terça-feira, 16 de janeiro de 2018

ARTIGO - Romantismo e Crime (RMR)


ROMANTISMO E CRIME
Rui Martinho Rodrigues*


Temos elevada criminalidade, com viés de alta. Tentaram desarmar a população e exortar por uma cultura de paz. A ideia de Victor Hugo (1802 – 1885), de que “quem abre uma escola fecha uma prisão” tem sido lembrada, trazendo de volta o otimismo pedagógico. Inoperância policial, controle das fronteiras, situação calamitosa dos presídios, crítica à lei de execuções penais e Códigos Penal e de Processo Penal não se transformam em ações nem em uma política de segurança.

O desarmamento foi tentado. Uma consulta popular tentou enganar o povo trocando “desarmamento” por “comércio de armas”, mas teve a repulsa dos eleitores. Acumularam dificuldades burocráticas para se legalizar armas, tornando-as, de fato, proibidas. E o crime? Cresceu. A cultura da paz, explorando a religiosidade do povo, com os artifícios de comunicólogos, não deu resultado, no contexto de uma cultura hedonista e relativista.

Quem fala em cultura da paz, mas absolve transgressores, considerando-os vítimas da sociedade, ou condena as diferentes formas de controle social como ilegítimas, destrói a própria pregação. O otimismo pedagógico se vale da evidente importância da educação, mas esta não é panaceia. É preciso considerar, ainda, a qualidade da educação. Afinal, construímos escolas, temos vagas... e o crime cresceu.

E a inoperância policial? Uns querem armamentos melhores e em maior número, serviços de inteligência mais atuantes e melhor remuneração; outros querem cultura de paz nas polícias e mais preparação do policial. Todos estão certos. Mas interesses corporativistas se escondem sob alguns destes argumentos, de um lado, e romantismo, de outro. 

O controle de fronteiras e o uso das Forças Armadas com função policial é outra proposta. Não se esperem resultados auspiciosos daí. Os nossos limites territoriais têm milhares de quilômetros. Não é possível controlá-los eficazmente. O Exército não tem obtido resultados satisfatórios também nas cidades. A situação calamitosa dos presídios clama por verbas. Mas falta dizer de onde tirá-las.

Leis e códigos podem ser aperfeiçoados, mas precisariam fazer parte de uma política de segurança que transcenda o aspecto policial, sem tentar menosprezá-lo. É preciso contemplar a cultura, sem esperar resultados imediatos. É preciso enfatizar as responsabilidades individuais, ao invés de transferi-las para as estruturas sociais, como parte da qualidade da educação.

A presença do Estado, conforme experiências exitosas na Colômbia e em outros lugares, produz resultados positivos. A teoria da janela quebrada explica: a atmosfera de abandono, como ruas esburacadas e lixo acumulado, sem aparente relação com a delinquência, sugerem abandono, terreno fértil para o crime. O Estado está falhando. Família, escola e Igrejas também falharam. A revolução cultural tem relação com isso. Mudança cultural rápida e profunda propicia desorientação e conflito.


POEMA - Ausência (VA)


AUSÊNCIA
Vicente Alencar*



Os minutos são quilométricos,
e as horas maiores ainda.
O coração chora a ausência,
os olhares,
as palavras,
os carinhos,
o perfume
estão longe.
não existem cabelos
para meus dedos aninharem.
A doçura dos lábios
não está aqui.
O dia é triste
e o coração dispara em pranto!



HOMENAGEM - O Livro (RV)



O LIVRO

O livro é gente tem pó. Liofilizada em fibra de papel e pigmento, comprimida em um tomo ou mais, a pessoa livresca não se compõe de carne e osso, mas tem alma, pensa e se expressa, ama e desama, afaga e fere.

Solúvel na alma de imensurável leitorado, o livro se recompõe redivivo a cada releitura, exatamente como o gênio da lâmpada, guardando sempre a fisionomia original, e sempre propalando o seu personalíssimo pensamento.

A minha tese não defende que por isso todo livro seja bom, até porque também há gente feia, imprestável, fútil, torpe. Apenas defendo que o livro, na ordem geral das coisas, difere da pedra que é inerte, e da nuvem, que é volúvel; difere do líquido, que é volátil, e do ferro, que é fusível; difere da fruta, que é silvestre, e do canivete suíço, que é perfeito.


