SONETO-OXIMORO
Vianney Mesquita*
Sendo mentirosos
profissionais, devem os poetas ter excelente memória (Jonathan Swift - YDublin,
30.11.1667 †19.10.1745).

Tal sucesso, apontado ao abrir estas notas, decorreu
de leitura do magistral texto, cujo autor é o Dr. Humberto Ellery, publicado
aqui no dia 11.10.2015, sob o título Golpe
Democrático, em que se reporta, em estilo e correção irreprocháveis, à
deplorada imagem do oximoro, perpetrado pela Excelentíssima Senhora Presidente
da República, convenientemente comentado pelo Autor, não me concertando fazer
adendos nem reparos.
Com efeito, passei o dia de hoje todo (11.10.2015)
procurando o manuscrito de um decassilábico português de minha lavra, pois,
naquele tempo, ainda tinha bom curso a craveira do soneto entre os poetas, e
havia um grupo de alunos que, sob a orientação do Dr. Hélio Melo, primava pela
composição artística nesse gradil. O texto que procurei, como quem demanda um
excelente deputado, não foi encontrado e o jeito que tive foi preencher os
claros da memória para complementar as pouquíssimas passagens das quais não
guardei decorado e de salto o conteúdo completo. Esse expediente métrico foi
produzido a instâncias do dito decassílabo camoniano, acerca do qual se
reportou o Articulista (“Amor é fogo que arde sem se ver”...), exatamente na
exploração do símile oximoro.
Não me contive e reproduzo a composição de dez ictos,
disparatada de estudo, exatamente para configurar o oximoro.
SONETO-OXIMORO
Na expungida visão de quem jaz vivo,/Cego visório o
meu exício ensaio,
Sombrio e alegre, derrotado e gaio,/Prossigo morto e
retrocedo ativo.
A igual tempo me alevanto e caio,/Em inextrincável
vividez de extinto,
Então, me apresto da verdade e minto,/Olhando, bem de
frente, de soslaio.
Cadáver esperto, cego feito lince,/Conquanto ao mesmo
instante assente e pince,/É minha insânia lúcida que exorta:
Deixa-me, então, que eu rime em verso branco,/Em
semelhante destro e esquerdo flanco,/ Doutas bobagens que o papel suporta.
(Que tal enviar para a Presidente decorar?)
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