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segunda-feira, 13 de julho de 2015

ARTIGO – Saber Interdisciplinar na Ciência da Comunicação (VM)


SABER INTERDISCIPLINAR
NA CIÊNCIA DA COMUNICAÇÃO
Vianney Mesquita*

Se um objeto muda sem cessar, ele jamais poderá ser conhecido. (PLATÃO)

 1.  A Modo de Introdução

No estádio atual da Comunicação proveniente do estado d’arte das Ciências, no que respeita às formas de expressão linguística de suas descobertas com vistas a socializá-las, estudante, estudioso, curioso e mesmo o diletante têm à disposição para discutir – quanto mais amiúde melhor – pelo menos, dois pontos de relevância.

Cumpre, por primeiro, evidenciar a importância que, no tempo corrente, em pleno século XXI, assumem a horizontalidade e as grandes conexões da Ciência. De fato, estão redimensionados os limites, o princípio e o fim de cada uma das divisões e subdivisões do saber.

Significa exprimir a ideia de não mais existir aquela departamentalização didática rigorosa dos diversos terrenos disciplinares.

A Ciência parece se reencaminhar na convergência para a Filosofia, da qual divergiu há tempos bastante transatos. Desaparecem, por conseguinte, os segmentos, restando obedecida a reta inteira, numa constante relação de interdependência, para o exercício dos distintos momentos do decurso investigativo.

Há mais de 80 anos, verbi gratia, Jaspers (1932), com base em Lahr, exprimia a opinião de que não existe o saber particular. Reportando-se à antiga e sempre reverenciada Escolástica (de Pedro Abelardo, Anselmo da Cantuária, Bernardo de Claraval e tantos outros), entende ser impossível individualizar tudo, reunindo detalhes e circunstâncias: non datur scientiae de individuo.

Consoante seu Manual de Filosofia, para Ludgero Jaspers, caso o objeto da Ciência radicasse no particular, como seu primordial objetivo é conceituar e explicar, e pelo fato de não existirem na Natureza dois seres, tampouco dois fatos totalmente idênticos, a Ciência teria de “[...] formular tantas leis e definições quantos indivíduos existem”.

Ele aduz (Op. cit.) ser este trabalho tão despropositado, quanto insensato é definir um só, pois não é possível reunir numa só ideia, estabelecer numa lei a pletora de detalhes e situações especiais constitutivas do ser ou fato singular: Omne individuum ineffabile  – o todo individualizado é inexprimível.

Já na intelecção do filósofo e botânico neerlandês Hugo de Vries (Haarlem, 1848; Lunteren, 1935), ao estreitar o conceito de Ciência, esta representa [...] um corpo de doutrina, metodicamente formado e ordenado, que constitui um ramo particular do humano saber. (In BRUGGER, 1969).

Esse autor chama a atenção para o fato de que o desdobre dos objetos do conhecimento conduziu a uma gradual distinção  das Ciências, com o resultante perigo de estreitar a visão a um restrito domínio técnico e de se perder de vista as “grandes conexões da totalidade do ser”. (ID. IBID.).

O outro ponto de saliência desta discussão é terminante e indescartável, pois situado na necessidade de se conceber, não sem risco de erro, o universo vocabular de cada saber.

Por expressa razão, concebe-se o argumento de que não apenas o posicionamento ante a obrigatoriedade do intercâmbio disciplinar deve ser mais refletido, senão, também, há de ser avigorada a sistemática de adequação – e até criação – dos léxicos próprios de todo saber. Malgrado com o xeque de confronto e inadequação da linguagem emprestada, do tomador com o credor, o desenvolvimento teórico e prático da procura científica precisa ser incansavelmente debatido.

Por conseguinte, esses temas são dispostos em circulação, especialmente em direção aos estudantes desse gradil didático do lato espectro da Filosofia das Ciências, a fim de que tenham o ensejo de suscitar hesitações, sugerir para enriquecimento do assunto e aportar conclusões, dirimindo tais dúvidas.

Intencionalmente, não se indigitou, nesta reflexão, o modo como, em que grau, se efetua a vinculação das diversas ramificações do conhecimento com a Ciência da Comunicação, exatamente com a finalidade de estimular a demanda dos consulentes à literatura pertinente e afim, exercitando suas habilidades e os auxiliando a ingressar, conscientemente, neste debate até sua relativa exaustividade.

