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terça-feira, 10 de julho de 2018

CRÔNICA - Casas da Infância (RV)


CASAS DA INFÂNCIA
Reginaldo Vasconcelos*



É lamentável que algumas pessoas, por um motivo ou por outro, não tenham vivido a experiência maravilhosa de ser menino em casa de avós. Esse paraíso, doce reduto em que o “espírito de porco” da infância faz chiqueiro, é inesquecível. Quem tratava disso em suas crônicas, com propriedade e obsessão, era o jornalista carioca Artur da Távola, despertando no leitor as mais meigas lembranças.

Neto mais velho de ambas as progênies, conheci os quatro avós e as suas duas casas. Uma delas, a da família de meu pai, situada na Avenida Dom Manuel, embora não fosse praiana propriamente, evocava o mar. De lá ia eu para o mar na lancha de meu tio, domingo escancarado de sol, recebendo no rosto o chuvisco frio das ondas feridas.

E era marinho o vento que subia a rua toda tarde, sustentando no alto as arraias coloridas. Era marinho também o estro moleque que nos levava ladeiras abaixo, em busca da vizinha Praia de Iracema, roendo a massa travosa e pulverulenta dos oitis do urbanismo e a carne rubra das castanholas cultivadas nos jardins, sal e sangue marejando e tingindo a boca dos meninos.

Arrais no céu e arraias no mar, naturezas diversas, mas gênios semelhantes, na leveza do talhe e no talho defensivo, se enxergariam se vistas tivessem entre si. E do mar vinham os peixeiros, com as suas prendas ainda meio vivas, sempre pendentes de um cambão pelas embiras; garoupas enormes, pargos e cavalas gordas, às vezes siris rosados e lagostas. Passavam em trote lento, apregoando languidos, enchendo de maresia o tempo, e deixando resquícios de areia loura nas calçadas em que faziam venda e retalhavam o seu pescado.

Aliás, mesmo o povo dessa casa avita era de maiores marinhagens. Minha avó, carioca, neta de marinheiro  inglês, chegara do Sul em vapor marítimo. Meu avô, por sua vez, e um dos meus tios, tinham funções profissionais relacionadas ao além-mares. E seus demais filhos eram dados também a viagens de navio. Foi de navio que meu pai levou minha mãe à segunda lua-de-mel, que me deu origem.

Já meus avós maternos haviam perdido nos sertões a vocação navegadora dos ibéricos, e a sua casa em Fortaleza, embora não muito mais distante do tapete oceânico, tinha outra evocação, até porque não era encravada sobre antigas dunas, como no primeiro caso.

Ficava no Benfica, e chamava para os sítios da hinterlândia, para as lagoas de Porangaba, para as serras do Maciço. Tinha, portanto, o buquê frutado da Maraponga, o hálito pecuário da Guaiuba, as evolações canavieiras de Redenção, e a promessa refrescante das águas da montanha.

No quintal grassavam as papoulas delicadas, os sapotizeiros dadivosos, e os pombos, porque havia muitos pombos, ruflando asas e arrulhando sobre os muros. Tinham nomes os mais curiosos os pombos-correios de meu tio. Um deles, “Jesus Chorou”, em homenagem ao menor versículo da Bíblia.

Havia também o cacimbão, cheio de brilhos distantes e sons cavos. Nos tédios da infância, divertia-me em examinar o trafego das “taiocas”, formigas pretas e robustas que caminhavam independentes sobre o mármore branco das soleiras, lisas e gastas por décadas de uso, de convivência, de amor, de morte.

Para uma das áreas laterais havia metros de venezianas fixas, que filetavam o sol da manhã, nos deixando adivinhar os primeiros albores do dia, para tomarmos o café com o pão partido em quatro, na longitude da bisnaga.

Mas, para mim e o primo companheiro, todos os espaços do imenso casarão não superavam o encanto proibido do porão não habitável, seus desvãos escuros de catacumba, que entrevíamos das rótulas, ou pelas brechas do assoalho.

Por uma fenda maior que havia onde a madeira do piso se quebrara vivíamos a fazer prospecção, imaginando talvez encontrar ali alguma prenda misteriosa, oriunda de outras eras e de outros mundos. Como nada divisássemos lá no fundo, e de lá recebêssemos apenas uma brisa fria, cheirando a coisa antiga, remetíamos, vez por outra, a esse pedaço doméstico de caos, pequenos objetos pessoais, como fossem garrafas de náufragos a sinalizar a nossa existência no Universo.


Do livro Traços da Memória - Laços da Província, Volume I - Tiprogresso - Fortaleza - 1992.      


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