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segunda-feira, 30 de março de 2020

CRÔNICA/POESIA - (soneto decassilábico português) Ociosidade Induzida (V.M.)



OCIOSIDADE
INDUZIDA
Vianney Mesquita*

– Quinze dias hoje, 29.3.2020 –




Para as imortais  Karla Karenina, Inês Mapurunga e Alana Girão de Alencar.






Na ociosidade e na abundância, desequilibra-se a razão.
(TITO LÍVIO).



Perfaz, hoje, exatos quinze dias que, ex-vi de determinação das autoridades sanitárias do Mundo, as pessoas afastaram-se das suas constâncias laborais, culturais, de ócio público – como cinemas, teatros, circos entre outras – para permanecer no recesso de suas casas, a fim de driblar a temerária covid-19 (não merece letra maiúscula).

Este acrimonioso e odiento mal pandêmico – insensível, invisível, inodoro, insípido e inaudível – avesso, pois, aos sensos humanos – já mexeu com mais de 600 mil viventes, mandados para as casas de saúde e para os carneiros de cemitérios, obrigando o orbe inteiro a uma reserva forçada e difícil, que muito preocupa e deixa buliçosos e traquinas os seus circunstantes.

Defesos de participar dessas intimidades e frequências sociais em todas as situações, sem o natural deleite social, ínsito aos hominídeos, após essas duas semanas de convívio físico-social interdito, em remissa forçosa em seus lares (e nem são todos os que os possuem!), os habitantes da Terra prosperam na sua vontade firme de se verem livres desse portentoso vírus, de tudo fazendo e ao geral se obrigando com vistas à conquista desse desiderato.

Felizmente, também – sem me reportar aos inomináveis males econômicos que esta circunstância fez pojar à sociedade, mormente às comunidades pobres e miseráveis, o que é de gravidade desemparelhada – a condição de isolamento nos deixa mais cuidadosos e conscientes, ainda, acerca dos nossos procedimentos de cariz humano-procedimental.

De tal maneira, a ocasião agora perpassada nos concede o lance de revistar nosso transato ético, comportamental e deontológico, a cujo raciocínio não era dado azo em virtude do tempo consumido com o labor, a vida urbana, os cuidados com o corpo e, em muitos casos, a transcendência para o sobrenatural, um “pouco” esquecida quando sob o perfeito confortamento vital.

Esta comodidade, fluente no âmbito da normalidade vivífica, parece nos isentar das responsabilidades relacionadas à existência posterior ao exício corporal – a pós-animação terrena – para todos os credos, quer cristãos ou adeptos de motos confessionais outros e – por que não – até os ateus e agnósticos – para alguns dos quais guardo a certeza de que adquiriram bilhete para bons assentos na vida eterna, de tão perfeitos que são seus procederes...

Sem muitos quefazeres, na fruição da remissa forçada, então, comecei a pensar, tendo essas reflexões abicado neste soneto decassilábico português, oferecido à ala feminina da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, representada pelas musas-paradigmas do comportamento e da dignidade – Inês Mapurunga, Karla Karenina e Alana Girão de Alencar – assentado no texto-prosa expresso na sequência.

Conquanto não seja simpático a férias longas, como esta quarentena, vou, a pouco e pouco, cumprindo meu castigo, merecido, no concerto deste “inferno” de suspiros que solto há quinze dias.

A quarentena, tal como os sais diapiros, conforme exprime a Geologia, que rasgam as rochas e a terra para aparecer em cima, leva o remisso a fazer tudo o que puder para matar o tempo, no exemplo do quarteto dois, que recorre ao lúdico, como os jogos de gamão e firo, conservando-se no lar para o coronavírus não invadir.

Então, em ambiência tranquila, embora acossada, tendo o lugar de morada como fortaleza, remansa amortecido o tempo vagaroso, para, nessas férias, remuneradas – diga-se – pôr nas mãos da Santíssima Trindade esta lida remanchona que, tenho convicção, logo terá termo.

Veja o caríssimo leitor o emprego da rima encadeada nos quartetos, o que parece conceder um pouco mais de estesia aos versos decassilábicos portugueses.



  
OCIOSIDADE INDUZIDA

Não saboreio extensos retiros,
Em cujos giros vou pagando a pena,
Nesta geena de infaustos suspiros,
Sob autogiros, há uma quinzena.

Na quarentena, os sais dos diapiros
Furam os papiros, rochas à centena
Forçando a arena a gamões e firos
E o torpe vírus não adentra a cena.

Nesta tranquilidade induzida,
Em casa, valhacouto de guarida,
Amorteço o Chronos vagaroso.

Assim, em férias (com féria) da vida,
Entrego esta preguiçosa lida
Ao nosso Trio Todo-Poderoso!



COMENTÁRIOS

Vianney...

A homenagem me chega, tanto quanto nas histórias belamente escritas e ironicamente dramáticas, como um impetuoso e aflito Eco.

Ouço e, de imediato, tenciono responder, noutro grito, um novo poema! Dadas as circunstâncias... em nossas cavernas podemos rememorar o sol que arde lá fora, e desse pensamento, encontrar forças para esperar e escrever fazendo jus ao ócio criativo! Grata pelas palavras e pela provocação necessária.

Avante!

Alana Alencar
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Caro mestre Vianney, não tenho a sua estatura intelectual para usar as palavras que definam a minha admiração, respeito e gratidão por esse texto e poema dedicados a mim e a minhas queridas amigas confreiras com a sua assinatura. Cá do meu casulo, encantada com sua sensibilidade, envio minhas vibrações de paz e saúde (física e emocional).


Karla Karenina
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Meu suserano intelectual.
Neste sereno entardecer, quando a noite deglute o dia, brilha no meu coração esta prece-poema que clama as Mãos de Deus. Ave! 

Edmar Ribeiro


Um comentário:

  1. Caro mestre Vianney, não tenho a sua estatura intelectual para usar as palavras que definam a minha admiração, respeito e gratidão por esse texto e poema dedicados a mim e a minhas queridas amigas confreiras com a sua assinatura. Cá do meu casulo, encantada com sua sensibilidade, envio minhas vibrações de paz e saúde (física e emocional) 🙌🏽🙌🏽🙌🏽🙌🏽🙏🏼🙏🏼🙏🏼🙏🏼

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