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terça-feira, 21 de abril de 2015

CRÔNICA (RV)

UM CONTO DA VIDA REAL
Reginaldo Vasconcelos*


Inês Mapurunga é acadêmica da ACLJ, titular da Cadeira de nº 35, cujo Patrono Perpétuo, por escolha dela mesma quando da fundação da sua cátedra vitalícia, em 2011, é Alfredo Carneiro de Miranda, seu velho pai, ainda presente ao mundo até então, mas já mentalmente ausente das tribulações materiais, até que em 2014 seu espírito foi a Deus.

Esta semana passada, Inês perdeu um pacote de dinheiro público com que faria pagamentos em uma aldeia quilombola aonde ia trabalhar, cumprindo a sua função profissional, a serviço do Governo do Estado.

O numerário sumiu-lhe durante a viagem no automóvel oficial, sem hipótese de que lhe tivesse sido subtraindo por alguém, vez que ela não se afastara por um instante da sua bolsa a tiracolo. Mistério e angústia, prejuízo e desespero, pois o valor era expressivo para ela.

A chefia, informada no dia seguinte, sofreu solidária com a Inês, mas a dificuldade de provar sua versão improvável a esmagava.  Não era apenas o esforço ingente que teria de fazer para repor a quantia ao cofre público – o que efetivamente faria – mas antes o seu impoluto e valioso conceito pessoal junto aos colegas de trabalho, que restasse ameaçado, era o grande componente de seu sofrimento moral naquele transe.

Aí Inês rezou, e ocorreu-lhe dirigir ao pai e patrono acelejano falecido uma oração especial, pedindo-lhe inspiração sobre como agir, requerendo luz sobre os fatos da viagem, solicitando indicação que desvendasse aquele perverso segredo que o mau fado lhe impunha.

A elevação da alma a Deus, com a intervenção espiritual do velho pai, a fez lembrar que sentira uma indisposição já na partida da viagem, e que enquanto o motorista abastecia o carro ela procurara a farmácia em frente ao posto para comprar um analgésico.

Ela então se socorreu de um amigo acadêmico para voltar no carro dele à drogaria, e o proprietário lhe devolveu incontinente o pacote recheado de maços de notas, todos intactos, que ao procurar a carteira na bolsa para pagar o remédio, na aflição de sua dor, ela deixara cair sobre o balcão. 

Com o bendito pacote de dinheiro voltou Inês ao seu apartamento em lágrimas, mistas de susto e gratidão, de alegria e de receio. Como demonstrar à Repartição que fora assim; que fora o destino, e não ela, que se arrependera da maldade e a revertera?

Nesse exato momento dois acadêmicos da Decúria Diretiva da ACLJ lhe tocam a campainha, para convocá-la pessoalmente à Assembleia Geral Anual do silogeu que ocorrerá esta semana – sem terem eles conhecimento prévio do seu drama – mas notando incontinenti a expressão de angústia semialiviada da confreira.

Ato contínuo, os dois foram então com ela à drogaria em que se dera o inocente perdimento, e a devolução virtuosa, e munidos de um aparelho celular que portavam gravaram em vídeo e áudio um depoimento franco do honesto farmacêutico. 

Inês Mapurunga é convicta agora de que o espírito de seu velho genitor operou em seu socorro, e que para fazê-lo mobilizou a confraria, da qual, in memoriam, também ele é integrante. Duvidar disso se pode, mas os fatos não nos permitem desmenti-la. Se é assim, Amém!
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Alfredo Miranda vivia no frescor da serra, onde produzia licor de frutas diversas, oferecido aos visitantes de Viçosa em sua loja de sabores, que a família ainda mantém. Era um emérito contador de histórias, um memorialista, um poeta, um conversador delicioso.

Era ainda fazedor e tocador de pífaros, essa mágica flauta transversa que certamente remonta aos primórdios da memória antropológica.

Pífaro é instrumento que vem de tempos imemoriais, apareceu em muitas culturas e em todas as latitudes do Planeta, e com denominação vária em diversos dialetos, de muitos idiomas.

Uma fina canela de osso, um esguio gomo de bambu, um pequeno cilindro oco de qualquer matéria rígida, com meia dúzia de furos por onde se controla com a ponta dos dedos a saída do ar soprado pela boca no conduto interno, vai produzindo sonoridade melódica maviosa.

Porém, a manufatura desse objeto rústico, bem como retirar dele as melodias pretendidas, são diferentes habilidades delicadas, a exigir apuro prático e lavor artístico refinados. Até por sua simplicidade essencial, o pífaro é coisa que requer muita ciência e muita lírica para ser feita com acerto e ser tocada com beleza.

Esse mago de saberes, um autêntico mestre da cultura cearense, que do acervo ibérico que nos veio em caravelas e subiu a montanha, sincretizado com a experiência hereditária dos indígenas, fez a sua própria arte.

E ele produziu uma bela prole, à qual transmitiu sua vocação: a filha musicista, ilustradora, poetisa, compositora de belas loas de maracatu; uma neta latinista, instrumentista, formada em música e especializada em sonorização e sonoplastia de cinema.

*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ


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