DESTAQUES CEARENSES

DESTAQUES

CEARENSES

Edição

2020

Alexandre Sales

Troféu Empreendedores

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Igor Queiroz Barroso

Troféu Benemerência

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Cabeto Martins Rodrigues

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“PANDEMIA”

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SENTIMENTO

MAIS DEMANDADO

EM 2020

“RESILIÊNCIA”

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sábado, 1 de setembro de 2018

CRÔNICA - Varjota (RV)


VARJOTA
Reginaldo Vasconcelos*

Talvez fosse o tempo em que minha mãe dava aulas na escola de datilografia de minha avó, quando ficavam em nossa casa durante as tardes duas belas caboclas, uma delas encarregada dos serviços domésticos, a outra cuidadora de crianças – meus irmãos pequenos, que eu, aos sete anos, já era considerado independente.

A primeira, mais madura, passada dos vinte, uma matrona mameluca corpulenta, cinturada, pernas grossas, busto e quadris fartos. Esta medrara nas areias do Mucuripe, na colônia de pescadores, criada com os frutos do mar do Rostro Hermoso. Tinha longa cabeleira ondulada de cigana.

A outra, mais jovem, mais magra, oriunda dos cajueirais pré-sertanejos, ou dos pés-de-serra próximos, exuberavam no decote do vestido os peitos grandes.

Tomei-me de paixão pela mais velha, que enchia os meus sentidos de delícia – as formas rotundas de Botero, o cabelo bem untado com óleo do coco, a voz meiga, o perfume barato, que a mim rescendia à melhor fragrância francesa.

Como toda paixão infantil, aquela era feita de adoração platônica e de sonhos coloridos, em que o objeto venerado adquire essência etérea e hipnótica, inspirando uma atração sublime, alimentada de presença física e de  misteriosa saudade; um transe de lascívia ingênua que se funda em si mesma, sem requerer resgate, sem pressupor nenhum resultado.


Não lembro mais o nome dela, mas lembro o nome do bairro exposto na legenda do ônibus que a levava todo dia, da porta de casa – “Varjota” – das primeiras palavras que li, na euforia alfabética pueril.

Certo dia as duas iniciaram uma brincadeira corporal, que consistia em tentar levantar o vestido uma da outra, sendo que somente eu havia em casa, a quem pudesse interessar a exibição. Se o jogo consistia em cada uma buscar revelar as intimidades feminis da oponente, entre correrias, risos e gritinhos, eu era a somente plateia e portanto a meta única da lúdica impudicícia.

Por fim, a mais jovem e mais frágil perdeu a peleja porque a outra lhe puxou o decote e fez entrever uma das mamas, comemorando em seguida com ofegante gargalhada.

A perdedora sentou-se contrafeita, quase chorosa, mas em seguida, como para desvalorizar a vitória da outra ou demonstrar superação, baixou as alças do próprio vestido e me apresentou o busto inteiro, os dois pomos mais claros de fremente gelatina, enfeitados pelo chocolate dos mamilos.



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