Reginaldo Vasconcelos
     


A José Augusto Bezerra
Presidente da Associação Brasileira de Bibliófilos
Imortal da Academia Cearense de Letras
Membro Benemérito da ACLJ 

SONETO DECASSILÁBICO PORTUGUÊS - O Silêncio Visto Por Dentro (VM)


O Silêncio
Visto por Dentro
(Título de livro de Neide Azevedo Lopes)
    Vianney Mesquita*


Ouve a voz do Silêncio, pois é a fala de tua alma. (FRANCISCO VILLAESPESA – Laujar de Andarax, 15.10.1877; Madrid, 09.04.1936. Poeta e dramaturgo espanhol do modernismo).



 Dos corcéis rememoro seus galopes
E em latinas corridas me concentro;
A Via Ápia da vida, pois, adentro,
Sem manifestar medo dos ciclopes.

Oh tu, cicuta! Por mais que me dopes,
Nem Sócrates, que foi teu epicentro,
Permitirá me faças hipocentro
De unguentos, peçonhas e xaropes.


Na batalha de gládio, então, reentro,
De energia me faço o microcentro,
Luto contigo, desde que me topes.

Ruy Barbosa ideou o adedentro (**)
E eu, no silêncio que é visto por dentro, 
Saúdo a Neide Azevedo Lopes.


**Adedentro é vocábulo cunhado pelo intelectual baiano Ruy Caetano Barbosa de Oliveira e significa interiormente  advérbio. Adefora  impende dizer-se conota, a seu turno, do lado de fora, exteriormente.



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

CRÔNICA - A Casa dos Libion (TL)


A CASA DOS LIBION
Totonho Laprovitera*



A história de expressivos artistas da MPB passa pela casa de Lydia e Jacques Libion, na Travessa Santa Leocádia, 56, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

A iugoslava Lydia e o francês Jacques se conheceram logo após o final da Segunda Guerra Mundial, na França, quando na dor da perda de seus afetos se encontraram e se uniram no amor.


Assim sendo, decidiram morar no Brasil. Na época, Jacques era representante da respeitável Hachette, uma tradicional livraria e casa editorial francesa fundada em 1826. A partir daí, com extraordinário carisma, o casal se destacou por atrair muita atenção e causar boa impressão nas pessoas, naturalmente. Desse modo, prestigiado, tornou-se muito querido e passou a reunir em seu lar os mais diversos intelectuais e artistas nacionais e internacionais.
 
Lydia e Jacques, ainda, acolheram muita gente das artes em sua morada, um autêntico mirante do azul localizado em uma acentuada ladeira no coração da Zona Sul carioca. Por lá passaram: Elis Regina; Fagner; Chico Feitosa; Miele; Joana Fomm; Maysa, Sérgio Mendes; Amelinha, Nonato Luiz e Bernard Buffet – um dos pintores mais famosos do mundo pós-guerra – dentre outros.

Coberta de arte e cultura, a casa dos Libion se tornou patrimônio material e imaterial da cultura brasileira. Ambientada com as mais diversas passagens, era um precioso santuário a guardar viva a nossa memória.

Em cada canto da casa, nas paredes, quadros dos mestres Bernard Buffet, Di Cavalcanti, Guignard e Chico da Silva, por exemplo, descreviam a paisagem de tantas histórias que acendem as luzes dos postes que iluminam uma rua chamada saudade.

Conheci Jacques e Lydia através do amigo Raimundo Fagner, que os tinha como seus pais no Rio de Janeiro, desde quando o casal soube que ele aniversariava no mesmo dia de um filho que havia perdido.

A última vez que vi Jacques foi por ocasião da gravação do disco “Amigos e Canções”, do Fagner, no estúdio Companhia dos Técnicos, em Botafogo, em 2004. Lembro como se hoje fosse, a canção era “Saudade”, de Mário Palmério, e teve a participação da cantora Joana.

Após a partida de Jacques, Lydia ficou morando só, mas sempre muito bem assistida pelos “filhos” Fagner, Lilibeth e Lulinha.

Certa vez, quando minha filha Joana foi estudar teatro no Rio, Lydinha nos ofereceu um jantar de boas vindas. Para reafirmar a nossa benquerença, ela deu de presente para Joana um pingente de ouro em formato de coração, e disse:  “Joana, receba o meu coração.”

