BOM LUGAR
Reginaldo Vasconcelos*
O Bom Lugar era uma das herdades divididas e subdivididas
em inventários seguidos, assim como a Veneza, o São João, o São Paulo, em que
os antepassados icoenses recolhiam-se para as invernadas, até que pela década
de 30 do século passado o Governo elegeu a região para nela implantar um
projeto agrícola gigantesco, a partir da construção das represas de Orós e Lima
Campos, a montante dos córregos dessas quintas.
Chegava-se ao Bom Lugar pelo sítio Vocoró, passando pelo Coberto,
em direção ao Mucururé-de-Dentro. Não havia placa nem cancela a delimitar o seu
território, mas a profusão de seixos rolados que lhe compunham o solo. Miríades
de bolinhas de quartzo em todos os matizes, a nos chiar nos pés, nas patas dos
cavalos, nas rodas dos carros. Em cavalgadas noturnas, ao subirmos a Ladeira
dos Foguinhos, faiscavam alegremente.

Não tenho certeza se a aura mística que envolve o Bom Lugar
vem dos pajés, ou se foram o português, o espanhol, o holandês, que por ali se
instalaram, que trouxeram os seus fantasmas branquelas dos castelos europeus.
Também é dúvida a contribuição do escravo negro, com o seu rico imaginário
iorubá, para a mitologia própria da fazenda, repleta de lendas.
É certo que por todos os sertões desenvolveram-se histórias
de alma do outro mundo, de elementais diversos, de aparições inexplicáveis,
geralmente repetindo-se em locais determinados, sob uma tal árvore frondosa ou
específico trecho de caminho. A respeito desse fenômeno sociocultural, Rachel
de Queiroz traçou uma crônica magnífica denominada de “Marmota”.
Porém, o Bom Lugar, de forma difusa, todo ele inspirava
essa atmosfera de magia. Pela estrada de acesso, sua espinha dorsal, diziam
caminhar em certas noites uma perna humana usando espora, chocalhando a roseta
e ciciando no pedregulho.
Diziam também ouvir às vezes os gritos e assobios dos “meninos
do arrozal”, negrinhos que, no passado, eram obrigados a passar os dias
inteiros pastoreando a rizicultura, espantando os passarinhos comedores.
Como o zelador do nosso gado e do nosso quinhão “bomlugarino”
morasse distante, internado num sertão colonial, repleto de veredas e riachos,
certa feita fui à noite convocá-lo a ter com meu pai no dia seguinte. Era uma
sexta-feira santa, montei o Cuidado, árdego cavalinho ruço, pajeado por um
filho de vaqueiro, ele sobre uma burrinha prostituta, amásia infidelíssima do
caboclo Artur de Tarefa.
Na volta da jornada, alta madrugada, lúcido plenilúnio, ao
passarmos defronte aos escombros da casa de um antigo morador no Bom Lugar, o
Cuidado cismou do tempo, orelhas erguidas, patanhando nas pedrinhas, andando
para trás. Com o que o cavalo via não se pode atinar; mas de que algo ele via
tenha-se certeza. O que havia na margem do caminho era apenas um monte de
tijolos, que desde sempre estivera lá, pois nenhum contemporâneo chegou a
conhecer a casa erguida, mesmo entre os mais idosos que os idosos conheceram.

Decidimos a viagem em mesa de bar, após candente bate-papo
saudosista, e fomos como quem vai buscar o fogo, em maratona rodoviária de dois
dias, intensos como séculos.
O Bom Lugar ainda surpreende. Tantos anos exilado de minha
gente e sua cultura, desfigurado aqui e ali pela caterpillar monstruosa, ainda
oferece uma última pérola para o seu vasto fabulário.

Eu e ele sabemos, a nossa interlocutora não sabe, uma moça
foi picada por cobra venenosa naquele sangradouro há muitas décadas, quando
voltava de seu próprio casamento, com um cortejo de andarilhos, como era
costume. Cegou de imediato e encontrou a morte logo após, enquanto o noivo a
conduzia nos braços para a casa da fazenda. Este, por sua vez, enlouqueceu,
sendo amarrado a uma árvore, onde pernoitou, gritando em desespero.
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