O INESPERADO E
A SURPRESA
Rui Martinho Rodrigues*

O rádio, juntamente com a grande crise de 1929, foi contemporâneo
de uma safra de líderes autoritários e totalitários. A era digital, com um
dilúvio de informações, desnudou a falibilidade humana de líderes, pensadores e
formadores de opinião. Partidos, entidades da sociedade civil e até instituições
jurídico-políticas sofreram grande desgaste.
Paul Bede Johnson (1928 – ?), na obra Os intelectuais, apresenta
dezenas de grandes pensadores, revelando graves falhas de caráter de todos
eles. O público não era informado disso antes da era digital. Intelectuais,
especialistas, doutores e formadores de opinião caíram do pedestal. Ficou
evidente que não são sábios, mas sabidos. O argumento de autoridade, que
apoiava as doutrinas de tais personagens, já não intimida alunos e o público em
geral. Ouvi de alguém: “não tenho que acatar o que esses degenerados dizem”.
Mundo afora, eleições consagraram candidatos sem apoio de grandes
partidos, sem a aura de intelectual ou de especialista em problemas econômicos
ou sociais, sem talento de orador e, em ao menos em um caso, sem dinheiro, além
de serem contra todos os formadores de opinião, sendo também inábil. Foi
surpresa.
Alfredo José da Silva (1929 – 2010), nome artístico Johnny Alf, cantou a surpresa dizendo: “Fica, ó brisa, fica pois talvez quem sabe,/ o inesperado faça uma surpresa,/ e traga alguém que queira te escutar” (Eu e a brisa). A opinião pública já não é a opinião publicada, como dizia W. Churchill (1874 – 1965). O povo ouviu o conselho do compositor, esperou o inesperado e veio a surpresa: alguém disposto a escutar e a falar a sua linguagem, com os seus sentimentos, valores, sem os sofismas dos grandes pensadores.
Alfredo José da Silva (1929 – 2010), nome artístico Johnny Alf, cantou a surpresa dizendo: “Fica, ó brisa, fica pois talvez quem sabe,/ o inesperado faça uma surpresa,/ e traga alguém que queira te escutar” (Eu e a brisa). A opinião pública já não é a opinião publicada, como dizia W. Churchill (1874 – 1965). O povo ouviu o conselho do compositor, esperou o inesperado e veio a surpresa: alguém disposto a escutar e a falar a sua linguagem, com os seus sentimentos, valores, sem os sofismas dos grandes pensadores.
Os delírios românticos influenciaram a política e a sociedade, conforme
Isaiah Berlin (1909 – 1997), na obra Ideias Políticas na Era Romântica. O
romantismo não é apenas o doce amor de Romeu por Julieta. É dado ao titanismo,
um voluntarismo exacerbado, que desconsidera os fatos e perde contato com a
realidade. Defende o Estado provedor sem se preocupar com o quanto isso custa, nem de onde sairá o dinheiro.

Os simples são mais permeáveis à razão, porque o conhecimento nos
permite entender melhor algumas coisas, mas, conforme Gaston Bachelard (1884 –
1962), também é obstáculo epistemológico. Alimenta convicções e imuniza contra
a realidade. Isso nos faz lembrar do excerto: “(...) Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas
coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos”, Mt, 11; 25.
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