AUTOMÓVEL É DOCUMENTO
Reginaldo Vasconcelos*

Era um tempo, por volta dos anos 50, em que
pessoas de alguma projeção profissional e de melhor nível – bancários,
professores, jornalistas, médicos, magistrados – estes somente se apresentavam
em público usando “terno” – e devidamente engravatados.
Drummond diz que, quando era funcionário
público, por qualquer razão foi ao centro da cidade vestido como gente comum,
de “slack”, e então experimentou
situações que lhe pareceram inusitadas, tratado pelo público com algum desprezo,
ou com descabida intimidade.
Na fila de um Banco, por exemplo, o
homenzinho da limpeza, lhe batendo impertinente com a vassoura nos pés,
dirigiu-se a ele sem a mínima cerimônia: “Vamos
afastar o pezinho, para o papai aqui poder trabalhar?!”.
Hoje, paletó e gravata não mais sinalizam status
tanto assim, desde que vendedores itinerantes de livros, pregadores de igrejas de
subúrbio e advogados porta-de-cadeia os tornaram habituais.
O carro que a pessoa ostenta, este é o
moderno indicador de prosperidade e sucesso pessoal, primeiro “sinal exterior
de riqueza”, quando novo, top de linha, ou de uma das marcas importadas. Se
for um veículo mais velho, ou de categoria popular, pressupõe indigência
financeira, decadência econômica, desimportância social.
Encontramos no trânsito um antigo colega de
colégio dirigindo um bom automóvel e então já deduzimos que aquele terminou a
faculdade, acertou no curso, fez um bom concurso, galgou um emprego público de
ponta, ou se tornou empresário e o negócio prosperou. É um raciocínio
inelutável.

O carrinho era seminovo, “completo”, de bom
espaço interno e ótima dirigibilidade, de suspensão tão firme que parecia “uma
bolinha de borracha”. Motor econômico, mecânica robusta, manutenção barata, o Uno
supriu a falta do velho Fusca, e foi por muitos anos escolhido pelas empresas
para o trabalho dos seus vendedores, pelos sertões e pelas cidades.
Mas se trata de um modelo popular, o mais
popular do mercado, hoje já fora de linha, recentemente substituído por uma
versão aprimorada. E então, ao seu volante, percebi que não era tratado pelos
demais componentes do tráfego da cidade de maneira tão respeitosa, como quando dirigia outro veículo qualquer, um
pouco mais prestigioso.
Buzinadas grosseiras, cortadas insolentes,
pedestre na calçada me mandando apressar o passo, com um brusco e impaciente
gesto de mão, para ele poder atravessar. Motociclistas batem nos retrovisores sem
pedir desculpas, entregadores de panfletos nas esquinas me poupam da propaganda de
apartamentos de alta classe.
Certa feita, trafegando por uma via
secundária, ansioso para cruzar uma preferencial congestionada na hora do rush, avancei meio metro na ciclovia,
para tentar aproveitar a brecha deixada no cruzamento, porque um sinal fechara
adiante.

Na minha infância, os meninos mais valentes
costumavam desafiar os maiores, porém menos afeitos a brigas de rua, instigando-os
com aquela velha frase feita: “Tamanho não é documento!”.
Pois a experiência toda com o carro de
modelo popular deixou patente para mim que, na atualidade, “automóvel é documento”,
porque ele promove a classificação socioeconômica do seu usuário, induzido a
presumir-se a hierarquia social a que pertence.
O carro utilizado por uma pessoa indica se
é alguém credor de especial reverência, ou se apenas merece o tratamento burlesco
que o funcionário da faxina deu ao poeta Drummond, naquele Banco do passado.
Ao correr da pena me lembrei de que pelo
menos uma vez essa realidade social teve um efeito virtuoso, em episódio que eu
mesmo protagonizei, quando, alguns anos atrás, um ex-prefeito da cidade parou
ao meu lado no sinal, dirigindo ele exatamente um Fiat Uno. Então ponderei
intimamente que aquele respeitara o cargo e certamente não desviara verba
pública.
*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ
Nenhum comentário:
Postar um comentário