UMA COISA
É UMA COISA;
OUTRA
COISA É OUTRA COISA.
Reginaldo
Vasconcelos*
“O preço da liberdade é a eterna vigilância” (Thomas
Jefferson)
Na advocacia eu não julgo o
jurisdicionado que defendo. Suas razões, para mim, são técnicas – aquelas que a
lei autoriza e que os fatos proporcionam. Mas, na vida pessoal, como todo
mundo, julgo a todos, todo tempo.
Ao fazê-lo, todas as minhas réguas
têm como medida padrão a minha própria consciência, de modo que ao avaliar a
conduta de alguém tomo como base as atitudes que eu próprio adotaria, ou não adotaria,
estivesse nas suas mesmas circunstâncias.
Por exemplo, em defesa da minha
integridade, física ou moral, pessoal ou familiar, eu seria capaz de praticar
grandes atrocidades contra os injustos agressores – sempre pedindo a Deus me mantenha afastado desse amargo cálice – e eu friso isso para expungir qualquer soberba.
Entretanto, nunca, jamais, em
tempo algum eu atiraria em cidadãos desarmados, por razões ideológicas,
inclusive religiosas, tampouco alvejaria policiais no exercício regular da
profissão, mormente por ordem de um demiurgo empedernido.
Dessarte, não há hipótese de que
eu considere qualquer mínima atenuante moral aos irmãos muçulmanos que
invadiram o jornal em Paris e chacinaram os cartunistas, outros funcionários e
os agentes públicos que obstaculizavam a sua fuga. Tampouco ao outro, que matou
gratuitamente uma policial feminina na praça e depois quatro reféns judeus em uma loja.
Conclui-se então que eu não
estaria nunca entre os homens que protagonizaram o ataque ao Charlie Hebdo, e
que por conseguinte não poderia jamais lhes fazer defesa – nem mesmo
profissionalmente – por obvias razões de foro íntimo.
Até porque penso que para eles a
pena mais humana era mesmo a execução sumária, em auto de resistência, que lhes
poupou do sofrimento de um dia perceberem o equívoco terrível e a inutilidade de
seu ato para a sua própria causa. Foi também o resultado mais adequado à
humanidade, pelo benefício sanitário da ausência definitiva dos três celerados à
superfície do Planeta.
Como jornalista não me pejaria jamais de
divulgar meu franco pensamento, sobre quem quer que fosse, sobre o que quer que
fosse, nem de pesquisar sobre fatos políticos ou históricos que interessassem à
sociedade, para divulgá-los amplamente, preservando as fontes e me resguardando
nos limites jurídicos do bom-senso, doesse em quem doesse – o que me faz um
ferrenho defensor da liberdade de expressão.
Todavia, não me abalançaria jamais
a criar uma fábula grotesca sobre gente morta que se tornou objeto de veneração
de outras pessoas. Tampouco produziria e publicaria desenhos que
ridicularizassem quem não pertencesse à vida pública (político ou artista), mas
que inspirasse gravidade moral aos seus íntimos, ou que fosse ícone de um culto
místico notório, notadamente um morto histórico, que, como é cediço, não pode
defender-se.
Então, também se conclui que eu
jamais seria um dos jornalistas mortos no mesmo macabro episódio, porque não
teria usado a minha criatividade artística e a minha liberdade de expressão
para atacar entidades místicas e incitar ódios horrendos, apenas para exercitar
a coragem e desafiar a violência. Liberdade de expressão não significa salvo
conduto para agredir e detratar todos e qualquer um injustamente, até porque
fazê-lo também indica intolerância. Afinal, liberdade sem limite é a anarquia absoluta.
Assim, embora lamente as vidas
perdidas e o talento que foi desperdiçado no excídio violento dos quatro
desenhistas icônicos – insisto que o caso não envolve a liberdade de
expressão.
Pelo contrário, o episódio denota que
a liberdade era plena e foi exercida plenamente – mas evidencia que a bendita
liberdade sem freios externos, que nos permite correr soltos pelos altiplanos
da vida, impõe rigoroso critério pessoal e tenência íntima para que se evite
cair em um dos precipícios da existência. E o "revolucionário" Papa Francisco, com quem nem sempre concordo, também converge para esse mesmo pensamento: repreende o deboche injusto e contumaz contra religião qualquer, condenando veementemente o terrorismo.
*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ
Nenhum comentário:
Postar um comentário