DESTAQUES CEARENSES

DESTAQUES

CEARENSES

Edição

2020

Alexandre Sales

Troféu Empreendedores

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Igor Queiroz Barroso

Troféu Benemerência

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Cabeto Martins Rodrigues

Troféu Prasino Angelos

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PALAVRA DO ANO

EM 2020

“PANDEMIA”

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SENTIMENTO

MAIS DEMANDADO

EM 2020

“RESILIÊNCIA”

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segunda-feira, 8 de junho de 2015

CRÔNICA (AM)


 DOMINGO DE CÉU LIMPO
Assis Martins*
(Direto de Bertioga – São Paulo)


Não há terra, por horrível que seja, que não tenha sobre si um céu resplandecente. (ANTÔNIO PARISI Y GUIJARRO. Político e jornalista. YValência, 29.03.1815 – Madrid, 05.11.1872).


Domingo de céu limpo, lá estava eu sentado na areia da praia do Futuro, observando o movimento das ondas e da moçada jovem (e também a da terceira idade). Forte sol de janeiro, um vento fino e areento nos olhos, os raios ultravioleta trabalhando dobrado nos couros dos turistas branquelos.

Ao longe, avistei um ponto que se movia lentamente pela areia da praia, na minha direção; no que me distraí um pouco, arrumando os meus pertences, fui surpreendido por uma voz vacilante:

–  Moço, dê uma ajuda...

– Minha vó, como a senhora consegue suportar, descalça, essa quentura?

– Tô acostumada, meu filho. Eu nasci aqui nessa beira de mar, moro sozinha num barraco lá perto do poço da Draga. Não conheci pai nem mãe, e desde pequena fui criada por um tio meu, um jangadeiro. Ele morreu afogado lá pras bandas do Rio de Janeiro, onde ia aparecer num filme, mas já faz tanto tempo[...].

* * *

14 de setembro de 1941, em plena vigência do Estado Novo, quatro pescadores partiram de Fortaleza para o Rio de Janeiro, a bordo da jangada São Pedro, numa aventura que ficou na história. Eram eles: Manoel Olímpio Meira (Jacaré), Raimundo Correia Lima (Tatá), Manoel Pereira da Silva (Manoel Preto) e Jerônimo André de Souza (Mestre Jerônimo).

A jangada chegou à baía da Guanabara no dia 15 de novembro e os jangadeiros foram recebidos festivamente pelo povo, aclamados pela imprensa e logo tiveram uma audiência com o presidente Getúlio Vargas, quando pediram melhores condições de trabalho e assistência para os pescadores.

Na realidade, os pescadores do Ceará viviam em estado de total abandono. Imagine-se que metade do produto da pesca ficava com os proprietários das embarcações. O pedido surtiu efeitos, pois, um mês depois da chegada da jangada ao Rio de Janeiro, saiu em 18 de dezembro de 1941 o Decreto-Lei nº 3832, que deu a eles direitos trabalhistas, inclusive aposentadoria.

Foi um feito incomum aquela arriscada jornada. Eles percorreram mais de 2.000 quilômetros, sem bússola, cartas náuticas ou instrumentos sofisticados. Só levavam o conhecimento prático, coragem e muita fé em Deus. A aventura repercutiu até na imprensa ianque, com a revista Time fazendo ampla reportagem, bastante comentada.

A política pan-americana do presidente Franklin Delano Roosevelt tinha dado ao cineasta Orson Welles a incumbência de filmar alguns episódios no Brasil, entre eles o carnaval carioca. Ele, então, resolveu incluir a proeza dos jangadeiros cearenses na filmagem.

Após toma cenas do carnaval, a equipe chegou a Fortaleza em fevereiro de 1942 e, em março, os jangadeiros seguiram de avião para o Rio, onde fariam ainda o seguinte roteiro: participariam de algumas cenas carnavalescas ao lado de Grande Otelo, da despedida no aeroporto e, o principal, a reconstituição da chegada deles à baía da Guanabara.

O destino, entretanto, deu uma guinada no roteiro. Na filmagem na Barra da Tijuca, em 19 de maio de 1942, a jangada, que era rebocada por uma lancha, virou e os quatro tripulantes foram lançados ao mar agitado. Três se salvaram, mas Jacaré desapareceu.

             

Welles voltou a Fortaleza e ainda rodou nas areias do Mucuripe o restante do filme, com um irmão de Jacaré, Isidro, como substituto. Correm muitas versões sobre o paradeiro do filme. Alguns dizem que a censura do Estado Novo jogou muita coisa no mar, ao passo que outros defendem o argumento de que o próprio estúdio RKO extraviou algumas cenas.

* * *
               
Entretanto, o fato é que estou, nos dias atuais, à frente de uma velhinha cheia de calos, também na alma, relembrando esses fatos que, aos poucos, vão sendo esquecidos pelo povo, tão avesso à preservação da nossa memória.

É Brasil?

It’s All True  é o título da película.


*Assis Martins
Funcionário da U.F.C.
Cronista e Ilustrador.
Bacharel em Geografia e Tecnologia e Gestão do Ensino Superior pela Universidade Federal do Ceará

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