bibliografia estudada era produzida ou aprovada e indicada pelos mestres que haviam partido.

A educação jesuítica era a expressão da contra-reforma. Tinha raízes no concílio de Trento (1545 – 1563), seus valores e concepções eram baseadas em dogmas. Tinha espírito missionário, messiânico. Sendo uma ordem fundada por um soldado, tinha um forte espírito guerreiro. Guerreava os dissidentes, hereges identificados com as reformas do século XVI; proponha-se a catequizar bárbaros pagãos. Caso estes resistissem, passavam a ser categorizados como hereges, e, como tal, perseguidos. A fogueira era o destino dos representantes do mal. A ordem, encarnação do bem, tinha legitimidade para imolar recalcitrantes.

Disciplinados, os jesuítas não se envolviam com as práticas mundanas do clero secular, ou não se tem registro disso. Sentiam-se puros e superiores. Mas a palavra jesuíta foi dicionarizada como “...membro da Companhia de Jesus, (...) aquele que é dado a intrigas; dissimulado, hipócrita, (...)” (dicionário do Antônio Houaiss).

A presunção de superioridade, própria de quem se acha na posse da verdade, lutando contra o mal e por um mundo melhor, não imuniza contra algumas práticas reprováveis. Expulsos os jesuítas, a nossa educação continuou confessional, dogmática e catequética. As mudanças introduzidas por outras ordens não foram uma ruptura, embora tenham relaxado a disciplina, escancarando o mundanismo.

A influência do iluminismo tardio chegou no Século XIX. A influência francófona na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, em São Paulo, e na Escola Militar, no Rio de Janeiro. Os germanófilos inicialmente dominaram na Faculdade de Direito do Recife, sob a influência de Tobias Barreto (1839 – 1889).

Ambas as tendências, uma positivista, a outra predominantemente culturalista, romperam com a orientação escolástica, que por sua vez representava uma derivação da patrística. Chegou então o iluminismo tardio, com o cientificismo dogmático, a presunção de encarnar o progresso entendido como um mundo melhor e assim continuava catequético.

Principalmente o positivismo, vendo no desenvolvimento cognitivo o motor do progresso e na ignorância o atraso, pretendia impor a evolução histórica sem ouvir os ignorantes (hoje se diz alienados), agindo em nome da verdadeira consciência, conscientizando como a velha catequese dos jesuítas. O ódio entre positivistas e católicos não impediu a manutenção do espírito do jesuitismo no positivismo que se julgava tão diferente.

A conversão da intelectualidade ao positivismo foi súbita e massiva. O complexo de vira-lata, de que falava Nelson Rodrigues (1912 – 1980), deixa os nossos intelectuais esperando novidades vindas da Europa, às quais se rendem acriticamente. Todos eram escolásticos, mas tornaram-se positivistas num abrir e fechar de olhos.

Depois veio o materialismo histórico, dizendo-se antípoda do positivismo, com quem guerreava. Mas ambos eram dogmáticos, não em nome da Igreja, mas de ideias cientificistas e historicistas; lutavam pelo que entendiam ser progresso, ou um mundo melhor contra o que julgavam atraso. Houve o tempo dos hereges e pagãos. O positivismo os substituiu por ignorantes e obscurantistas. 


O materialismo histórico trocou os nomes por "alienados" e "reacionários". A aparência mudou, a narrativa também, mas a essência nem tanto. A salvação da alma, a ilustração e a luta de classes se substituíram na aparência. Uns eram missionários, outros agentes do progresso, outros, ainda, revolucionários, sob diversos entendimentos do que seja isso.

Ainda temos mais do mesmo. A intolerância, o desespero diante da alternância de poder, a demonização do outro, a autoimagem angelical de quem sente "ira santa" e percebe o sentimento do outro como ódio satânico, tudo isso vem de uma longa tradição histórica. A conversão ao materialismo histórico também foi súbita e massiva. 

Houve quem explicasse o comportamento camaleônico como decorrente da indigência teórica dos nossos intelectuais, que não sabem resistir ao proselitismo importado da Europa. O fenômeno, porém, envolve muito mais fatores.



terça-feira, 18 de setembro de 2018

SONETOS DECASSILÁBICOS PORTUGUESES - Hölderlin (MC e VM)



Hölderlin
Márcio Catunda*

Hölderlin, em delírio, concebia
Os Alpes prateados como altares,
Tanto se dedicou à poesia,
Que fez dos deuses seus sublimes pares.

