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terça-feira, 21 de agosto de 2018

ARTIGO - A Escolha de Sofia (RMR)


A ESCOLHA DE SOFIA
Rui Martinho Rodrigues*


A Escolha de Sofia é um filme no qual uma mãe, prisioneira dos nazistas, é forçada a escolher um dos filhos para a câmara de gás. Ouço de leitores a queixa de que não têm em quem votar. Faltam candidatos e partidos qualificados. O voto criterioso deve considerar a experiência administrativa, a necessária habilidade para lidar com o Congresso, equilíbrio e moderação indispensáveis à pacificação da sociedade, probidade, renovação dos quadros políticos, força, impetuosidade e coragem para romper com os velhos vícios da vida pública, quebrando o mecanismo da corrupção, qualificação intelectual, plano de governo e uma base partidária sólida para governar.

Tudo isso junto seria como se a mãe do filme aludido pudesse salvar ambos os filhos. Escolher alguns dos critérios, renunciando aos demais é uma “escolha de Sofia”. Experiência administrativa e política não anda de braços dados com a renovação da vida pública. O chamado sangue novo não é certidão de capacidade administrativa nem de aptidão para difícil negociação com o Congresso, governadores, prefeitos, variados grupos de pressão e outros atores políticos. Já se disse que o Brasil não é para principiantes. Renunciar à renovação das lideranças e das práticas políticas em nome da ruptura com as velhas práticas é uma escolha difícil.

Optar pelos experientes, hábeis na negociação, veteranos do jogo político tradicional esgotado, com todos os seus vícios, é jogar fora a oportunidade histórica de mudar o que deve ser mudado. A habilidade política da experiência é uma certidão de envolvimento com os vícios do patrimonialismo caracterizado pela troca de favores e a indiferenciação do patrimônio público em face do privado.

A indispensável probidade é uma exigência diante da qual só sobrevivem os estranhos no ninho da política. Estes, não tendo praticado jogo sujo, não tiveram acesso a cargos no Executivo nem na liderança do Legislativo. Não revelaram “habilidade política”. Permaneceram no baixo clero do Congresso ou não passam de neófitos na política. São despreparados. Podendo ser impetuosos.

Representam renovação de condutas e a quebra do mecanismo apodrecido da política. Estas qualidades geralmente não andam em companhia do preparo intelectual, do equilíbrio e da moderação. Poderá um ator com perfil de “rompe mato” apresentar planos feitos por algum técnico. Mas isso pouco ou nada significa. Já a base partidária sólida e a promessa de governabilidade é também um compromisso de continuidade de tudo que a nação não suporta mais.

Não temos escolha indolor, seja com uma liderança personalista do tipo impetuoso, seja um conciliador de atitudes lenientes. Crise da continuidade de um modelo que já não funciona ou crise de uma ruptura: eis a escolha de Sofia que nos cabe.




COMENTÁRIO

Magnífica a análise situacional que o Prof. Rui Martinho Rodrigues descreve em seu artigo, demonstrando o dilema que os brasileiros viveremos nas eleições que se avizinham, compelidos a decidir votar no sangue novo dos candidatos “ficha limpa” na política (lato sensu), aqueles não contaminados pelo mecanismo mafioso de compadrio, de conchavo, de toma-lá-dá-cá que está naturalizado na administração pública brasileira, ou então votar nos candidatos com maior tradição no Poder Público – ex-tudo ou ex-qualquer-coisa em governos anteriores – portanto experientes nessas práticas espúrias, por isso mesmo mais aptos a lidar com as suas manhas e a garantir espaço no alto clero do Congresso, ou a tal da “governabilidade” que o sistema exige do Poder Executivo.

Fernando Haddad, consultado sobre a dificuldade de governança que ele enfrentaria, na eventualidade de ser eleito à Presidência da República, diante de um Parlamento ideologicamente adverso, tinha uma resposta pronta, que poderia ser utilizada por qualquer um dos candidatos sangue-novo. Disse ele ter convicção de que as boas ideias são sempre irresistíveis, de modo que ele espera, em sendo eleito, conseguir apoio parlamentar ao seu plano de governo, que considera genial.

Reginaldo Vasconcelos


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