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terça-feira, 21 de agosto de 2018

CRÔNICA - O Prisioneiro (RV)


O PRISIONEIRO
Reginaldo Vasconcelos*



Um daqueles jovens africanos que assistem no São Sebastião em Fortaleza, nas bancas de frutas ou nos tem-de-tudo populares, me convenceu a comprar uma ratoeira de alçapão, aquelas que em vez de matar o bicho o aprisionam. Mais encantado pelo engenhoso mecanismo, e pela simpatia do vendedor, adquiri o objeto.

Armei no quintal e passaram-se meses sem que tivesse resultado, ainda que de vez em quando eu fosse lá renovar a isca. Já tinha até brincado com o simpático senegalês, que o artefato que me vendera era ótimo para pegar freguês, mas não pegava rato.

Eis que certa manhã me deram notícia de um infeliz presidiário que caíra na armadilha, certamente um exemplar do que os especialista chamam “ratos turistas”, aqueles não residentes que se tornam itinerantes, aventurando-se por amplo território a procura de comida.

O animal não ciciava como normalmente os ratos fazem – voz que na fábula infantil encantou a Dona Baratinha. Este gritava, rosnava, grunhia. Ao me aproximar ele me encarava, exibindo os incisivos e vociferando contra mim. E então eis-me diante de um dilema sem tamanho: fazer o quê com aquele prisioneiro revoltado?

Compreendi então a grandeza moral do Dr. Guillotin, médico francês que, não conseguindo convencer Luiz XVI a abolir a pena de morte, inventou a guilhotina, para “beneficiar” os condenados – e do anônimo que fez a primeira ratoeira de mola, a qual promove a morte súbita do animal, o chamado “abate humanitário”.

Deploro quem invade a propriedade alheia, seja gente, seja bicho, praga social ou praga doméstica, como neste último caso. Ratos deveriam obter abrigo e alimentos com o suor do próprio rosto, como fazem o preá e a cotia, ao invés de invadir os quintais e os armazéns das pessoas para obter o passadio – pensava eu assim para justificar, perante a minha consciência, o prenunciado suplício daquele penitente roedor.

Houve sugestões familiares odiosas de que fosse ele imolado em chamas, ou afogado, ou mesmo empalado com um ferrete, enquanto estava preso e indefeso – mas nada disso me pareceu forma digna de sacrificar um inimigo, embora preso, ainda impoluto  configurando, juridicamente falando, a qualificadora do modo cruel, ou, no jargão jornalístico, “requintes de perversidade”. 

No meu longo passado já cacei animais em campo aberto, e já me dispus a atirar em bandido, situação em que a presa tem sempre uma chance natural de esconder-se, de fugir, ou mesmo de reagir, o que é diferente de abater quem já está preso.

Quanto mais um bravo como aquele – e o cangaceiro Lampião poupou a vida de um soldado que, capturado e amarrado, manteve-se altivo e não se rendeu à covardia:

– Capitão, você vai me matar porque me pegou à traição. Senão eu morreria lutando.

 Solta o cabra! Um homem desse não se mata fora do campo da honra.

Então eu me lembrei de uma velha crônica de Carlos Drummond de Andrade, “Caso de Canário”, em que o genro foi escalado pelo sogro para sacrificar um estimado passarinho da família, que sofria de mal incurável e irreversível. Novo na casa, o rapaz viveu um drama semelhante ao meu, mas afinal se decidiu.

Ele usou éter para adormecer a avezinha, para depois lhe torcer o pescoço, mas, ao fazê-lo – segundo o happy end que Drummond deu à história – o passarinho abriu os olhos e lhe beliscou os dedos, de repente redivivo, fazendo crer que ele só precisava de uma substância cordial que lhe estimulasse o coração, ou de uma manobra de quiropraxia que lhe liberasse vértebras cervicais ou desobstruísse uma via orgânica.  


                 

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