Dos passeios que tive o privilégio de compartilhar com Lydinha, dois permanecem bastante claros em minha memória: um, à casa de Lilibeth em Araras, na região serrana do Rio de Janeiro, acompanhados da maravilhosa e irreverente Alina Bulcão; outro, em Orós, no ardente sertão cearense, em visitação aos domínios de Fagner, quando fomos hóspedes do “seu” Eliseu Batista.

A última vez que estive com Lydinha foi em sua histórica casa. Acompanhado de minha mulher Elusa e de meu filho Fernando Victor, fomos muito bem recebidos, como sempre. Falamos sobre as coisas simples da vida e de passagens corriqueiras que se tornam preciosidades existidas. A sua lucidez nos alumiava e maravilhava.

Lydinha se foi em 12 de Maio de 2011.


sábado, 13 de janeiro de 2018

SONETO DECASSILÁBICO PORTUGUÊS - Êxtase Temporário (MC-VM)


ÊXTASE TEMPORÁRIO
Márcio Catunda* – quartetos
Vianney Mesquita** – tercetos


O tempo é uma lima que trabalha sem fazer ruído. (H. G. BOHN, editor britânico Londres, 04.01.1796; Twickeham – UK – 22.08.1884).


É como se eu vivesse além do agora,
Num silêncio infinito, sem idade,
O êxtase que o tempo deteriora,
Mas existe, sem pulso de ansiedade.

Música de deleite, que em mim mora,
Dádiva calma, em que a voracidade
Não aturde; nem o medo apavora:
Essa intangível, fluida realidade.



Ah! Quem me dera fosse esse transporte
Do meu viver um eterno consorte,
Inautenticamente arrebatado!

Assim, inoperância deste porte,
Subitanea, no entanto, invoca a morte
E me faz sempre acerbo e atribulado.











CRÔNICA - Passarinheiro (GJ)


PASSARINHEIRO
Geraldo Jesuíno*



Move-se sorrateiro. Ainda não são nem cinco da manhã. Bermudas folgadas, camiseta, relógio e tênis. Uns trocados para comprar dois carioquinhas, na volta, para o desjejum. Pisa baixinho para não acordar a mulher, ainda entre os lençóis. Ela, já acordada, finge dormir. Sabe do cuidado dele. Disfarça um sorriso e continua quieta, contando-lhe os passos quase silenciosos e esperando o "click!" da fechadura da porta da frente.

Ele também sabe dela, também finge acreditar que ela dorme. [Vai com Deus, meu velho!] E ele vai.

– Hora de contar passarinhos!

A rua e a pracinha, ainda mal clareadas, têm jeito de paz. Casas, quase antigas e quietas, qual sua mulher, fingem-se adormecidas para assegurar os últimos minutos de descanso da madrugada. As árvores da praça, das calçadas e dos jardins, não! Estas já se aquecem nos primeiros raios da manhã e vibram na inquietude do vento. Acalentam o despertar algazarrento dos passarinhos que, com seus trinados, vão aparecendo exaltados, felizes.

– Os sabiás! Um, dois, três... Ê, aquela eu conheço! Dona de casa e mãe de dois sabiazinhos de bicos escancarados. Aquele, mora num ninho acomodado em uma luminária da casa da Dona Beta, logo ali na frente. Mais dois, lá...

E segue pela calçada, às vezes andando de costas e apertando os olhos para alcançar os beija-flores miúdos e ligeiros que catam os botões, desviando-se das arapuás, também em disputa pelas flores.

– Quatro, cinco, seis... Acho que é um pintassilgo.  Arrisca, palpitando uma categoria para os pássaros que não identifica: pintado, rolinha... Doze...  Coroado, curió, golinha, sebite, cardeal... Vinte e dois, vinte e três... Até um galo de campina, já avistara.

Segura o passo na descida. Cuidado para não escorregar no cimento liso. Já chegando na esquina da sexta quadra, o barulho de um motor de carro. Seu Alfredo e sua coitada Brasília, levando as verduras para o mercadinho da Dona Elcí.  Perfila-se para cumprimentar o amigo, como sempre faz.

– Bom dia, Seu Alfredo!

– Bom dia – responde o motorista suado, enquanto tenta controlar o seu velho e quase destroçado carro, que teima em descer desenfreado a pequena ladeira, liberando odor de cheiro-verde e manjericão; uma luta.

