quinta-feira, 4 de junho de 2015

ARTIGO (VM)


INFORMAÇÃO RELIGIOSA 
CATÓLICO-ROMANA

CORPUS CHRISTI
Festa de Guarda da Igreja Católica Romana
Vianney Mesquita*

Nenhum passo do Evangelho diz ao cristão: sê devoto. O que lhe diz é: sê humilde, caritativo, equitativo. (NICOLAS BOILEAU-DESPREAUX. Crítico e poeta. YParis, 01.11.1636 - 13.03.1711).

1 INTRODUÇÃO

No dia de hoje, 04 de junho de 2015, a quinta-feira sequente ao Domingo da Santíssima Trindade, este imediatamente seguinte ao dia de Pentecostes, a Igreja de Roma celebra a festa de CORPUS CHRISTI, expressão latina claramente significativa da dicção Corpo de Deus. Consoante a Santa Sé, é data santa de guarda, cumprindo a participar da Santa Missa aqueles que professam a confissão católica, de acordo com o expresso pela CNBB, em se cuidando de Brasil.

O caminho processional do Corpo de Deus pelas ruas é recomendado pelo Cânone 944, que determina ao bispo da Diocese que o providencie, caso possível, “para testemunhar publicamente a adoração e a veneração para com a Santíssima Eucaristia, principalmente na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo”.

Talvez propício seja informar o fato de que, desde nossa primeira infância, tomamos contato (e não desaproveitamos deste até o momento) com a doutrina cristã de orientação tridentina, cuja transmissão pedagógica começou a ser operada com as catequistas da Paróquia de São Francisco de Assis, no nosso Município de nascimento, Palmácia (1957), antes Distrito de Maranguape-CE-Brasil.

Desenvolvia-se, então – começo dos anos 1950  o vicariato do Cônego Joaquim Alves Ferreira, assessorado por seu irmão, Monsenhor Pedro, poliglota, professor do Seminário Arquidiocesano de Fortaleza, sábio da Santa Madre, os quais primavam pela instrução religiosa de seu pastoreio, concedendo-lhe apropriada iniciação confessional, ao ponto de assegurar, sem intermitências, sua continuidade, no nosso caso, ao abrigo diligente de nossos pais, Vicente Pinto de Mesquita (Fortaleza, 15.10.1913-11.11.1993) e Maria de Lourdes Campos Mesquita (Palmácia, 10.08.1920 – Fortaleza, 20.04.2004).

De tal modo, na prossecução à busca da Palavra e de seus desdobramentos, tomamos tento em dar sequência a esta manifestação constante de crédito cristão, evidentemente – impende relevar – no reconhecido estado de humano penitente, não farisaico. Na medida do possível, por conseguinte, demandamos conhecer mais claramente as verdades emanadas do Verbo Divino, bem assim as diversas circunstâncias que emolduraram sua repercussão, por meio da atenção e estudo autodidático de seu enredo historiográfico.

Assim, ao empregarmos o substrato prático prestadio ao desenvolvimento do tema, tomado na consonância das razões descritas há pouco, também nos louvamos na literatura histórica, devidamente referenciada, mas levando em conta fatos de domínio público, para nos reportar neste escrito ao enredo do evento de Corpus Christi, no Brasil, como será visto, ferido no terceiro quartel do Trecento

2 ORIGEM – MILAGRE DE BOLSENA

A exaltação do Corpo e Sangue de Jesus Cristo procede de uma intenção do padre francês Jacques Pantaleão (nascido em Troyes, por isso Jacques = Iago = Jacob) – futuro Papa Urbano IV, então cônego diocesano de Liége (Bélgica)  de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque, pois recebera segredo de Santa Juliana de Liége, monja agostiniana do Mosteiro de Mont Cornillon, a qual experimentou visões de Jesus Cristo, cujas significações foram depois explicadas à Igreja.

Santa Juliana viu, numa das vezes, a Lua cheia com uma rachadura no disco. Então, o Senhor lhe revelou que a Lua era a Igreja e a cisão a ausência de uma solenidade no círculo litúrgico dedicada ao Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela contou às autoridades o ocorrido depois de 1230 (therealpresence.org.).