2 SABER INTERDISCIPLINAR

Em decorrência da universalização do conhecimento e do consequente acesso de estudantes e curiosos às mais distintas classificações do saber organizado, parece não haver mais, grosso modo, aqueles rígidos parâmetros que lindavam, tempos atrás, os diversos teores disciplinares, a não ser para efeito didático.

A Ciência – extensiva, horizontal e encadeada – se favorece de toda a gama de informações e realidades, demandadas e encontradas com o rigor dos procedimentos de busca que lhe devem ser próprios, para justificar, demonstrar e explicar os fatos. Estes, procedentes do conhecimento não unificado, oriundos da opinião comum, tiveram como resultado a verdade.

Não se assevera, evidentemente, seja essa verdade definitivamente certa, na forma final, intocável e absoluta, inquestionável, pois passível de ser revista – e revisionada – na constância do perene trajeto investigativo.

Com suporte nessa temporariedade presumida do feito científico, na relatividade de sua certeza, os diversos sub-ramos das experiências do saber acumulado, com remissão especial àqueles jungidos à vida social (custoso, senão impossível, desagregar do social qualquer disciplina), se penetram, sem respeitar os limites que a Didática “ultrapassada” houve por bem traçar para conferir maior trabalhabilidade ao ensino, máxime nos seus níveis mais elementares.

Aqui o ensino acha de considerar um conhecimento estanque, como se as certezas relativas não dependessem umas das outras para prosperar com a busca e alcance do saber a que Herbert Spencer, filósofo inglês, fundador da Filosofia Evolucionista (Derby, 27.04.1820; Brighton, 08.12.1903), denominou de parcialmente unificado.

Desta arte, ao divisar o ponto gnosiológico e preterir – entretanto sem desprezar – as sistematizações da Didática para o elementar, reconhecidamente válida e eficaz para suas proposições, é que, numa linha discursiva epistemológica, é defeso, exempli gratia, examinar a Química no seu geral, sem a interveniência dos fenômenos de Física, Matemática, Lógica e Biologia.

Decerto, inexiste um “aqui termina a Matemática”. Tampouco se cogita em um como “aqui tem começo a Física”. Resulta interdito fazer a traça, mesmo simplificada, da Ciência Econômica, sem se estar de posse de referenciais extraídos da História. Será deveras difícil, ou mesmo inexequível, a análise profunda de um paciente nervosamente desordenado, se não se detiver noções de suas procedências genéticas, da etiologia de seus desalinhos mentais, encadeadas com informações concernentes ao seu passado e presente sociais, do desenvolvimento antropológico de tal pessoa – físico quanto etnológico – de suas relações com o poder e o Estado, e por diante.

Há, noutra remissão exemplificativa, enorme dificuldade de identificar a que setor do conhecimento se vinculam alguns problemas da vida comunitária de pessoas e grupos humanos, se à Etnologia (Antropologia Cultural), à Sociologia ou à Psicologia Social.

A igual, sucede com a Física, a Eletrônica e a Biologia, na consorciação desses três saberes para o estabelecimento da Biodinâmica ou Teoria das Forças Vitais, da Biofísica (processos biológicos por meios físicos) e da Biônica – Biologia + Eletrônica et reliqua.

Modernamente, todavia, tais constituem pontos somenos, porquanto a Didática já se adaptou a esta exigência científica, de sorte que o busílis não é mais este do confinamento disciplinar.

Um problema, contudo, facilmente eludível (entende-se), se pacientemente acordado entre estudiosos, é aquele atinente ao léxico subsumido por parte de todo saber.

A terminologia de emprego “particular” de cada Ciência, ramo ou sub-ramo merece realmente a atenção de quem estuda, pesquisa, relata e publica. Há a denominada “univocidade de conceitos” em Ciência, e este é outro óbice que a Didática precisa ajudar a remover, jamais, isto é, no tocante ao saber acerca do social.