Um susto acusa o estrondo de outro motor. Este, dessas motocicletas grandes e ruidosas. O som se torna constante e cada vez mais próximo. Muito mais próximo quando o bólido aparece fumando sobre a calçada transversal. Faz uma manobra brusca na tentativa de dobrar na esquina, mas o meio-fio, esquisito e alto, prega uma peça no piloto e lhe subtrai o equilíbrio. Bem na frente da pobre e velha brasília do Seu Alfredo.

Catapum!!!

Um choque de raspão. O carro velho segue, espantado, guinchando nos freios desgastados e desobedientes. A moto cambaleia pela rua de pedras e se aquieta, sem muito dano, alguns metros à frente. O piloto, tão ágil quanto mirrado, jaz com a perna presa sob o tanque de combustível.

– Coitado!

O socorro ocorre tão rápido quanto o permitem as pernas e o coração do velho contador de passarinhos.

– Você está bem, meu filho? – quase uma criança, ele pode constatar agora. Concentra-se no peso do veículo ainda de motor ligado. Uma forcinha a mais e a perna do menino pode escorregar para lugar seguro.

Larga o peso, bem maior do que lhe concede a lombalgia crônica, e estira-se. Com alguma dificuldade, vira-se para socorrer o piloto.

– Perdeu, vovô! – disse-lhe o cano da arma apontada para o seu nariz.

– Passa o dinheiro, o relógio e o tênis! Rápido!

Lá se foi o relógio com a cara do Mickey, que ganhara do neto no último aniversário e o tênis que o filho lhe trouxera de São Paulo.

A moto fumaça pela descida, em disparada. O dinheiro? Dois reais.

– Hoje não vai ter carioquinha. Não faz mal, só hoje...

Reclama um pouco da dureza das pedras da rua contra os pés descalços. No mais, pequenas perdas, nada relevante. Ninguém muito machucado, estamos todos bem, graças a Deus.

A rua volta ao quase sono, novamente tudo se acomoda. O sol já acende as boas vindas e ainda há passarinhos para contar...



Ilustração: Geraldo Jesuino: Gravuras: Sabiá e Campina. 




COMENTÁRIO:

Doce. Amena. Interessante e muito bem escrita por um mestre da estética, honra deste "blog".

Vianney Mesquita.
 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

CRÔNICA - Uma Coisa é Uma Coisa (RV)


UMA COISA
É UMA COISA
E OUTRA COISA
É OUTRA COISA
Reginaldo Vasconcelos*


Não simpatizo com a indicação da Deputada Cristiane Brasil para o Ministério do Trabalho – nem para cargo algum, porque, segundo entendo, ela não tem o perfil ideal para atuar no Executivo.

Um Ministro de Estado precisa ter notório saber, para bem conduzir a sua Pasta, inspirando respeito e confiança. Tem que ostentar uma aparência austera, uma postura fleumática, uma linguagem serena, um discurso didático para falar ao povo, com dignidade e sem paixão.

Como assim? Vide Henrique Meireles, Mendonça Filho, Roberto Freire, Torquato Jardim, Diogo Oliveira e Grace Mendonça – para citar um prócer do sexo feminino. Veja como se apresentam, como se comportam, como se reportam.


Aliás, vide o próprio Michel Temer, pois qualis rex, talis grex (tal rei, tais servos), nas palavras de Titus Petrônius. O Presidente pode ter todos os defeitos do mundo, mas em matéria de compostura e oratória não se compara à antecessora.

Ela também não é flor que se cheire, mas, além disso, não inspirava postura condizente com a liturgia do cargo, nem podia selecionar auxiliares pela boa retórica e pelos bons modos, aos quais ela própria, nessa seara, não produzia bons exemplos.

Enfim, uma estilosa carioca de praia, colorida e jovial, bem falante e combativa, sem longa experiência na administração pública, nem pomposo currículo acadêmico, está de bom tamanho como parlamentar da Câmara Baixa – mas não no Ministério (e eu gosto muito do Roberto Jefferson, com quem a Nação Brasileira tem uma dívida impagável).

Mas, como se sabe, parte do Ministério Temer é preparada e eficiente, mas a outra parte é formada por negociações com partidos, em nome da “governabilidade”, gente que compra afagos no ego, entre outros agrados fisiológicos, e paga com votos políticos – não com profícua atuação.

