DESTAQUES CEARENSES

DESTAQUES

CEARENSES

Edição

2020

Alexandre Sales

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Cabeto Martins Rodrigues

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PALAVRA DO ANO

EM 2020

“PANDEMIA”

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SENTIMENTO

MAIS DEMANDADO

EM 2020

“RESILIÊNCIA”

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domingo, 22 de julho de 2018

ARTIGO - Esquerda, Direita ou Volver (RMR)


ESQUERDA, DIREITA
OU VOLVER?
Rui Martinho Rodrigues*



A política é a arte do possível e aliança se faz com o diferente. Os limites de manobra, porém, são imprecisos e ocultam armadilhas. A arte do poder envolve considerável margem de imprevisibilidade. Personagens inteligentes e hábeis podem pisar em laços. A sagacidade da raposa, de que Maquiavel (1469 – 1527) falava é necessária.

Ciro Gomes, com sua inteligência, facilidade de expressão e ânimo declarações contundentes, desfruta das vantagens e desvantagens de tais atributos. Compreendeu bem a dinâmica do processo político. Percebeu o deserto de líderes do momento e a lacuna da conjuntura política, decorrente disso. Foi cortejado e cortejou integrantes do PT, como o senador Jaques Wagner, e de outros partidos de tendência socialista. 


Lula, todavia, colocou obstáculo em seu caminho. O caudilho de São Bernardo não perdoa quem tem potencial de crescimento, podendo ameaçar o seu reinado. Stalin (1878 – 1953) cresceu dentro do PCUS porque se fez de medíocre, obtendo o cargo que foi negado a outros, porque havidos como capazes.

Desiludido com os socialistas, Ciro buscou apoio dos partidos do chamado “centrão”. Assumiu, sem hesitação, o risco eleitoral da aproximação com figuras desgastadas pelos escândalos por ele mesmo tantas vezes profligados, desprezando ainda o contraste ideológico entre as duas tentativas de aliança. O acordo não saiu. 

O mestre florentino, aqui citado, recomendava, a esperteza da raposa, para evitar os laços e a força do leão, para afugentar os lobos. Ciro foi mais leão do que raposa. Afugentou o “centrão” e as esquerdas.

O ex-ministro Delfim Netto, cuja inteligência, saber e facilidade de expressar argumentos bem articulados, saiu do governo Figueiredo e elegeu-se deputado sucessivas vezes, sem precisar fazer campanha. 

Quando Lula foi eleito Delfim o apoiou. O grande economista sabe que aliança se faz com o diferente e é da essência da política. Não sabe, porém, quais são os limites para tais manobras. Depois da aliança com os governos do PT Delfim ficou sem mandato. Fora da polaridade esquerda e direita, perdeu a confiança dos antigos eleitores, mas não ganhou o apoio dos novos aliados. A esquerda não perdoa.


A polarização do momento não é receptiva aos roteiros sinuosos. Uns são reconhecidos como direita, outros como esquerda e outros como volver. O isolamento destes é a tendência do momento. A eleição de 1989 e a atual têm alguma semelhança. A estrutura partidária e o tempo de televisão de nada valeram aos candidatos que mais contavam com tais trunfos: Ulysses Guimarães (1916 – 1992) e Aureliano Chaves (1929 – 2003) tiveram votação pífia, apesar de ainda não existirem as redes sociais. O tempo de televisão, proporcionado pelos acordos, não vale o preço que está sendo pago.

Inteligência e agilidade podem trazer desvantagens. Quintino Cunha, repentista hábil, não deixou nada escrito. A agilidade desvia da reflexão. A capacidade dos Ferreira Gomes, demonstrada na liderança construída no Ceará, precisará de cautela para evitar os laços. Ciro já está carimbado como volver e a força do leão não afugentará os lobos nacionais. O Brasil não é o Ceará.

Publicado também no jornal on line focus.jor. 

Porto Alegre, 20 de julho de 2018.



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