A Língua Portuguesa, na sua riqueza polissêmica e homonímica, demonstra-se, muita vez, sincrítica, ou seja, traz antíteses nas significações de alguns termos, o que ajudaria bastante se a Ciência corresse apenas nas comunidades de código lusófono.

O vocábulo unívoco, verbi gratia, possui duas significações absolutamente antitéticas e paradoxalmente antinômicas: 1 “que se aplica a muitas coisas do mesmo gênero e da mesma ou diferente espécie”; e 2 “que só admite uma forma de interpretação; homogêneo, uníssono ou homônimo”. (FERREIRA, 1972 – impôs-se negrito).

Ora, na sua universalidade, a Ciência parece adotar a segunda acepção, o que submete a snooker os sistematizadores de áreas recentes do conhecimento, [...] “em confronto [...] com as óticas (sic) entrincheiradas das disciplinas acadêmicas já (sic) consagradas”. (EPSTEIN, 1987, p.88).

Ex expositis, valerá, então, a engenhosidade, a indústria de cada qual, ao fazer funcionar o sistema das adaptações. Com recorrência, será necessário (felizmente ou não? – pergunta-se aos puristas) cunhar neologismos, o que a Gramática, também científica, poderá não apreciar. Certamente, porém, ao validar a diacronia própria de cada sistema glossológico, aceitará o fato e o perfilhará, na dependência da sujeição às regras científicas de formação vocabular, como são, p.e., as derivações regressiva e implícita, determinantes na consolidação das palavras novas decorrentes da evolução natural de cada código idiomático.
Por conseguinte,

[...] será necessário mais do que metáforas oportunas ou criativas: os conceitos velhos adaptados ou novos criados (sic) deverão se ajustar à realidade que pretendem descrever [...]. Em suma, a visão interdisciplinar deverá dispor de uma linguagem adequada [...]. (EPSTEIN, 1987, p.88),

uma espécie de Esperanto da Ciência em geral, o que é bastante factível.

Solucionado o problema, até mais complexo, dos limites e do aparelhamento conceitual dos diversos saberes, a composição dos léxicos parece constituir sequela natural do fenômeno.

3 COMUNICAÇÃO E DEPENDÊNCIA INTERDISCIPLINAR

Cuidadas de modo ligeiro no item imediatamente anterior, as mesmas aposições, todavia, cumpre se proceder, também, relativamente à Comunicação: nos casos da limitação de objetos materiais e da tese da univocidade e adaptação de léxicos conceituais.

Célula do conhecimento empiricamente antiga e cientificamente nova, a Comunicação veio tomar ares de sistema investigado, com maior vigor, depois da Segunda Guerra Mundial.

Diversos estudos sistemáticos, entretanto, de fatos, instrumentos e aparelhos, componentes, hoje, do seu universo de emprego e pesquisa tecnológica em franco desenvolvimento, haviam sido realizados desde os começos do século XIX, sem delimitar-se, por impossível, um marco de início, seguramente distante, no tempo, dos primeiros sucessos práticos, de aplicação na sociedade.

De 1940 a 1950, faz notar Morin (1972), a Sociologia das Comunicações de Massa, calcada no célebre estudo do paradigma para orientar a apreciação científica dos variados aspectos da comunicação coletiva, proposto pelo cientista político ianque Harold Lasswell (Donnellson – Ilinois, 13.02.1902; 18.12.1978), já constituía a subdivisão mais original da Sociologia da América do Norte. Esta informação corrobora, pois, a preeminência do seu estudo teórico intencional como significativa novidade da senda das matérias referentes ao social. Consoante o esquema de Lasswell, o exame científico da Comunicação tem estribo nos itens delineados na sequência.

- QUEM – fatores que iniciam e guiam o ato da Comunicação = análise de controle;

- DIZ O QUÊ – análise de conteúdo;

- EM QUE CANAL – meios interpessoais ou de comunicação coletiva = análise de meios;

- A QUEM – pessoas atingidas por esses meios = análise de audiência; e

- COM QUE EFEITOS – impacto da mensagem sobre a audiência = análise de efeito.

O relacionamento interdisciplinar da Comunicação – deixando-se de inventariar fases e fatos de sua história científica recente – é tão flagrante que se poderia deixar de reportar, na pressuposição de que a referência fosso trivial.