No entanto, contudo, todavia, o fato de ter sido “reclamada” em processo trabalhista, qualquer que tenha sido a sentença definitiva de mérito, o fato não tem repercussão penal, não afeta e primariedade da Deputada, não faz dela uma "ficha suja", nem tem potencial para indicar maus antecedentes.

Demais disso, é preciso dizer que acordo judicial não importa em sucumbência, porque equaliza o direito, pela mútua transigência. Sendo assim, em somente uma das ações trabalhistas a que ela respondeu houve condenação.

E a condenação, no caso do Processo do Trabalho, não faz de ninguém um criminoso. Qualquer cidadão que contrata empregado é passível de sofrer na Justiça um processo laboral  e, pessoalmente, no fórum trabalhista eu só funcionei na condição de advogado, nunca como reclamante, tampouco como reclamado, com CPF ou CNPJ.  

As ações trabalhistas nascem de um contrato entre duas pessoas, verbal ou escrito, formal ou informal, de que resulta controvérsia financeira, a qual o Juiz Trabalhista examina e soluciona com apenação pecuniária, à luz da específica legislação consolidada e do Código Civil. Simples assim.

Portanto, por mais que eu prefira alguém melhor que Cristiane Brasil no Ministério – e prefiro – essas razões jurídicas que estão sendo alegadas contra ela não têm o mínimo fundamento. São, na verdade, argumentos de cunho ideológico, ridículos e risíveis, indevidamente usados para pedir o veto da Ministra estranhamente acatados pela Justiça Federal. Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.


ARTIGO - O Monopartidarismo (RMR)


O MONOPARTIDARISMO
DISCRETO  - IV
ou
O SUICÍDIO DAS ELITES
Rui Martinho Rodrigues*



A história, no sentido de fatos e atos sucedidos, é feita pelas elites (Gaetano Mosca, 1858 – 1941), que assim a distinguiam: guerreira, sacerdotal, política, intelectual e econômica. Democracia, para G. Mosca, exige pluralidade de elites em relativo equilíbrio de forças e um mínimo de circulação dos seus integrantes (mobilidade social). O domínio de apenas uma delas resulta em ditaduras.


O sistema de freios e contrapesos, com a divisão das funções do Estado entre Legislativo, Executivo e Judiciário, busca o equilíbrio pela contenção recíproca entre eles, como independentes e harmônicos, é uma barreira contra as tiranias. Os poderes, de fato exercidos pelas elites enumeradas por Mosca, também funcionam como um sistema de freios e contrapesos. O domínio de uma delas produz ditadura. O poder político dominou quase que sozinho sob Stalin, Hitler, Pol Pot.

Intelectuais são o segundo violino da orquestra. Serviçais dos poderosos, não chegam a ter poder. Têm apenas prestígio e, a longo prazo, influência. Sacerdotes, com o advento da modernidade, perderam poder e até influência, embora preservem algum prestígio.

Apenas os muçulmanos, com os governos teocráticos, exercem poder ou grande influência. Guerreiros (militares), chegam a exercer poder, como no Século XX. Hoje continuam integrando as forças de sustentação do poder, porém em lugar secundário. Políticos lideram convencendo e manipulando por todos os meios. Estão sempre no poder. Quando outra elite assume o comando se converte à política, embora com outras práticas.

Sacerdotes praticaram suicídio simbólico. Destruíram o próprio trunfo, uma suposta superioridade moral. Desmoralizam-se quando tornam evidentes as suas falhas humanas e trocaram o campo do sagrado por cogitações seculares. Guerreiros, quando assumiram o poder, sem o treinamento dos que convencem e enganam, desgastam-se com o exercício do poder. Intelectuais nunca assumem o poder. Políticos, como Nereu, filho da Terra e do Mar na mitologia grega, tornam-se mais fortes cada vez que levam um tombo. Dividem-se, culpando uma de suas facções pelos fracassos, permanecendo como dirigentes por meio de algumas das suas divisões, ou fantasiando-se de outra elite, como a de intelectuais ou de operários, mas sendo sempre políticos.