Já no Sínodo de 1246, Dom Roberto Thouroutte, prelado de Liége, estabeleceu na sua Diocese uma festa em honra do Ss. Sacramento, celebrada pela vez primeira em 5 de junho de 1249.

Entrementes, no Papado há pouco referido, São Pantaleão – Urbano IV – numa cidade perto de Orvieto (Umbria, Antiga Vorsínia, dos Etruscos, hoje com 26 mil habitantes), foi assinalado o conhecido Prodígio de Bolsena (Itália, norte de Viterbo, no Lacio). Consoante fonte mencionada no final deste parágrafo, um padre celebrante da Missa, ao partir a Hóstia Sagrada, viu sair dela sangue que encharcou o corporal (pano sobre o qual descansam o cálice e a patena no decurso da Missa). Então, o Sumo Pontífice prescreveu que os objetos milagrosos fossem conduzidos para Orvieto (lugar da Corte desse Papa, que jamais ocupou Roma), em procissão, no dia 19 de junho de 1264, recebidos com solenidade pelo Vigário de Cristo e levados para a Catedral de Santa Prisca.

(http;//www.therealpresence.org.eucharst/mir/portuguese_pdf/ PORTU-bolsena.pdf).

Com efeito, a solenidade do Corpo de Deus foi oficialmente instituída ex-vi da Bula Transiturus de hoc Mundo (“Passagem desde mundo”), editada em 11 de agosto de 1264, sob a assinatura de Urbano IV, para ser celebrada na quinta-feira imediatamente posterior à oitava de Pentecostes.

Com vistas a conferir maior esplendor às comemorações, queria São Pantaleão (Urbano IV) um canto para ser oficiado no decurso da celebração. Pediu, pois, a Santo Tomás de Aquino (1225-1274) para compor o Ofício, que o fez sob o título Lauda Sion, o qual é entoado, ainda hoje, nas celebrações de Corpus Christi, na sequência antes do Evangelho, sendo Aquino, também, o compositor de várias outras peças, como, verbi gratia, o Tantum Ergo, Pange Lingua et reliqua.

Lauda Sion Salvatore

Sião exulta de alegria/louva teu pastor e guia/
Com teus hinos, tua voz!/Tanto possas, tanto ouses/
Em louvá-lo não repouses:/ Sempre excede o teu louvor.
(ecclesia.com.br.filocalia/?Page id=440).

3 PROPAGAÇÃO DA SOLENIDADE

Mencionada Bula, em razão da morte do Papa menos de um mês depois, experimentou de pouca repercussão, porém se espalhou por algumas igrejas, conforme ocorreu em Colônia, Alemanha, na qual a Festa do Corpo de Deus é oficiada desde antes de 1270, onde a procissão surgiu e se espalhou pelo País, depois em França e Itália. Em Roma, o préstito ocorre desde 1350.

A Santa Eucaristia, como é do conhecimento geral dos católicos, é o terceiro dos sete sacramentos (Batismo, Crisma ou Confirmação Batismal, Eucaristia, Penitência ou Confissão, Unção dos Enfermos, Ordem e Matrimônio), instituído quando da Última Ceia, oportunidade em que Jesus falou que Este é meu corpo ... isto é o meu sangue... fazei isto em memória de mim.

Para o Bispo de Hipona, Santo Agostinho, a celebração de Corpus Christi é um memorial de imensurável benefício para os cristãos, deixado em pão e vinho. Pelo fato de a Eucaristia ter sido celebrada pela primeira vez nas Endoenças, isto é, na Quinta Feira Maior, a festa do Corpo de Deus é sempre oficiada neste dia da semana. Corpus Christi é celebrado, como se adiantou, 60 dias depois da Páscoa, ou seja, de 21 de maio a 24 de junho.