É conveniente e útil, contudo, realçar a vinculação comunicacional com diversas disciplinas do elenco das Ciências, para demonstrar a enorme dependência guardada reflexivamente.

Quase toda a grade conceitual da Comunicação é montada sobre a terminologia das Ciências Sociais, ideia a que se retornará a escólio logo mais.

No exame do primeiro caso, respeitante ao ilimitado campo de abordagem de cada unidade disciplinar, fácil será estabelecer conexão da maioria das Ciências com a Comunicação.

Os aprendizes, “engenheiros” e mestres da Ciência poderão executar ao máximo às ligações, levando em conta as que se procedem à frente e aquelas mencionadas, quando se feriu o assunto relativo a qual vertente do saber são alocados alguns problemas comunitários.

Liga-se à Física quanto à Química e à Biologia; vincula-se extraordinariamente à Estatística e à Lógica; une-se, frequentemente, ao Direito e à Ética, à Economia, à Ecologia; incursiona permanentemente pela História e, com frequência, convive e é visitada pela Geografia; constitui a própria essência da Informática e traz à colação, de ordinário, fórmulas e compreensões da Matemática; está, em muitos passos, umbilicalmente ligada à Psicologia; não pode ser dissociada da Estética, nem das Artes, tampouco das Letras e da Poética; integra a Linguística e adjetiva a Semiótica.

4  À MANEIRA DE REMATE

Ex positis, a Comunicação representa, alfim, o emprego da Ciência em favor do escambo sígnico social, espécie de cadinho onde se funde a língua empregada pela Humanidade para tocar o progresso e acumular a cultura.

No concernente ao segundo caso – adequação da linguagem – não é muito difícil a elaboração lexical da Comunicação, porquanto veste o pano conceitual da Sociologia, de nomenclatura e terminologias unívocas acatadas pela comunidade científica internacional, naquilo que se compadece ao exame dos ingredientes sociais.

Simultaneamente, também, fala e escreve as codificações das várias Ciências do Natural, do Físico e até do Sobrenatural, de que se utiliza, sem muitas queixas das óticas entrincheiradas, às quais se reportou Isaac Epstein.

Tal hibridismo léxico propiciou a formação de um já significativo glossário próprio de termos e unidades de ideias originadas de línguas diversas, em uso constante e no banco, a fim de complementar palavras e enunciados tomados a outros orbes vocabulares, que servirão de adjutório para extinção daquelas pouco consentâneas metáforas criativas, divisadas pelo prefalado autor (1987).

Assim configurado, prosseguem os ensaios de Comunicação, no concerto de seu universo conceitual linguístico, e mediante verdadeiro “contrato de comodato” com a terminologia científica, adventícia, entretanto, afim, alçando-se a patins dignos e a resultados excepcionais na discussão, debate e explicação das suas descobertas e funções na qualidade de componente da Ciência.

REFERÊNCIAS

BRUGGER, Walter. Dicionário de Filosofia. 2. ed. São Paulo: Herder, 1969. (Trad. Antônio Pinto de Carvalho).
DE VRIES, Hugo. Ciência, in BRUGGER, Walter. Dicionário de Filosofia [...].
EPSTEIN, Isaac. Desafios da interdisciplinaridade. São Paulo: Revista Intercom, 56, 1987.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Hollanda. Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo: Nacional, 1987.
JASPERS, Dom Ludgero. Manual de Filosofia. 6. ed. São Paulo-Caieiras; Rio de Janeiro: Melhoramentos, 1932.
MESQUITA, Vianney. Comunicação e Conhecimento Interdisciplinar. Revista Comunicarte. Campinas: PUCCAMP, 1988.
MORIN, Edgar. Novas Correntes no Estudo das Comunicações de Massa. In Cultura e Comunicação de Massa. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1972.

*João VIANNEY Campos de MESQUITA é Prof. Adjunto IV da UFC. Escritor e jornalista.  Acadêmico Titular das Academias Cearense da Língua Portuguesa e Cearense de Literatura e Jornalismo. Árcade fundador da Arcádia Nova Palmaciana. Membro do Conselho Curador da Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura-FCPC-UFC.

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