Com paixão férvida e neurastenia,
Sentiu a Grécia em todos os lugares.
Foi oráculo da mitomania.
Para Diotina fez os seus cantares.

De Empédocles veio todo o empenho
Começado na vida anterior.
Foi apenas um doido preceptor,

Conquanto demonstrasse o desempenho
De um mago celestial superior
Das benesses de Deus merecedor.




Hölderlin Catunda
 Vianney Mesquita**

Vê-se inopino em Márcio Catunda
Insuflação deífica, sedutora.
Metros de um bardo, medida fecunda,
De paz, à vida amarga concessora.

Em versificação alentadora,
Súbito alteiam a alma moribunda
Versos volantes, voz preceptora,
De rejeição à derrota rotunda.

De vez em quando supera Bilac,
E excede o percuciente Condillac,
A fim de agasalhar a glória fida.

Em fé cristã já se achegou a Isaac,
Fez bom liame com Honoré Balzac
E é dos melhores Hölderlins da vida!




TEXTO CIENTÍFICO - Ensaio de Editoração (GJ)



Hypnerotomachia Poliphil
Livro para ser lido com os olhos da mente
Geraldo Jesuino da Costa*


Escrever é humano; editar é divino.

A afirmação de Stephen King, no terceiro prefácio do seu Sobre a escrita: arte em memórias, mesmo transparecendo certo exagero, harmoniza-se como ponto de partida para este pequeno comentário acerca de algumas particularidades d’O Sonho de Polifilo. (CONTINUA)

ACIONE O LINK ABAIXO PARA ACESSAR A ÍNTEGRA DO TEXTO




ARTIGO - Macunaíma Puritano (RMR)


MACUNAÍMA PURITANO
Rui Martinho Rodrigues*



Arnold Joseph Toynbee (1889 – 1975) descrevia a dinâmica das civilizações como cíclica. O pêndulo da nossa experiência histórica se move muito rápido.

Macunaíma era hedonista e amoral, antes da sociedade pós-moralista, de Giles Lipovetscky (1944, 72 anos). Transitamos da permissividade do herói sem caráter, de Mário de Andrade (1893 – 1945), ao puritanismo, completando um ciclo histórico de uma eleição para outra.

Assim, pedimos votos para uma candidata “porque ela é mulher, e mulher vota em mulher”. Quatro anos depois, uma candidata já não merece apoio por isso. Desde Vargas (1882 – 1954) até Palocci (1960, 57 anos), passando por Kubitschek (1902 – 1976) e FHC (1931, 87 anos), grande número de políticos, dos mais diversos partidos, desfrutaram dos prazeres de cama e mesa na companhia de senhoras casadas com outros homens, e até de prostitutas. Isso não causava horror.

Até reprovamos os americanos que censuravam a relação do Presidente William Jefferson “Bill” Clinton (1946, 72 anos) com a estagiária Mônica Samille Lewimsky (1973, 45 anos), nas dependências da Casa Branca. Curto intervalo de tempo basta para nos horrorizarmos com as confissões “antropofágicas” de um homem público. Não mentir sobre aventuras sexuais é imperdoável. Valorizamos a liturgia dos cargos. A verdade não é importante.

Somos contrários à cultura do ódio. Pregamos paz e amor aos quatro ventos. Tanta doçura intimida quem pensa diferente de nós. Constrange pensamentos discrepantes, daí o voto envergonhado. Discordar da nossa virtude é torpeza. Amamos a cultura da paz, mas sabemos ser ferozes o suficiente para intimidar os torpes. Numa fração de segundo, porém, percorrermos o ciclo histórico completo, retomando as nossas convicções democráticas.

O nosso coração bondoso se horroriza com quem quer ter um meio de defesa. Mas não somos intolerantes. Somos complacentes com uma realidade marcada por mais de sessenta mil homicídios em apenas um ano, mais do que as cinquenta e oito mil baixas fatais dos americanos em oito anos de guerra no Vietnam, que nos revoltavam.

