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domingo, 24 de fevereiro de 2019

CRÔNICA - O Inverno e o Carnaval (RV)


O INVERNO E O CARNAVAL
Reginaldo Vasconcelos*


O carnaval e o inverno cearense coincidem, coexistem, misturam-se e se molham um ao outro de alegria.

O inverno é o carnaval da Natureza, que se fantasia de verde a festeja-lo, numa alegria gigantesca.

Úmidos corpos molham fantasias coloridas, brotam amores, chovem sorrisos e abraços são colhidos. Cheiro de terra, grama molhada e poças d’água nas calçadas.

Antes de tudo, o inverno e o carnaval são perfumes e cores, que portanto podem descolorir e evaporar, durante a vida e os anos sobrepostos.

Milhares de crianças vestem penas, pintam o rosto, colocam máscaras, vestem panos de seda e calçam botas: são índicos, super-homens e piratas.

Os adultos tornam-se palhaços, viram tuaregues, ou transformam-se em havaianas e odaliscas. No meio da folia, no epicentro da algazarra, no momento da fervura cai a chuva.

Rostos suados, gotas brilhando entre lantejoulas e confetes, plumas e paetês apanham chuva nos cordões, bumbo e corneta salpicam som, sopram chuviscos.

Pelo asfalto, nos estandartes os símbolos místicos do baralho. Desce o maracatu titubeando ao “chim-bum” afro dos tambores, e ao tinir dos guizos e chocalhos.

Índios e negros vestindo os trajes da Corte, trazem à tona as raízes da raça e da cultura, de onde se eleva o envolvente éter da História.

Sob os véus das fantasias veem-se os corpos mornos da folia, molhados de suor. Entre apitos, passes de dança e evoluções, uma euforia, um incêndio íntimo.

Sorrisos franqueados, empurrões e abraços se permitem, suor e cerveja para a chuva temperar. O carnaval não é loucura, é remédio, é antídoto, alivia todos da luta insana pela vida, evitando a demência da dor e da solidão.

No terceiro dia o folião já canta rouco, o bêbado cai de porre na calçada, as fantasias já se rasgaram mas ainda resta alegria.

E na quarta-feira a chuva chora e lava o asfalto, num chuá sentido de saudade. Nos salões as serpentinas fazem engodos, que simbolizam mil paixões, namoros mominos, recordações de outros carnavais.

Publicado na Tribuna do Ceará – Fevereiro de 1980

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