UM BAR COM NOME DE CEARENSE
Wilson Ibiapina*




Conta o jornalista Carlos Henrique
Santos que depois de alguns uísques, Otto, que nasceu com vocação
para a galhofa, elevou o tom de voz e fez um verdadeiro discurso desancando a
ditadura, convocando à resistência a juventude pensante ali presente (que outros
chamavam de esquerda festiva). E fechou o seu pronunciamento indignado, quase
aos gritos, desafiando os eventuais dedos-duros que se infiltravam no ambiente:
“E para provar que não tenho medo desses gorilas, vou dizer meu nome. Podem
anotar: “Eu me chamo José Aparecido de Oliveira...”
O chatíssimo Roniquito Chevallier, que perturbava a vida
de todo mundo, era outro que estava lá todas as noites. Brigava e apanhava
quando metia a mão no prato de comida das pessoas, ou cantava as senhoras
acompanhadas dos maridos. Roniquito era Ronald Wallace Carlyle de
Chevalier, irmão da jornalista Scarlet Moon de Chevalier.
Era amigo de juventude de Walter Clark, com quem trabalhou na TV Rio e
na Globo. Muito culto, formado em economia e, segundo Rui Castro, inventor da
palavra aspone. Rui acredita que Roniquito talvez tenha sido o
sujeito mais sem censura da história de Ipanema. “Dizia o que pensava para
qualquer um, não importava o cargo, a idade, a cor, o sexo, ou o tamanho da
pessoa”.
Quando Roniquito morreu de enfarte em 1983, Carlinhos Oliveira escreveu: "Ninguém podia ser patife
perto dele. Ninguém ousava". E Paulo Francis escreveu na Folha de S.
Paulo:"Roniquito fazia o que não temos coragem de fazer virar a mesa contra os horrores brasileiros.
O bar tem toda a sua história contada num livro que o
jornalista paulista Mário Almeida escreveu depois de longas
pesquisas. O jornalista Aramis Millarch, em matéria publicada em 1992
num jornal do Paraná, diz que o biógrafo do Antonio's dedica parte do livro ao
cronista capixaba Carlinhos de Oliveira que nos anos 60
emocionava milhares de leitores do Jornal do Brasil.

Um dia o Antonio's foi invadido por ladrões que
prenderam os fregueses no banheiro. Foi de lá que Carlinhos fez um
apelo desesperado aos marginais: “Seu ladrão, leva os vales, leva os vales.
Essa caixinha de charutos no caixa...”
O Antonio's foi a capela sagrada da boemia que agitava as
noites do Rio nos anos 60 e 70. O cozinheiro cearense não deve ter ideia
do que se passou além do seu local de trabalho.
NOTA DO EDITOR:
Um dos principais personagens dessa bela crônica de
Wilson Ibiapina, o Roniquito, um dos ícones da juventude dourada do Rio de
Janeiro nos anos 60, tinha origem amazonense, pela parte paterna, e cearense,
pelo lado da mãe.
Ronald Wallace Carlyle de
Chevalier era filho do médico e político manauara Walmiki Ramayana de Paula e Souza
Chevalier, e da cearense Neusa Magalhães Cordeiro de Chevalier, que ainda vive,
muito idosa, em Copacabana.
Dona Neusa tem seu berço original na cidade cearense
de Ipapajé, para onde regularmente viajava. Da última vez que a jornalista,
atriz e escritora Scarlet Moon de Chevalier esteve em Fortaleza, para dar uma
palestra no Palácio da Abolição, a convite do então governador Ciro Gomes, encontrou-se
com seus parentes cearenses, de quem recebeu e levou fotografias de seus
antepassados.
Falecida em 2013, além de irmã de Roniquito, Scarlet foi mulher do
cantor Lulu Santos por 28 anos. Rita Lee lhe dedicou uma composição, que o marido gravou. Nas imagens, Scarlet Moon entre Lulu e Caetano Veloso, e sua avó, mãe de Ramayana, Raimunda
de Souza Chevalier.
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