No meio dessa conflagração não perdemos a virtude: reprovamos severamente quem pretende ter um meio de defesa, afinal, isso não vai resolver a guerra civil, logo um cidadão não pode querer se defender individualmente no meio da situação trágica e descontrolada, só porque está com a própria vida e a da família em perigo.


Somos bons. Não repudiamos só a violência física. Não nos conformamos com as desigualdades. Defendemos a distribuição da renda dos outros, claro. Queremos uma sociedade solidária, desde que seja estatizada, transferindo o ônus das boas ações dos nossos ombros para o Estado. Quem deve financiar o Estado provedor? Ora, é óbvio que é quem tem renda maior do que a nossa.


domingo, 16 de setembro de 2018

ARTIGO - Propaganda Política, Um Teatro de horrores


PROPAGANDA POLÍTICA
UM TEATRO DE HORRORES
Reginaldo Vasconcelos*


A aberrante situação sociopolítica do Brasil neste momento evoca aquela alegoria anedótica do sapo em relação à panela d’água. Estando a água quente, o batráquio que caia por acaso na panela pulará para fora incontinenti.

O súbito contraste entre a amena temperatura ambiente e o insalubre calor da água fará o bicho perceber de pronto a tragédia que aquele líquido representa, e reagir rapidamente para tirar dali o seu organismo.

Mas se o sapo cai ali na panela em água ainda fria e confortável, ele quedará, e ainda que o fogo seja aceso e vá esquentando lentamente o meio aquoso, aquele cururu irá se aclimatando, e irá tendo a ilusão de que tudo está normal.

O sapo do exemplo vai se acostumando com a própria desgraça, até que não tenha mais forças para procurar a salvação, e cozinhe vivo – pois as bordas do recipiente que ele precisaria escalar já terão um queimor insuportável.

O povo brasileiro está cozinhando em água fervente, porque foi se habituando a dizer amém ao fogo do crime, que veio esquentando perigosamente entre os políticos e os bandidos, a tal ponto de se confundirem (e se ajudarem) estes e aqueles. Estes com votos de cabresto, aqueles com leis e Judiciário lenientes.

Não há mais uma clara distinção, uma fronteira bem definida entre as ditas “organizações criminosas” armadas e as de colarinho branco – tráfico de drogas e de influência, dinheiro sujo de sangue, de cocaína, de propina – tanto faz.

Diante desse quadro, o teatro de horrores se escancara agora na propaganda eleitoral, fervendo de mentiras, de falsidades, de mistificações, de promessas vãs, cada um com a mais nítida intenção de iludir o eleitor mais uma vez – com direito até a um sangrento atentado.

Na verdade, a água da panela nacional é escaldante, as contas públicas descontroladas, a crise financeira se agudizando, a economia em banho-maria, as facções dominando, de tal sorte que ninguém que seja eleito agora terá o condão de transformar imediatamente o sapo sapecado em príncipe belo.

Sendo assim, o máximo que se pode esperar para o próximo ano é uma liderança política que consiga apagar o fogo dos maus costumes e dos vícios arraigados, e que vá colocando água fria na fervura através de leis e de práticas administrativas honestas, realistas e eficazes.

“Sangue, suor e lágrimas”, em paráfrase a Churchill, é tudo que um candidato honesto pode prometer ao eleitor atualmente, caso eleito. Os desonestos precisariam desvestir o casaco de mágico, a capa de herói, e guardar a baladeira desleal com que tentam cegar os concorrentes. 

Que o eleitor, pelo bem do Brasil, retire o roto véu com que cada candidato busca esconder as suas verdadeiras ambições, as suas limitações reais, os seus fracassos públicos, o seu passado sujo que a lava-jato desvendou.



sábado, 15 de setembro de 2018

CRÔNICA - Fábulas (VM)

FÁBULAS
Manchetes Históricas e
Versão Tupiniquim
Vianney Mesquita*


Os escritores superficiais, como as toupeiras, julgam frequentemente ser profundos, quando estão, no entanto, demasiadamente perto da superfície. (WILLIAM SHENSTONE, poeta e paisagista inglês. Helesowen – UK, 18.11.1714 – 11.02.1763).



