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quarta-feira, 27 de maio de 2015

ARTIGO (RMR)

A TEMPESTADE PERFEITA
 Rui Martinho Rodrigues*



A economia está num pântano: gestão temerária, imprevidência e convicções improdutivas. Faltam investimentos. Serviços de saúde, educação e transporte sucateados. A segurança pública se encontra em triste situação. Políticas sociais não encontram amparo financeiro necessário à sustentabilidade. A desindustrialização ameaça. 



A inflação ataca. A recessão arreganha os dentes. Os juros mais altos do mundo se associam às tarifas públicas em disparada. A carga tributária já não comporta acréscimos. A austeridade não encontra apoio no cenário político.

Não existem lideranças. Falta credibilidade. Falta iniciativa. Falta proposta. Falta razoabilidade aos aspirantes à liderança. Temos uma proposta para sanear finanças, tarefa de bombeiro diante do incêndio. Mas não temos nada para além do sinistro. A governabilidade está ameaçada. Não temos propriamente um presidencialismo de coalizão, mas de cooptação. Os partidos se dissolveram. As lideranças assim consideradas optaram por substituir a fundamentação em evidências pelo convencimento e os aplausos fáceis. A sociedade foi convencida de que o bem-estar social pode ser alcançado, bastando para tanto ter vontade política, conforme o mais puro voluntarismo.

Isso serviu para satanizar governos e próceres do passado e para embasar promessas fáceis, como a “modicidade tarifária”. Surfar na prosperidade vinda de fora, aproveitando a herança favorável deixada pelos “vilões” que sacrificaram a própria popularidade no altar do equilíbrio das finanças públicas, completou o convencimento da maioria da sociedade de que milagres fazem parte do mundo da economia.

Falou-se muito em milagre no tempo em que o Brasil cresceu a taxas superiores a dez por cento ao ano. Mas tínhamos altas taxas de investimento e sabíamos de onde vinham os recursos: superávit fiscal, embora a carga tributária fosse muito mais baixa, e empréstimos. A atual crise foi gestada por um quadro muito mais milagroso. Não tínhamos investimentos; infraestrutura ruim; e recursos humanos qualificados escassos. A economia sofria intensa reprimarização. Mas tínhamos “pleno emprego”, embora os saques do seguro desemprego fossem altos. O consumo explodia e a renda aumentava, sem que a produtividade justificasse tal coisa. Isso é que era milagre!

O mais grave é falta de solução no horizonte. Temos um governo que se passa por oposição e uma oposição que se passa por governo. Assim, não temos oposição nem governo. Temos insatisfação na sociedade, sem termos quem a represente, nem canais institucionais para encaminhá-la. Empurrar com a barriga, usar paliativo, minorar os aspectos mais dramáticos da crise e culpar alguém pelas dores do ajuste é o que está posto. Com a proximidade das eleições as medidas de austeridade serão varridas, a gastança voltará e tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes?

A tempestade perfeita é a crônica de uma morte anunciada. A solução, porém, ainda não foi apregoada. Não com credibilidade e razoabilidade.


*Rui Martinho Rodrigues
Professor – Advogado 
Historiador - Cientista Político
Presidente Emérito da ACLJ 
Titular da Cadeira de nº 10

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