A ERA DAS MANIFESTAÇÕES
Rui Martinho Rodrigues*


O sentido de luta, que pode ser quixotesco, tende a se fazer
presente nos eventos destinados a tornar público o apoio ou a repulsa a alguém ou a uma causa. Produzir impacto surge então como um propósito. Incomodar ou até
causar prejuízo é um pensamento que ronda a ideia de manifestações.

A era das manifestações, atualmente, difere em alguns aspectos, da
tradição destes atos. Não são necessariamente dirigidas por partidos, nem
financiadas com dinheiro público, nem realizadas em dias úteis, nem são
realizadas apenas por jovens imaturos.
A espontaneidade assim caracterizada reforça a representatividade
social e a legitimidade dos atos públicos de natureza política. Não é fácil
retirar pessoas das suas ocupações ou do seu repouso dominical para integrar manifestações.
Quando isso ocorre espontaneamente a credibilidade das lideranças e até das
instituições está abalada.
Resta saber se é legítimo que autoridades da República convoquem ou
sejam coniventes com manifestações contra os poderes constitucionalmente
instituídos. Caso manifestações assim caraterizadas possam abalar as ditas
instituições, o procedimento aludido poderia contribuir para uma crise institucional.
Manifestações pacíficas, todavia, quando circunscritas a simples
expressão de posições políticas, seria compatíveis com a ordem democrática. A
solidez ou fragilidade das instituições podem definir os desdobramentos dos
protestos. Fica a indagação: as nossas instituições são sólidas? Parece que
sim. Até por falta de condições para soluções heterodoxas.
O que restou da credibilidade de partidos, imprensa, entidades
civis, lideranças institucionais como governadores (no atual ambiente internacional) não fornece a perspectiva de saídas bonapartistas. A fragilidade de tudo isso,
somada ao clima de intrigas de aldeia em que a internet transformou o mundo,
porém, criaram incertezas quanto a tudo.
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