As fábulas revestem uma ordem textual literária, narração alegórica, em língua prosa ou em versos, cujos protagonistas são animais transfigurados em pessoas (in anima nobili), com falas, costumes e outros haveres humanos. Em geral, são produzidas para crianças e dotadas, no seu término, de fundo moral e teor instrutivo. (CONTINUA)



ACIONE O LINK ABAIXO PARA ACESSAR A ÍNTEGRA DA CRÔNICA




quinta-feira, 13 de setembro de 2018

DISCURSO - Biografia Ubiratan Aguiar (JL)


APRESENTAÇÃO DA BIOGRAFIA
UBIRATAN AGUIAR, 
PELAS SENDAS DO TEMPO
 De autoria de Luiza Amorim. 
Em 11 de setembro de 2018

Juarez Leitão*

Ouvi, pela primeira vez, numa sala de aula do velho Seminário da Betânia, em Sobral, que “a felicidade é a razão fundamental da vida”. Quem assim começava a sua aula de Português era o Padre Osvaldo Chaves, um dos grandes sábios que tive o privilégio de conhecer, hoje ainda felizmente vivo, na planura serena dos seus 95 anos.

E o mestre acrescentava: “Estamos aqui reunidos para ser felizes. Esta aula, estas informações, esta lousa, este giz, a nossa inteligência, o que puder ser assimilado por vocês e o que eu possa aprender conhecendo-os... todos esses valores materiais e imateriais devem apenas ser instrumentos de construção da felicidade”.

Fiquei marcado pelo jeito original daquele professor começar uma aula e, desde aquele dia, passei a fazer indagações sobre a vida e os caminhos da felicidade. Os livros e os fatos produziram em mim indagações profundas, respostas tortas ou retas, clarezas ofuscantes e verdades relativas.

Vi no Curso de Filosofia que, para Platão, a simples procura da felicidade já nos dá uma condição de bem-estar. A própria busca, o sonho de tê-la, mesmo que nunca seja alcançada, já nos faz habitantes de uma utopia gostosa e já nos basta para inebriar. Daí derivam as paixões unilaterais e os amores platônicos.

Para Aristóteles, a felicidade palmilha o campo do real. E não se realiza enquanto não for, de fato, conseguida, conquistada e usufruída, como uma fruta que se mastiga ou um peito que se mama. Plenifica-se no sabor dos triunfos e na apoteose do sucesso.

Para Jesus Cristo, a felicidade é um bumerangue: só acontece em nós depois de atingir os outros e voltar energizada pelo bem que fez. Só poderemos ser felizes fazendo os outros felizes e amando os anônimos do mundo como a nós mesmos.

Estas meditações nos acometem quando estamos diante de uma biografia. Do relato minucioso da vida de um homem. Do escancaramento das portas de sua alma, do devassar de sua movimentada peripécia, do conhecimento e aplicação de seus sonhos, dos acertos e percalços de sua caminhada.

Estamos diante das memórias do desempenho vital de Ubiratan Diniz de Aguiar, escrita com desvelos e cuidados especiais pela jornalista Luiza Helena Amorim, que já está no labor das biografias há um bom tempo e com quem reparti a autoria de alguns livros nesta mesma tarefa de vasculhar a vida, fazer a ordenação cronológica e publicar a história de destacadas figuras do Ceará e do país.

Tantas vezes falei sobre Ubiratan Aguiar, nos convescotes boêmios da cidade ou em cerimônias formais. Proclamei aos brados do efeito etílico, no Clube do Bode, o orgulho de vê-lo presidindo o Tribunal de Contas da União. Recebi-o solenemente em nome de meus confrades, quando ele ingressava como sócio efetivo no Instituto do Ceará, numa noite de casa cheia e retumbantes alegrias.

Sempre o vi como um ser singular, portador, como poucos no mundo, da capacidade de manter-se menino numa carcaça setuagenária, administrando os episódios austeros da vida sem perder a peraltice irrequieta da infância sertaneja, vivida num planeta chamado Cedro, incrustado na fisiografia do Sertão do Salgado e Alto Jaguaribe.

