DESTAQUES CEARENSES

DESTAQUES

CEARENSES

Edição

2020

Alexandre Sales

Troféu Empreendedores

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Igor Queiroz Barroso

Troféu Benemerência

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Cabeto Martins Rodrigues

Troféu Prasino Angelos

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PALAVRA DO ANO

EM 2020

“PANDEMIA”

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SENTIMENTO

MAIS DEMANDADO

EM 2020

“RESILIÊNCIA”

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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

CRÔNICA – Um Galão Diferente (V.M.)


UM GALÃO DIFERENTE
Vianney Mesquita*


É próprio das grandes almas desprezar grandezas e almejar mais o médio do que o muito. (FRANCISCO Gómez de QUEVEDO y Saltibañez Villegas. Escritor áureo espanhol. Madrid, 14.9.1580 – Villanueva de los Infantes, 8.9.1645).


É deplorável ser comum no Brasil, em todos os seus rincões e em razão de haver uma cultura arraigada desde os primeiros instantes da Colonização Portuguesa – decênios iniciais do Seiscentos – o fato de pretender o cidadão representar, sob todos os aspectos, algo mais do que seu perfil regular permite, ideia configuradora, com variância de graus, da denominada soberba patrimonialista.

Esta circunstância é examinada, a miúdo, por diversos especialistas da história  patrial no decurso de sua fase de implantação, porém com rebatimentos constantes e modificados, como Octávio Ianni, Caio Prado Junior, Rui Martinho Rodrigues, Sérgio Buarque de Holanda e Florestan Fernandes, bem assim de outros autores que examinam o fenômeno, incluindo tempos recentes e a quadra fluente, em investigações stricto sensu na contextura das academias e institutos de pesquisa.


O fecho desta croniqueta, porém, fruto do excepcional engenho inventivo brasileiro, mormente de cariz nordestino, traz um raro exemplo de manifestação contrária à empáfia das pessoas, parece que, de caso pensado, ideado por um sertanejo cujo nome desconheço, no entanto tudo faz indicar ser ele um experto do canto de desafio, moto principal das cantorias próprias desta região do País e, nas mais das vezes, de tão agradável teor.

Está bem surtido o acervo de piadas com militares, especificamente com praças, do soldado sem fita ao cabo (ambos praças prontos), do anspeçada (antigo praça pronto) ao segundo tenente, todas de invenção desconhecida e da qual (para mim um fenômeno) não se reclama autoria em quaisquer condições.

Conta-se que, ao se apresentar à caserna na idade propícia a “servir à Pátria”, um postulante a recruta, após satisfazer a várias indagações de um sargento que cuidava do assunto, teve a si dirigidas esta perquisição e as subsequentes.

Quantos irmãos você tem?

Doze.

Tudo vivo?

Não. Vivo só eu. O resto tudo é otário!

Narra-se, também, de um recruta que tencionava passar a pronto, o qual se esmerava em decorar as continências de todas as graduações dos diversos estratos oficiais armados brasileiros – Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Militar, Bombeiro Militar etc., a fim de se dar bem quando da avaliação final para chegar a soldado pronto. Então, já sabia, DECORADO E DE SALTO*, as fitas, galões, estrelas, estrelas sobre fundo circulado e outros indicativos de todas as instituições armadas nacionais.

Eis que, numa manobra castrense pelas ruas da localidade onde servia (cidade grande!), apareceu ao longe, para cruzar com o contingente de seu quartel, um grupo grande de escoteiros com toda a hierarquia do grupamento – lobos, rambos, seniors e pioneiros – com o multicolorido fardamento e indicativos jerárquicos.

À medida que o conjunto se aproximava da sua bateria, tendo ao lado seu oficial comandante, ele se apavorava, pois jamais havia visto essa espécie de arma brasileira, tampouco aprendido a vênia que deveria fazer ao “oficial” que vinha à frente.

Ao chegar junto do pioneiro escotista comandante, ajoelhou-se, com as mãos postas e disse solenemente:

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Para findar estas notas, diversamente do que se diz – “o general gostaria de ser a metade do que o cabo pensa que é” – vem a contraposição à ideia de empáfia, expressa numa cantoria.

Numa vila interiorana do Ceará, o cantador iniciava a peleja junto a outro violeiro, com seus instrumentos afinadíssimos. Antes da introdução, da querela versificada propriamente dita, passou na frente dos disputantes o Segundo Sargento, então delegado do lugar (anos 1950), quando o poeta cantou:

Vou botar mais um galão no ombro desse tenente!

Fingindo-se aborrecido, o Sargento expressou:

Não gosto de chaleiragem! Não sou tenente. Sou é sargento! Detesto puxa-saco!

Imediatamente, o cantador obtemperou:

– [...], mas o galão que eu digo é um galão diferente/É um pau com duas latas/Uma atrás e outra na frente!



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