DESTAQUES CEARENSES

DESTAQUES

CEARENSES

Edição

2020

Alexandre Sales

Troféu Empreendedores

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Igor Queiroz Barroso

Troféu Benemerência

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Cabeto Martins Rodrigues

Troféu Prasino Angelos

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PALAVRA DO ANO

EM 2020

“PANDEMIA”

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SENTIMENTO

MAIS DEMANDADO

EM 2020

“RESILIÊNCIA”

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terça-feira, 28 de julho de 2015

CRÔNICA - Auto Filho (VM)


PROF. DR. AUTO FILHO 
CONSULTOR NATA FINA
Vianney Mesquita*

Mais vale ler um homem do que dez livros. (Charles Augustin SAINT-BEUVEYBologne-sur-Mer, 23.12.1804; Paris, 13.10.1869).


Aprendi muito cedo a homenagear este brocardo saint-beuveano, quando  a ignorância, muito recorrentemente, me tortura, em particular pelo fato de aqueles a quem peço valimento serem também subscritores de livros, nas mais das vezes, até muitos, os quais costumo ler somente depois de haver descodificado convenientemente os primeiros.

Só assim, já vou com a certeza de não encontrar colagens em excesso, repetições, tautologias e, não raro, ideações alheias e sem referência, ao ponto de o leitor inábil e bobo intuí-las como da lavra do escrevinhador e, com muita frequência, ache de admirá-lo e dele sair a fazer apologias e jogar confetes, ao propagar ideias subtraídas de outra pessoa na qual o “autor” indevida e desonestamente se hospedou.

Mancheias de nomes sem livros e de valor inconteste saciam a história, exemplares dos quais pinço dois. O primeiro foi meu pai, Vicente Pinto de Mesquita, excepcional autodidata, cujas lições de vida constituíram verdadeiro manual, aide mémoire do conhecimento e da cultura, da lógica e do acerto, da retidão e da verdade  tudo isto haurido de leituras seletas amanhadas no trato do cotidiano e contato com a literatura de teor clássico, brasileira quanto internacional, malgrado jamais haja feito piso de uma escola formal.  Ainda menino, na Palmácea (1) do final dos ‘50, enquanto me deleitava com a Coleção Terramarear (de que constavam volumes sobre Tarzan, de Edgard Rice Burroughs), lembro-me de tê-lo visto lendo A Cidadela, de A. J. Cronin, com dois na reserva – O Castelo do Homem sem Alma (1931) e Os Verdes Anos (1944), do mesmo Archibald Joseph Cronin (YCardross, Dumbartonshire-UK, 19.07.1896;  Montreux – Suiça, 06.01.1981).


Wagner Turbay Barreira é o outro titã do saber  evidentemente em dimensão diversa de seu Mesquita – do qual não guardo notícia de haver deixado trabalho editorado, e de quem fui aluno em duas escolas da Universidade Federal do Ceará, em disciplinas de perfis diametralmente opostos, sendo ele perito em ambas, o bastante para argumento do seu preparo e manifestação da diligência professoral que conduzia, derradeiro reduto de extinção da dúvida. Espelho de mestre. Cristal se ser humano. “Um homem” – conforme disse, certa vez, João Pandiá Calógeras a respeito de Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, ao narrar temas da Proclamação da República do Brasil.

Noutro texto, inserto no trabalho Nuntia MorataEnsaios e Recensões (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2014, 368 p.), exprimia a noção de que, desde iniciado nos misteres da escrita, quando adentrei estudos do antigo curso primário, cuidei de afiançar a veracidade dos conceitos a manifestar, por intermédio, em especial, de obras de referência e de outras produções obsequiosas à consulta.

Apenas depois de convalidadas, as ideias prosperavam no texto, a fim de não conduzir os, então, frugais leitores ao logro, os quais poderiam multiplicar a falácia e perpetuar a inverdade. À medida, pois, que progredia a recepção dos curricula, no contato mais reiterado com excelentes professores – tive-os em profusão – usei de a eles apelar, não somente para obtenção de seus juízos atinentes aos assuntos por mim cuidados, bem assim para que me indicassem fontes onde me pudesse satisfazer da curiosice e amatar o apetite de conhecer, em ultrapasse à mera opinião comum.

A esses referenciais de pessoas cultas, que me não deixam na mão da dúvida e do não saber, costumo chamar “consultores padrão-ouro”, homens e mulheres postados na dimensão intelectual do Prof. Dr. Francisco Auto Filho, sobre quem muito me enleva proceder ao corrente comentário especial, para lhe dirigir, publicamente, um sentido agradecimento depois de salvar um artigo meu para um periódico científico, ao divisar impropriedades que, decerto, reduziriam em muito os proveitos já escassos daquele escrito. Isto ele o fez com a máxima presteza e o maior desvelo e, mui especialmente, sem panos mornos  ao amostrar a nueza real  nem parcimônia, e, inda mais, com incrível acuidade de um pensador de precioso alcance intelectivo.

Quando, em 2004, com a coautoria do Prof. Dr. Anchieta Barreto, demos a público A Escrita Acadêmica – Acertos e Desacertos, servimo-nos – e eu, em particular  de sua habílima consultoria em assuntos filosóficos, de sorte que, de lá até aqui, sempre que se me aza o ensejo, a ele me dirijo a fim de pedir amparo, na minha condição de semicego do saber, pois já chamava à atenção Karl Raimund Popper, em As Origens do Conhecimento e da Ignorância, para o fato de que [...] “somos todos iguais no infinito da nossa incompetência”, ao validar a confissão de Sócrates, quando disse, em síntese mais do que comprimida, só saber que nada sabe, o que muitos doutores e “ph-deuses” não têm a compostura de confessar.

Estudioso por compulsão, esse conhecido e celebrado jornalista investigativo e filósofo cearense, pelos seus escritos mui apreciados, magnas aulas e palestras subministradas aqui e alhures, dentre outras qualidades que lhe ataviam o caráter como prócer da Filosofia e da Ciência, ressalta a particularidade, pouco comum – seja isto expresso – de não rezar, sem que a convicção lhe permita, pelo catecismo de qualquer filósofo ou pensador de nenhum ramo ordenado do conhecimento, pois seu preparo adrede, cuidadoso e atilado lhe concede a circunstância do lume próprio, sem necessidade de uma lucerna emprestada que indiretamente o ilustre.

O Professor Auto Filho sempre me convence nas minhas constantíssimas incertezas, nas repetidas hesitações quando vou manifestar conceitos, razão por que, para gáudio meu, ele é outro dos meus consultores padrão-ouro, que me não permitem em meus escritos vazar a informação falseada.
Sinto-me bem quando posso me expressar assim...  


(1) Palmácea é o nome correto da minha cidade de nascimento, o qual, por corruptela, virou Palmácia. A Arcádia Nova Palmaceana, por meio do Árcade Antônio Carlos Sampaio de Oliveira, vai instar, junto à Câmara Municipal, para que a denominação seja corrigida.


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