Menino assimilador dos encantos da natureza, que ainda guarda na alma infante as cores e os murmúrios dos bosques, o ruflar matinal da passarinhada, o canto dos galos anunciadores das manhãs e o mugido tristonho dos bois nas vermelhas despedidas do dia.

Mas um dia – como conta este livro - aos 11 anos, teve que deixar as ribeiras queimadas de sua sesmaria e partir, possuído de ansiedades, para a cidade grande. Era a saudade atávica do mar, aquela que – como bem descreve o poeta Linhares Filho – está enraizada na alma lusitana que mantemos e que, na primeira convocação, nos arrebata para o litoral.

Encontrou, em 1952, uma cidade de pedras toscas, espacialmente horizontal, que ainda rescendia os cheiros de aldeia e mantinha os costumes nas fronteiras pacatas e tranquilas daquilo que os seresteiros traduziam como a “paz serena e doce”.

O pré-adolescente que chegava do Cedro, entretanto, sabia que Fortaleza tinha mistérios a ser decifrados. E, com a curiosidade típica dos inteligentes, meteu-se por todos os cantos onde quer que houvesse uma coisa a saber e uma resposta para saciá-lo.

No Liceu do Ceará logo tornou-se um líder. Em pouco tempo estava presidindo o CLEC, Centro Liceal de Educação e Cultura, o mais importante grêmio escolar daquele tempo. Ali também deu os primeiros passos na Literatura. Não sei se o livro-texto ainda era a famosa Crestomatia, antologia que iniciou tantos escritores pelo Brasil a fora.

Sei que maneja com jeito e graça a oratória, a crônica e a poesia. Nessa, escala a composição musical, produzindo letras que foram melodiadas por alguns dos mais importantes artistas cearenses e brasileiros.

Fez discos e publicou livros de versos, muito bem recebidos pelos críticos. Sua produção literária o levou para a venerável Academia Cearense de Letras, entidade-mater das academias de letras do País, que ele, nesse momento, preside com tirocínio e comprovada capacidade gestora.

Aprendeu e gostou da arte de coordenar companheiros e dirigir entidades. Quando ingressou na Faculdade de Direito ali presidiu o Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua, desenvolvendo um trabalho de diplomacia entre os colegas que, no fervor das divergências ideológicas, costumavam chegar aos enfrentamentos físicos. 

Ubiratan praticava na faculdade seus pendores diplomáticos, fazendo-se ouvir no meio das tempestades e, por conseguir sempre restaurar o diálogo civilizado, crescia no conceito da comunidade universitária. Não tinha mais dúvida: a política o havia seduzido e outros fóruns e tribunas agora o esperavam. Procurou o apoio popular e as urnas o abraçaram amorosamente.

Foi Vereador, Deputado Estadual e Federal e membro da Constituinte Nacional de 1987. Vocacionado, também, para funções executivas, assumiu, enquanto detinha mandatos legislativos a Secretaria Municipal de Administração, a Secretaria de Educação do Estado do Ceará e a Primeira Secretaria da Câmara Federal, além de fazer parte das mais importantes comissões do Congresso Nacional.

Demonstrou ser um dedicado e cuidadoso especialista em Educação, contribuindo de modo brilhante nesse setor quando da elaboração da Constituição de 1988. Naquela Carta estão as competentes digitais do deputado e educador Ubiratan Aguiar, ao ponto de despertar a admiração de Florestan Fernandes, registrada em proclamação elogiosa e de gratidão cívica.

Deixou o Parlamento quando foi escolhido por seus pares para compor o egrégio Tribunal de Contas da União, que, depois chegaria a presidir.

No exercício das atividades públicas, Ubiratan Aguiar, que não quis, como muitos, ficar rico às custas da Nação, jamais nos envergonhou. Não se sujou com o ouro da cobiça. Não retirou botijas da lama torpe. Não se lambuzou nas facilidades desonrosas. Por isso, nesses tempos de escândalos e desvarios, nós, seus amigos e contemporâneos, não temos medo de passar vexames ao ouvir os noticiários, porque o nome do Dr. Ubiratan por certo jamais figurará na lista infame.