A elite econômica não tem tempo para cuidar da política. Apoia ou designa representantes. Não tem tempo de pensar nos problemas do poder. Não compreende que está sendo destruída, deixando-se iludir por sacerdotes, políticos e – principalmente – por intelectuais (em sentido amplo). Os pais dos alunos das escolas da “burguesia”, como dizem os camaradas, doutrinam os filhos da elite econômica contra ela mesma. Os anunciantes e os donos das empresas de comunicação não se dão conta do aparelhamento delas, ou não compreendem o que isso significa a longo prazo, como efeito da catequese na política.

A Globo, por exemplo, é um ninho de revolucionários, que agem, nem sempre discretamente, semeando doutrina contrárias à elite econômica, isto é, contra os seus patrões, enquanto os seus companheiros acusam a emissora de persegui-los. Marcelo Freixo, do PSOL, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, foi derrotado nos bairros populares, mas teve ampla vitória nos bairros “burgueses”. O outro Marcelo, o Crivela, foi hostilizado pela Globo e por toda a imprensa havida como inimiga dos revolucionários, mas foi eleito pelo povo que os “esclarecidos” diziam ser manipulado pela “imprensa burguesa”. Assim, os socialistas e assemelhados conquistaram a hegemonia ideológica, transformando suas ideias em senso comum. Os caminhos da hegemonia ideológica passam, entre outras coisas, por este aparente suicídio.

Os revolucionários, em certa época, diziam: “a burguesia é suicida”. Estariam certos?

Talvez a “burguesia” pense que: a catequese das escolas e universidades seja deixada de lado pelos ex-alunos destas instituições; a catequese quer apenas “justiça”, “igualdade” e um “mundo melhor”, opondo-se aos “preconceitos” (moral tradicional), lutando por uma “sociedade solidária”. Não pensam que: conceitos indeterminados têm sentido oculto; que ex-alunos dos catecismos ideológicos geralmente não se tornam ativistas, mas votam com os partidos totalitários; que os belos propósitos exigem poder absoluto, oprimem e não entregam o prometido.

Temos conceitos indeterminados unanimemente aceitos nos programas dos partidos; no Direito, vinculando o juiz, não à lei, mas ao que ele entende como justo; na economia focada na “desigualdade”, embora o que importa seja a pobreza. Disputam eleições polarizadas entre o PT, com o seu viés leninista, e o PSDB, com o socialismo que promete liberdade política sem liberdade econômica. Conservadores e liberais não têm espaço. Isso é um monopartidarismo discreto.



PREFÁCIO - Bechior - O Silêncio do Amor (VM)


BELCHIOR
 O Silêncio do Amor

BIOGRAFIA PSICOFILOSÓFICA
POST MORTEM:
Vianney Mesquita*



Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior; mas trago na cabeça uma canção do rádio... (Antônio Carlos BELCHIOR (Sobral, 26 de outubro de 1946; Santa Cruz do Sul, 30.04.2017).



Há sete anos, experimentei a ventura de proceder, na feição de Prefácio, a comentários acerca de um livro do facultativo e intelectual cearense, Dr. Russen Moreira Conrado, o qual milita na área de Cirurgia Plástica, em Fortaleza – CE, como personificação da excelência profissional-científica neste sub-ramo dos saberes e práticas da multiciência de Galeno.

Naquele lance, Russen Conrado, hoje não apenas cirurgião, mas também – como o foi Cláudio Galeno – pensador, apreciado, acreditado e acolitado nas suas ideações pelo público ilustrado cearense, mediante seus artigos de alevantado nível e editados pela imprensa da Cidade, reportava-se a moto bem mais prosaico e de espírito popular – o futebol – subordinado ao título Ceará Sporting Clube – Lição Eternizada em Preto e Branco (2011).

Na ocasião, já me fora permitido exprimir o fato de que [...] Sua isenção, ao lado de outros predicados do bom narrador, confere a sua tarefa o estatuto de verdade, de fidelidade à dissertação dos acontecimentos, ao contar, averso a exageros e circunlóquios ou firulas literárias, a saga [...]  como se divisa, já atestando o inconteste talento de um respeitável e profundo produtor textual, mormente em assuntos de maior espessura literocientífica, como o leitor terá a ensancha de comprovar na decodificação deste produto de sua colheita, com frutos bem maturados sob exame raciocinativo, vazado nos alçados saberes da Sociologia, Psicologia e Filosofia, bem assim da Letra Sacra.