A modo de informação complementar, Endoenças – vocábulo nem sempre bem explicado – procede da palavra latina eclesiástica indulgencia (ae), relativa a bondade, brandura, condescendência, favor, graça, isenção de um tributo, perdão de uma pena. A Quinta feira Santa e a Sexta Feira da Paixão eram dias de perdão – dies indugentia (ae), em que eram concedidas “indulgências eclesiásticas”. (HOUAISS; VILLAR SALLES, 2011). Particularizou-se, então, o uso do substantivo – somente no plural – para corresponder à Quinta Feira Santa, dia de instituída a Eucaristia.

5 CELEBRAÇÕES LOCAIS

Diferentemente de outros lugares do Brasil, na Arquidiocese de Fortaleza – bem como nas demais dioceses cearenses (oito – Crateús, Crato, Iguatu, Itapipoca, Limoeiro do Norte, Quixadá, Sobral e Tianguá) – recorre-se à procissão com andores, acompanhada de cânticos e, evidentemente, a Santa Missa, de sorte que não se usam tapetes nas ruas na recepção ao Corpo de Deus, ao modo de algumas cidades brasileiras, mormente as históricas, como, por exemplo, em Mariana-MG, destacando-se, ainda, Pirenópolis-GO, Castelo-ES, Jaguariúna, Caieiras e Borborema, no Estado de São Paulo.

Tal usança procede de Portugal, para aqui trazida pelo elemento colonizador, consoante informa Canção Nova (v. ref.). Os desenhistas dos tapetes se utilizam de materiais como serragem colorida, farinha, areia, pó de café, flores e demais atavios.
6 FINAL

Contando mais de oito centúrias de celebração da Festa do Corpo de Deus, quando no mundo católico se processaram, durante todo esse lapso, manifestações de adoração ao Senhor, conforme o espírito que presidiu o Papa Urbano IV – São Pantaleão – ao instituir a Bula Transiturus de hoc Mundo – Passagem desde Mundo – chamamos a atenção dos fiéis para que, também nas celebrações de rua do Corpus Christi, suas atenções primordiais se dirijam, preferencial e absolutamente, ao louvor e reconhecimento de Deus como criador, senhor de todas as coisas, protetor e provedor das nossas necessidades, Deus verdadeiro de Deus Verdadeiro, consubstancial ao Pai, conforme dita a oração do Credo.

De tal modo, mesmo que se haja de apreciar a tradição, vestida de folclore, aliás, culturalmente, parte da civilização humana, não se haverá de deixar no olvido o fato de que o objetivo axial da existência humana repousa na salvação das almas. Isto porque, estamos na dependência da vida correta conduzida na Terra, anelo ao qual se aporta somente ao cultivar a crença na Trindade Santa, no atendimento às suas prescrições expressas nos Santos Evangelhos, Escrituras e desdobres verbais dos vigários terrenos da Divindade.

Por tais pretextos, no Corpus Christi ora solenizado, havemos de reforçar as raízes da nossa fé e nos dedicar, por inteiro, enquanto temos corpo, às ideações salvíficas, para que, enfim, pós-Último Julgado, nos seja possível desembarcar no Melhor Lugar da eternidade, sob a destra do Criador, cujo corpo se adora e venera em tão ditosa ocasião.


BIBLIOGRAFIA

HEUSER, - O.F.B., Frei Bruno. História Sagrada. 45 ed.. Petrópolis: Vozes, 1976.
HOUAISS, A.; SALLES, Mauro Villar. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2001.
SGARBOSA, Mário; GIOVANNINI, Luigi. Um santo para cada dia. São Paulo: Paulus, 1996.
WHITE, Ellen G. Vida de Jesus. Tatuí-SP: Casa Publicadora Brasileira,1996.

(ecclesia.com.br.filocalia/?pag_id.440)
noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=234011 (presbíteros.com.br/site/historia-da-solenidade-de-corpus-christi)
(em.wikipedia.org/wiki/Lauda_Sion)


*Vianney Mesquita 
Escritor e Jornalista. 
Professor adjunto IV da Universidade Federal do Ceará. 
Árcade titular e fundador da Arcádia Nova Palmaciana; 
acadêmico titular das Academias Cearense da Língua Portuguesa e 
Cearense de Literatura e Jornalismo. 
Membro do Conselho Curador 
da Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura, da U.F.C.

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