Senhoras e Senhores:

Este livro conta a história de um cearense ilustre cuja ação pelas sendas do tempo deu-lhe dimensão nacional. Um cidadão que praticou política pelas receitas dos gregos clássicos e dos iluministas do Século XVIII. E, como ser humano, cumpriu o itinerário da felicidade, a platônica, a aristotélica, a cristã e, talvez, a epicurista.

Afagou com ternura e serenidade as estações de sua caminhada, cultivando a arte de ouvir, o dom da paciência e a virtude da compreensão. Praticou o pastoreio das paixões, um território turbulento e muito difícil de ser controlado. Tateou a porosidade dos acontecimentos, distinguindo a vulgaridade do que é substantivo, o trivial do permanente, o acessório do essencial, os caminhos da morte dos caminhos da vida.

O seu convívio nos faz bem. Sua companhia nos ilustra. Seu abraço nos dá confiança. Não cultiva as amarguras e sim os encantos da vida. No meio das mais tenebrosas situações vislumbra os raios da aurora. É um pendão de esperanças nesse chão movediço das dificuldades nacionais e estimula-nos a olhar o horizonte com otimismo porque uma planície verdejante ou um rio piscoso pode estar além dele.

Experiente e cuidadoso, inspira-se no exemplo das águas, no exemplo dos rios. O seu objetivo é o mar. Mas, se no trajeto surgir um obstáculo, uma montanha, um aluvião, não hesitam em contorná-los e, através de sinuosidades, atingem o seu destino. É uma atitude de estratégia diplomática da natureza.

Ubiratan Aguiar, como os que sabem contornar os obstáculos, conhece os princípios vitoriosos da diplomacia. Por todos estes argumentos, estamos reunidos nesta noite para celebrar a vida de Ubiratan Aguiar e aprender, conhecendo a sua história, as trepidantes cirandas da sorte e os caminhos da felicidade.

Sejam bem-vindos à leitura e às profícuas lições deste excelente livro escrito por Luíza Helena Amorim:

Ubiratan Aguiar, pelas sendas da vida!

Muito Obrigado.


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

ARTIGO - Falsa Democracia ou Ditadura Disfarçada (RV)

FALSA DEMOCRACIA OU
DITADURA DISFARÇADA
Reginaldo Vasconcelos*


A sociedade ideal é aquela em que não há miséria, onde não convivem o fausto e a pobreza absoluta em grupos estanques, por se oporem óbices à mobilidade social   lugares em que a linha de pobreza é considerada na faixa de renda mensal equivalente a de sete mil reais.

Em que haja educação e saúde públicas de qualidade para todos, de modo a se manter um estado de bem-estar social generalizado, a partir de um governo norteado pela honradez e o espírito público  como se viu na última Copa de Futebol com a Presidente da Croácia, viajando às próprias expensas e tomando chuva para abraçar o time adversário.

Uma sociedade que incentiva a produção de artes, de ciências e de riquezas econômicas, estimulando a iniciativa privada e o emprego, através de uma carga tributária justa e adequada a um Estado mínimo e eficiente. 

E em que as oportunidades de evolução cultural e socioeconômica são acessíveis a qualquer um que as procure – sendo garantido, inclusive, o direito pessoal de preferir permanecer intelectual e socialmente estagnado.

Sim, porque essa opção existencial é historicamente feita individualmente por uma parcela das populações do Planeta, independentemente da saúde econômica e do grau organizacional e evolutivo do grupo nacional a que pertença.

Em toda parte há pessoas que se recusam à competição e à disciplina, resignadas à sua sorte natural, que se expõem ao vício, ao ócio, à indigência e à mendicância, opção de vida que somente as liberdades democráticas admitem e toleram.

Há países no mundo que correspondem realmente a essa descrição acima, de modo que não se faz aqui uma “utopia” – o “deslugar”, o “não-lugar”, o lugar que não existe – tradução literal dessa palavra latina, que se passou a plicar na acepção de um sonho quimérico e aparentemente inviável.

Apenas nesses países caracterizados da forma acima descrita se pratica a real democracia – o “governo do povo”, a pacífica soberania do interesse popular.

De ordinário se imagina no Brasil que o conceito de democracia se esgota no direito de votar nos dirigentes, e na liberdade de expressão – e é isso que procuram fazer crer os ditadores disfarçados que se adonam do poder para manter seus privilégios.

