sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

CRÔNICA (RV)

RESTOS DE LOUCURA
Reginaldo Vasconcelos*

Tempos em tempos devolvo-me ao sertão, tangido por essa fadiga de só ver e ouvir de perto, no organismo estreito e estridulante da cidade. Com as coisas e os seres da minha estimação recolho-me ao homízio das largas paisagens. O horizonte não é uma linha, mas um círculo em torno. Céu de azul límpido e nuvens alvíssimas. Recorte ao longe de serras em anil e de matas cinéreas, engastadas de esmeraldas.

No sertão o tempo não estilhaça: não existem as horas que os relógios mastigam. Mas o tempo não se faz só de dias e noites. Galos puxam as madrugadas frias, passarinhos tecem as manhãs frescas, cigarras costuram os meios-dias, chocalhos carpem as tardes, e, mais tarde, ladram os cachorros sertanejos aos longo dos caminhos, limpando o silêncio e o negrume das noites de todo ruído e de todo movimento.


Uma rede no alpendre é a maior sedução pela preguiça. Nada fazer; só dormitar e franquear os ouvidos aos súditos de Pã. Nada pensar; as ideias são varridas pela aragem junto com as folhas do chão. Nada temer; os medos, arrastam-nos os redemoinhos de vento sobre a esplanada, com fúria e cisma, como a polícia e um bêbado raivoso.

Não acredito que possa existir no mundo maior convite ao ócio que uma rede branca armada. O vento sopra, algum pássaro canta, um outro pássaro pousa e de longe algum mugido, algum aboio, alguma cancela range... e bate. O tempo é doce, dissolvendo-se na boca como rapadura. Cachaça velha no banho, feijão verde no prato, churrasco feito na brasa e conversa de maturo junto da fogueira. Depois, um bom charuto para perfumar as estrelas.

Uma noite um velho amigo volta da loucura para me pilhar em meu retiro. Digo amigo porque vale muito mais a amizade que qualquer parentesco. Na verdade, trouxera-o o atavismo sertanejo que temos em comum. 

Absoluta surpresa, fazia tempo não o via e tampouco imaginava que soubesse de mim. Surpresa maior, não o fazia assim tão diferente, tão parecido com o que fora antes de calar e sumir. Trouxe a família, os rebentos que eu nem conhecia. Visita de príncipe, guerreiro da lógica, restos de loucura organizada para eu, mago da aldeia, louco maior, apreciar. Alta noite corremos descalços mata a dentro. Falamos da vida e da morte – vida e morte, incógnita loucura.

*Do livro "Traços da Memória - Laços da Província" - Crônicas - Volme II - 1993.


*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ      

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