A NOSSA FORTALEZA
Totonho Laprovítera*

Andava de
ônibus sozinho, comprava picolé fiado do velho doceiro Tapioca e atentava aos
gritos de “Vai doce americano!” do negão que anunciava as coloridas (verde,
rosa e branco) guloseimas.

Na bodega do
Milson, na Aldeota, perto da minha casa, nem conto as vezes que fui comprar
chiclete, bombom ou tomar refrigerante.
Lembro demais
do meu pai deixar o carro aberto, quer fosse estacionado na rua de casa ou
perto do seu consultório, na Barão do Rio Branco com Liberato Barroso, para não
esquentar muito.

Quando das
tertúlias, eu voltava a pé pra casa, serenamente, pelo meio da rua. Ia dançar
no Patinação e nas festas em quase todos os clubes suburbanos da cidade. Ia às
barracas da Praia do Futuro e aos cabarés da Rua Dragão do Mar e cercanias.
Cansava de encerrar as puxadas noitadas no bar Sereia, do Deó, onde se tomava
um excelente caldo de peixe.
Já na
faculdade, eu frequentava vários bares da Gentilândia e comprava fiado e na
palavra os livros do Seu Rodriguez, um livreiro espanhol merecedor de homenagem
dos antigos estudantes de arquitetura da UFC.
Nesse tempo, a
tranquilidade era tanta, chega, certa vez, depois de uma festa no início do
Obá-Obá, lá pelas bandas então longínquas da Unifor, quando eu ia embora, o
guardador de carro me gritou: “Ei, sua carteira tá em cima da capota do carro!”
Em gesto de agradecimento, fui gratificá-lo e ele me disse: “Precisa não, você
já me deu gorjeta”.

Pois é, sem ou
com saudosismo, eu tenho a certeza de que Fortaleza ainda vai voltar a ser
romântica, saudável e bem-aventurada. A sua inocência, perdida pelas patologias
das cidades grandes, se Deus quiser, vai ser suprida pela maturidade de quem já
viveu o bom e o ruim. Muitas coisas são demasiadamente doídas, eu sei,
mas, se inevitáveis, que nos sirvam de lição para amadurecermos a ideia de que
o valor da vida está na sua boa qualidade. Afinal de contas, a gente veio ao
mundo para ser feliz!
COMENTÁRIO:
Estreia com o
pé direito em nosso Blog o confrade Totonho Laprovitera, com essa bela crônica saudosista,
que revela o grande memorialista que ele será quando quiser enfrentar obra de
fôlego nesse gênero, a exemplo do nosso Membro Titular Emérito Augusto Borges,
e o nosso Honorário Veterano Narcélio Limaverde.
E ousa aplicar
o cearensês livre de aspas, como na expressão “menino véi”, e dos regionalismos
“bodega” e “turma”. Aliás, “turma” já era a forma elegante do termo “negada”, ainda
mais alencarino, ambos os usos substituídos hoje pelo carioquismo “galera”, relativo
às galerias do Estádio Maracanã, que a TV disseminou no Brasil inteiro.
E Totonho não
se peja de aplicar a preposição coloquial “chega”, que eu só vira antes nas
doçuras frasais de Lins do Rego, como no exemplo do Eurélio, em Banguê: “E a peia no lombo, chega cantava de longe”.
Conheci quase
todos os personagens e referenciais de época a que Totonho se reporta – e
principalmente os pregões que ele relembra – e que não voltam mais, como se
queixa em relação a Lisboa aquele fado português.
Reginaldo
Vasconcelos
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