Agora, distante de mim está o fito de subtrair do imenso contingente de apreciadores deste volume a oportunidade de, primeiro, provar – sem que ninguém o adiante – o sabor do hors-d’oeuvre de seu conteúdo, antes do repasto principal, configurado no suprassumo, no requinte do seu teor, segundo o consulente terá a aura de validar, à sua apreciação leitora, sem a interferência de qualquer mediador.

Impende-me, somente, antecipar – e sem prejuízo das ilações do lúcido consultante, após a expressão penetrante, argutamente estudada e com suporte nos tratos intelectivos do Autor – a lógica de seus pressupostos, suas razões, com assento nas prefaladas Ciências Reflexivas, na Sagrada Escritura e no seu modus operandi sobre as realidades vivenciais, narradas nesta obra de vulto, da invejável agronomia literária deste escritor a mancheias.

Tudo isto traz o escopo de compreender, assentir e justificar, consoante o procede e com força persuasiva (ab initio, junto a mim), o comportamento inusitado do seu Biografado post mortem – o compositor e cantor cearense, de nomeada internacional, Antônio Carlos BELCHIOR, a óbito em 30 de abril de 2017, em Santa Cruz do Sul-RS, que passou cerca de dez anos sem se comunicar com a família.

Também não resulta lesivo às intenções do ledor de qualidade, como, decerto, dimana ser o consultante da produção ora escoliada, informar que este produto editorial multímodo, conquanto de continente pequeno, mas de mealheiro supinamente qualitativo, narra o passamento de Belchior, suas exéquias e pós-solenidades fúnebres, estas em Sobral e Fortaleza.


Sequencia com a sucessão de eventos, reflexões autorais e outras passagens alusivas ao Rapaz latino-americano, com quem tive o ensejo de fazer uma viagem do Rio de Janeiro para Fortaleza, como vizinhos de assento, nos idos de 1983, oportunidade na qual comprovei, em quatro horas de conversa, sua bem propalada posição intelectual, cantada em metro e língua-prosa já na Fortaleza daquele tempo. No curso do trajeto, ele não demonstrou qualquer vestígio de medo de avião – o que procurei comprovar, pois, havia quatro anos (1979), esta peça fazia imenso sucesso no Brasil, componente de um dos albi do Cantor/Compositor – Era uma vez o homem e seu tempo. 

Como para evidenciar sua prontidão intelectiva e o alcance literonarrativo, o Historiador do produto gráfico atinente ao Ceará Sporting Club, na maioria das reflexões respeitantes ao seu Biografado a posteriori (tio da sua Esposa), estabelece habílimas vinculações com os títulos e recheios das canções gravadas pelo Artista. 


Esta industriosidade de Russen Conrado resulta denotativa da sua insuperável capacidade de operar analogias, maximamente racionais, sem subjugar circunstâncias, tampouco revestir pretensas verdades, a fim de aportar – e autorizar o leitor a imitá-lo – a ilações coerentes em relação ao seu pensamento alçadamente ajustado aos ditames da compostura escritural, isto é, de quem não tenciona conduzir a audiência ao logro, normalmente multiplicado ex-vi do poderio da função comunicacional.

Magnificamente, também, se mostra esse médico/pensador sob o espectro da ética, porquanto exime, sem lhes declinar os nomes nem certas condições em que seriam facilmente identificadas, aquelas pessoas referenciadas na obra, tampouco lhes destina quaisquer tachas, de modo a não conduzir o leitor a avocá-las como deformidades daqueles a quem indiretamente faz menção.

Tem ressalto nesta publicação a correta narração em língua portuguesa culta, na qual o Autor recorre aos diversificados expedientes figurais oferecidos pelo código lusitano, a fim de conceder aos seus escritos um estilo agradável, singular e conotativo do seu perfil elocutório, dotado de urbanidade e senso de responsabilidade moral e intelectiva, em texto deseixado de clichês e manias hoje muito comuns em manifestações acadêmicas e de ordem geral. 

Desta sorte, este trabalho – intitulado (provisoriamente) O Silêncio do Amor – ora às ordens dos nossos nacionais afeiçoados à música e amantes da cultura, perfaz o complemento perfeito da biografia de Belchior, sendo, ipso facto, documento de relevância para a História da Arte brasileira, maiormente da atividade musical do Ceará, indispensável, por exemplo, para um ensaio acadêmico, ou mesmo a fim de amparar qualquer referência que se fizer a respeito desta figura singular do mister artístico do nosso Estado.