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segunda-feira, 27 de abril de 2015

ARTIGO (RMR)

O LEGADO SOFISTA
Rui Martinho Rodrigues*


A democracia nasceu na Grécia, embora com algumas características não muito democráticas, como escravismo e sacrifício de crianças (eugenia negativa). Era apenas o embrião de democracia, não democracia propriamente. Prevalecia nela o coletivo sobre o indivíduo, sem reservas, volatilizando as garantias individuais. Daí a admissão do sacrifício de crianças. A semente da democracia, todavia, estava plantada. Consistia na ideia de que as decisões coletivas deveriam seguir uma racionalidade demonstrável, substituindo a força e o fato consumado, justificando as reuniões na ágora, para discutir e votar.

Corromper as fórmulas políticas parece ser um traço da condição humana. Logo surgiram defensores do relativismo radical. Os sofistas representaram o refinamento destas teses. Na ausência de conhecimento válido não subsiste razão, exceto aquela de quem exalta o relativo laxista. A demonstração, alicerçada na razoabilidade e em evidências foi substituída pelo convencimento. Era a decadência da civilização helênica e com ela da proto democracia grega, levada de roldão junto com a ética, o sentido da realidade e a todas as referências pelas quais nos norteamos.

Paradoxalmente, porém, a desorientação do relativismo extremado pode gerar a sensação de segurança das referências. A subordinação e a entrega total ao discurso sofista geram uma sensação de segurança própria do convencimento, não do conhecimento. Este depende de demonstrações com razoabilidade, associada à lógica falibilista (não se confunda o falibilismo popperiano com a dúvida metódica cartesiana). A certeza não é filha da razão, mas do convencimento. Contemporaneamente o convencimento virou técnica refinada e assumiu o controle da política. Marqueteiros são convocados, sempre que se verifica um fato político importante. Aconselham líderes e influenciam o público.

Quem adere ao relativismo laxista, nos planos cognitivo e moral, sabe mentir de modo convincente. Representa indignação de acordo com o desiderato de substituir a demonstração pelo convencimento. Uma consequência imediata é desviar o debate dos fatos e ideias para o campo pessoal, desqualificando o interlocutor. O ataque substitui a acusação. Não se discutem as ideias, mas se o interlocutor e de “direita” ou “esquerda”. Não se procura demonstrar a efetividade de medidas propostas, deslocando-se o debate para o campo das intenções, dizendo quem é a favor ou contra “o bem”.

Assim, as pessoas são discriminadas como “do bem” ou “do mal”. As intenções em favor do bem “legitimam” as políticas. O desprezo pelas evidências implica em fechar os olhos para a realidade. A suposta superioridade moral das pessoas “do bem”, leva ao ódio para com os “do mal” (Marilena Chauí falando da classe média). Estimular o ódio e atribuir esta prática inescrupulosa ao outro é tática de convencimento. Daí resultam erros crassos na condução da economia, reiteradamente praticados.

Isso tem nome: demagógica, populismo, experiências recentes do nosso continente.


*Rui Martinho Rodrigues
Professor – Advogado
Historiador - Cientista Político
Presidente Emérito da ACLJ

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