Esses ditadores disfarçados que compõem as elites econômicas e políticas detêm mecanismos hábeis para controlar a grande mídia e conduzir a opinião pública, usando o capital para direcionar a liberdade de imprensa de maneira imperceptível, de modo a consagrar mentiras reiteradas e distorcer a realidade.

Naquelas sociedades perfeitas cada um conhece e cumpre o seu dever espontaneamente, cônscio e orgulhoso de sua missão social, sem prejuízo de envidar esforços para evoluir e melhorar, compulsão natural que é a mola propulsora do progresso. Ali os cidadãos nada têm a contestar ou combater, porque o pacto tácito com a coletividade é pacificamente assumido e respeitado.

Enquanto isso, o brasileiro médio é levado a acreditar que “imprensa investigativa” prospectando lama infecta nos escaninhos do Poder seja um sinal evolutivo. Que seja um mecanismo indicativo de saúde democrática os sindicatos fortes e o “direito de greve”, para que trabalhadores possam chantagear por melhores salários os empresários que idealizam, empreendem, investem e arriscam capital sadio para criar e garantir os seus emprego.

Ingenuamente, o povo brasileiro, e mesmo os sociólogos focados somente na realidade nacional, interpretam que protestos de rua, quebra-quebras que resultam impunes, invasões irreprimidas de propriedades públicas e privadas, tudo isso represente a apoteose democrática, indicadores de saúde republicana – quando, na verdade, esses são apenas sintomas da doença psicossocial de uma nação que ainda não se libertou ideologicamente, e ainda vive a sanha do colonialismo desvairado.

Alguns dirão que essas manifestações sociais são fruto do embate sadio entre situação e oposição – tese e antítese em busca de uma síntese virtuosa – mas essa concepção é totalmente enganadora. Como a História Universal já demonstrou diversas vezes, e como se tem verificado na tradicional tranquibernice da política brasileira, “quem está contra o poder, quer o poder”. E quer o poder, pelo poder.

Façamos uma analogia orgânica para demonstrar quanto é falsa a democracia brasileira:

Naquelas sociedades perfeitas acima descritas, verificadas na Europa Central e do Norte, notadamente na Península Escandinava, bem como em países do Extremo Oriente como, por exemplo, o Japão e a Coreia do Sul, impera a “perfeita saúde democrática”, com pequenas e raras ocorrências de distúrbios.

Já nas ditadoras existentes ainda hoje, sejam de esquerda, sejam de direita – sejam socialistas como Cuba e Coreia do Norte, sejam capitalistas, como países do Oriente Médio e da África – observa-se a “ditadura sem remédio”, porque a essência do regime de força é o despotismo, é a doença.

No Brasil, por seu turno, o que se tem é uma “democracia doente”, meramente remediada por liberdades ilusórias – ou a ditadura disfarçada, na qual a indigência é assistida e mantida pelas políticas de governo, e a cultura do povo é aviltada, para que se mantenha a pobreza feliz”, e nela o grande estoque de eleitores embotados e iludíveis.

Os ditos governos democráticos brasileiros se esmeraram em dar o peixe, e não em ensinar a pescar – pois nenhum deles investiu massivamente em educação gratuita de qualidade, desde o ensino básico até o técnico e o acadêmico, como fizeram a Alemanha e o Japão no pós-gerra, e mais recentemente os chamados “Tigres Asiático”, única maneira de eliminar a pobreza de forma definitiva e consistente.   

É para manter esses mecanismos casuístas que o Congresso engendrou normas pelas quais uma fortuna bilionária foi sacada dos cofres públicos para ser distribuída aos partidos no poder, nestas eleições, para  se garantirem privilégios.

Além disso, as normas eleitorais dotam esses partidos de um desproporcional tempo de propaganda eletrônica gratuita, reservado aos seus integrantes – em sua grande maioria pessoas com maus antecedentes notórios e até com histórico criminal na vida pública, que vêm  pedir votos com a maior desfaçatez, para eles e para os seus apaniguados, aos incautos eleitores, prometendo, falsamente, o paraíso. E as massas ignaras se dispõem a votar neles.