O DESTEMIDO
Paulo Maria
de Aragão*

Aposenta-se, lastreado em razões que não comportam
oposição, e emudece a voz destemida no STF. O marketing de fazê-lo o primeiro negro na mais alta corte de Justiça
foi abortado. Lula, ao invés de tosquiar, saiu tosquiado. Ingenuidade seria
acreditar que indicações para os tribunais recaiam sobre juristas de inegáveis
qualidades, sem a influência de núcleos políticos. Pelos critérios
meritocráticos, poucos ali aportariam, salvo as exceções de regra.

Enquanto presidiu o STF, Joaquim Barbosa tolerou constrangimentos, pressões, insultos pessoais e até ameaça de
morte. Um
magistrado independente, respeitável e singular, pelo seu espírito
público, largueza de idéias e fidelidade ao ideal de justiça, interpretou a lei
com destemor e jamais foi acusado de
suspeição. Méritos não lhe faltaram para ali ascender, é mestre e doutor em Direito Público pela Universidade de Paris.
Barbosa afasta-se do Supremo, e se lhe desconhecem
homenagens, à exceção das do calor das ruas. Nunca antes na história, viu-se um
juiz brasileiro figurar entre as cem pessoas
mais influentes do mundo, de acordo com a lista da revista “Time” de 2013.

Barbosa deve servir de paradigma aos temerários, ao
evidenciar que a maior necessidade de uma sociedade é a por homens que não se vendam, sejam
verdadeiros e honestos, mas, no país onde a honradez e a
verdade correm na contramão, é difícil que surjam sucessores com as mesmas
qualidades. Oxalá despontem os que tenham arrojo suficiente para segui-lo.
É preciso ter a certeza de que nada vale ser
alcançado neste mundo, sem dignidade. O procedimento de Barbosa deveria ser
regra, porém tornou-se uma exceção, porque vivemos num estado anômalo e de
favoritismos.
(*) Paulo Maria de Aragão
Advogado e professor
Membro do Conselho Estadual da OAB-CE
Titular da Cadeira nº 37 da ACLJ
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