O grande salto
Paulo Ximenes*

A coisa se encaminhava mais ou menos assim: quando
um menino dessa idade galgava o trampolim de dez metros (geralmente à revelia
dos pais ou instrutores), os olhos do Náutico se volviam para ele. Se o
pirralho amarelasse e descesse pelos mesmos degraus que acabara de vencer, os
outros zombariam dele, e talvez lhe molestassem com peganhentos apelidos,
fadados a acompanhá-lo pelo resto da vida: Amarelão, Zé do Medo, Calça
Frouxa...
Mas, estranhamente, se ele se despencasse lá de
cima, ainda que se estatelasse n’água feito um saco de batatas, não ouviria
vaias e nem aplausos, nada que lhe importasse notoriedade. Conformava-se o
herói-menino com a possibilidade de haver a sua musa guardado em si um fio de
admiração pelo breve instante de denodo.
Na vida tudo é questão de preparo e persistência. É
precisamente por isso, que apesar da altura colossal e necessária a um salto de
paraquedas (executado por alguém devidamente treinado), a adrenalina é coisa
boa e o silêncio só é riscado pelo estalido do velame. Mas num salto de
trampolim, levado a cabo por um frangote desnorteado, os poucos segundos de
chão abaixo serão sempre talhados pelo flash do arrependimento.
Quando decidi encarar aqueles benditos degraus,
travei a mais ferrenha batalha da minha vida, acrofóbico que sou. Foi o olhar
inquisitivo daquele anjinho do céu que me empurrou ao precipício – dois ou três
segundos de queda livre que me pareceram uma eternidade.
*Paulo Ximenes
Cronista e Poeta
Titular da Cadeira de nº 12 da ACLJ
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