O SENTIDO DA REALIDADE
Rui Martinho Rodrigues*
Anuncia-se o mensalão II, agora na
PETROBRAS. O primeiro terminou contraditoriamente entre condenação e elogios
aos envolvidos no ataque as instituições e ao erário. Os elogios agora parecem
significar a atitude de quem diz: “Faremos novamente, continuaremos fazendo
sempre, os nossos fins políticos justificam tudo, e o serviço que
[supostamente] prestamos à sociedade nos faz merecedores de recompensas
pecuniárias”.

Realismo político é interpretação leniente.
Não há realismo no solapamento das instituições; e na escolha consciente de
aliança com atores desqualificados. Mais grave: o alto preço pago na forma de
corrupção não inclui as reformas necessárias, seja no campo tributário, da
política industrial, no campo político institucional e tantos outros. O
argumento da governabilidade falece diante da paralisia do governo. Pratica-se
corrupção em nome de uma governabilidade que não se concretiza. Busca-se
confundir a opinião pública com o argumento do realismo político. Pratica-se,
ainda, autoengano e apego ao poder.

Não há ética da responsabilidade nem
ética alguma no sacrifício do erário e das instituições democráticas. Pior
ainda quando isso não serve de arrimo a nenhum outro valor supostamente em colisão
com a probidade administrativa e a defesa das instituições democráticas. A
alegada ética dos fins, fundada na certeza subjetiva de “ser do bem”, além de
denotar presunção, resulta na supressão da ética e na deformação moral de quem
a pratica. Não pode haver sociedade nem política sem ética. Não se trata de “moralismo”.
O “ismo” aí pode ser cinismo e oportunismo dos corruptos; e fanatismo dos
inocentes úteis.
O fator quantitativo guarda íntima
relação com o aspecto qualitativo. A corrupção generalizada, absoluta, guindada
a condição de doutrina partidária e de prática de governo degrada as
instituições, degenera os políticos, prejudica as empresas estatais, tão amadas
pelos seus agressores, além de ser social e economicamente funesta.
*Rui
Martinho Rodrigues
Professor
– Advogado
Historiador
- Cientista Político
Presidente
da ACLJ
Titular
de sua Cadeira de nº 10
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