A TEMPESTADE
PERFEITA
Rui Martinho Rodrigues*

A inflação ataca. A recessão arreganha os dentes. Os juros mais altos do mundo se associam às tarifas públicas em disparada. A carga tributária já não comporta acréscimos. A austeridade não encontra apoio no cenário político.
Não existem lideranças. Falta
credibilidade. Falta iniciativa. Falta proposta. Falta razoabilidade aos
aspirantes à liderança. Temos uma proposta para sanear finanças, tarefa de
bombeiro diante do incêndio. Mas não temos nada para além do sinistro. A
governabilidade está ameaçada. Não temos propriamente um presidencialismo de coalizão, mas de cooptação. Os partidos se dissolveram. As lideranças assim
consideradas optaram por substituir a fundamentação em evidências pelo
convencimento e os aplausos fáceis. A sociedade foi convencida de que o
bem-estar social pode ser alcançado, bastando para tanto ter vontade política,
conforme o mais puro voluntarismo.
Isso serviu para satanizar governos e
próceres do passado e para embasar promessas fáceis, como a “modicidade
tarifária”. Surfar na prosperidade vinda de fora, aproveitando a herança
favorável deixada pelos “vilões” que sacrificaram a própria popularidade no
altar do equilíbrio das finanças públicas, completou o convencimento da maioria
da sociedade de que milagres fazem parte do mundo da economia.
Falou-se muito em milagre no tempo em
que o Brasil cresceu a taxas superiores a dez por cento ao ano. Mas tínhamos
altas taxas de investimento e sabíamos de onde vinham os recursos: superávit
fiscal, embora a carga tributária fosse muito mais baixa, e empréstimos. A
atual crise foi gestada por um quadro muito mais milagroso. Não tínhamos investimentos;
infraestrutura ruim; e recursos humanos qualificados escassos. A economia
sofria intensa reprimarização. Mas tínhamos “pleno emprego”, embora os saques
do seguro desemprego fossem altos. O consumo explodia e a renda aumentava, sem
que a produtividade justificasse tal coisa. Isso é que era milagre!

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