OLINDA
Paulo Maria de Aragão*



Quanto à data da fundação da Misericórdia de Olinda,
divergem muitos autores: uns atribuem ao ano de 1540, outros 1547. Sabe-se,
todavia, que seu nome veio duma instituição em Lisboa, fundada em 1448, tendo
por fim amparar enfermos, dar educação a órfãos e proporcionar obras de
misericórdia e caridade.
Do alto de Olinda divisa-se a primeira Faculdade de
Direito da América Latina, fundada em 1827 e extinta cem anos depois. Ela se
instalou, inicialmente, no Mosteiro de São Bento, construído em 1599, cujo altar
é todo banhado a ouro. A cultura jurídica nacional iniciou-se nessa província,
marcada por sua índole revolucionária e como oponente à monarquia.
Em princípio, o seu funcionamento foi precário pela
ausência de professores qualificados, da “influência da Igreja” e de problemas
estruturais. Muitos discentes e docentes residiam em Recife, tornando custosa a
assiduidade de ambos; outros ocupavam cargos políticos e achavam-se vedados a
exercer o ofício da docência. Pouco restou da produção intelectual desse período.
Mas, com a transferência do Curso de Direito para o Recife, em 1854, adveio a
era inovadora de conhecimentos intelectuais, dando elã a todo o corpo da
faculdade ao julgar-se detentora da vanguarda científica do país.
Nossos pequenos cicerones nos levaram à Igreja Nossa
Senhora do Monte, de 1535, com seus 432 anos. Seu vigário de antanho, Pe.
Crisóstomo, estudou teologia em nosso país. Um senhor alemão, que contava 66
anos de idade, baixo, e aparentava à primeira vista brasileiro. Mostrou-nos orgulhosamente
a antiga matriz, uma das mais antigas igrejas do Brasil colonial.
Retomando a
palavra, Pe. Crisóstomo, natural da Baviera, sul da Alemanha, salientou que a
imagem da Santa fora escondida no fundo de uma cacimba quando os invasores
holandeses incendiaram Olinda. O vigário censurou o problema educacional da
cidade outeiro. Conduziu-nos à sua Escola, edificada em apenas dois meses, na
qual o abnegado sacerdote foi um de seus operários, ora abrigando 330 alunos
primários. A noite se aproximava. Deixávamos a “Heroica Cidade”. O pequeno
Bida, ao percorrer no cotidiano seus caminhos e atalhos, ainda desfiava em
detalhes estórias e lendas: “ali está o Convento das Carmelitas e dizem que,
todos os dias, cavam um pouco das próprias sepulturas”.
Para ser fiel à verdade dos fatos, esta lenda narrada pelo menino Bida foi
equivocada, por partilhar, com certeza, dos ensinamentos da escola carismática
e de amor dos monges que pautam a vida contemplativa; ao imaginarem o céu,
buscam-no construindo o interior mediante o uso da argila espiritual. Cônscios
de que todos têm um fim, assim se cumprimentam: “Bom dia, irmão,
lembre-se de que irá morrer”. Até os dias de hoje, nos próprios dos mosteiros e
conventos, entre obrigações e penitências monásticas, cavam as futuras
sepulturas. Isso não é lenda. Representa o transitório. A sabedoria eterna
prega que não se escolhe o tempo de viver ou para morrer. A propósito,
ironicamente, mantém-se atualizada em todos os tempos a sentença: “A certeza da
vida é a morte e a hora é incerta, mas a morte é certa”.
Pelo
excesso de estímulos noticiosos incessantes, que afloram em ritmo veloz e
avassalador, as reminiscências das gestões de memória e esquecimento
enleiam-se. As décadas passaram, mas este despretensioso escrito materializou
as imagens dos perfis dos protagonistas, do menino Bida, da Irmã Maria Fidelis e do Pe. Crisóstomo. O primeiro, talvez, como
natural, tenha seguido o destino da invisibilidade: os dois religiosos, pela
idade, não mais ocupem esta dimensão. Mas, no relicário da memória guardo, com
nitidez, suas narrativas da “Cidade Heroica” de Olinda, escritas com ufanismo
por um então adolescente.
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