VARJOTA
Reginaldo Vasconcelos*
Talvez fosse o tempo em que minha mãe dava aulas na escola de
datilografia de minha avó, quando ficavam em nossa casa durante as tardes
duas belas caboclas, uma delas encarregada dos serviços domésticos, a outra
cuidadora de crianças – meus irmãos pequenos, que eu, aos sete anos,
já era considerado independente.

A outra, mais jovem, mais magra, oriunda dos cajueirais pré-sertanejos,
ou dos pés-de-serra próximos, exuberavam no decote do vestido os peitos
grandes.

Como toda paixão infantil, aquela era feita de adoração platônica e de sonhos coloridos, em que o objeto venerado adquire essência etérea e hipnótica, inspirando uma atração sublime, alimentada de presença física e de misteriosa saudade; um transe de lascívia ingênua que se funda em si mesma, sem requerer resgate, sem pressupor nenhum resultado.
Não lembro mais o nome dela, mas lembro o
nome do bairro exposto na legenda do ônibus que a levava todo dia, da porta de
casa – “Varjota” – das primeiras palavras que li, na euforia alfabética
pueril.
Certo dia as duas iniciaram uma brincadeira corporal, que consistia em
tentar levantar o vestido uma da outra, sendo que somente eu havia em casa, a
quem pudesse interessar a exibição. Se o jogo consistia em cada uma buscar
revelar as intimidades feminis da oponente, entre correrias, risos e gritinhos,
eu era a somente plateia e portanto a meta única da lúdica impudicícia.
Por fim, a mais jovem e mais frágil perdeu a peleja porque a outra lhe
puxou o decote e fez entrever uma das mamas, comemorando em seguida com
ofegante gargalhada.
A perdedora sentou-se contrafeita, quase chorosa, mas em seguida, como
para desvalorizar a vitória da outra ou demonstrar superação, baixou as alças
do próprio vestido e me apresentou o busto inteiro, os dois pomos mais claros
de fremente gelatina, enfeitados pelo chocolate dos mamilos.
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